Noiva Indomável
2 Uma visão maravilhosa
Notas iniciais

[Darcy]
[Elizabeth]
Darcy sentou-se num tronco caído nas proximidades do lago, perdido em seus pensamentos.
Acreditava firmemente que George Wickham houvesse planejado a emboscada que vitimara sua família durante a viagem para Bremen, na Alemanha, onde deveriam reunir-se à lady Margrethe. O conde Bartholomewe o filho mais velho, John, tinham sido trucidados diante de seus próprios olhos, o mesmo destino sendo reservado aos servos e soldados que os acompanhavam.
De todo o cortejo, apenas Darcy e um jovem escudeiro, Hugh Dryden, tinham sobrevivido. Precavendo-se caso a emboscada falhasse, George conseguira, de alguma forma, implicar Bartholomew numa tentativa de assassinato sofrida pelo rei Henrique IV. Assim, George se assegurara de que o nome do tio ficaria desonrado, transformando o então conde de Pemberley, e seus descendentes, em renegados e foragidos se, por um milagre, escapassem ao ataque.
Entretanto George e o pai, Clarence, mentores da emboscada, não faziam idéia de que houvera sobreviventes. Para ambos, todo o séquito de Bartholomew fora dizimado.
Porém não apenas Darcy salvara-se como mantivera sua identidade em segredo durante todos os anos em que permanecera na Alemanha, preparando-se para o momento em que pudesse voltar à Inglaterra, já adulto, e destruir George.
Imerso em lembranças, Darcy demorou a perceber uma outra presença nos arredores.
Ao olhar na direção da água, julgou que o luar e a névoa estivessem lhe pregando uma peça. Saindo das profundezas do lago, uma donzela como aquelas dos contos de fada. Imediatamente a irritação e amargura se dissolveram no ar. Sentia-se intrigado.
A pele da desconhecida reluzia sob a luz tênue, os cabelos caídos sobre as costas brilhantes como fios de fogo. Por um momento foi dominado por um desejo intenso de tocá-la.
Sabendo-a ignorar sua presença, Darcy a examinou demoradamente de alto a baixo, reparando nas pernas bem torneadas, nos quadris arredondados, na cintura fina. Quase não foi capaz de respirar ao vê-la erguer os braços e atirar a cabeça para trás, como se tentasse alcançar a lua.
Embora fosse impossível enxergar-lhe o rosto, não era difícil imaginara beleza das feições delicadas. Vendo a ninfa sair da água e caminhar até um monte de roupas deixadas sobre um banco de areia, Darcy levantou-se num impulso e caminhou ao encontro da figura etérea.
Ouvindo passos repentinos atrás de si a dama, que começara a secar-se, lançou uma capa sobre os ombros cobrindo-se tão decentemente quanto era possível nas circunstâncias.
― Sir! Isso é uma intromissão! ― Lizzy murmurou ao virar-se e deparar-se com o estranho. O homem se movera tão depressa que não tivera tempo de apanhar a adaga, escondida no meio das roupas. Por enquanto, preferia não fazer nenhum movimento súbito, temendo revelar o fato de que possuía uma arma. Melhor agir de maneira civilizada e aguardar a oportunidade de pegar a faca sem que fosse preciso envolver-se numa disputa.
― Entretanto, hesito em desculpar-me ― ele retrucou, ainda sem poder enxergar o rosto da dama, inteiramente escondido sob o capuz. — Até instante atrás, eu não havia percebido sua presença, porém não vou negar ter apreciado bastante os poucos vislumbres de beleza que me foram concedidos.
― Sem minha permissão!
― Você está com frio. Notei sua pele arrepiada.
Vendo-o aproximar-se, Lizzy recusou-se a se deixar intimidar pela elevada estatura. À distância, percebia-se tratar-se de um homem grande; de perto, a figura revelava-se absolutamente maciça, sólida. Por mais que desejasse apanhar a adaga, Lizzy tinha consciência de que seria subjugada de imediato, caso tentasse atacá-lo.
Precisava dar um jeito de escapar, contudo o cavaleiro moreno e musculoso não demonstrava a menor intenção de deixá-la partir. Talvez devesse simplesmente sair correndo dali. Era bem possível que um homem daquele tamanho fosse lento. Mas e se estivesse errada? E se fosse alcançada? E se ele descobrisse o chalé no meio da floresta, seu único refúgio?
Tampouco poderia correr de volta para a casa de lorde Bennet vestindo apenas a capa. Os homens de seu padrasto com certeza iriam...
― Onde você mora? ― A voz baixa e profunda soou gentil. — Não é seguro para uma dama andar sozinha por aqui. Meus homens estão acampados nas redondezas e eu não poderia me responsabilizar pelo que fariam caso encontrassem uma mulher só nessa escuridão.
Senhor! tratava-se de um cavalheiro, Lizzy pensou aliviada, dando graças aos céus. Movido pelo senso de dever, o estranho sentia-se na obrigação de tratá-la com respeito. Assim, uma mudança de tática tomava-se necessária.
Embora detestasse a idéia, se agisse de maneira melosa, como suas irmãs de criação adoravam fazer, talvez conseguisse convencê-lo a ir embora.
― Vou apenas apanhar minhas coisas e ir...
― Onde é sua casa?
― Perto daqui. ― Lizzy se esforçou para falar com doçura.
― Não posso permitir que vá desacompanhada. Há perigos na noite, minha lady.
Ela queria gritar com o homem, mas controlou-se. Melhor agir como uma dama do que berrar feito uma criatura sem classe.
― Por favor, sir, deixe-me pegar minhas coisas e poderá me acompanhar até o chalé onde moro.
Apesar de, aparentemente, estar lidando com um cavalheiro, quem poderia saber como esse desconhecido iria se comportar no meio do nada? Mesmo lorde Bennet, seu próprio padrasto, tratava-a de forma brutal e violenta. Ao ver o homem abaixar-se e apanhar seus pertences, Lizzy engoliu um gemido de frustração. Agora não teria outra chance de pôr as mãos na adaga. Tampouco seria capaz de vencê-lo numa corrida sem calçar as botas. Pelo que observara, embora muito alto e musculoso, o cavaleiro movia-se com elegância e determinação.
― Você me intriga, minha lady.
― Oh! ― Lizzy virou o rosto e tentou acalmar-se enquanto punham-se a caminho do chalé.
― Logo que a vi, julguei-a uma ninfa, como as das histórias antigas. ― Haveria um traço de diversão na voz masculina? ― Agora sou levado a crer que você seja de carne e osso. Entretanto, não demonstra sentir o menor medo de mim. Por quê?
Se ao menos ele soubesse que seu único desejo era atacá-lo com a adaga.
― Claro que estou receosa, sir. Compreendo quão vulnerável é minha situação no momento. Ainda me perturba saber que preciso contar com seu senso de decoro e cavalheirismo. Por todos os santos, espero que não queira me fazer nenhum mal. ― Ela cerrou os dentes com força para conter a crescente irritação. Se suas irmãs de criação pudessem vê-la, estariam rolando no chão de tanto rir.
O chalé estava bem perto agora, embora a escuridão e as árvores frondosas impedissem o cavaleiro de enxergá-lo. Fora sua madrasta quem o mandara construir, sob o pretexto de ser usado pela família nos momentos de descanso, porém Lizzy sabia que o local costumava ser usado para outros fins. Felizmente lady Edith não estava ali naquela noite, junto de um de seus amigos especiais. Não demoraria muito e estaria atrás da porta trancada, livre do estranho.
― Aqui estamos, sir. Minha.., minha mãe me aguarda ― ela mentiu. Fitando-a atentamente, o cavaleiro aproximou-se, sem dar mostras deque pretendia deixá-la em paz. Inquietava-a ser examinada, de forma minuciosa, por um homem que a vira banhar-se nua. Era indecente. ― Ela está doente e ficará muito preocupada se...
― Quem é você?
A voz baixa e profunda soou aos seus ouvidos como uma carícia. Lizzy sentiu a boca seca. De repente, já não tinha mais medo. Uma curiosidade incontrolável a fazia desejar a proximidade do desconhecido, pois ele a perturbava como homem algum jamais havia sido capaz de fazê-lo.
Antes que pudesse dizer algo, o cavaleiro tomou-lhe o rosto entre as mãos. Logo lábios firmes roçavam de leve os seus. Gradualmente, a pressão foi se intensificando, tomando-se mais exigente, deixando-a ofegante e assustada. Mãos fortes deslizaram sob a capa e a tocaram nos ombros antes de a segurarem pelos quadris. Pressionada contra o corpo musculoso, Lizzy estremeceu, um calor súbito explodindo em suas entranhas.
Nunca experimentara nada assim antes. Nem mesmo William se atrevera a... Foi ela quem rompeu o contato, em choque.
― Por favor!
― Quem é você?
― Solte-me!
— Meu nome é Fitzwilliam Darcy. ― Lentamente, ele a tocou nos lábios com aponta dos dedos antes de tomar a beijá-la.
Lizzy tentou se desvencilhar. Ninguém jamais a beijara daquela forma e sentia-se abalada até a alma.
― Quem é você? ― Darcy tomou a perguntar.
― Ninguém! Eu não sou ninguém! Deixe-me ir! ― Conseguindo soltar-se afinal, Lizzy correu para o chalé, a capa esvoaçando ao seu redor.
Uma vez dentro de casa, passou a pesada tranca na porta e encostou-se na parede até a respiração voltar ao normal e o coração desistir de saltar pela boca.
Embora tivesse certeza de que a ninfa do lago certamente não queria ser encontrada em seus braços, Darcy pensou em arriscar tudo para acariciá-la e experimentar o gosto da boca macia uma vez mais. Aquela desconhecida era diferente de qualquer outra mulher que jamais conhecera. Bela, sedutora, intrigante. Sua própria reação quando a tocara o surpreendera.
Não esperara sentir uma emoção tão forte. Desejava-a como nunca desejara alguém antes. Porém não podia correr o risco de ofender a nobreza local enquanto estivesse a serviço do rei. Restava-lhe apenas deixar essa mulher deliciosa de lado, pelo menos por enquanto.
Por fim, Darcy retomou o caminho do acampamento. Era um homem paciente. Voltaria a procurá-la depois de tudo resolvido em Pemberley.
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