Noiva Indomável
3 Um plano para fuga
Notas iniciais
Lizzy não foi capaz de dormir durante toda a noite. Sentada na escuridão do chalé, uma manta ao redor dos ombros, tremia sem parar, mas não por causa do frio. Seria bom sair e apanhar suas roupas, que o cavaleiro largara no chão ao beijá-la. Contudo, temia que ele a estivesse aguardando.
Realmente precisava encontrar uma maneira de evitar ser descoberta pelos homens do rei, na manhã seguinte. Entretanto, tudo em que conseguia pensar era em Darcy. Os lábios viris, o modo como à língua impetuosa entrava e saía de sua boca, as mãos fortes tocando-a nos ombros, nas costas, nos quadris...
William nunca sequer a beijara. Ele partira três anos atrás, para juntar-se ao exército de Henrique V, sem nem mesmo pedi-la formalmente em casamento. Apesar de haver prometido voltar logo depois que os territórios franceses fossem reconquistados, nunca mais dera notícias e muito menos aparecera para vê-la. Por quanto tempo mais ele a imaginava disposta a esperar?
A questão era que sentia-se envelhecendo a cada dia. Mary, uma de suas irmãs de criação, não tardaria a ficar noiva, o mesmo destino sendo reservado a Lydia dali a um, ou dois anos. Ansiava tornar-se esposa de William e ir embora dali, ser dona de sua própria casa. E, agora, passara a ansiar por outras coisas também.
Sensações como aquelas despertadas pelo cavaleiro deviam ser pecaminosas. Bastava pensar no que acontecera entre os dois para ser inundada por um calor súbito, que a consumia por inteiro. A lembrança das carícias de Darcy a incendiavam. Isto é, as carícias de William. Claro que iria se sentir assim quando estivesse nos braços de William, depois que se casassem. Tudo seria ainda mais intenso.
Logo antes do amanhecer, Lizzy espiou por uma das janelas do andar superior para ver se alguém se escondia nos arredores. Certificando-se de que Darcy havia partido, apanhou suas roupas rapidamente e voltou correndo para o chalé. Vestiu-se depressa e tomou o caminho de casa. Embora a propriedade de Thomas Bennet fosse grande, sabia que ninguém iria acreditar se afirmasse haver passado a noite inteira no quarto.
Não que o padrasto fosse se importar com seu possível paradeiro. Lorde Bennet esperava dela apenas duas coisas: que administrasse seus negócios domésticos com perfeição e que levasse a culpa quando algo desse errado. Todavia, puni-la parecia ser um de seus divertimentos favoritos, as surras sempre memoráveis. Mas Bridget, com certeza, já teria revirado toda a mansão à sua procura e Lizzy não conseguia fugir ao sentimento de culpa por haver causado tanta preocupação a alguém que a amava como a uma filha.
Afinal, sabia que a saúde da velha senhora não andava nada bem, apesar de não ter idéia de que mal a afligia.
Depois de passar pelo pátio interno correndo, Lizzy buscou refúgio nos estábulos. Não seria essa a primeira vez em que dormiria junto aos cavalos. O sol já ia alto quando ruídos vindos do pátio a acordaram. Sem dúvida um dos soldados do rei conversava com lorde Thomas.
Oh, Senhor, e ainda não traçara nenhum plano de fuga.
Seu coração pareceu vir à boca ao reconhecer a outra voz, baixa e irritada. Darcy, o homem do lago.
― Explique-se, Bennet! ― ele exigiu. ― Onde está sua enteada?
Não havia traço algum de gentileza naquela voz agora, quando na noite anterior soara aos seus ouvidos como uma carícia. Thomas Bennet tropeçou já bêbado, embora ainda não fosse o meio do dia. A barba por fazer, as roupas sujas e amassadas, a expressão virulenta do rosto, detalhes tão familiares a Lizzy, eram quase mais do que podia suportar.
Escondida no estábulo, acompanhou o desenrolar da cena. Não era à toa que o cavaleiro estivesse impaciente. Provavelmente ainda não conseguira uma resposta inteligível do barão desde que chegara.
― Eu lhe digo que ela estava aqui e vou trazer a danada de volta. ― Os olhos injetados revelavam fúria e desejo de vingança. Lizzy não queria ser pega pelo padrasto enquanto ele estivesse naquele estado.
― Retomarei dentro de uma hora ― o cavaleiro falou, sua irritação à altura da raiva do barão. ― Então partirei imediatamente levando a jovem Elizabeth comigo. E melhor tê-la pronta ou se prepare para sofrer as consequências da ira do rei.
Darcy deu as costas a lorde Bennet e afastou-se com uma elegância e fluidez de movimentos pouco comuns a alguém de elevada estatura. Lizzy aproveitou a oportunidade fugidia de observá-lo antes de sumir dali. As feições bem definidas possuíam uma beleza máscula, perturbadora. Mesmo a cicatriz na têmpora direita em nada diminuía o impacto de seu magnetismo quase animal. Os olhos cinzentos brilhavam frios sobsobrancelhas tão negras quanto os cabelos lisos e rebeldes.
Vendo-o passar as mãos pelos cabelos revoltos, num gesto que revelava crescente frustração, Lizzy não teve dúvidas de que precisava agir depressa. Não pretendia se deixar apanhar por nenhum dos homens de seu padrasto e muito menos pelos soldados comandados por aquele inflexível Darcy.
Iria se esconder e aguardar a chegada de William. Somente então, ao lado do noivo, é que se dignaria a viajar para Londres, conforme o rei exigira. Afinal, se saísse de Netherfeild agora, como William seria capaz de encontrá-la? Com certeza ele já estava a caminho.
Sem fazer barulho, Lizzy saiu do estábulo por uma das portas do fundo, puxando Myra pelas rédeas. A velha égua fora recentemente comprada pelo barão e tinha esperanças de que, com um pouco de encorajamento, o animal pudesse regressar para as terras do ex-dono, não muito distantes dali. Os homens de lorde Thomas seguiriam o rastro, claro. O detalhe é que não pretendia acompanhar Myra na jornada de volta ao antigo lar.
Depois de levar a égua até o pé da colina, Lizzy deu-lhe um tapa no flanco e observou-a correr como se o diabo a perseguisse. Então pôs-se acorrer também, só que na direção oposta.
Ao chegar aos arredores da aldeia, parou um instante para passar um pouco de lama no rosto e nos braços. Se, por acaso, um dos homens do barão a abordasse, haveria uma boa chance de ser confundida com uma das camponesas. Senão, toda a gente de Netherfeild sofreria as consequências de seu ato, pagando um preço alto nas mãos de lorde Thomas pela rebeldia da enteada.
Suspirando baixinho e rezando para que seu plano tivesse dado certo, Lizzy embrenhou-se no pequeno bosque.
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