Nostalgia
3 Capítulo III
Notas iniciais
Depois de alguns minutos perdido em seus próprios pensamentos, Gustavo se deu conta de que estava sendo chamado.
— Gustavo queira entrar, o coordenador o espera – Ele se levantou rapidamente, pode perceber, pela cara de Rafael, que a conversa que ele teve não terminou muito bem.
Entrou na sala do coordenador, uma sala nada charmosa, bem comum. Lembrava uma dessas salas de escritórios de advogados: organizadas e desconfortáveis.
— Sente-se Gustavo. Conte-me o que um aluno como você resolveu aprontar? — O coordenador se chamava Rogério.
Um homem de idade, tinha para os seus 45 anos, bem gordo por sinal, mais ainda sim, tinha um ar descontraído. Era baixinho, mas não muito, tinha 1,60 metros.
— Nada de mais, só estava ouvindo música na aula do professor Francisco. Eu sei que fiz mal, mas o ano já esta para acabar, tem algum problema querer só relaxar? Ainda mais eu, que já passei de ano, desde o bimestre passado.
— Sei que só quer relaxar, mas aqui nós temos regras — Logo após dizer isso, ele encheu seu copo com um pouco de água e o levou a boca. Guga sabia que deveria se preparar para o pior — Infelizmente, terei que puni-lo. Claro que não entrará no seu histórico, mas em troca desta minha... bondade, você não poderá participar da festa de formatura do nono ano e ainda terá que ajudar nos preparativos para a festa — Gustavo sabia que o castigo tinha até sido relativamente bem, normalmente a punição seria suspensão, o que tornaria seu história um pouco menos valorizado.
— Sim senhor — Dissera este sim de forma despreocupada e já se retirando da sala do coordenador.
Gustavo jamais fora de ir a festas, por isso a notícia não o abalara, mas ficou pensativo sobre como Mariana iria reagir, além do mais, ela estava muito empolgada para ir junto de Guga e Rafael na festa.
Estava indo em direção ao dormitório para arrumar seu material, já imaginando que na semana seguinte nada seria utilizado, quando esbarrou com Rafael pelo corredor:
— Eai Vei? Parece que não recebeu uma notícia boa lá dentro... o que o Bola disse? — Rafael tinha um fascínio de dar apelidos nada gentis às pessoas.
— Já te disse que odeio esse “pronome de tratamento”? Um dia vou acabar me cansando — Guga disse de uma forma fria — Mas ignorando isso, levei uma punição até que leve — Por alguns instantes ele pensou se realmente era leve — Não posso dar as caras no baile de formatura além de ter que ajudar a prepará-lo.
— Aff, relaxa, eu paro então – Disse Rafael com um tom de voz irônico — Mas, Mari irá ficar muito triste quando souber, afinal, ela já estava contando os dias para aproveitar o baile com vo... — Ele engoliu em seco, repensou no que iria falar e continuou — Quer dizer, com a gente — Rafael deu uma risada forçada.
— Você é muito idiota mesmo — Gustavo não entendera muito bem a brincadeira de Rafael, mas de alguma forma, bem no fundo, gostaria de ir ao baile com aqueles dois — Quando nos tornamos amigos mesmo? Quero saber a data deste fatídico dia — Disse com um tom de voz serio.
— Gustavo, na boa, não enche — Cada um seguiu o seu caminho.
(...)
Dois dias se passaram desde quando Guga recebeu a notícia de que não poderia ir ao baile. Mari ficou muito triste, mas disse que só de passar um tempo com ele já se sentiria feliz. Ela o fez prometer que deixaria que ajudasse na arrumação do salão no domingo seguinte.
— Gustavo, você vai ter que me deixar ajudar.
— Você vai perder o seu domingo só para ficar um pouco mais perto de mim? Faça o que quiser, mas eu não concordo.
— É claro que não vai ser só eu, poxa. O Rafael vai estar lá também.
— E desde quando você gosta do Rafael para estar convidando ele desse jeito?
— Não gosto, mas ele é seu amigo e eu sei que vocês se entendem. Não faço a mínima ideia de como, mas vocês se entendem — Ela disse de uma forma que deixara Gustavo um tanto que nervoso.
— Quer saber, faça o que quiser, de qualquer forma estou preso a essa tarefa
Por ser domingo, estavam livres da permanência no colégio. Foram caminhar um pouco, ir até o parque principal da cidade e relaxar. O parque era bem grande, cheio de árvores, com um círculo ornamentado no centro. Na zona leste encontravam-se brinquedos infantis, na zona norte, postos de informação e algumas vendas, na zona oeste uma fonte e um lago pequeno e na zona sul se encontravam duas quadras, uma de basquete e outra de futebol.
Eles estavam sentados em um dos bancos em torno do círculo central do parque. O som dos pássaros de alguma forma acalmava Guga. A hora passou rapidamente, antes que pudessem notar, já era hora de voltar para o colégio e se preparar para o dia seguinte.
Gustavo gostou de ter passado um tempo com Mari, mais do que ele poderia admitir, mas não estava com cabeça para pensar a respeito disso. Domingos sempre foram tediosos para ele.
— Vamos embora, já está ficando tarde.
— Sim, sim. Está até ficando um pouco frio... — Ela disse como se fosse uma indireta.
— Não percebi.
— Claro, você está usando essa blusa de frio que parece bem quente, até eu não sentiria.
— Que sorte a minha, não? — Ele sabia o que ela tentou fazer e por mais que não quisesse admitir, parte dele não sabia se estava pronto para algo assim. Além do mais, ele não sabia se gostava dela dessa forma.
— É... vamos embora então — Durante o caminho para o colégio, Mariana pareceu bem triste, mas disfarçou o melhor que pode.
Logo chegaram ao colégio e no corredor se dividia, cada um iria para seu respectivo dormitório, em áreas opostas no colégio, precaução tomada para evitar fugas noturnas. De toda a forma, havia os monitores noturnos para se certificar de que nenhum aluno tentaria algo fora do padrão.
Os corredores principais estavam bem iluminados, de certa forma o colégio até que ficava bonito à noite, sua arquitetura que remetia a algo parecido com o estilo barroco era bem valorizada. Os dois jovens sabiam que já estava na hora de se separar, mas ainda assim permaneceram encarando-se por alguns instantes.
— Olha, Mari... — Guga tentou se justificar, mesmo que não entendesse exatamente o porque de estar fazendo isso.
— Não, Guga. Não. — Mari deu um sorriso de lado, um sorriso que Gustavo jamais vira em outra mulher — Está tudo bem.
Ambos ficaram se encarando, sem graça, até que Mari passou carinhosamente uma das mãos na bochecha de Gustavo e logo em seguida deu um beijo de despedida. Seus olhos brilhavam, mas não eram brilhos naturais.
Gustavo caminhou em passos pesados para seu dormitório. Ele sabia que fizera algo de errado, mas sendo quem era, Mari não deveria esperar outra coisa. Passou encarando o relógio antes de se dirigir ao andar dos dormitórios de sua série: 22h30min. Estava localizado no quarto andar, sendo que cada andar contava com uma quantidade limitada de quartos para duas pessoas, a partir do sexto ano. O bloco do ensino médio se localizava a frente do seu. Enquanto seguia o corredor para virar à esquerda, percebeu a imagem de um menino debruçado sobre o apoio de um muro.
Não pode enxergar quem era, mas sabia que não deveria ser de sua série. Ficou refletindo a respeito do motivo de alguém de uma série menor — devido ao tamanho — estar ali, mesmo que todos já tivessem sido liberados para ir para casa, caso desejassem. Tentou ver algo que pudesse fazer com que o identificasse, mas sem sucesso. Quando começou a seguir seu rumo novamente, o menino olhou levemente para o lado e Gustavo pode perceber detalhes de seu rosto. Naquele instante Gustavo sentiu como se seu coração parasse, por algum motivo, aquele rosto mexera com ele, não conseguia parar de encarar e sentia a necessidade de ver mais de perto, como se pudesse reconhecê-lo. Assim que deixara seu devaneio, percebeu que o menino já havia desaparecido.
Quando chegou ao seu quarto, viu que Rafael já estava dormindo, tomou o máximo de cuidado para não acordá-lo. Não conseguia dormir pensando no que teria acontecido, só ficava encarando o teto como se pudesse ler algum tipo de resposta.
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