Nosso Nome Na Lista.

7 Capítulo 7 - Em Pé de Guerra.


Notas iniciais
Oláa! Desculpem a minha demora para postar, mas fiquei sem tempo para escrever, porque mamãe fez um bando de planos e eu tive que cuidar um pouco da minha - quase inexistente - vida social. Essa semana, também, eu ando ocupada resolvendo questões da escola e me matriculando em universidades... Então a vida está corrida gente! u.u Agradeço aos reviews de: > Laladhu!! > Senhorita Foxface! > Tincampy! > Pri Faustino! > Thinker! > Allinegmar!! (obrigada por sempre ficar me cobrando capítulos ^.~) >The Strange Girl!! Bisou

Capítulo Sete – Em pé de guerra.

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– Você está me atrapalhando – reclamei à minha mãe, que estava há meia hora revirando toda a cozinha em busca de algo que não me disse. – Dá para fazer, sei lá o quê, em outro lugar?

Eu estava, há duas horas, tentando estudar, mas fazia uma hora que não conseguia mais me concentrar, porque mamãe estava revirando a cozinha em busca de alguma coisa que ela nem me perguntara sobre. Na verdade, ela fingiu que eu nem estava ali.

Ela parou de remexer nos balcões da enorme cozinha e se levantou para me encarar.

– Hm, Bruce, essa casa é minha. Posso fazer o que eu quiser aqui – ela respondeu com um falso ar autoritário. – Você por acaso não viu o kit de primeiros socorros em algum lugar?

Eu arregalei os olhos.

– O que foi? A senhora se machucou? – perguntei pulando do banco da cozinha, onde eu estudava. A cozinha, geralmente, era um lugar bem calmo porque parecia que ninguém dessa casa comia direito. E era irônico que eu houvesse reparado nisso.

Ela fez uma expressão sofredora.

– Não... É só mente minha rotineira dor de cabeça... É uma enxaqueca horrível. Preciso de uns comprimidos e descansar antes do jantar de hoje à noite – ela respondeu dramaticamente. Parecia uma daquelas damas da sociedade de histórias antigas! Tão dramática... – Mas não me lembro de onde deixei os remédios...

Eu respirei fundo. Meu padrasto ficava muito preocupado com essas dores de cabeça da minha mãe. Antes de se casarem, ele nem fazia ideia delas. Para mim, que moro com ela desde sempre, elas eram bastante frequentes e apenas um modo de fazer charminho.

Quando meu pai pediu para ela ir ao médico, ela disse com suspiro sofrido:

– Essas dores de cabeça me acompanham desde que Brucena nasceu. Coincidência?

Respirei fundo e voltei a fitar o meu caderno.

– Provavelmente deve estar no espelho do banheiro da sala de estar – eu respondi. – Uma vez, Walter passou mal e pediu para que eu levasse para ele.

Ela ergueu a cabeça.

– Obrigada – agradeceu secamente, fechando as portas do balcão e se dirigindo para o arco da cozinha.

E esse era o máximo que eu teria dela.

Ela sequer demonstrou interesse pelo meu dever de casa, ou perguntou como eu estava indo na escola, ou fez qualquer comentário sobre... Sei lá, minhas amigas (a quem ela odiava e não fazia questão de esconder isso). Eu gostaria de dizer que essa frieza e indiferença não me importavam... Mas me importavam, e muito mais do que eu queria.

Eu era a filha dela, não era?

Como ela podia me tratar como se eu fosse... Uma das empregadas estranhas dessa casa? Como se eu fosse parte da mobília? Será que tudo isso era porque eu não era como Ellen? Magra, bonita, simpática e sempre alegre?

Fechei meu material e ergui o olhar. Encontrando o meu reflexo no metal polido da geladeira. Odiava olhar para mim mesma e fazia isso o menos possível, senão, acreditava que ia acabar surtando e fazendo a mesma loucura que me fez ser internada.

Meus cabelos loiros escuros me davam raiva. Não importava quantas vezes Paloma ou Olivia dissessem que eles eram lisos e bonitos como seda, eu não via isso. Eles eram opacos, e cortados de uma maneira sem graça. Não havia nada de atraente neles. Tal como a minha pele. A pele de Ellen era tão macia e corada, como um pêssego pronto para ser comido... A minha não.

“Garotas bonitas”, eu sinceramente perdi a conta de quantas vezes Quentin havia dito isso para mim, mesmo que depois ele houvesse dito para as minhas amigas. Eu não via essa beleza que ele alegava ver em mim. Na verdade, eu ainda não tinha certeza se ele falava somente por ser uma cortesia ou porque realmente o achava.

– Então... Quentin te chamou para a festa de Gilbert, é?

Dei um pulo no banquinho do balcão da cozinha perguntando-me quando foi que Ellen havia entrado no cômodo. Se bem que, às vezes minha irmã de criação tinha esse lance de ser meia-gata: andava sempre com passos silenciosos.

– Convidou as minhas amigas – eu respondi, tentando soar imparcial.

Ele soltou um “hum” arrastado. Cheio de malícia e segundas intensões que me fez ficar corada sem motivo. Não era como se Quentin me tratasse de modo diferente com que ele tratava outras pessoas. Quer dizer, eu acho que não. Sendo sincera, eu nunca prestei atenção em como ele era com os outros, exceto com Paloma e Olivia.

Eu dei um pigarro e mudei de foco.

– E você? Vai para a festa também?

– Sim. Greg vai passar aqui para me pegar – ela respondeu dando de ombros. E então suspirou. – Sinceramente, Letty... Acho que estou pensando em terminar com ele.

Se eu estivesse bebendo ou comendo alguma coisa, juro que teria me engasgado.

Há um ano Ellen namorava o tal de Greg firmemente. Ele sempre parecia ser o seu chão e o seu céu. Sempre que ela falava nele – e eu tive que aturar isso durante seis meses – ela se derretia por completo. E ele era um cara legal, apesar de não fazer o meu tipo. Gosto de pessoas que não se deixam ser controladas, e ele é assim. Tão manipulável quanto um bonequinho.

– Nossa... – eu suspirei. – Nunca pensei que isso aconteceria, sabe? Você estava... Tão amarrada nele durante esse namoro...

– Eu sei... – ela respondeu com um suspiro. – Mas a verdade é que... Sei lá. As coisas mudaram entre nós, sabe? Não é mais como era antes... Acho que desgastamos como um casal de velhinhos.

Ela riu suavemente e eu também, apesar de não achar tão engraçado.

– E também... Acho que estou gostando de outra pessoa – ela respondeu com os olhos brilhantes. – Mas confesso que estou com vergonha de me declarar para ele. O que você acha? Devo arriscar e virar uma idiota? Ou devo deixar que ele tome o primeiro passo?

Sério mesmo que minha irmã de criação mais nova estava me pedindo conselhos? E logo Ellen? A garota que todo cara lamberia o chão onde ela pisa? Não que eu nunca houvesse dado conselhos para ela, mas geralmente (conselhos românticos) era ela quem me dava.

– Bem... Você me conhece, eu sempre deixo o cara dar o primeiro passo. Mas se o cara nem te nota, é bom que você se faça notar, não? – eu respondi com um meio sorriso óbvio.

Ela ergueu o olhar para o teto e refletiu. Depois, seu rosto tomou uma expressão meio chorosa e meio sofrida de nervosismo. Ela espalmou suas mãos na bancada da cozinha, à minha frente.

– E se ele gostar de outra pessoa?! – ela perguntou.

Eu dei de ombros.

– Ele tá namorando? – perguntei.

– Não. Não pelo que eu saiba.

– Então ele não está gostando de ninguém – eu respondi dando uma piscadela.

Ellen riu e eu comecei a juntar o meu material. Já era mais do que óbvio que eu não conseguiria mais estudar naquela tarde. Acho que ia me esconder no meu quarto e lutar para me tornar apresentável.

– Você tem uma maneira peculiar de pensar, Letty...

– Oh, Ellen. Love is war! Se o cara gosta de alguém, não faça como as outras garotas e deixe suas esperanças morrerem. Amor é convivência, certo? Quanto mais tempo ele passar com você e perceber que não sabe nem o nome da garota de quem ele gosta, melhor.

Ellen me encarou muito surpresa. Como se ela não pensasse que eu era capaz de te dar esse tipo de conselho. Mas o que eu posso dizer? Aprendi muitas coisas, e nenhuma delas eram boas, com a minha mãe. Quem me ensinou isso foi a Sra. Victoria Freeday.

– Vou para o meu quarto – eu avisei.

– Você já vai se arrumar? – ela me perguntou.

Eu concordei com a cabeça e ela agarrou o meu braço.

– Vamos nos arrumar juntas! – ela pediu. – Já que tivemos essa conversa tão... “Irmãs adolescentes e que se dão bem”, vamos nos arrumar como amigas!

Eu ponderei com a cabeça. Não queria pagar de garota chata ao recusar aquilo à Ellen, mas eu realmente não gostava de me arrumar com as outras pessoas. Porque elas sempre conseguiam ficar mais bonitas do que eu mesma e isso me complexava completamente.

Nas vezes em que Paloma ou Olivia eram convidadas para uma festa (o que acontecia com uma frequência bem diferente da minha), elas iam se arrumar na casa de Olivia. Passavam a tarte todas juntas, escolhendo roupas, comendo besteiras calóricas como bolo de chocolate, salgadinhos... E se arrumando.

Eu jamais conseguiria participar disso. Elas não me convidavam por respeito.

– Eu não sei Ellen... Eu ainda vou estudar um pouco no meu quarto... – eu me desculpei.

– Oh, ok então... – ela respondeu com um dar de ombros. – Então vou para o meu!

Concordei com a cabeça e a segui até o segundo andar, onde ela sumiu atrás de uma porta no fim do corredor e eu fui para o meu quarto. Não deixei de me lembrar, num curto momento, que achava engraçada a reação das pessoas que entravam nele (leia-se: Paloma e Olivia). Afinal, depois de ver toda a decoração estilo capa-de-revista da casa, entrar na simplicidade do meu quarto era um choque.

As paredes eram de um bege pálido, uma delas era decorada com um quadro de natureza-morta que eu fizera na quarta série, durante o fundamental, que ficava pendurado na cabeceira da minha cama de solteiro, cuja madeira estava rabiscada com letras das minhas músicas preferidas. Eu havia feito numa tarde de tédio extremo. Quando papai e mamãe estavam brigando na sala de estar e eu não queria passar por eles e entrar no meio da briga.

Eu estava ouvindo música alta, então resolvi escrever aquilo que eu ouvia para distrair minha atenção dos xingamentos dos dois. Sinceramente, meu vocabulário enriqueceu bastante naquela tarde. Mais do que deveria.

E mamãe ainda quisera arrancar a minha cabeça fora quando viu o que eu havia feito com a armação da minha cama...

Sem que eu desse permissão, Riot pulou para dentro do meu quarto.

Eu sei que não deveria mimá-lo tanto, mas ele me olhou com aquele olhar que Quentin conseguira representar perfeitamente, e não pude resistir. Na minha cabeça passou a cena de um filme triste, em que Riot estava abandonado no hall de entrada, na sua caminha naquele canto esquecido abaixo da escada.

– Que mamãe não te pegue aqui! – murmurei entre nós, rindo.

Tomei um banho, sequei meus cabelos loiros escuros com o secador e lutei para escolher uma roupa... Queria algo que dissesse: “alô, sei que isso não é um encontro... Mas eu estou arrasando mesmo assim!”, e não algo que dissesse: “sei que não é um encontro, mas queria que fosse”.

Cara... Minhas amigas estariam lá. Nem morta aquilo seria um encontro. E ainda mais era uma festa... Ele me chamara porque eu era amiga dele e, sei lá, conversamos sobre coisas interessantes... Certo?

Enfim, fechei os olhos, fiz uni-duni-tê... E acabei escolhendo uma blusa estampada que era quase transparente, calça jeans preta e justa e sandálias de salto baixo. Quase não me maquiei para não arriscar parecer uma palhaça (eu não tenho espelho no meu quarto, pois quebrei o último num acesso de raiva) e então eu estava pronta.

Mesmo assim, me senti insegura. E tive que trocar os sapatos umas trinta vezes.

E então... Era isso.

Sentei-me na minha escrivaninha nova e simples, apesar de quase abarrotada de livros, e tentei revisar alguma coisa, todavia, química era uma coisa confusa para a minha cabeça. E no quê Isomeria mudaria a minha vida? Mal podia esperar para as aulas de Paloma.

Alguém bateu na minha porta, com urgência e nem esperou uma resposta.

Ellen invadiu o meu quarto, afobada.

– Problema! Problemão! – ela disse agitada.

– O que foi Ellen? – perguntei fechando os cadernos.

– Quentin chegou aí! E ele se encontrou com a sua mãe no hall de entrada! – Ellen exclamou. – Ai, Letty, se você dá algum valor para sua “amizade” com ele, é melhor inventar uma manobra rápida antes que Victoria o sugue como uma vampira e o assuste para sempre!

Eu bufei me levantando da cadeira.

– Na verdade... Não, eu não tenho que inventar nada. – A empurrei para o corredor e chamei Riot. – Ela me odeia. Eu a odeio... Então não tenho a obrigação de ser legal com ela.

Ellen ponderou com a cabeça, com uma pontada de inveja.

– Ah, é verdade... Às vezes tudo é tão fácil para você! – ela bufou cruzando os braços.

Eu dei uma risada amarga que não sei de onde saiu, geralmente eu não consigo fazer esse som. Mas a verdade era que eu queria dizer que: “não, as coisas não eram fáceis para mim!”. E creio que para muita gente, elas também não eram.

Descemos as escadas juntas e, de fato, encontrei Quentin conversando com a minha mãe. Ela parecia encantada com ele. E uma parte de mim perguntou-se porque ela não estaria. Ele era, como eu pensara certa vez, o filho que ela nunca teve: bonito, simpático e carismático. E estava mais bonito ainda com aquele casaco de couro, uma regata cinza e calça jeans escura.

– Quentin! Você não tá meio cedo? – perguntei o puxando para longe da minha mãe. – Pensei que você fosse pegar Olivia e Paloma antes de mim... Elas estão no carro? Não vamos deixá-las esperando, não é? Vamos logo.

Eu tentei empurrá-lo até a porta, mas duas coisas nos impediram: minha mãe, que se postou à frente da saída, e Riot, que começou a pular em cima dele. Caramba, o cachorro o vira uma vez na vida e já estava maluco ao vê-lo de novo?

– Vá com calma, Bruce. Não vai me apresentar ao seu amigo? – Dona Victoria perguntou muito ofendida. – Essa foi a educação que eu te dei?

Eu bufei. Ah, ela não queria que eu usasse a educação que ela me deu...

Acho que Quentin percebeu o meu olhar de quem queria matar a minha mãe. Recuando, ele pegou Riot no colo, para ver se ele parava de latir e se acomodava um pouco.

– Então... Quentin você é amigo da... Bruce? – ela perguntou como se achasse inacreditável.

– Bruce? – ele perguntou perdido.

– É como ela chama a Letty – Ellen respondeu se postando ao lado da minha mãe. – Olá Quentin. Tudo bem?

Ele deu de ombros. Será que ele estava me achando muito estranha? Tenho quase certeza de que estava. Ah, mas ele não conhecia a minha mãe e nem das coisas que ela poderia forçar a fazê-lo enquanto me “esperava”. Como mostrar os recortes de quando era Miss-alguma-coisa dessa cidade e lamentar em alto e bom-som o dia em que eu falhei como sua filha.

– Bem, sim, eu sou amigo da Letty – ele respondeu com ares de hesitação. – Quase me atrevo a dizer que ela é uma das minhas melhores amigas.

– Melhores amigos, é? – minha mãe comentou com desdém, me fitando de cima a baixo. – Claro... Parece ser isso mesmo. Mas eu jurava, quando você falou que era amigo da minha filha, que se tratava de Ellen, não de Bruce.

Eu suspirei, cruzando os braços e fitando o teto. Clamando por uma paciência divina. Sério, Quentin não precisava ver ou assistir aquilo: aquela leve entonação que dizia: “Ellen é mais minha filha do que Bruce”, ou que dizia: “Ellen faz mais sucesso com garotos do que Bruce”. Por isso eu o agarrei pela manga do casaco e disse:

– Vamos logo Quentin, por favor.

Ele largou Riot no chão, e deixou que eu o puxasse até a porta de casa.

– Mas ele acabou de chegar... — minha mãe protestou.

– E ele já tem que ir! – eu quase gritei furiosa.

Fazendo-a recuar de medo, e sair do nosso caminho.

Quentin timidamente se despediu e disse à Ellen que eles se viam na festa. Sinceramente, o que mais essa festa nos reservava? Não queria saber, mas algo me dizia que não terminaria ali.