Tempestade invadiu com tudo o alojamento de Soluço. Ele levantou-se num susto, o coração falhou uma batida, e mais algumas quando se situou diante da cena. A fiel dragão de Astrid, desesperada, parecia pedir ajuda. Sem pensar mais um segundo, pulou em cima de Banguela e voou até ela.

A amiga estava sentada em seu alojamento, não parecia nada bem e pareceu surpresa com a chegada dele.

— Soluço, o-o que tá fazendo aqui? — a voz dela era arrastada, em nada tinha do seu tom firme habitual. Soluço a viu cobrir o braço esquerdo com a mão.

— Eu achei a Tempestade um pouco preocupada e eu... — Astrid começou a tossir o impedindo de continuar. Ele esperou-a se acalmar, em seguida aproximou-se, abaixou-se para ficar em sua altura e delicadamente retirou a mão dela do que agora ele via ser um ferimento.

— Não encoste! — Astrid alarmou-se, tentou se afastar dele levantando-se, mas sentiu as pernas tremerem e disfarçadamente tornou a sentar.

— Por que não me contou? — ele perguntou, segurando pela mão o braço ferido dela.

— Não foi nada! Apenas um arranhão. — a voz arrastada da amiga o incomodava cada vez mais.

— Onde se arranhou?

Ela suspirou.

— Eu tive um dia horrível, Soluço, eu não...

— Onde se arranhou, Astrid? — perguntou mais firme, tentando controlar a custo a preocupação que crescia.

Ela ainda pareceu relutante, mas sabia que não tinha escolha.

— Foi um dos... — suspirou. — um dos tripulantes do navio que eu encontrei hoje mais cedo.

Soluço estreitou os olhos. Ele puxou o braço dela mais para próximo de sua vista. Aquele arranhão era mais que evidente, estava de um vermelho vivo e se destacava ante a pele alva de Astrid, porém ele não o tinha visto pela manhã quando ela voltou da patrulha. Estava inflamando. Engoliu em seco, a voz de Perna de Peixe soando amedrontada em seus ouvidos: "O Flagelo de Odin.". Ele a olhou novamente, Astrid tinha os ombros caídos e os olhos baixo, além de parecer respirar com dificuldade. Afastou a franja da testa dela com delicadeza e a tocou, quente, mais quente do que deveria. Mais uma vez respirou fundo tentando controlar-se.

— Vou chamar o Perna de Peixe. — ele levantou-se.

— Não. Não precisa. — ela o segurou pelas mãos. — Eu estou bem. — Astrid logo o soltou e tornou as mãos ao colo, ele percebeu que foi simplesmente porque ela não conseguia sustentar o minúsculo peso das mãos dele. — Acho que estou um pouco cansada, só isso, é mais emocional. — ela suspirou. — Não foi fácil aquela visão no barco, sabe? — ela voltou a tossir.

Soluço estreitou os olhos novamente para ela, esperando pacientemente que a crise de tosse acalmasse. Quando o fez, ela enfim o olhou, sem ter mais justificativas.

— Agora você vem comigo. — ele abaixou-se e a pegou nos braços.

— Soluço... ah, o que... o que está fazendo?

— Eu vou te levar pra cama, depois vou chamar o Perna de Peixe. E você não vai discutir comigo. — ele pontuou enquanto ia com ela escada à cima.

Tudo indicava que ela não estava bem. Soluço sentiu que todo o corpo de Astrid estava mole e mais quente que a temperatura normal. Também, em outra circunstância ela teria pulado do seu colo e provavelmente lhe dado um soco. Mas, Astrid lutava apenas para manter os olhos abertos e não se aconchegar no ombro dele, o que não conseguiu.

Ele a colocou com todo cuidado sobre a cama.

— Soluço, por favor, eu estou bem.

— Você pode estar tudo nesse momento, menos bem — ele lhe acariciou o rosto com todo carinho, tendo em seus olhos a preocupação genuína mais que evidente. — Mas, vai ficar. Eu prometo.

Saiu em seguida pedindo que Tempestade ficasse de olho nela.

~

O diagnóstico de Perna de Peixe foi inconclusivo, embora o viking temeroso insistisse no Flagelo de Odin não tinham informações suficientes sobre a praga e por isso Soluço insistia em descartar a possibilidade. Porém, embora soubesse que Perna de Peixe era apenas um entusiasta em curandeiro sabia que o amigo era um aluno sagaz e dedicado. Soluço apenas se recusava a aceitar que Astrid, a sua Astrid pudesse estar sofrendo daquele mal. Não ela, tão forte, tão... Astrid.

Perna de Peixe então foi às pressas acordar Melequento, explicar a situação e o mandar para Berk atrás das anotações de Gothi. Agora só restava a eles esperar, o único problema era que o tempo parecia não passar.

Madrugada adentro e Soluço tentava acalmar seu interior com inúmeros pensamentos positivos de quê: " não era nada demais", enquanto o coração em seu peito estava tão pesado e tão gelado quanto uma pedra de gelo. A angústia ameaçava tomar conta dele todo se ele não lutasse bravamente para permanecer otimista. A olhou novamente, Astrid tinha os olhos fechado, respirava com dificuldade, mas parecia realmente ter pegado no sono. Aproximou-se da cama. Perna de Peixe, diante do olhar quase hipnotizado do amigo para ela, pigarreou e murmurou que iria buscar mais água.

— Só não entre em contato direto com o ferimento, Soluço — sentiu-se no dever de alertar antes de descer.

Ele sentou-se ao lado da amiga na cama, a mirou por uma infinidade de tempo. Delicadamente tocou-lhe a face, desenhando-a com a ponta dos dedos. A pele dela estava empalidecendo, aquela pele tão lustrosa e brilhantemente alva. Ele tocou os lábios que agora tinham um tom de vermelho descorado, lembrando-se do quão eram doce.

— Não posso perder você. — sussurrou. Tornou a acariciá-la na bochecha. — Me diz o que eu vou fazer se eu perder você, Astrid?

Ela gemeu em meio ao sono.

Uma lágrima rolou dos olhos dele. O coração cada vez mais pesado, por nunca a tinha visto daquela forma, tão debilitada, tão fraca.

— Aguente, por favor, aguente.

Mais horas se passaram. Astrid voltara a despertar, Perna de Peixe fazia anotações ferrenhas e precisas sobre seu estado a cada minuto e Soluço andava de um lado para outro no dormitório dela. Podia até a está incomodando, ela já tinha o mandado parar algumas vezes, mas ele simplesmente não conseguia ficar imóvel por muito tempo.

— Tem certeza de que está confortável? — perguntou quando a viu mexendo-se novamente inquieta, aproximando-se mais uma vez de sua cama. Ela sorriu fraca e aparentemente tentando não fazê-lo.

— Soluço — disse ela e em seguida começou a tossir. Soluço passou a mão por sua testa, e ela estava cada vez mais quente.

— Mas, que droga! Onde está o Melequento? — resmungou. Sentiu a mão dela segurar a sua e puxá-la delicadamente de sua testa. Um solavanco no peito o alertou que aquele toque era importante demais, porque num mísero segundo uma calma se abateu por ele.

— Eu vou ficar bem! — a voz forçada dela podia indicar o contrário.

— Sim, você vai.

Melequento retornou e diante das anotações trazidas Soluço reuniu os Cavaleiros para partir atrás do tal Buffalord. Não importava se eles teriam que revirar o arquipélago ou o mundo, encontraria aquele dragão. Embora, infelizmente, tivesse que admitir no íntimo, nada adiantaria se o dragão não existisse mais, Astrid só tinha duas luas.

Aquilo foi como uma facada em seu peito. Enquanto preparava Banguela para viagem, em seu alojamento atirou na parede com toda força meia dúzia de ferramentas, a raiva e o desespero enfim tomando conta de seus poros, a imagem dela desfalecendo em seus braços minutos antes o deixando sem ar. Aquilo não era justo. Ele não poderia perdê-la.

Astrid era parte muito preciosa dele. Ela sempre esteve com ele em seu presente e por algum motivo lhe representava o futuro. Astrid sempre enxergava à frente, enxergava algo nele, que nem ele nem ninguém conseguia ver, enxergava o futuro. Ele sempre remetia Astrid a um belo futuro. Não podia ficar sem ela. Não teria futuro sem ela. Não enxergava nada sem ela.

Banguela aproximou-se cauteloso dele, enquanto ele tentava aplacar sua fúria. O dragão buscou sua mão com o focinho e Soluço buscou o ar com mais força, enquanto o acarinhava.

— Precisamos achar aquele dragão, amigão. — disse ele para Banguela, os olhos rasos. — Me ajuda? Me ajuda.

O dragão assentiu, e lhe acarinhou a face com o focinho. Soluço mais uma vez agradeceu aos deuses por aquele amigo, suspirou tomando as rédeas de seu autocontrole novamente. Ele precisava estar firme agora. E então voaram até Astrid novamente.

— Tempestade vai ficar com você. — ele disse a ela. — E nós vamos trazer a sua cura.

Ela assentiu fracamente.

— Eu só quero que me prometa que vai continuar sendo a garota mais forte que eu conheço.

Ela lhe deu um meio sorriso, os olhos mal abriram.

— Prometo. — a voz não passava de um murmuro.

Soluço lhe deu um beijo na testa ainda quente e partiu.

~

Então estava ali novamente, esperando. Com a ajuda dos deuses tinham encontrado o Buffalord. Porém a saliva do dragão secava rapidamente em contato com ar, e se não podiam levá-lo até Astrid, trariam Astrid até o dragão. O que fosse preciso seria feito para curá-la. Melequento logo se adiantou dizendo que ia buscá-la no Domínio, não dando nem tempo de Soluço se opor, já tomara distância montado em Dente de Anzol. Então era só o que restava a ele, espera.

Longos minutos depois, enfim avistou Tempestade. Ela voava rápida, porém cautelosa. Mas, apenas o impacto do pouso da dragão fez Astrid pender e escorregar de sua sela. Soluço adiantou-se rápido e segurou-a antes que ela caísse no chão. Não pôde deixar de pensar que seus braços, embora mais franzinos do quê os de um viking comum, abrigava o corpo dela perfeitamente, e estariam sempre ali para ampará-la . Astrid gemeu, provavelmente, sentindo dor. Estava completamente pálida. Os olhos inchados com as pálpebras esverdeada se abriram por um mísero momento, reconhecendo que olhava para ele sinalizou que não aguentava mais.

Soluço percebeu e ele entendeu. O coração apertou com força.

Shiii, descansa. — disse enquanto tentava trazer a voz mais calma e doce que podia, pois sua vontade era gritar desesperado. — A gente vai conseguir, eu te prometo, Astrid. Você só tem que continuar lutando e aguentar firme. — tentava passar para ela a confiança que se obrigava a ter. Ela tinha que ficar bem.

Carregou-a até ajeitá-la o mais confortavelmente que pôde recostada numa rocha.

Você tem que ficar com a gente — ele tinha que suplicar, precisava suplicar. Ela tinha que resistir. — Eu não consigo imaginar um mundo sem você.

Sim, ele tinha tentando. Nas horas de espera por Melequento ele se torturou tentando imaginar um mundo sem ela. O tempo estava esgotando-se afinal, e como nada na vida daquele viking era fácil, às vezes ele pensava que tinha que se preparar para o pior. Mas, aquilo ele não conseguiu fazer. Imaginar um mundo sem Astrid Hofferson foi uma tarefa tortuosa, cruel e inglória, pois ele simplesmente não conseguiu realizá-la. Não existia um mundo sem ela.

A viu gemer novamente, e poderia ser sua imaginação ou seu otimismo falando mais alto, mas sentiu um pouco mais de força vindo dela. Ele sentiu a sua Astrid mesmo debilitada. Como se ela estivesse tentando lhe dizer que lutaria.

Soluço levantou-se forte outra vez, continuaria tentando com ela, até o fim.

(...)

Notas finais
Finalmente eu desempaquei dessa história e tá aí gente, a primeira parte!
Espero que curtam e me digam o que acharam.
Agradecida sempre de todo o coração pelo carinho que vocês mandam nos coments, tem ajudado muito!
Até o próximo!