Nosso Nome Na Lista.
1 Capítulo 1 - A Lista do Banheiro.
Notas iniciais
Capítulo Um – A Lista do Banheiro.
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As garotas se amontoavam no banheiro feminino como se suas vidas estivessem escritas no pedaço de papel colado no espelho.
“As cinco pessoas mais quentes” era uma lista que saia sempre uma vez por semana e era algo muito disputado. Nenhuma garota poderia começar uma boa semana de aula sem saber quem estava dentro ou fora; quem eram as pessoas mais “amadas” do colégio ou quem eram as pessoas mais “odiadas”.
Ninguém sabia o porquê que aquela lista aparecia ali, ou quando ela começara a aparecer e muito menos quem a colocava exposta para todas as garotas que utilizavam o banheiro do primeiro andar. Só havia duas coisas que as garotas sabiam: a primeira delas, era que se você quisesse uma proveitosa vida escolar, deveria ficar longe das pessoas “odiadas”; a segunda delas era que toda semana ela era renovada.
Ninguém, ninguém, nunca permaneceu no mesmo lugar por mais de uma semana.
– Isso não é ridículo? – eu comentei com minhas melhores amigas, Paloma Torres e Olivia Philips. – A pessoa que inventou essa lista deveria estar do lado que diz “odiados”, pois ninguém deve gostar de ser julgado por uma pessoa que nem dá a cara à tapa.
A ideia de ter alguém ouvindo fofoca das pessoas e fazendo um julgamento precipitado sobre as mesmas; forjando uma lista para que elas sejam “populares” ou as “excluídas” era uma ideia nojenta para mim. Parecia a ideia de alguma criança que andara lendo demais Gossip Girl ou Pretty Little Liars e agora resolvera inventar o seu próprio jogo na vida real.
As duas me olharam com um brilho cômico nos olhos.
– Tinha que ser a subversiva... Você é sempre “do contra” de tudo! – Paloma comentou.
– É verdade... Você só vê o lado ruim das coisas, Letty! Por exemplo, veja só o quanto isso é excitante! – Olivia comentou se espremendo entre algumas garotas estranhas. – Já imaginou se um belo dia virmos o seu nome na lista das pessoas que são “quentes”? ... Ai meu Deus!
Eu dei um pulo ao ouvi-la gritando da multidão. Será que alguém havia pisado no seu pé? Ou pior que isso: será que alguém havia pisado e arranhado a sua sapatilha de vinil que fora supercara? Lamento pensar isso da minha amiga, mas é verdade, Olivia era muito fútil. Talvez tão fútil quanto a minha mãe... E “fútil” é eufemismo para a dona Victoria Freeday.
– Tá tudo bem?! – perguntei.
De repente, uma mão fantasmagórica apareceu por entre as pessoas e me puxou até onde minha amiga estava. Era a mão dela... Que nem se importou se eu tivesse que atropelar umas cinco garotas para chegar até onde ela estava, desde que eu chegasse. Ela era muito assim. Pedi desculpas humildes para as garotas e lhe fitei como se quisesse matá-la.
Mas seu sorriso estava eufórico e ela apontou para a lista.
– Veja isso! Você tem que ver isso! – apontava para a parte dos “mais quentes”. – Vejam quem está encabeçando a lista!
A lista era escrita em um papel A4 e decorada lindamente com canetas coloridas. Havia duas linhas, uma rosa e outra roxa, que cortava a folha branca ao meio e separava o lado das pessoas “mais quentes” do lado das pessoas “mais odiadas” do colégio St. Justine. Certa vez, lembro-me de ter conseguido aparecer no último lugar da lista daquelas pessoas “mais odiadas”, mas não fiquei surpresa. Realmente, tem muita pessoa que me odeia.
Mas dessa vez eu não havia aparecido na lista. Não depois que eu namorara Duncan Wade, um dos garotos mais quentes da nossa escola e que já aparecera uma vez na lista. Chegaram até a me perguntar: como era que uma garota estranha e esquentada como eu havia conseguido namorar um garoto lindo e atlético como Duncan? Bem, a resposta era: ele estava a fim de coisa nova.
E, acredite, mudar de líderes de torcidas de inteligência duvidosa para uma garota nerd que se veste meio como hippie era uma diferença enorme!
Cruzei os braços e analisei a lista dos mais quentes. E o primeiro lugar vai para...
Quentin McCullogh
Franzi o cenho. Quentin? Quem diabos era Quentin McCullogh?!
– Ai meu Deus! – Paloma exclamou, de repente, se materializando atrás de mim como um fantasma. Nem a vi se aproximar. – É a terceira semana seguida em que ele encabeça a lista!
Arrastei o meu olhar de Paloma para Olivia e depois mudei de Olivia para Paloma... Como uma aluna que não entende a explicação do professor, ergui a mão e disse:
– Desculpem-me pela minha santa ignorância, mas quem é Quentin McCullogh? – eu perguntei. – E como assim é a terceira semana dele na lista?
As duas, então, se deram conta de que desde que o ano letivo começara, há um mês, aquele era o meu primeiro dia de aula. Não porque eu estivesse viajando ou fazendo algo de glamoroso, mas porque eu acabei internada no hospital depois de fazer a maior besteira da minha vida. Não, eu não tentei me matar... Quer dizer, talvez não intencionalmente. Mas não é nada que eu não possa resolver depois de umas sessões no psicólogo.
– Ah, desculpe-nos! Esquecemo-nos do seu... er... Acidente – Olivia comentou, parecendo se sentir incomodada com o que me acontecera durante as férias. E era por isso que eu evitava tocar nesse assunto com as minhas amigas.
Eu dei de ombros com um sorriso incômodo.
Se aquele assunto até as incomodava, imaginem como eu me sentia!
– Hum, quem é o nosso recordista? – mudei de assunto, novamente analisando o seu nome.
Quentin McCullogh... Por algum motivo, era-me familiar.
– Ele é um aluno novo – uma de minhas amigas respondeu. – Entrou no início desse semestre e já está fazendo o maior sucesso entre a mulherada! Também né? Ele é muito bonito... E sexy. Tá, ele é mais sexy do que bonito! Ele é meio calado, meio apático... mas quando ele sorri! Parece um feito histórico! Estão vendo? Só de pensar nele já sinto um calor subindo...
Olhei para Olivia, pois era ela quem falava. Sempre perdida em seus monólogos e falando mais do que o suficiente por nós três. Era muito divertido ouvi-la conversar, apesar de que algumas vezes ela monopolizasse a conversa. Sorri ao vê-la se abanando, como se estivesse com calor de repente e revirei os olhos.
– Ele é assim tão bom? – perguntei à Paloma, que era mais pé no chão.
Ela cruzou os braços e assentiu com a cabeça.
– Infelizmente, é sim – ela respondeu. – O cara é meio reservado, mas é muito bonito. Não tipo um Deus Grego... Mas ele tem um olhar que é tipo: “quero-te nua na minha cama”.
Eu ri de sua colocação e ela também, pois geralmente era reservada e não dava esse tipo de opinião. Isso era trabalho de Olivia, que naquele momento deveria estar preocupada em abanar outro lugar que não fosse o seu pescoço.
Depois, o primeiro sinal tocou e eu as puxei para fora do banheiro, apesar da relutância de Olivia. Infelizmente, minha primeira aula da manhã não seria com elas, pois, apesar de marcarmos para fazer todas as aulas juntas, elas se recusavam a estudar “literatura estrangeira” comigo. No entanto, o pensamento de ter a próxima aula com elas me acalmava.
Despedimo-nos no Hall de entrada e eu fui para a minha sala de aula.
O professor George Dummond, ergueu seu olhar e sorriu quando me encontrou. Acho que ele sentiu saudades minhas, pois nenhum outro aluno gostava de fazer perguntas sobre os textos. Na verdade, os alunos que sequer compareciam à sua aula, a usavam como “uma extensão de seu sono” e com isso eu quero dizer que eles só a usavam para dormir sem serem castigados. George sempre disse que professor não era despertador para ficar acordando os alunos desinteressados.
– Srta. Letterman, que bom vê-la de volta ao colégio – ele me saudou muito feliz.
– É muito bom estar de volta, professor Dummond – admiti parando em frente à sua mesa. – Senti falta das suas aulas. Sabe que “Literatura Estrangeira” é a minha matéria favorita.
De repente, ouvi um pigarro que dizia:
– Bajuladora.
Eu revirei os olhos e encontrei Yvonne Tybolt encarando-me provocativamente. Ela implicava comigo sem eu entender direito o porquê, creio que foi porque eu dei um “chega para lá” nela quando ela disse algo sobre o como Duncan era bom de cama. Sim, ela era a ex-namorada dele na época em que estávamos juntos. Era uma recalcada. Se bem que, desde aquela época ela já implicava um pouco comigo.
Pelo incrível que pareça, eu não a havia “rechaçado” porque eu queria ser maldosa com ela nem nada do tipo, mas pareceu-me a melhor coisa a ser feita do que admitir que uma garota de dezoito anos ainda fosse virgem. E, acreditem, não foi por falta de tentativa dele.
Foi porque eu não queria. Na verdade, eu queria... Mas meu medo de ficar nua na frente de um garoto sempre falava mais alto e eu acabava saindo correndo. Sempre. Sempre. Sempre.
É. Eu sou bem tímida para esse tipo de “intimidade”.
– Senti sua falta também, Tay – eu comentei dando um sorriso de canto.
Esperava que meu sorriso de canto dissesse: “Mentira, eu pouco me importo com você”.
– Engraçado, acho que ninguém sentiu falta de uma bulimica aqui na escola – ela disse.
Meu sorriso se desmanchou. A garota cruel pegou pesado. Acho que até o professor percebeu a sua agressividade, pois mandou um “Srta. Tybolt” meio tossido, como se houvesse ficado chocado. Eu não o repreendi. Muitos professores não gostavam de comentar sobre o motivo de minha ausência, nem a professora Rebecca quis comentar sobre isso, e ela é a psicóloga que irá me atender depois das aulas.
No entanto, não querendo ficar por baixo, eu ignorei. Sabia o que havia feito. E sabia que isso havia me marcado para sempre como “a garota bulimica que teve que ser internada antes das aulas”. Mas, em minha defesa, as pessoas não deveriam me julgar sem saber como a minha vida é um inferno graças a minha mãe, meu padrasto e a filhinha perfeita dele.
– Aqui está a lista de livros que iremos ler – o professor chamou a minha atenção ao estender um pedaço de papel branco com palavras impressas. – Começamos a ler “Flores do Mal” de Charles Boudelaire.
Concordei com a cabeça e sorri.
– Hm, escritor francês. Requintado – comentei, tentando manter um pouco do bom-humor.
Ele sorriu e gesticulou para que eu me sentasse onde estivesse vago. Virei-me e analisei a sala de aula. Havia muitos lugares vagos. Ninguém tinha duplas numa aula como essa, pois, como eu pensei, eles escolhiam aquela aula para dormirem. No entanto, quando me viram escolhendo um lugar para ocupar, colocaram suas mochilas na mesa do lado. Como se dissessem: “foi mal é para o meu amigo”.
E eu sabia que não teria amigo nenhum.
Eles só não queriam se sentar ao lado da garota bulimica e que já fora uma das mais odiadas do colégio St. Justine. Porém, olhei para um garoto cujo rosto estava escondido atrás de um livro fino e pequeno. É, amigo desconhecido, hoje é o seu dia de sorte. Não sei se ele percebeu o que estava acontecendo, mas, diferente dos outros, ele tirou a sua mochila da cadeira ao seu lado. Como se dissesse “é toda sua”.
Sorri e a ocupei, tentando não atrapalhá-lo. Mas quando vi o livro que ele lia, tive que fazer uma brincadeira.
– Eles morrem no fim – murmurei-lhe.
Ele abaixou o seu exemplar de “Romeu e Julieta” e me olhou com bom humor.
– Nossa... Acho que perdi a vontade de continuar esse livro agora. Como você pôde me dar um spoiller desses?! – ele disse brincando comigo.
Eu dei um meio sorriso.
Era um garoto bonito. Não bonito tipo Duncan Gifford, o garoto que faz uma garota desejar jogar futebol americano só para ser agarrada com força por ele. Mas era bonito de um jeito charmoso de um jeito cujo olhar dizia: “consigo fazer você se molhar com uma piscadela”.
Ele era um garoto de cabelos negros e meio grandes. Não grandes a ponto de ser em estilo Heavy Metal, mas um grande moderado como Pop Rock. E ainda eram meios bagunçados como se, ainda mais cedo naquele dia, alguém houvesse tentando agarrá-lo e devorá-lo. Sua pele era bronzeada, como se até pouco tempo ele houvesse morado perto da praia. Seu rosto era formado por expressões fortes e suaves, tal como a sua forma física, formada por músculos rígidos, mas delgados.
Porém, chamando a minha atenção totalmente, estavam os seus olhos. Claros e estreitos. Com um brilho estranho. Parecia que ele era como um daqueles vampiros dos livros capazes de me manipular só com o olhar e a voz mansa. E acho que ele poderia.
– Gostei da blusa – ele disse, provando que me analisava também.
Olhei para mim mesma, perguntando-me que blusa eu havia vestido naquela manhã. Só ele para me fazer esquecer uma roupa que eu vestira a menos de uma hora. Era uma blusa roxa e curta, que mostrava parte da minha barriga muito magra, mas que, para mim, não era “magra o bastante”. Lembrei-me que eu a havia escolhido porque combinava com a saia estampada que eu estava usando e porque queria mostrar para a minha mãe o que a sua obsessão pela beleza fizera comigo.
E ela ainda dissera que eu não tinha “corpo” para usá-la.
– Não seria melhor você dar essas suas roupas para Ellen, a sua irmã? Ficaria bem melhor nela – ela me dissera naquela manhã.
Voltando ao presente eu engoli em seco e pensei com ironia: “Claro, que tipo de garoto não gostaria de ver uma garota com a barriga de fora?”. O que me dava mais segurança para usar aquela blusa era que a minha saia tinha cintura alta.
– Obrigada – agradeci, com um sorriso meio difícil. – E eu gostei do... Seu anel. Procurei por um desses uma vez, mas o que eu encontrei estava meio desgastado. Não é muito fácil de achar.
Ele olhou para os seus dedos e observou o seu anel no dedo indicador. Era um daqueles anéis, o seu acho que era de latão ou de ferro, que pegavam o dedo todo. Parecido com o de Lestat no filme “Entrevista com Vampiro”, mas sem a garrinha para sair arranhando todo mundo.
– Obrigado... Geralmente eu usava no dedo médio para meu “gesto obsceno” ter mais impacto – ele comentou. – Mas acho que fica melhor no indicador.
Eu concordei com a cabeça e o segundo sinal tocou, fazendo o professor se levantar do seu lugar e começar a dar a sua aula. Fazendo comentários sobre o livro e os poemas de Charles Boudelaire e sobre os problemas que esse livro teve quando foi lançado: as críticas recalcadas do “Le Figaro”, o recolhimento por ser considerado um “atentado à moral e aos bons costumes”...
Em nenhum momento o garoto ao meu lado dormiu ou abaixou a cabeça.
Esse era dos meus.
– Desculpe – ele chamou a minha atenção uma única vez. – Qual é o seu nome?
– Brucena Letterman – eu respondi com uma careta, odiava o meu nome. Era ridículo. Era o nome que mamãe daria se fosse um garoto (Bruce), mas como veio uma menina... – Mas todos me chamam de Letty.
Ele sorriu e estendeu a mão.
– Eu sou Quentin. Quentin McCullogh.
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