Nossa história
1 A primeira vez que a vi
Notas iniciais
Olá? Meu nome é Hernando, é, nome meio incomum, eu sei, mas o que posso fazer? meus pais gostaram. Eu estudo em uma escola particular de minha cidade, é uma das melhores, mas aparentemente só eu discordo disso, porque convenhamos, a vida em uma escola assim não é tão fácil para um bolsista pobre que mal tem onde cair morto, a maioria das pessoas de lá tem pais que são donos de empresas ou ganham um bom dinheiro fazendo sabe-se Deus o que, eu não, meu pai é um mecânico e minha mãe auxiliar de cozinha, mal tiramos 2 mil reais por mês, e isso é o que aquelas pessoas de minha sala gastam em suas mensalidades e apostilas. Sabe como eu consegui minha apostila? tive que comprar uma usada de um aluno do 3° ano que teve pena de minha situação. Mas não é disso que eu quero falar, eu quero falar sobre minha rotina, sobre meu dia a dia, e principalmente, sobre aquele dia...
12 Fevereiro de 2014, volta as aulas
Eu cheguei na escola, tudo parecia normal, aquelas crianças correndo felizes e brincando, as garotas se abraçando falando que sentiram saudades umas das outras, e os meninos naquelas rodinhas de sempre conversando sobre como foram suas férias, contando animadamente sobre os passeios que deram em seus carros caros, nas festas exclusivas que foram e ficaram bêbados, e sobre as inumeras garotas "gostosas" que beijaram. Digamos que eu não tinha ninguém para contar como foi minhas férias, nem para falar que senti saudades, pois eu não me encaixo em nenhum dos grupos, eu nunca fui bom no atletismo, logo, não me dou bem com os que praticam esportes, eu também nunca fui um dos populares, aliás, estou bem longe disso, e apesar de inteligente eu também nunca me encaixei com os nerds, eu era apenas o estranho daquela sala, ou melhor, daquela escola. Assim que entrei na sala eu me deparei com um rosto novo, nunca tinha visto aquela menina em minha escola antes, eu lembraria, porque aquele rosto dela é algo que marca, posso dizer com extrema certeza, mas logo fui despertado de meus pensamentos com o empurrão que levei do Matheus, um idiota que se acha, não sei como tem tantas meninas afins dele, o cara é um babaca.
- Ei estranho, não está vendo que ta ocupando meu caminho? Sai logo da frente, e vê se não baba muito na garota nova, você não tem chances, e mesmo que tivesse, eu é que vou pegar ela — Matheus disse me empurrando novamente, e dessa vez fez com que minha mochila caísse no chão.
- E-e-ela não é um objeto para você pegar, não chega perto dela — Eu costumo gaguejar quando estou nervoso, e nem sei porque disse aquilo, eu nunca fui de me manifestar quando ele mexia comigo, mas naquele momento senti uma raiva tão grande quando ele falou "vou pegar ela".
- Olha, não é que o estranho quer defender a gostosinha — Matheus falou rindo
Foi nesse momento que eu fiquei com mais raiva ainda e tentei dar um murro em seu rosto, falhei miseravelmente, acabei acertando o pescoço da Carolina de raspão, a professora chegou nesse exato momento e eu envergonhado peguei minha mala e tratei de achar logo um lugar para sentar, enquanto ia para a minha carteira de cabeça abaixada, pois estava com medo de ver a reação do Matheus ou de quem estava ao redor.
As aulas foram passando, a mesma coisa de sempre, os professores vindo, se apresentando, e perguntando sobre os alunos, mal conseguia prestar atenção, o único momento que me tirou desse transe foi quando o professor Carlos pediu para aluna nova se apresentar para turma, e foi ali que pela primeira vez eu ouvi a voz dela
- Meu nome é Julia, eu vim de outra cidade, e vou ficar aqui até terminar o ensino médio — Ela parecia meio tímida ao se apresentar, porém falava com uma suavidade, sua voz se assemelhava a sinos tocando.
Quando ela se levantou para falar eu pude perceber que ela era alta, algo em torno de 1,74, enquanto eu mal tinha meus 1,61, não que isso importasse, claro, mesmo eu sendo alto não teria a mínima chance com uma garota como ela, linda, branca, olhos castanhos escuros e cabelo preto cacheado.
Logo que ela acabou de falar a Bia e a Carolina foram falar com ela, provavelmente querendo saber se ela poderia fazer parte daquele grupinho tosco delas, eca, aquelas meninas popularzinhas são nojentas. Enquanto ela falava com as meninas eu notei que ela me olhou, espera, ela me olhou mesmo? não, não pode ser... Devo estar vendo coisas, ela não olharia para mim não.
Depois que bateu o sinal que mostrava o fim das aulas eu guardei meu material vagarosamente para esperar a Julia sair, não sei porque, mas eu quis fazer aquilo, assim que ela levantou para sair da sala eu fui mais que depressa até a porta e abri para ela passar ( meu deus, eu não me toquei o quão rídiculo isso foi ), e ela me deu um olhar engraçado em resposta, passou, e falou um 'obrigado' baixo. Eu fiquei tão envergonhado por ter feito aquilo que deixei ela ir na frente, e tomei uma distância no corredor para ficar atrás dela, enquanto me xingava mentalmente por ter agido daquela forma, quando me dei conta lá estava ela, ao meu lado, me olhando e rindo, eu acho que nunca senti meu rosto corar tão rapidamente.
- O que você está cochichando enquanto faz essas caretas? — Julia perguntou rindo
- Careta? eu? é que eu careta faço, quer dizer, eu faço careta quando-quando-quando eu penso — Eu disse apressadamente, e sim, eu também tinha mania de trocar as ordens das palavras
- Ah, entendi, e estava pensando em que? — Julia perguntou já parando de rir, mas sem tirar o sorriso de seu rosto
- Em nada de importante — menti, pois mesmo sem a conhecer, já achava importante pensar nela, devo estar ficando louco mesmo
- Não vai me contar não? Olha que eu fico brava! — Julia
- Em como eu fui estúpido correndo de um jeito mongo para abrir a porta para você sair... — eu disse baixinho envergonhado
- Se você quer saber, eu achei fofo — Julia falou me olhando diretamente nos olhos agora, e nem deu para perceber nossa diferença de altura nessa hora, pois olhar naqueles olhos faziam qualquer empecilho parecer bobagem
Foi nessa hora que o Bruno chegou
E aí? Você é a garota nova não é? Então, se quiser fazer amigos e dar uma relaxada aparece em minha casa final de semana, me passa seu número depois que eu passo o endereço, vou fazer uma festinha — Bruno falou e logo já foi embora
a Julia me olhou sem entender muito bem e falou
- Porque ele só convidou a mim? — Julia
- É... digamos que não tem o costume de me convidar para as coisas, quer dizer, as pessoas não tem o costume de me convidar, ah, você entendeu — eu disse já bravo novamente, porque esses garotos querem chegar perto dela? esses idiotas
-Ta falando revoltado porque? não gosta dele? e porque não te convidam? — Julia
- Você gosta de fazer perguntas, em — Eu disse já recobrando meu tom calmo e tímido
- É, e você vai me responder todas elas amanhã, não vai? É que agora minha mãe chegou, e eu preciso ir para casa, até Hernando — Julia disse e foi em direção ao carro de sua mãe
Eu mal respondi um "até", pois estava atordoado, primeiro, como ela sabia meu nome? segundo, era sério tudo isso? ela estava falando mesmo comigo? e quer conversar de novo? isso tudo parece tão surreal, quer dizer, a garota nova realmente falou comigo!
Wow, esse dia vai ficar marcado.
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