Noiva Indomável
28 Revelação Chocante
Notas iniciais
Edward Markham, conde de Maude Teasdale informou a Lizzy, que iria visitá-la naquela noite. O conde, um dos diplomatas em quem o rei mais confiava, havia retornado da França semanas antes.
Trazendo nas mãos um documento enrolado e amarrado com uma fita dourada, Markham, um senhor de cabelos brancos e idade suficiente para ser avô de Lizzy, saudou-a cortês.
— Minha querida lady Elizabeth, que prazer em conhecê-la afinal. Devo dizer-lhe que você é a imagem de sua mãe.
Extremamente tensa, ela experimentou um choque ao ouvir as palavras do cavaleiro, mas manteve a compostura. Ninguém nunca tocava no nome de sua mãe, exceto Bridget.
— Como vai, sir? Você conhecia minha mãe?
— E seu pai também.
Oh, céus, ali estava alguém que conhecera seu pai. Jamais encontrara uma única pessoa que admitira tê-lo feito.
— Fui informada de que você queria falar comigo. — Apesar do tom de voz calmo e controlado, ela mal podia conter a expectativa.
— Sim. O assunto é de certa forma delicado. — Markham apontou para uma cadeira. — Por que não se senta enquanto conversamos?
Apreensiva, Lizzy obedeceu. Não tinha dúvidas de que estava para ser informada do motivo pelo qual fora chamada a Londres.
— Conheci sua mãe quando ela esteve aqui, vinte e um anos atrás. Uma coisinha vivaz e um pouco difícil de lidar também.
— Está me dizendo que minha mãe era voluntariosa, sir? — Por fim Lizzy sentiu os nervos começarem a relaxar. Os modos do conde, diretos e amigáveis, ajudavam-na a ficar à vontade.
— No mínimo.
— Desobediente? — Intrigava-a imaginar a mãe sob esse novo prisma.
Bridget jamais falara algo negativo a respeito de Meghan. Para a velha babá, Meghan sempre fora perfeita.
— Basta dizer que sua mãe era uma dama alegre e extrovertida, uma presença apreciada na corte. Você deve ter em mente que enfrentávamos tempos difíceis então, quando Henrique Hereford assumiu o trono, ocupando o lugar deixado vago por Ricardo Coração de Leão. Nem todos apoiavam o novo monarca. Lady Meghan Russell havia chegado da Irlanda logo antes da coroação e apaixonou-se por Henrique.
— Minha mãe? — Lizzy sorriu atônita. A idéia lhe parecia absurda. — E o rei?
— Ela... bem, ela o atraia. — lorde Markham continuou. — Muitas das damas buscavam a atenção de Henrique, porém ele tinha olhos apenas para lady Meghan. Você precisa entender que as pressões sobre Henrique eram enormes na época, e as cobranças, constantes. Cabia ao rei manter a monarquia, consertar os erros cometidos pelo seu antecessor, preservar a unidade do país. — O velho cavaleiro fez uma pausa e pôs-se a desenrolar o documento. — Não existe uma maneira fácil de lhe contar isso, lady Elizabeth. Todavia o jovem Henrique desejou que fosse eu a lhe dar a notícia. Afinal, testemunhei os acontecimentos e conheci tanto sua mãe quanto o rei.
— Você conheceu minha mãe... e o rei? — chocada, Lizzy fitou o documento aberto sobre a mesa, reconhecendo imediatamente o brasão real.
— Henrique Hereford, o rei Henrique IV, era seu pai.
— Henrique Hereford — ela repetiu pasma, tendo dificuldade de acreditar no que acabara de ouvir.
— Sim. E o rei Henrique V é seu irmão. Meio-irmão, para ser mais preciso.
Durante longos segundos, Lizzy permaneceu em silêncio, incapaz de articular qualquer som.
Oh, céus, isso tudo era impossível. Intolerável.
— Ninguém nunca me disse nada — murmurou afinal, a boca muito seca quase a impedindo de falar. — Por que agora? Por que mandaram me chamar agora?
— Os últimos desejos de seu pai eram desconhecidos até recentemente, quando esse documento foi descoberto. O rei não pôde casar-se com sua mãe, embora o desejasse ardentemente. Assim, escolheu Meryton para abrigá-las, confiante de que seria um lugar seguro. Henrique estava muito preocupado com a segurança de ambas, em especial a sua, porque o país parecia à beira de uma guerra civil. Seus inimigos poderiam tirar vantagem da situação sem nenhuma dificuldade, se soubessem de sua existência. E por essa razão que sua identidade foi mantida em segredo.
— Mas e agora? — Lizzy secou as lágrimas que teimavam em lhe escorrer pelas faces. Todos aqueles anos acreditando que o pai fora o primeiro marido de sua mãe, um nobre honrado, morto numa batalha.
Entretanto Bridget sabia de tudo e tentara lhe contar a verdade, antes de morrer.
— Esse documento foi encontrado há pouco tempo, entre velhos papéis do rei. Ele menciona você várias vezes, a filha querida.
— Eu. Filha do rei. — Filha bastarda do rei, ela pensou amarga.
— Muitas pessoas sabem agora de sua existência e logo outras também descobrirão sua identidade. Não são poucos os inimigos da Coroa que poderiam tirar vantagem dessa informação.
— Como?
— A primeira ameaça, claro, seria rapto.
— Você está dizendo que alguém poderia tentar me sequestrar?
— Sim. E por isso que Henrique V mandou trazê-la para Londres tão logo soube de sua existência. Para mantê-la protegida.
— Por quê... por que eu deveria acreditar nesse documento? Por que devo aceitar sua palavra de que sou bastarda?
Lorde Markham enrolou o documento devagar.
Não se sentia muito satisfeito com o desenrolar da conversa, lady Elizabeth mostrando-se tão obviamente abalada pelas notícias recebidas. Pelo menos dava-lhe crédito por manter o controle das emoções, sem cair na histeria. Por outro lado, devia ser mesmo difícil fingir indiferença ao descobrir que a própria vida havia sido, até então, uma mentira. Com certeza não a invejava.
— Porque eu estava presente quando tudo aconteceu, minha lady — o cavaleiro respondeu suavemente. — Seu pai me fez confidências. Creia-me, não era minha intenção ofendê-la ao lhe revelar fatos do passado.
Apesar de saber que o cavaleiro era sincero, Lizzy não experimentou nenhum alívio.
— Por que agora? — tornou a insistir.
— O rei, seu irmão, deseja que você se case.
— Casar?
— Sim. Ele escolheu um homem poderoso para seu marido, alguém em quem confia como se fosse um irmão. O duque de Longthon.
— Suponho que esse duque saiba que sou bastarda? — As palavras, ditas em voz embargada, transpiravam amargura.
— Sim, ele foi informado.
— E ainda assim, concordou? O duque está disposto a casar-se com uma bastarda?
— Sem dúvida.
— E se eu me recusar?
— Ninguém se nega a cumprir uma ordem real, lady Elizabeth. Você é irmã do rei e ele está fazendo apenas o que julga melhor para protegê-la, conforme o desejo expresso do pai de ambos.
— E qual era esse desejo?
— Que você se casasse com alguém de seu nível social. Um homem capaz de mantê-la em segurança.
Lorde Markham calou-se, dando a Lizzy oportunidade de digerir a proposta. Ela não tinha outra escolha e precisava entender isso. Vendo-há um pouco mais calma, continuou:
— Sua Majestade não poderá, abertamente, reconhecê-la como irmã, embora muitos suspeitem do fato. Henrique pede-lhe que não confirme nada, e tampouco o negue. Certamente ninguém terá coragem de lhe fazer perguntas diretas.
— Então continuarei a me chamar Elizabeth Bennet?
— Não. Você será conhecida como a duquesa de Longthon. O rei espera vê-la amanhã, logo antes do banquete. E quer que se sente à sua esquerda, no lugar de honra.
Lizzy concordou com um aceno. Que mais lhe restava fazer? Sentia-se pega numa armadilha.
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