Notas iniciais
Olá,
Tenho essa história escrita há muito tempo, veio de uma ideia bastante abstrata. Espero que goste.

Eu nunca imaginaria um final assim.

Apoiei meus braços cansados sobre o comprido cabo da pá, mirando o buraco que acabara de cavar. Cerca de um metro e meio de profundidade, aquilo havia me rendido muitas horas. Limpando o suor que escorria em minha fronte percebi que a noite já havia caído, não tinha a menor ideia de que horas seriam.

Alugamos a pequena casa há cerca de um mês, fugindo da caótica São Paulo. O lugar é belo, com toda certeza você teve um grande bom gosto em escolhê-lo. As pequenas flores amarelas rodeavam toda residência, escondida em meio às frondosas árvores da região. Queríamos tanto restaurar nosso relacionamento.

Lançando a pá ao chão, virei-me para a pequena chácara. Andando lentamente me encaminhei a ela, tomaria um banho antes de qualquer coisa. Nunca gostei dessas noites quentes de dezembro, assim como você.

Sua personalidade sempre fora forte, e essa é uma das coisas que me atraíram entre tantas outras. Seus olhos castanhos, seus lábios finos, sua mão tão gelada, seu rosto pálido. Eu te amarei para sempre, e sempre.

Lembro-me do dia que te conheci no metrô, há dois anos. Eu estava tão perdido, até que a garota do casaco vermelho sangue me salvou. Eu lhe dei meu telefone, você me deu uma informação. Jamais imaginaria receber sua ligação dois dias depois. Após três encontros eu soube que lhe amaria para sempre. A franja repicada sob a testa, seu joelho pontudo, a mania de estralar os dedos.

Fomos tão felizes, como almas gêmeas. O poderoso destino nos quis juntos, de tal forma que nada poderia nos separar. Nem mesmo a morte, nem mesmo você.

Sei que você nunca entendeu, e eu não lhe culparia por isso. Algumas coisas fogem do nosso conhecimento, e eu sei também que um dia você verá o quão certo eu estou. As coisas seriam mais fáceis se você apenas tivesse entendido antes de tudo isso, viveríamos nessa casa para sempre. Criaríamos filhos que jamais tiveram a chance de nascer. Festejaríamos natais e aniversários. Eu faria um belo banco de madeira polida, e nele assistiríamos a ida das nossas crianças já crescidas para a vida lá fora. Envelheceríamos e no meu ultimo segundo, eu apertaria sua mão dizendo que te amo tanto. E nada, nada mais me seria necessário nessa vida.

Fiz o que pude, e sei continuarei fazendo até que o universo se desfaça em pó.

Pouco depois de sair do meu banho gelado já podia sentir as gotículas de suor se formando em minha testa. Vesti aquela camisa que você me deu, azul da cor do céu. Lembro-me do quanto insistia para que eu a usasse sempre.

Mirei seu rosto calmo e tão branco. Sei que me perdoa, pois logo estaremos juntos novamente. E dessa vez será para todo o sempre.

Tomando seu corpo em meus braços com cuidado e amor, caminhei até o jardim, lhe repousando carinhosamente no buraco úmido que havia cavado. Dessa vez não houve briga, não tive de escutar sua voz me mandando ir embora aos berros, dizendo que não me ama e que estou louco, há se você soubesse o quanto isso me machucou, fiquei fora de mim. Todavia isso estará enterrado nesse mundo, assim como nossos corpos.

Apressadamente voltei ao quarto em busca daquela caixa de madeira, não queria lhe deixar desacompanhada lá fora, poderia ser perigoso pra você. Em menos de um minuto eu já estava deitado ao seu lado, você é tão linda dormindo. Há algo na sua essência que me aprisiona, algo que vai além da aparência ou de qualquer palavra, só sei sentir.

Entrelacei nossos dedos, e soube que seu corpo sentia frio ao apertar seus dedos gélidos e resistentes. A mancha de sangue que teimava em surgir na altura das suas costelas estragava aquele vestido lilás que você adora. Não se preocupe querida, eu posso lhe comprar outro de presente onde quer que estivermos num futuro próximo.

─ Segura minha mão, pois eu te amo.

Quero tanto sua resposta, como uma criança indo ao parque num dia de sol abro a caixa com a mão livre, ajeitando o gatilho de forma ansiosa.

O estalo alto e rasgado veio tão rápido ao céu da minha boca e como se não houvesse tempo tudo estava cinza, como um dia de chuva. Não me deixe só.

Fique comigo.

Notas finais
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!