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52 Capítulo 52 – Sentença de Morte.
Notas iniciais
Capítulo 52 – Sentença de Morte.
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Câncer.
Minha mãe tinha câncer.
Não o signo... Mas a doença.
Tinha câncer como Augustus Waters em “A Culpa é Das Estrelas”. Como Kate de “Uma Prova de amor”. Como Jamie de “Um amor para recordar”. Como Carter de “Antes de Partir”... Merda, porque eu só estou pensando em gente que morre de câncer? Deve ter alguém que tenha sobrevivido nesses filmes dramáticos... Não era para ser uma lição de vida?! Por que as pessoas que tem câncer têm que morrer?!
Como se eu estivesse prendendo a respiração depois de ouvir a palavra, soltei um suspiro e respirei fundo novamente. Só para sentir que não conseguia respirar. Havia um bolo no fundo de minha garganta que parecia obstruir toda minha respiração.
– Eu já vinha me sentindo mal há um bom tempo... Mas achava que não era nada demais. Eram somente dores de cabeça que iam e voltavam – ela disse. – Hoje, descobrimos que era sim alguma coisa...
Levantei-me da cama... Agitada. Inquieta.
Querendo desesperadamente que ela olhasse na minha cara e dissesse que estava só brincando comigo. Que estava tudo bem e que ela havia ido para o hospital porque desmaiou por conta de alguma dieta maluca que cortava o açúcar.
– Como assim? – perguntei, sem acreditar. – Como assim câncer? Como assim passando mal há um tempo? Não entendo... Está tudo tão... Tão estranho!
Passei as mãos pelos cabelos, tentando me acalmar. Tentando aquietar os pensamentos mórbidos que estavam tomando minha mente. Pensando nas pessoas que já morreram de câncer. Pensando que é uma das doenças que mais mata no mundo... Gente, minha mãe estava praticamente me dizendo que estava morta?
Meus olhos começam a ficar irritados, mas eu não ia chorar.
Isso não podia estar acontecendo.
Não podia.
Não...
– Eu contei para o seu pai que meu casamento com Walter estava muito ruim, porque ele percebia que eu te tratava muito mal e que você tinha medo de mim – ela contou, fechando os olhos. Parecia muito cansada. – Pedi-lhe para que nos ajudasse, a mim e a você, a nos entendermos melhor e, como Micha pareceu muito desconfiado, contei-lhe que não vinha me sentindo muito bem ultimamente...
Sentei-me na cama novamente.
Tentando visualizar aquela cena que ela narrava.
– Ele então decidiu que ia tentar nos ajudar com uma terapia familiar... Mas, como você estava tão obstinada em me odiar... Foi difícil – ela murmurou. – E ainda tinha o meu orgulho... Que me impedia de admitir que tudo o que você jogou na minha cara outro dia era verdade... Que eu não era feliz. Que eu devia me preocupar com coisas mais profundas do que beleza e status... Casamentos vantajosos... Que eu errei muito na sua educação e que não fui a melhor mãe do mundo.
Meneei com a cabeça. Sem saber como me sentir.
– A verdade... É que eu fui com você... A mesma vadia que a minha mãe foi comigo – ela sussurrou, derramando uma lágrima. – A verdade é que... Eu fui uma tirana com você, Bruce. Exigia uma filha bonita e perfeita, por fora... E mesmo assim, quanto mais eu te desprezava, mais medo eu tinha de acabar sozinha. Eu via os homens me largando... E lutava para te manter comigo porque eu não queria ficar sozinha.
Ela olhou para mim, respirando profundamente.
– Sinto muito – ela pediu novamente. – Eu sabia que se soubesse que seu pai ainda te procurava... Você ia me trocar por ele e pela Alemanha, pela tal da Hazel e pela Grettel... Sinto muito ter sido egoísta. Sinto muito ter sido inconsequente... E mesquinha... E a pior pessoa desse mundo.
– Por quê?! – eu perguntei. – Por que agora? Por que se arrepender agora?!
Victoria deu um sorriso triste.
– Porque eu sou uma daquelas pessoas idiotas que se arrependem de tudo o que fez na vida quando estão cara-a-cara com a morte – ela respondeu morbidamente. – Porque agora eu vejo que... Morrer sozinha não é uma opção: é um fato. É algo que não podemos evitar. Agora eu vejo isso. Só agora...
Ficamos num silêncio pesado. Num silêncio que não gostei, pois parecia concretizar aquele pesadelo a cada minuto que se passava. Infelizmente, ele era necessário para eu assimilar todas aquelas informações: minha mãe ia morrer e agora ela resolvera se arrepender de anos de ódios e desentendimentos mútuos.
– Vocês... descobriram isso hoje? – eu perguntei.
– O resultado dos exames veio hoje – ela respondeu. – Eu não queria te contar e pedi para que Micha não te dissesse nada... Mas ele disse que mentir para você nunca foi a coisa certa... Ele disse que não ia mentir para a própria filha... Nem por mim.
Tentei respirar normalmente, mas novamente aquele bolo na minha garganta tornou tudo impossível. Por mais que eu odiasse a minha mãe... Nas últimas semanas ela tinha sido uma boa pessoa. E eu nunca desejei que ela morresse. Nunca. Nunca desejei isso nem para a minha pior inimiga.
Eu limpei as lágrimas que escorriam pelo meu rosto, percebendo o quanto eu estava trêmula e abalada com tudo aquilo. Bem, não tinha como não ficar. Minha mãe ia morrer. A mulher que eu tentei agradar por mais da metade da minha vida... Ia morrer.
Por que ela nunca foi legal antes?
Por que ela esperou estar morrendo para começar a mudar?!
Que ódio! Raiva! Raiva dessa vida injusta!
Por que ela não me amou antes?!
Eu queria dar um tapa nela. Bater até dissipar a raiva que eu tinha... Mas pareceria um gesto covarde. Dormindo sentada na cama, muito pálida e cansada... Doente, parecia covardia lhe bater como ela merecia por nos fazer desperdiçar tanto tempo.
Levantei-me da cama, com cuidado (apesar de estar morrendo de raiva dela), andei até a sua mala e peguei uma muda de roupa.
– Faz mal dormir de jeans – eu disse, acordando-a. – Eu te ajudo a se trocar.
Não sei se sua expressão assustada foi porque ela acabou de acordar, ou porque eu fui legal com ela... Mas ela aceitou minha ajuda. Quase como se ela fosse uma criança e eu fosse a mãe. Meio irônico já que, de nós duas, eu era bem mais sensata.
Eu a ajudei a trocar a calça jeans e a camisa de frio por um pijama quentinho e a se deitar na cama logo depois. É tudo muito estranho: eu ter que ser legal com a minha mãe e ter que cuidar dela... Mas sabe o que é mais estranho que isso?
Minha mãe vai morrer.
Parecia até uma piada sem graça. Uma piada que, só de pensar, me dava vontade de chorar. Eu me sentei na cadeira perto do meu notebook aberto e fiquei a observando voltar a dormir. Pensando no como aquilo era surreal. Um quadro tão surreal que só Salvador Dali poderia transformar tamanha tragédia numa obra de arte.
Peguei o meu celular... Mas não soube para quem ligar.
Apesar da ideia de ligar para Quentin fosse a mais óbvia... Parte de mim não queria ir correndo chorar no ombro dele como se eu fosse uma garotinha de sete anos. Parte de mim não queria me “fazer de coitadinha” para ele. E havia uma parte de mim que queria apenas... Se sentar num canto e chorar em silêncio. Sozinha.
“Quero te abraçar” eu escrevi para Quentin.
Ele não respondeu de imediato. Provavelmente estava ensaiando ou no Parkour. Isso de algum modo me deixou mais triste do que eu esperava. Sendo assim, deixei meu celular sobre a mesa e fui para o banheiro. Observei-me no espelho e, sinceramente, não gostei muito do que vi. Senti-me a pessoa mais horrível da face dessa terra. De repente, eu entendia o porquê minha mãe simplesmente não gostava de mim.
Eu era uma pessoa ruim.
A mulher simplesmente era minha mãe, que ia morrer, e eu gastei metade da minha vida zangada com ela... Pior que isso, eu ainda a culpava por não ter gostado de mim quando, talvez, eu não tenha tentado o suficiente? Talvez, se eu tivesse me empenhado mais para fazê-la gostar de mim... esse tempo não fosse perdido.
Longe da cama onde Victoria estava. Respirei fundo e então comecei a chorar. Com mais violência do que quando estávamos conversando. Eu chorava de soluçar; daquele jeito que seu corpo inteiro treme e que você mal consegue respirar. Talvez fosse porque o que eu sentia era simplesmente forte e cruel demais: raiva, indignação, angústia, impotência... Tudo misturado.
Eu devia ter me esforçado mais. Eu deveria me importar mais com roupas, sapatos e aparência do que livros, filmes e essas besteiras... Eu deveria ter tentado mais. Tentado entendê-la, tentado ganhar aquele concurso... Eu deveria ter feito isso. Será que era muito tarde para voltar no tempo e fazer tudo diferente? Ir até mais longe por ela?
“Claro que é” eu pensei, com um bolo surgindo no fundo da minha garganta. “Ela tá morrendo. Morrendo sem jamais ter tido a filha que ela sempre quis ou a vida que ela sempre sonhou”.
Pensar nisso me deixou enjoada.
O mundo era assim? Cheio de pessoas que não tinham um “grande amor” e de pessoas que não tinham seus sonhos realizados? Cheio de pessoas que morrem tão jovens, sem terem feito grande coisas ou deixado a sua marca?
Sem conseguir me controlar mais, sentei-me no chão. Para não mais encarar minha aparência desprezível no espelho e continuei chorando. Rezando para que ela estivesse num sono pesado e que não despertasse com os meus soluços.
Em algum momento, papai me encontrou. Ele se sentou do meu lado, percebendo que eu já sabia da verdade, e me abraçou. Sem dizer uma palavra sobre a filha perversa que ele tinha. Acariciou-me os cabelos e disse num tom tranquilizante:
– Ela vai ficar bem, Letty.
Suas palavras pareceram cruéis. Parecia estar falando de algo como uma gripe, ou uma pneumonia... Não de um câncer. Eu neguei com a cabeça, chorando em seu ombro.
– Não vai – eu disse, entre soluços. Com a garganta doendo de tanto chorar. – Ela vai morrer. Você sabe disso... Ela vai morrer...
Micha me abraçou com força.
– Ela pode se curar – ele insistiu. – Temos que pensar positivo, Letty... Muitas pessoas já sobreviveram ao câncer e sua mãe pode sobreviver também.
Eu neguei com cabeça.
Se fosse verdade, teria mais filmes onde as pessoas não morressem de câncer. Se fosse verdade, o câncer não seria a doença que mais mata no mundo...
– Letty, não se deve desistir sem tentar – ele insistiu. Tentando fazer com que eu me sinta melhor. – Já agendamos uma consulta com o melhor oncologista da cidade para amanhã... Sua mãe vai ficar bem. Ela estará em boas mãos.
Ergui o olhar... Querendo muito acreditar nele e em suas palavras. Mas só consegui chorar ainda mais. Tudo parecia tão horrível. Tão cruel. Que parecia mentira.
Como se percebesse que suas palavras não estavam dando muito certo, papai apenas decidiu ficar calado ao meu lado. Oferecendo-me o seu ombro para chorar, ele disse:
– Melhor chorar tudo agora. Quando sua mãe acordar, não fique com essa cara de enterro para não perturbá-la... Ela precisa de pessoas positivas e esperançosas para que ela tenha esperanças e pense positivo.
Assenti com a cabeça. Agradecendo por ele me deixar chorar assim.
Como se eu ainda fosse aquela garotinha de oito anos que precisava do seu colo.
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Quando mamãe acordou, assistimos ao filme que Micha havia prometido. Só nós três. Foi difícil ter que ser legal com a minha mãe... Mas, sinceramente, eu é que não ia mais gastar o pouco tempo que nos restava sendo desconfiada e escrota. Pareceria sem sentido. Então, tentamos apenas passar um bom tempo comendo besteira e assistindo a uma comédia tão ruim que paramos na metade.
Dizer que no dia seguinte eu estava me sentindo melhor, seria uma tremenda mentira. Quando Quentin veio me buscar para me levar para o colégio (o único dia em que ele não me dava carona era segunda-feira) tentei parecer um pouco melhor. Mas não me saí muito bem porque ele perguntou:
– Aconteceu alguma coisa?
Obviamente, não sou uma boa atriz.
– Por quê? – eu perguntei, olhando pela janela.
Quentin deu de ombros e no primeiro sinal vermelho, se aproximou muito de mim.
– Seus olhos estão inchados – ele disse preocupado. Acariciando o meu rosto. – E me mandou aquela mensagem e não respondeu às minhas... Tá tudo bem?
Eu dei um sorriso sem graça.
– Eu não sei – respondi. – Mas prefiro deixar quieto, por ora.
Ele franziu o cenho, parecendo preocupado, mas não fez interrogatórios. Como eu gostava desse garoto de temperamento delicado e sensível com os problemas dos outros. Se fosse Paloma ou Olivia (talvez até mesmo com Helena) elas me interrogariam até eu contar a verdade. Insistindo até eu desistir.
Quando chegamos à escola e ele estacionou o carro, tiramos os cintos de segurança e ele me puxou para um abraço antes que eu saísse do seu carro. Foi tão de surpresa, que me senti amolecer em seus braços fortes e seguros.
– Não sei o que aconteceu, mas vai ficar tudo bem – ele murmurou no meu ouvido.
Senti aquela vontade chata de querer chorar novamente. Lutei para reprimi-la.
– Como você pode saber disso? – perguntei, abraçando-o de volta.
– Porque eu sei – ele respondeu. – Sou meio escocês lembra? Descendente de Celtas e essas coisas... Devo ser meio vidente. Ainda bem que os poderes pularam uma geração porque, se caíssem em mãos erradas, o segredo da família estaria perdido.
Eu sorri, escondendo o rosto em seu pescoço. Só ele para me fazer sorrir.
– Eu te amo – sussurrei em seu ouvido.
– Eu te amo muito – ele disse de volta, beijando minha têmpora.
Ergui o rosto e o beijei nos lábios. Um beijo suave e doce, sem nenhum outro toque de malícia que a mão do Quentin tocando minhas costas por debaixo da minha camisa. Ela não subiu mais que aquilo, por mais que parte de mim quisesse que subisse. Quando ele se afastou, beijou-me no pescoço – gerando um arrepio agradável — e voltou a me abraçar.
– Está melhor agora? – ele perguntou.
– Se eu disser que não... Você vai me beijar de novo? – brinquei, tirando bom humor só Deus sabe de onde.
Ele riu, beijando-me de novo.
– Vou te beijar até ter se sentindo melhor – ele murmurou, entre beijos.
Eu gostaria que seus beijos (e todo o resto obviamente) fossem capazes de reverter toda a situação da minha mãe... Mas não são. Eles me acalmam, sim. Me confortam e fazem tudo parecer menos aterrorizante do que parecera até ontem à tarde, mesmo assim, meu humor não ficou cem por cento.
– Você vai fazer alguma coisa hoje? – ele perguntou, ainda abraçados em seu carro.
Assenti com a cabeça.
– Tenho que ir... A um lugar com os meus pais – eu respondi, sem querer dizer que decidi ir ao oncologista com Micha e Victoria. – Você não tem seu grupo de Parkour hoje?
Quentin sorriu, sem graça.
– Não gosto de te ver abatida – ele admitiu, acariciando o meu rosto novamente. Um arrepio agradável percorreu minha espinha. – Talvez sair para espairecer te faça bem.
Eu sorri, quase querendo chorar com o quanto ele podia ser fofo. Meneei com a cabeça, quase não acreditando que um cara assim existia e que era meu namorado, antes de abraçá-lo apertado. Fungando em seu pescoço. “Não vou chorar” disse a mim mesma. Sinceramente, ontem eu já chorara o suficiente para uma vida.
– Obrigada por ser tão lindo – murmurei.
– Tá, conta uma novidade agora – ele brincou com aquela falsa prepotência.
Eu ri, beijando-o mais uma vez nos lábios, antes de sairmos de seu carro. Por mais que eu sentisse como se pudesse passar minha manhã toda lá com ele, tínhamos umas aulas para assistirmos – e alguns testes surpresas a serem feitos. Separamo-nos na porta da minha primeira aula, onde Olivia e Paloma me esperavam.
– E ai, Letty? Tudo bem com você? – Olivia perguntou, parecendo maliciosa.
Eu suspirei, sentando-me no meu lugar de sempre e pensando na resposta.
– Vai ficar – eu respondi, tentando sorrir.
“Tirando o fato de eu descobrir que minha mãe recebeu uma sentença de morte”.
– A propósito, acho que não vai poder rolar uma festa do pijama com vocês – eu disse, tentando não parecer nervosa. – Meus pais... Querem que passemos um pouco mais de tempo juntos... Então... Não posso passar a noite fora do hotel.
Não era totalmente mentira. Meu pai disse que tínhamos que ficar de olho em Victoria caso acontecesse de ela passar mal. Micha disse que, como estava de férias, podia ficar observando-a enquanto estou na aula ou saindo com os amigos, mas que de noite eu teria que ficar de olho nela porque dormíamos no mesmo quarto.
Perguntei-me se foi por isso que arrumaram um quarto para nós duas.
– Que bizarro... – Paloma comentou, num tom solidário comigo. – Deve ser estranho os dois pais querendo recuperar o tempo perdido...
Eu suspirei.
– Você não faz ideia – respondi, abaixando o olhar.
– Bem, talvez possamos sair para beber um café – Olivia sugeriu, apesar de torcer o nariz diante a ideia. – Isso parece programa para gente velha.
Paloma e eu rimos.
Sinceramente, meu riso pareceu falso até para os meus ouvidos.
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