Noiva Indomável
15 Incidente Desgradável
Notas iniciais
O corte no lábio de Lizzy já havia cicatrizado por completo e ela sorriu feliz ao chegarem à Feira. Lorde George lhe emprestara um cavalo e embora fosse obrigada a montar de lado, por causa do vestido, sentia-se animada com a possibilidade de ficar ao ar livre num dia tão agradável. A Feira de Pemberley lhe pareceu absolutamente maravilhosa, cheia de cores, sons, música e divertimentos.

De fato, isso não a surpreendeu muito, considerando o tamanho e a beleza das propriedades de seu anfitrião. George Wickham, trajando roupas excessivamente enfeitadas, cavalgava ao seu lado, enquanto Darcy, Charles, Hugh e mais alguns dos cavaleiros do rei, seguiam bem atrás.

[Charles Bingley]
Lizzy notou que os aldeões mantinham os olhos abaixados à passagem do conde e que murmuravam entre si tão logo o viam de costas.
A hostilidade daquela gente tampouco passou despercebida a Darcy. Não tinha dúvidas de que seria uma tarefa árdua consertar o mal que George fizera assim que retomasse o título e as terras que lhe pertenciam por direito. Observando o primo ajudar Elizabeth a desmontar, Darcy sufocou uma pontada de irritação.
Os dois não tinham voltado a se falar desde a noite anterior, depois da cena no quarto, quando quase a beijara. Lady Bennet não era nenhuma criança e sua falta de afetação, tão comum às mulheres da corte, apenas acentuava a aura de mistério que a envolvia. O desejo de beijá-la fora tão urgente que o surpreendera. Precisava admitir que Elizabeth o atraísse muito mais do que a dama do lago. Bastava pensar em segurá-la nos braços outra vez para sentir-se excitado. Incomodava-o essa falta de disciplina interior. Afinal, tratava-se apenas de uma mulher. Que pertencia a William Collins. Sua tarefa resumia-se a levá-la para Londres em segurança. Nada mais.
Para sua imensa satisfação, estava claro que lady Bennet detestava ser obrigada a aturar a companhia do conde. Frequentemente afastava-se dele, ansiosa para conversar com os outros lordes e suas esposas.
Entretanto George sempre dava um jeito de tomá-la pelo braço e separá-la do resto do cortejo.
— Minha querida lady Elizabeth, venha por aqui. Quero lhe mostrar uma loja no final da rua.
Enquanto os dois caminhavam pela ruela lamacenta, um bando de meninos passou correndo, chutando uma pedra arredondada. No auge da brincadeira, uma das crianças tropeçou e caiu numa poça, inadvertidamente respingando barro no vestido e na capa de Elizabeth. A reação de George foi tão imediata quanto despropositada.
Segurando a criança por uma das orelhas, apertou-a com tanta força e a esbofeteou com tal violência que o menino, de apenas dez anos, começou a chorar.
— Por favor, meu lorde. Desculpe-me, eu não queria...
— Seu mendigo selvagem! Você não tem um pingo de bom senso? Vou mandar enforcá-lo e aos miseráveis imundos que lhe deram a vida.

Darcy teve que se conter para não intervir, furioso com a atitude de George diante de uma ofensa não tão grave assim. Um pouco de lama na capa de Elizabeth não justificava que uma criança fosse espancada até quase perder os sentidos.
— Quero que esse menino seja punido! Prendam-no! — lorde Wickham gritou, fazendo sinal para que um de seus soldados cuidasse do caso.
— O que podemos fazer? — Charles indagou baixinho, percebendo a ira de Darcy.
— Nada, maldição. Nada.
— Se você intervier, George se mostrará ofendido e então Henrique...
— Eu sei, Charles! — Entretanto, precisava encontrar uma maneira de impedir o primo de mutilar a criança. Se não agisse logo, o garoto acabaria tendo uma das orelhas arrancadas, ou a mão decepada. Não iria se omitir.
— Misericórdia! — Lizzy passou um braço ao redor dos ombros da criança, protegendo-a com o próprio corpo, impedindo que os soldados a levassem. — Por favor, meu lorde, reconsidere. Uma vez que sou eu a vítima, creio que poderia permitir a mim punir o acusado.
— Acusado? Você o chama apenas de ‘acusado’? Pois eu digo que se trata de uma ameaça que deveria ser...
— Por favor, meu lorde. — Apesar do tom suave da voz, Lizzy fervia de ódio. O brilho maligno dos olhos frios do conde a fazia pensar no barão Bennet, quando prestes a surrá-la. — Deixe-me decidir o destino do menino.
— Por que não, meu lorde? — um dos convidados, que seguia atentamente a cena, sugeriu.
— Sim — outro apressou-se a concordar, — seria divertido. Deixe lady Elizabeth dar a sentença.
— O que você tem em mente? — George perguntou procurando demonstrar que essa mudança de curso era perfeitamente aceitável. Entretanto as narinas fremiam e as feições distorcidas revelavam a raiva descomunal.
Darcy observou Elizabeth fitar o garoto como se tentasse acalmá-lo como simples olhar. Entretanto deveria parecer severa para aplacar a ira do conde.
— Uma vez que o garoto não tem nada melhor para fazer a não ser perturbar damas indefesas, quero que passe o dia inteiro ao meu dispor, carregando embrulhos, atendendo aos meus pedidos. — Um murmúrio de aprovação percorreu o grupo. Poucos estavam de acordo com o castigo que o conde pretendera impingir à criança. — Acho que seria uma punição suficiente para alguém que gostaria de passar um dia bonito como o de hoje brincando com os amigos.
Se estivesse mais perto de Elizabeth, Darcy pensou, teria sido difícil conter o impulso de beijá-la pelo senso de justiça demonstrado e pela tentativa de proteger o menino de uma punição brutal.
— Que seja então! Você ouviu a dama — George declarou afinal. — Parede choramingar, criatura estúpida, e obedeça às ordens da senhora.
— Obrigada, meu lorde. — O coração de Lizzy batia tanto que era quase impossível ouvir a própria voz. Apertando os ombros do menino de leve, perguntou-lhe o nome.
— Victor, milady. Victor Lucas.
— Muito bem, Victor. Sua primeira tarefa será me ajudar a limpar a lama da capa. Venha, leve-me até onde está sua mãe. Logo me reunirei a você, lorde Wickham — ela se despediu, afastando-se do grupo. — Você mora aqui por perto?
— Sim. No final da rua.
— Sua mãe está em casa?
— Não tenho certeza. Com a feira e tudo mais...
Percebendo que o garoto estava prestes a chorar outra vez, Lizzy se esforçou para tranquiliza-lo.
— Está tudo bem, Victor. Daremos um jeito. — Ao virar-se para trás, ansiosa para se certificar de que não era seguida por um dos soldados do conde, surpreendeu-se ao ver Darcy.
Na verdade preferiria manter distância, pois a simples presença do cavaleiro a fazia lembrar-se das charadas de lady Caroline e, no momento, tinha muitas outras coisas com o que se preocupar. O conde, por exemplo, iria exigir toda sua atenção. Tratava-se de um homem perigoso. Deveria controlar-se quando junto dele para não explodir de raiva.
— Chegamos, milady. — Victor entrou primeiro, chamando pela mãe. Ninguém respondeu.
— Aparentemente ela não está — Darcy observou, seguindo-os até o interior da casinha pequenina, mas bem cuidada. — Água e um pano limpo servirão perfeitamente, garoto. Vá buscá-los.
— Sim, milorde. — Enquanto se esforçava para tirar a mancha, Victor desculpou-se: — Perdoe-me por estragar sua capa. Eu não tinha intenção de fazer isso.
— Sei que não. E não se preocupe que a mancha sairá depois de uma boa lavada.
Darcy apanhou uma tira de pano limpo e depois de molhá-lo, limpou cuidadosamente o rosto de Elizabeth.
— Você devia ter mencionado a George que aprecia um pouco de lama — ele comentou, observando-a de perto.
Enrubescendo, Lizzy se esforçou para ignorar a proximidade do cavaleiro alto e imponente. Sentia-se tão nervosa que o coração dava a impressão de querer saltar pela boca. Para disfarçar o embaraço, desviou o olhar.
Oh, Senhor, como ficar imune ao cheiro másculo que emanava do corpo musculoso?
— É o melhor que posso fazer, lady Elizabeth — o garoto murmurou tímido, afastando-se para contemplar o trabalho. Embora a mancha não houvesse saído de todo, a capa não tinha mais uma aparência tão feia.
— Bom trabalho, Victor. — Quase não podia respirar, sentindo Darcy tão perto. Se ao menos ele tornasse a tocá-la... a beijá-la. Estremecendo de leve, Lizzy afastou o pensamento absurdo. Porém, fitando os olhos cinzentos, pela primeira vez já não conseguia se lembrar da cor dos olhos de William.

[Darcy]
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