— Acorde. Hey, vamos seu idiota! Abra os olhos.

A cabeça de Nolram parecia prestes a explodir. A simples tarefa de abrir os olhos parecia ser impossível para ele. “Me deixe, não vê que eu não consigo?” Mas a voz não parava de chamar.

A luz o cegou momentaneamente. Teve que piscar algumas vezes antes de conseguir enxergar. Achou que não tinha piscado o suficiente quando viu quem estava sentado bem na sua frente. Com as mesmas botas pesadas, ali estava ele, o homem estranho que viu do outro lado da rua. Ainda vestia a jaqueta preta, mas faltava um pedaço da manga no lado direito. O capuz tinha sido abaixado, revelando um rosto estranhamente jovem e sem nenhuma maldade, que contrastava com aquelas roupas. O dono daquele rosto não devia ter mais que vinte e cinco anos, apesar de aparentar ter uns dezoito. A barba comprida deixava seu queixo mais quadrado do que deveria ser. “Sem essa barba, qualquer um acreditaria que ele tem uns quinze anos.” O cabelo era curto e bem escuro, assim como suas sobrancelhas grossas.

— Onde estou? — E sentiu uma pontada forte na cabeça.

— Na minha casa. Aqui, beba um pouco de água. — E entregou um copo escuro. — Mais alguns minutos e você não estaria mais entre nós. — O estranho parecia muito sério, mas havia bondade em seus olhos.

— O que quer dizer? O que aconteceu comigo? Minha cabeça dói muito. — Bebeu quase toda a água de uma vez.

— Não é pra menos. Quando desmaiou, você caiu com tudo. Não seria nenhuma surpresa se tivesse quebrado o nariz ou perdido algum dente.

— Eu… Não me lembro o que houve. Sei que senti uma dor terrível no meu… Oh meu DEUS! — Seu braço estava com duas vezes o tamanho original na região do tríceps. Havia uma bola grotesca que pulsava e tinha uma cor esverdeada, com um furo no centro que soltava um líquido incolor.

— Tente se acalmar. Na hora eu consegui estancar o sangramento com um pedaço da minha jaqueta, mas tive que tirar a atadura quando começou a inchar. O sangramento parou e desde então está com essa aparência. Não, não toque.

— Quem fez isso comigo? — Sua dor de cabeça aumentava e sentia uma vontade insana de coçar aquela bola grotesca em seu braço.

— Você deveria descansar antes de falarmos sobre isso. — Ele parecia muito preocupado.

— Não se preocupe, eu estou bem. Conte-me por favor, o que aconteceu. — E encarou-o, impassível.

— Certo, se você insiste. Eu estava vindo para casa, quando escutei um grito de socorro. Vi as pessoas correndo na minha direção e fiquei assustado. Um momento depois, a rua estava vazia e te vi ali na esquina, ajoelhado. Em seguida, você caiu de cara no chão e foi aí que vi algo em suas costas. Achei que fosse um cachorro. Encontrei um pedaço de ferro bem pesado em uma caçamba de lixo do outro lado da rua e corri em sua direção. Quando cheguei mais perto, vi que na verdade aquilo não era um cachorro. Era algum tipo de inseto, que ficava mais bizarro conforme sugava seu sangue. Eu o acertei com toda a minha força e acabei arrancado uma das asas dele. Ele ainda tentou fugir, mas o acertei bem na cabeça, que explodiu na hora. Bati mais algumas vezes e então me virei para você. Estava pálido e seu braço sangrava, achei que estivesse morto. Cheguei mais perto e vi que ainda respirava, então limpei como pude a ferida e estanquei o sangramento. Tentei chamar a polícia, os bombeiros e até tentei ligar para algum hospital, mas as linhas estavam congestionadas. Te trouxe para a minha casa e esperei algumas horas antes de te acordar.

Nolram escutava tudo aquilo sem expressar nenhuma emoção. Não sabia se aquele estranho estava zombando dele, se estava tentando assustá-lo ou se era apenas louco. Encarou o copo pensando no que dizer, a ferida em seu braço implorava para ser coçada, sua cabeça doía. Não soube o que responder. O estranho então perguntou:

— Qual o seu nome?

— É… Nolram e o seu?

— Sou Todoro, mas pode me chamar de Tod. — Ele sorria, mas seus olhos estavam sérios.

— É, é um prazer, Todoro, digo, Tod. Eu te agradeço por tudo o que fez por mim, mas acho que já estou me sentindo bem. Vou indo nessa, ok?

— Não acreditou em nada do que eu disse, não é mesmo?

— Eu… Não é bem isso, sabe? Só acho que estão sentindo a minha falta lá em casa e se eu não voltar logo, eles podem pensar que aconteceu algo e chamar a polícia, entende?

— … Não tem polícia. As linhas estão congestionadas, lembra? Não dá para ligar pra ninguém e a televisão não diz nada sobre o que está acontecendo. Nem a internet está ajudando. Vários sites estão fora do ar devido ao excesso de acessos. Seja o que for que está acontecendo, parece ser bem grave.

— Você quer dizer que estamos sem comunicação? — Aquilo estava passando dos limites.

— Exatamente.

— Certo, creio que já tomei muito do seu tempo, vou indo nessa. Se importa de abrir a porta para mim?

— Espere um instante. — Então ele se levantou. Alto demais, magro demais. “O que ele quer comigo?”. Dirigiu-se ao quarto e começou a arrastar algo em direção à sala.

À primeira vista, Nolram achou que fosse um saco com algo pesado dentro. Ao se aproximar, pôde ver as pernas preto e brancas grotescamente retorcidas. Uma asa torta pendia de lado e uma barriga vermelha enorme vinha sendo arrastada. A criatura não tinha cabeça. Era repleta de pelos e parecia extremamento dura e forte.

— Veja quanto sangue o cretino conseguiu tomar. — E apontou para a barriga — Creio que não tenha sido a única vítima dele. Se tivesse perdido tanto sangue assim, não estaríamos conversando agora.

— O-o que é essa coisa? — A ferida em seu braço latejava. A cabeça parecia prestes a se partir.

— Não faço ideia, meu amigo. Pela aparência, eu diria que é um Aedes Aegypti. Estudamos sobre eles e as doenças que transmitem nas aulas de biologia. Mas, nunca vi mencionar em nenhum dos livros que eles poderiam ficar maiores que uma criança.

“Criança? Isso é quase do meu tamanho.”

— Aedes Aegypti. Você não quer dizer aquele que transmite a dengue?

— Dentre outras doenças.

— Isso quer dizer que eu posso estar infectado!

— Também cheguei a essa conclusão. É por isso que não posso deixar que saia daqui. Tenho que encontrar algum médico para te examinar e dizer o que é melhor pra você.

— Minha irmã… — A cabeça estava prestes a explodir. Não conseguia mais enxergar direito.

— Não se preocupe com ela, tenho certeza de que está bem.

— Minha irmã… é… — E desmaiou antes que pudesse completar a frase.