Noiva Indomável
42 Pessoa De Confiança
Notas iniciais
Depois de colocar um guarda na porta do quarto da esposa, Darcy tomou o caminho do hall.
— Você já esteve com Bennet? — perguntou ao primo.
— Apenas rapidamente.
— O que ele quer?
— O barão não me disse nada. Embora estivesse sóbrio e se portasse de maneira comedida.
Darcy sabia que precisava se preparar antes de encontrar-se com o padrasto da esposa. Necessitaria de todo seu autocontrole para não espancar o homem até transformá-lo numa coisa disforme.
Olhos roxos, lábios cortados, costelas e dedos quebrados... Odiava pensar no que mais o canalha poderia ter feito.
— O que você fará em relação ao barão Wellesley, primo?
Darcy fez uma pausa no meio da escada.
— Suponho que ele tampouco disse o que deseja comigo?
— Não. Apesar de me parecer ansioso para lhe dar as boas-vindas.
— Não lhe parece estranho o barão querer me dar às boas vindas dentro de minha própria casa? Você o considera confiável?
— Não sei. Talvez deseje apenas agradá-lo.
— Não tenho a menor intenção de confiar em ninguém dentro deste castelo até ser capaz de determinar quem é leal a mim. Porém precisarei de alguém que possa cuidar de minha esposa até que se recupere por completo.
— A governanta não serve?
— Catherine De Bourgh seria minha última escolha.
— Bennet?
— Preferiria deixar Lizzy à mercê de um animal selvagem.
— Que tal o barão Wellesley?
— Existe a possibilidade de que seja aliado de George.
— E a filha do barão, lady Anne? Creio que a conhecemos na Feira de Pemberley. Se me lembro bem, a dama pareceu se interessar muito por você.
— Não estou interessado em outra esposa, Nick.
— Não, todavia lady Kitty está aqui. Talvez ela e o pai ainda não saibam de seu casamento.
— Se não sabem, saberão amanhã. Por que você não tenta conquistar a dama? — Darcy o provocou com um sorriso.
— Boa noite, primo.
Os dois se separaram ao pé da escada e Darcy foi encontrar-se com a família de Victor sozinho. Os Lucas eram um jovem casal, educados e bem vestidos. Com certeza mercadores, não camponeses. Uma ideia súbita ocorreu a Darcy, embora ele duvidasse de que a sra. Lucas aceitasse uma posição no castelo. Victor foi o primeiro a falar, a expressão do rosto infantil dividindo-se entre a ansiedade e o nervosismo.

[Charlotte Lucas]
— Eu esperava ver milady, sir. Queria lhe dar a coroa que fizemos e lhe agradecer por...
— Minha esposa está indisposta. Ela sofreu uma queda nos arredores da aldeia, mas estou certo de que se recuperará logo.
— Ela está muito ferida? Dói muito? — Victor indagou aflito.
— Creio que esteja sentindo dor sim, todavia é provável que já se levante amanhã.
— Eu gostaria de lhe dizer, sir, que nós, da aldeia, ficamos muito perturbados ao ouvir notícias sobre a emboscada que lhe prepararam na colina — Lucas falou, dando um passo a frente. — São muitos os homens que gostariam de ajudá-lo a fazer justiça, a punir quem lhe desejou mal e à sua esposa também.
— Seus esforços são apreciados. Tudo o que lhes peço agora é me informar caso alguns dos capangas de George apareçam na aldeia. Talvez um desses possa nos conduzir ao esconderijo de meu primo.
— Sim, Alteza. Também quero lhe dizer que todos nós ficamos muito satisfeitos ao saber que você, sir Darcy, é na verdade Fitzwilliam Wickham, duque de Longthon. Foi Victor quem nos deu a notícia de seu casamento com lady Elizabeth, uma dama generosa, delicada.
— Lady Elizabeth sempre terá minha eterna gratidão e lealdade, Alteza — a mãe de Victor falou, vencendo a timidez. — Nunca vou me esquecer do que fez por meu filho, na feira...
— O povo da aldeia tampouco se esqueceu de sir Fitzwilliam — o marido a interrompeu. — Nunca haviam conhecido um homem, um forasteiro, que se interessasse por seu trabalho, ou pelo resultado das colheitas. O conde jamais se importou conosco, desde que lhe pagássemos em dia. — Lucas falava devagar, escolhendo as palavras cuidadosamente. Afinal, não era todo dia que um simples mercador se dirigia a um duque. Além de tudo, fora escolhido pelo povo da aldeia para agir como porta-voz, portanto sua responsabilidade era grande. — Bem, desde que os soldados do rei vieram prender o conde, as pessoas mais velhas começaram a falar sobre seu pai, lorde Bartholomew, e como tudo costumava ser então. O ânimo dos camponeses melhorou muito depois de descobrirmos que você estaria retomando a posição de lorde de Pemberley.
— Obrigado, Lucas. Agrada-me estar em casa.
— E lady Lizzy? — Victor perguntou. — Quando posso vê-la?
— Creio que amanhã, por volta da hora do almoço. Porém há um problema — Darcy falou, dirigindo-se a sra. Lucas. — Minha esposa precisa da companhia de uma mulher de confiança, com quem possa passar os dias no castelo.
— Oh, Alteza! Sou a pessoa indicada.
— Verdade?
— Oh, sim. Tenho um débito com a duquesa e, com prazer, serei dama de companhia de uma lady tão bondosa e destemida. Não posso nem pensar no que teria acontecido a Victor se ela não o tivesse protegido.
Charlotte Lucas concordou em assumir a posição de dama de companhia na manhã seguinte. Victor obteve permissão para acompanhar a mãe, pois Darcy sabia o quanto a presença do menino alegraria sua esposa. Ansioso para voltar para junto de Lizzy, ele subiu a escada correndo quando, no meio do caminho, deparou-se com Thomas Bennet. O canalha o estivera aguardando escondido nas sombras.
[Barão Bennet]
— Então você não queria me receber, hein? — A voz pastosa indicava o grande consumo de bebida. — Não pode ceder alguns minutos de seu tempo para conversar com o pai de sua preciosa esposa?
— Como você não pode clamar a honra de ser pai de minha esposa, a resposta é não! Saia de Pemberley imediatamente, Bennet. Não há nada que o prenda aqui.
— Não irei embora enquanto não a vir. Não sei por que o rei a mandou chamar em Londres, mas você deve obrigações a mim. Levou-a consigo e se aproveitou de sua inocência. Não tente negar. E não pense que não sei das mentiras que aquela vagabunda andou dizendo...
O punho de Darcy atingiu o rosto do barão, mandando-o pelos ares, impedindo-o de continuar a falar. Apoiando-se na parede, Bennet conseguiu se levantar, um filete de sangue escorrendo pela boca flácida. Sem se importar com o ódio estampado nos olhos do outro, Darcy deu-lhe as costas e saiu dali.
O que não sabia era que alguém testemunhara acena escondido numa alcova.
Sentado junto da esposa, Darcy a observou dormir por alguns instantes. Doía-lhe a alma vê-la tão pálida e vulnerável. Pelo menos conseguira livrá-la do padrasto e mantê-la em segurança. Exausto, despiu-se e entrou na banheira cheia de água quente que os servos haviam colocado diante da lareira. Estava em casa afinal, embora só considerasse Pemberley seu lar porque tinha a esposa consigo.
Não podia imaginar o que seria sua vida sem ela.
De que valeria o título de duque? As vastas propriedades, as riquezas, sem a pessoa a quem queria acima de tudo?
Depois de secar-se e vestir-se, Darcy apagou as velas e deitou-se ao lado da mulher, que continuava a dormir.
— Tomarei conta de você, amor — sussurrou, contemplando o novo anel de sinete. — Estamos em casa agora... um lobo e sua rosa.
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