Nos olhos de Sinatra
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado." - Coração de Tinta
É incrível a forma em que o tempo e o clima influenciam a tudo e a todos, desde um simples passeio a céu aberto até uma prosa entre vizinhos. Já faz alguns dias em que o céu de minha cidade permanece desta mesma forma... estática... imóvel... Está nublado, nublado, cinza e muito estranhamente irresoluto. Não aquele aspecto tempestuoso e catastrófico, encontra-se em um estado de transição do que poderia se tornar algo mais alegremente vivaz... tem o potencial de ser, mas simplesmente não é...
E é exatamente neste momento em que me encontro: sentada em uma cadeira não muito confortável dentro de um famigerado ônibus. Nem mesmo as cores mais vivas do ambiente tem a capacidade mudar o que foi criado por aquele clima tão sombrio. Em momentos de desatenção, acabo reparando nas prosas alheias dos outros passageiros, todos se questionando entre si, ao mesmo tempo que fitavam aquele céu: “Quando será que vai chover?”. Porém, não é feita tal pergunta com um sentido esperançoso e todos sabem disso... é apenas mais uma ilusão de criar vida no vazio... Já me peguei tentando responder essa questão várias e várias e várias vezes e sempre chego a mesma conclusão: a incerteza é a criadora daquele céu.
Em muitos momentos eu me pego encarando aquela vasta imensidão acinzentada. Ao contemplá-lo, vejo que muito dele se assemelha com a vida. Já percebeu como esse tipo de clima torna nossos dias de alguma forma extremamente idênticos a uma sala de espera? Parado... imerso em si... implacável... Percebo cada vez mais algo que posso dizer que seria uma espécie de desencantamento pelo mundo. Não é apenas o céu que está cinza e não é ele o protagonista deste processo tão entediante. O mundo não é mais colorido como pregam os mapas escolares.
Acordar. Banhar. Comer. Sair. Correr. Trabalhar. Almoçar. Trabalhar. Sair. Trânsito. Andar. Correr. Chegar. Comer. Banhar. Dormir. Esse é o modo de viver sagrado de cada dia. Fixo, concreto e sem escapatória. Tudo isso nos torna dormentes, anestesiados. Por causa disso nós perdemos aquele amor, aquela paixão do que seria o mundo, criamos uma falsa felicidade que nos induz a pensar que viver assim é realmente necessário. Tentamos colorir o mundo de forma forçosa e acabamos por não admitir que no fim, nos frustramos como uma criança que tenta pintar um desenho com suas canetinhas de ponta afundada pela pressão. Lutamos para criar cores em um universo onde nós mesmos mantemos preto e branco cada vez mais. Não somos verdadeiramente felizes, não temos verdadeiramente aquela insana vontade de viver. Vivemos com o propósito de buscar a felicidade, mas o nosso verdadeiro objetivo é desmembrar e acolher a infelicidade, que é imposta pelo destino e conduzida por nós mesmos. Rezamos todos os dias para que um trovão cruze, rasgue e atravesse implacavelmente esse céu tão opressor, para que finalmente chova, que caiam gotas capazes de diluir esse Nanquim tão escuro, sombrio e amargo. Que haja um estrondo capaz de quebrar este angustiante silêncio.
Mas... sempre existe um ponto de fuga por trás de tudo o que pareça ameaçador, não que seja algum resquício de esperança, mas é uma pausa entre o espaço-tempo que me permite ter algo que possa ser parecido com alívio. Respiro fundo. Solto. Deslizo uma das mãos em direção ao bolso e retiro um celular e um fone de ouvido. Abro no aplicativo de músicas e dou de cara com os únicos pontos coloridos naquele momento. São profundos, são intensos e peculiarmente penetrantes. Dois olhos de um azul rico e invejável me encaram enquanto enquanto tenho uma corrente de emoções passando por mim enquanto admiro, completamente seduzida, o ritmo e a voz de Frank Sinatra. Se existe algo que possua a capacidade de ter maior mistério que o sorriso de La Gioconda, são os olhos marcantes de Sinatra. Céus, que voz maravilhosa... Me encolho no banco, volto a observar o céu a fora, continuo a escutar em volume alto(Strumming my pain with her fingers, Singing my life with her words, Killing me softly with her song/Dedilhando minha dor com seus dedos,Cantando minha vida com suas palavras,Matando-me suavemente com sua canção) e, pela primeira vez ao longo do tempo, aqueles olhos me fizeram sentir como se o mundo voltasse a ser o que era. O mundo era colorido novamente...
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