Nosso Nome Na Lista.
10 Capítulo 10 - Universo Paralelo.
Notas iniciais
Capítulo Dez – Universo Paralelo.
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A bebida já havia se diluído no meu sangue, tenho certeza disso, todavia (de um jeito idiota e muito menininha) eu ainda me sentia nas nuvens. Quentin havia dito que eu era sexy. Não “fofa” ou “bonita”, mas sexy. E tenho quase certeza que esse não é o tipo de coisa que ele diz para qualquer pessoa.
Um estado de espírito estava tão elevado que minha mãe não conseguiu me irritar durante o domingo. Nem seus comentários sobre as minhas roupas ou a minha comida. Nem mesmo a gripe que eu estava começando a pegar me irritou.
De repente, o domingo parecia muito longo e confuso. Quentin gostava de mim? Ou não? Era coisa da minha cabeça? Será que eu podia esperar até segunda para perguntar?
Espera! Eu ia perguntar?!
– Não, não! E não vou perguntar nada! – resmunguei energeticamente.
Riot ergueu a cabeça do meu colo e me olhou como cara de quem entende, mas me acha uma maluca. E ele não era o único me achando uma doida. Soltei um suspiro e o peguei delicadamente nos meus braços.
– A vida é tão fácil para vocês... – Suspirei. – Cheiram uns rabos ali, trocam uns latidos... Reproduzem-se e vão embora depois...
– Que triste...
Dei um pulo ao encontrar Ellen entrando na sala de estar. Vestindo uma adorável camiseta cor-de-rosa, jeans claros e os cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo alto, ela trazia a coleira de Riot numa mão.
– Oi, Ellen – cumprimentei-a, sem graça.
– Oi... Er... Você está tentando deixar Riot depressivo sobre os filhotes que ele não vai ter? – ela brincou, pegando o cachorro do meu colo.
Dei um sorriso desconsertado. Oh, é, Riot é castrado. Não pode ter filhotes... Ainda bem que eu só falei palavras que ele não entendia. Nosso cachorro era mestre em assimilar palavras a certas coisas que lhe interessam, como “passeio” para uma caminhada, ou “comida” e “água”, ou “jogo” quando eu vou brincar com ele...
– Você vai levá-lo para passear? – perguntei curiosa.
– Vou. Problema? – ela indagou preocupada.
Neguei com a cabeça.
– Não. É só que é raro...
– Você está gripando... Fique descansando um pouco. – Ela sorriu para mim. – Eu o levo para passear numa boa... Também quero sair para ver gente.
Concordei com a cabeça e sorri de volta. Ela saiu com Riot, deixando-me sozinha com os meus pensamentos e com o filme em preto e branco que eu via pela quinta vez. Quem diria que Walter teria bons filmes de comédia?
– Bizarre, bizarre – repeti com Louis Jouvet.
...
Mais bizarro do que Ellen querendo levar Riot para passear foi o que aconteceu na segunda-feira, quando entrei no prédio principal do colégio e percebi que, de um jeito bem incomum, todo mundo parecia estar me encarando... Não como se estivessem fofocando sobre os boatos da minha bulimia, mas sorrindo com... Simpatia?
“Você deve estar imaginando coisas” disse a mim mesma, tentando olhar somente para frente enquanto eu andava em direção ao meu armário, “Assim como você imaginou que Quentin gosta de você”. Mesmo assim... Que sensação desconfortável! Eles não têm quem mais encarar, não?! Peguei o meu exemplar de “As Flores do Mal” de Charles Boudelaire e fechei o meu armário.
Dei um pulo de susto.
Parado ao lado do meu armário estava... Duncan. Não Quentin, como da última vez, mas Duncan. Meu ex-namorado que, mesmo vivendo para correr atrás de mim, não perdera tempo para ir atrás de Yvonne. E eu tenho certeza que foi isso o que ele fez. Eu o conhecia bem demais.
– Olá – eu o cumprimentei com frieza.
– Oi, Letty – ele respondeu, desconfortável. – Como foi o seu domingo?
Soltei um suspiro cansado e nervoso.
– Foi ótimo, obrigada... – Eu respondi. – Agora, se me der licença, tenho uma aula de Literatura Estrangeira para assistir...
Tudo bem, era a mentira do século.
Eu havia chegado relativamente cedo, mas tudo o que eu queria era fugir daquele lugar. Por isso assenti em despedida e tentei correr para longe daquele momento constrangedor. Merda, porque eu o havia provocado quando ele estivera com Yvonne no sábado? Ou melhor, eu não o provoquei. Eu provoquei a ela. Porque ela era uma nojenta que ficava se metendo na minha vida escolar! Duncan... Eu estava, sinceramente, pouco me lixando para Duncan.
Ele segurou o meu braço, impedindo que eu m afastasse.
– Espera, Letty – ele pediu. – Eu... Quero te dizer que... Você me entendeu mal.
Um fogo inexplicável apareceu queimando em minhas veias. Não. Não era desejo. Tampouco era paixão... Acho que era raiva.
– E o que você acha que eu entendi errado? – perguntei irritada.
Ele recuou, soltando o meu braço.
– Escuta, Duncan. Não é da minha conta se você sai com Yvonne, se você dorme com ela... Enfim, wathever, tá? Se vocês estão juntos... Legal. Fico feliz por vocês. As duas pessoas populares da lista merecem um ao outro – eu disse, muito surpresa com o meu tom de sinceridade. – Você não tem nada para me explicar.
Ele bufou, parecendo irritado. Esse era um momento raro. Duncan é muito difícil de irritar, pois ele sempre levava tudo na brincadeira ou de uma maneira impessoal. De certo modo, eu achava que isso era um charme, mas não era. Depois de um tempo, era irritante. Ele era tão brincalhão, que os problemas externos pareciam não existir no seu mundo.
Problemas que não fossem o fato de ele ter sido tirado do jogo, de ter recebido uma falta injusta ou de ter sido ignorado por um “amigo”... Parecia não merecer a sua atenção. Parecia não existir para ele.
– Eu não estou com Yvonne – ele disse, rapidamente. – Eu gosto de você, Letty.
– Duncan... Você diz isso, mas...
– Eu sei... Eu saio com a garota que você odeia – ele completou irritado.
– Eu ia dizer “mas não dou a mínima”, mas agora que você falou... Isso também – eu concordei. – Bem... Duncan, como eu disse, não é da minha conta se você sai com Yvonne ou se você sai com a “garota que eu odeio”. Terminamos então... Seja feliz, cara.
Ele me olhou como se não acreditasse no que eu estava dizendo e, por mais mal que eu tenha me sentido, dei de ombros e lhe virei às costas para ir à minha sala de aula.
Merda... Odeio me sentir como a “vilã” da história...
Respirei fundo. A culpa não era minha, afinal. Ergui a cabeça e fui para a sala de Literatura Estrangeira, sem olhar para ele ou para quem quer que presenciara aquela cena deplorável. Eu odiava acabar com as esperanças dele desse jeito, mas eu não entendo qual é o lance dele.
Ele acha mesmo que eu vou voltar para ele? Sei lá, eu terminei... Por que eu voltaria? E por que ele acha que eu daria a mínima para os motivos que ele tivesse para ficar com Yvonne? Como eu disse, não é como se eu me importasse com a vida sexual ou amorosa do meu ex-namorado...
Para a minha alegria, a sala de aula estava quase vazia, salvo pelo professor Drummond (que mal saía de sua sala de aula).
– Bom dia, professor – eu o cumprimentei com desânimo.
– Pelo seu tom de voz, não parece ser um “bom dia”, Srta. Letterman – ele observou.
Dei de ombros, mostrando um sorriso divertido.
– Hoje o dia começou ótimo. Ma-ra-vi-lho-so! – eu disse com sarcasmo.
Oh, sim. Com dor de cabeça por causa de uma noite mal dormida (uma noite em que fiquei tentando decifrar o que Quentin quis dizer com “te acho muito sexy também”), com as provocações da minha mãe (que pareceu querer acordar cedo nessa segunda-feira só para rir da minha cara durante o café-da-manhã) e com o meu ex-namorado dando uma de “criança esperança” e mendigando por um pouco de atenção e amor.
Sentei-me no meu lugar de segunda-feira passada e dei uma lida nos poemas do homem polêmico no século XIX. Simbolista, boêmio, viciado em drogas (creio que ópio e companhia) e poeta... Belo currículo, Sr. Boudelaire, você é tão original para a época...
Um celular vibrou numa mensagem de texto. Deveriam ser as garotas, querendo saber onde eu havia me metido em plena segunda-feira, quando saía a lista mais querida (e odiada) de St. Justine... Espera. A lista saiu hoje!
Não que eu me importe, claro.
Mas quem resiste a uma boa fofoca? Além disso, ver essa lista, juntas, era quase uma tradição para Paloma, Olivia e eu. Se eu a quebrasse, teria que comprar um carregamento de cupcakes para fazermos as pazes.
Levantei-me da minha cadeira, pronta para ir encontrar as garotas, quando percebo que estou cara-a-cara com Quentin. O cara mais irresistível dessa escola. O cara mais sexy que St. Justine já acolheu. O cara que disse que me achava sexy.
– Oi! – exclamei exaltada.
Oh, merda. Minha voz soou um latido de Riot!
– Oi... – ele respondeu divertido, passando por mim e bagunçando o meu cabelo (espera, ele passou mesmo a mão no meu cabelo?!). – Como foi o seu domingo?
Mesmo assim, bufei irritada. Era claro que eu não o afetava como ele me afetava. Enquanto a babaca aqui ficava babando em sua boa aparência e nem conseguia pensar em se afastar dele e fingir algo normal, ele fora o primeiro a se recuperar... De alguma coisa. Ou a se recuperar de nada.
– Por que todo mundo está me perguntando sobre o meu domingo? – Eu cruzei os braços. – Foi ótimo, obrigada. Fui à missa de manhã, virei uma moça de Deus...
– Então... Sem ressaca?
Eu pisquei para ele. Ah, então era disso que se tratava? Ele queria que eu contasse as torturas de uma ressaca nunca sentida para depois rir da minha cara?
– Para o recalque das inimigas, acordei completamente bem. Três beijos – respondi.
Quentin deu uma risada.
– E o seu domingo? Como foi?
– Ah, foi ótimo. Para quem está acostumado a beber, a ressaca não vem com facilidade – ele respondeu, puxando uma pilha de folhas de papel de dentro de uma pasta azul escura. – Mas ontem saiu o resultado de uma maldita audição e agora tenho que decorar essas malditas falas.
Por um momento, fiquei me perguntando o que ele quis dizer com aquilo... Então eu me lembrei que um dia ele havia me dito que, um dos motivos pelo qual ele gostava de Literatura, era o fato de ele fazer parte de um clube de teatro.
Quentin como ator... Que interessante, hein?
– Há algo que você faça que não seja legal? – critiquei, sentando-me ao seu lado. – É impossível alguém ser tão perfeito e maneiro, assim!
Ele riu.
– Tudo bem, vou te contar o meu segredo, mas você promete que não vai sair espalhando por aí? – Quentin me provocou, aproximando-se de mim. Assenti com a cabeça, apesar de saber que ele ia brincar. – Quando eu estou sozinho em casa... Eu gosto de colocar uns óculos de grau e fingir que sou alguém normal, de beleza mediana, como as outras pessoas.
Eu revirei os olhos.
– Mas não dá certo, sabe... Quando você é alguém tão perfeito, os óculos só servem para acentuar ainda mais a sua beleza... – ele continuou, rindo quando eu dei um soco em seu ombro.
Juro que se ele não fosse um cara tão legal, eu o estrangularia. Ah, o dilema... Pensei que isso acontecesse só com Ellen.
– E que papel é esse? – perguntei.
Quentin olhou para a grossa pilha de papéis à sua frente com uma expressão reflexiva.
– É meio complicado explicar... Mas você tem um tempo agora?
Ergui uma sobrancelha.
– É que você parecia estar prestes a sair quando nos esbarramos... – ele explicou.
Oh, sim! Encontrar as garotas. Ver a lista com as garotas.
– Ah! Bem observado! – exclamei, pulando do meu lugar. – Tenho que encontrar Paloma e Olivia para irmos ver a lista dessa semana... Não que eu me importe, claro. Não é como se essa merda fosse mudar a minha vida, mas é importante para elas, então...
Eu dei de ombros para enfatizar a minha suposta indiferença. Quentin deu um sorriso de canto (que foi mais um “prendeu uma risada”) como quem não acredita no que eu acabei de afirmar, mas concorda só para não perder a amizade.
– Ah, claro. Tire uma foto para mim. Estou realmente curioso sobre essa coisa – ele disse.
Assenti com a cabeça e saí da sala de aula, contando no meu relógio quinze minutos para voltar para a minha aula de Literatura Estrangeira. Hoje faríamos um pequeno simulado (um teste que era desprezado por não valer nota nenhuma, mas que fazíamos para treinar para a prova semana que vem) e não podia matar essa aula maravilhosa.
Com um parceiro mais maravilhoso ainda, não é Letty?
Ah, sim, isso também...
– Ei, Letty!
Alguém pulou na minha frente de um jeito que eu pensei que só Quentin faria, mas não era ele. Era o tal do Josh Qualquer-Coisa. O cara de beleza mediana, cabelos castanhos cheios de gel atirados para trás, sobrancelhas limpas e olhos castanhos avelã bem expressivo. Parecia, por algum motivo, ser um bom garoto.
– Oi! – exclamei surpresa e apressada. – Hm, Josh, né?
– Josh Furey, ao seu dispor – ele respondeu, fazendo continência. – Você foi à minha festa esse sábado e, garota, você realmente animou as coisas de um jeito que eu nunca vi antes!
Franzi o cenho com um sorriso tímido.
– Hein?
– Quando eu vi você e Quentin brincando feitos dois retardados na minha piscina eu pensei: “caraca, está o frio do diabo, mas... Festa na Piscina!” – ele contou. – Nunca me diverti tanto numa festa minha... Estranho, não é?
– É sim... Um pouco estranho, sim... – confessei, sem graça.
Tudo bem, Quentin e eu não estávamos exatamente “brincando” na piscina de Josh como ele supusera. Eu havia me jogado e Quentin estava tentando me pegar de volta sem se molhar de novo, pois ele achava que já estava quase seco. E foi nesse momento que Josh abriu a janela de repente e gritou: “festa na piscina!”.
Quem diria que uma brincadeira minha se tornaria uma festa de verdade.
– Bem... Furey, eu estou com pressa, então... – eu disse, tentando fugir dali.
– Ah, beleza, gata. Vemo-nos por aí – despediu-se ele.
“Beleza, gata”? O que aconteceu com: “você é a garota que quebrou o nariz de Amber Harrison?”. Estremeci de leve começando a cogitar a ideia de eu ter, sem ter percebido, entrado num universo paralelo que tem um “eu” bem popular e simpática. Só não digo “bonita” porque aí eu deixaria de ser eu.
– E aí, Letty...
Olhei para o lado a ponto de ver uma parede de jogadores do time de futebol me encarando como se eu, de repente, fosse a garota mais gostosa do momento. “Universo Paralelo”, né? Até onde a loucura desse mundo iria? E quando eu teria entrado nesse outro universo? Bem, encontrar um Duncan orgulhoso fitando tudo, menos eu, foi até reconfortante. Algo estava certo afinal.
– E aí? – eu respondi para não deixá-los no vácuo.
Mas, assim que eles assentiram em resposta, eu corri até a porta do banheiro feminino, onde, encostadas nas paredes estavam Paloma e Olivia, parecendo bem inquietas.
– Tem algo muito errado acontecendo! Olivia me diga que você ainda é a patricinha que sabe tudo sobre moda e maquiagem! Paloma me diga que você continua sendo aquela ratinha de biblioteca! – eu fui pedindo, agarrando-as pelos ombros e as abraçando.
Elas me abraçaram também, hesitando.
– Não há nada de errado conosco, Letty... Mas tem algo errado com você – Paloma disse.
– Você está na lista, Letty! Na lista! – Olivia exclamou.
Puta Merda.
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