Noiva Indomável
34 Uma Triste Descoberta
Notas iniciais
Dois dias depois, Darcy começava a se sentir melhor, as forças retornando gradualmente. Porém a inatividade o irritava, levando-o, frequentemente, a tratar a esposa e os homens que o serviam com certa aspereza. Lizzy, entretanto, não se sentia ofendida, procurando ter em mente as palavras ternas que ele lhe dissera quando consumido pela febre.
Assim que esse período de convalescença terminasse, rezava ao Senhor para que pudessem chegar a um entendimento. Talvez, percebendo os sentimentos que ela lhe dedicava, o marido pudesse até aceitá-la como verdadeira esposa, apesar de sua origem bastarda.
Darcy, todavia, permanecia confuso. Seja lá o que acontecera enquanto estivera delirando, nada lhe parecia muito claro e não sabia se podia confiar em seus instintos. Lizzy realmente confessara a William Collins ter se casado de livre e espontânea vontade? Que estava feliz com o marido que escolhera? Ou será que ouvira tudo isso apenas em sonhos?
Será que as lágrimas derramadas pela esposa, os cuidados enternecidos que dela recebera, não passavam de frutos de sua imaginação febril? Chegara mesmo a acreditar que Lizzy houvesse dormido ao seu lado enquanto estivera inconsciente apesar de que, agora, ela passasse as noites no quarto ao lado.
Lembranças vagas e doces insistiam em povoar sua mente, as mãos pequeninas e delicadas tocando-o, amenizando suas dores, curando-o. Já não tinha certeza do que era sonho, ou realidade.
Também fora atormentado por visões do pai e irmão massacrados, na estrada para Bremen; de ser levado à presença da mãe e chorado com a cabeça no colo dela enquanto os olhos vazios davam a impressão de não enxergá-lo. Tudo isso também lhe parecera tão real.
No dia anterior à sua partida para a França, Henrique fez uma visita a Darcy Assegurado por lorde Blackmore de que a saúde do duque melhorava a cada dia, o rei decidiu abordar assuntos sérios e colocar o amigo a par dos últimos acontecimentos, desde o ataque de que haviam sido vítimas.
Como Darcy e Elizabeth estavam sós, a conversa pôde transcorrer no clima de privacidade necessária.
— Sabemos que a emboscada na noite do casamento de vocês foi obra dos Lollard — Henrique começou. — Existe alguma dúvida quanto ao objetivo final do ataque, se pretendiam, ou não, me matar. Talvez tenham sido pegos de surpresa diante da ferocidade de nossa defesa e então forçados a lutar com igual brutalidade.
— Mas... — Lizzy quis argumentar, porém o irmão a silenciou com um gesto paciente de mão.
— De qualquer forma, foram todos mortos e os corpos enterrados. Mesmo se não os houvéssemos identificado, não teríamos dúvidas de que se tratava de membros do grupo de fanáticos religiosos. Atitudes já foram tomadas para que incidentes semelhantes não voltem a acontecer.
— Como eles conseguiram chegar tão perto de você, Henrique? — Darcy indagou.
— Infiltrando-se entre os guardas. Sabemos quem foi o responsável, também morto durante o ataque.
— Graças aos céus a rainha Catherine não estava ao seu lado naquela noite, Majestade — Lizzy falou aliviada. — Se ela tivesse sido ferida...
— É verdade. Até o momento em que pude apanhar uma arma, estive indefeso. Você deve agradecer sua esposa, Darcy, por ela lhe ter salvado o pescoço. Não me recordo de já ter visto uma mulher brandir uma espada com tal vigor como lady Elizabeth o fez naquela noite. Querida irmã, seu desempenho foi algo digno de ser visto.
Surpreso, Darcy fitou a esposa.
— Eu sabia de sua habilidade no manejo do estilingue e no uso do arco e flecha. Agora a descubro capaz de manipular uma espada que deve ter a metade de seu peso.
— Majestade, fiz apenas o que julguei necessário, embora de forma bastante desajeitada — Lizzy confessou, corando de embaraço. — Eu... Nunca me ensinaram a usar uma espada.
— Ainda assim, nós dois lhe devemos a vida por ter demonstrado tanta presença de espírito e agido com presteza. Obrigado.
Embora achasse não ter feito coisa alguma para defender o rei, Lizzy aceitou os agradecimentos.
Naquela noite, agira movida apenas pelo desejo de proteger o marido.
— As próximas notícias não são muito boas — Henrique dirigiu essas palavras a Darcy. — Proibi seus homens de tocarem no assunto até que pudéssemos ter certeza de sua recuperação.
— O que houve?
— George Wickham desapareceu.
— O conde de Pemberley? — Lizzy indagou.
— Pelo contrário, minha querida. Pemberley pertence a seu marido agora. Mandei um destacamento para prender George e trazê-lo para Londres. Meus soldados voltaram há três dias, sem George, ou Caroline.
— De alguma maneira, ele deve ter descoberto o que estava acontecendo.
— É provável. Os servos foram interrogados e todos pareciam pensar que George estivesse em algum lugar do castelo, apesar do desaparecimento súbito.
— Eu o enfrentarei.
— Tenho certeza de que sim — Henrique retrucou. — E quando o encontrar, tome as atitudes que achar necessárias. Depois que você o trouxer para Londres, George será julgado de acordo com as provas que me foram apresentadas. Claro que já o destituí do título de conde de Pemberley.
— Agradeço-lhe, Majestade.
— Também, é melhor você saber que homens do barão Bennet estiveram aqui e estão a par de seu casamento com Lizzy. Fui informado de que o grupo retornou para Meryton vários dias atrás, portanto fique preparado para eventuais problemas. Elizabeth deve ser protegida do padrasto, apesar de que o homem seria um completo idiota se pensasse em ofender um duque e, muito menos, o rei. É de conhecimento geral que tenho um interesse especial em Lizzy, assim como meu pai que, uma ou duas vezes ao ano, mandava um homem a Meryton para avaliar as circunstâncias.
Isso explicava os cavaleiros que visitavam Lizzy periodicamente, Darcy concluiu. Pena que nunca vissem a criança espancada e ferida.
— Agora, quanto ao seu pedido anterior, minha resposta é não.
Lizzy olhava de um para o outro, sem entender essa parte da conversa. Não tinha ideia de qual seria o pedido que o marido fizera ao rei.
— Você permanecerá aqui, na Inglaterra, resolverá a questão com George, porá Pemberley em ordem e cuidará de suas outras responsabilidades de duque. — Henrique levantou-se, preparando-se para sair. — Não, fique sentado. Deixe os ferimentos cicatrizarem por completo. Precisamos fortalecer o norte do país, Darcy, e conto com você para proporcionar uma boa porção dessa força.
Darcy concordou com um aceno, enquanto Lizzy acompanhava o rei até a porta.
— Não se esqueça de que também tem uma esposa a quem dedicar atenção. — Henrique abraçou a irmã. — Adeus. Vocês receberão notícias minhas, de Paris. E claro que vou querer saber do desenrolar da situação envolvendo George.
Charles e Chester entraram no quarto logo após a saída do rei. Imediatamente os três homens puseram-se a discutir Pemberley e o que poderia ter acontecido com George.
Conversaram também sobre o que estaria fazendo Hugh Dryden, mandado a Pemberley antes do casamento de Darcy.
Enquanto a conversa se estendia, Lizzy tentava descobrir qual teria sido o pedido que o marido fizera ao rei. Henrique insistira para que o amigo fortalecesse o norte e colocasse Pemberley em ordem. Isso significava que Darcy não pretendera retornar ao castelo imediatamente? Havia planejado viajar para outro lugar qualquer, com a intenção de ficar longe dela? Afinal, o rei fora bastante claro ao dizer que ele possuía uma esposa agora, a quem dedicar atenção.
Quando, por fim, a compreensão da verdade atingiu-a, Lizzy sentiu o coração parar de bater. Darcy pedira para acompanhar o rei na viagem à França. Sem levá-la.
— George deve ter amigos.
— Existem muitos lugares onde se esconder.
— Alguns de nós podem se infiltrar no castelo.
— Precisamos descobrir o paradeiro de Hugh.
A discussão seguiu adiante sem que Lizzy compreendesse o sentido de uma única palavra.
Lágrimas amargas faziam seus olhos arderem e o anel de esmeraldas em seu dedo tinha um peso insuportável. Desesperava-se ao saber que jamais poderia alcançar um entendimento com o marido. Ele a queria longe. Não conseguia suportar sua presença. Fora apenas uma ordem expressa do rei que o impedira de abandoná-la.
O que iria fazer, Senhor do céu? Talvez casar-se com William acabasse sendo uma punição menos dolorosa. Pelo menos ele não detestava sua companhia.
— Partiremos para Pemberley dentro de cinco dias — Darcy afirmou. — Então serei capaz de cavalgar. Todavia, um grupo de quatro ou cinco homens irá à frente. Quero que se juntem a Hugh e vasculhem a vizinhança, vistoriem a aldeia, sigam qualquer indício possível.
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