Noites de fogo
4 Capítulo 3 - Olhe as estrelas
Notas iniciais
A primeira reação foi nos assustarmos. A segunda (imediatamente após a primeira) foi posicionarmo-nos em posição de ataque. O mago montado no dragão do meio carregava uma adaga e os dragões estavam ferozes e impetuosos. O do lado direito, tão grande quanto eu, me olhava com sede de sangue, o que me deu uma carga de energia a mais para uma luta de verdade que eu não tinha há anos.
Antes de ele chegar ao chão, voei em sua direção com a boca escancarada, pronta para arrancar-lhe um grande pedaço. Mas ele também estava preparado e quando tentei morder sua grande asa marrom escura, sua garra prensou-me contra a terra gelada às margens do rio. Pela minha visão periférica observei Klugh lutar com um dragão que já tinha uma flecha em cada olho; Krieger no ar com o dragão do meio enquanto as fadas e Blanda batalhavam com o mago e por vezes faíscas luminosas de magia podiam ser vistas. Voltei minha concentração ao dragão em cima de mim. Reunindo toda força que consegui, levantei cuspindo fogo em sua cara deformada. Então ele fez algo completamente inesperado, voando na direção de Klugh que lutava com o dragão avidamente. Observei o corpo do elfo sendo lançado na direção oposta e Mystica correndo para ele.
Krieger partiu furioso para cima do dragão que atacara o elfo e eu nunca o vi tão bravo.
– Você mexeu com o elfo errado! – bradou Krieger arrancando a cabeça do dragão e jogando-a no rio, o corpo pesado e inerte do morto caiu pesadamente na terra.
Não é a toa que Krieger é considerado o melhor guerreiro da Legião.
– Starker! – ouvi a voz desesperada de Ignis chamando quando um dragão estava pronto para transformá-la em pó.
Outra carga de energia percorreu meu corpo, só que dessa vez, misturado com ódio. Avancei nele de tal forma que o impacto causou uma leve cratera na terra. Antes que ele pudesse reagir, enfiei minha garra freneticamente no seu peito até perceber que seu corpo já não respondia mais.
– Venham conosco e ninguém sairá ferido. – disse o mago com um sorriso doentio e uma adaga no pescoço de Duce.
– Nem pensar! – Mystica disse atirando impecavelmente uma flecha no rosto do mago que caiu morto no chão.
O outro dragão que restou fugiu rapidamente na direção oposta. O que foi muito inteligente da parte dele. Poderíamos ir atrás do mesmo, contudo, tínhamos coisas mais importantes para nos preocupar.
Ignis correu chorosa e pulou no meu pescoço num abraço.
– Venha, vamos ver como está o elfo. – sugeri. Vê-la chorar era devastador.
Mystica estava debruçada sobre o corpo fraco do elfo. Krieger o balançava levemente com um dos chifres esperando que ele se movesse. Duce ajoelhada passava alguma planta no grande ferimento na perna dele.
– Eu posso ajudar. – disse Blanda sentando-se sobre as pernas ao lado da cabeça de Klugh.
Mystica assentiu e ela fechou os olhos passando as mãos sobre os ferimentos do arqueiro e recitando algumas coisas inaudíveis. Pouco depois Klugh tossiu e no lugar de seus cortes viam-se apenas algumas cicatrizes. Foi então a bruxa desmaiou.
– Ela está muito fraca, usou sua energia vital para salvá-lo. – explicou Mystica notando as expressões assustadas.
O elfo sentou-se e abraçou Krieger, em seguida a bruxa.
– Ela vai ficar bem? – perguntou preocupado.
– Vai demorar um pouco, mas sim. – respondeu a fada e mudando de assunto, completou: – Precisamos ir embora daqui agora mesmo. – declarou.
– Ei! Esperem por mim! – gritou uma mulher segurando a barra do longo vestido correndo em nossa direção.
Pelas expressões que notei, nenhum de nós a conhecia. Longos cabelos castanhos presos pela metade sobre as costas, vibrantes olhos azuis e argolas de ouro feitas a mão pendiam em suas orelhas pontiagudas típicas dos elfos. Sua pele era levemente morena e seus traços eram fortes, porém delicados. A manga de sua blusa era caída e revelava uma tatuagem de sua tribo: um círculo dividido em quatro partes e um ponto em cada ponta.
– Vocês vão atrás dos Feindes? – perguntou esperançosa.
– Você é da União dos Filhos das Florestas – constatou. – Klugh, filho do sol e da lua. – apresentou-se numa reverência curvando-se à frente da elfa.
– Gottin. – Ela retribuiu o cumprimento e tocou dois dedos em seu ombro em sinal de respeito. – Deixem-me ir com vocês. Minha filha... eles a levaram. – suplicou.
– Tudo bem, nós também perdemos alguém importante. – disse Ignis.
Ela também contou que seu marido foi morto tentando proteger sua filha Wand, que ainda assim foi levada pelos Feindes. Mystica apresentou nossos nomes e então era hora de partir para os Montes Imperiais. A fada de cabelos azuis amarrou Blanda cuidadosamente sobre meu dorso para viajarmos de volta e Klugh e Gottin subiram às costas de Krieger. Iríamos voando, não havia tempo para longas caminhadas.
Seguimos de volta ao norte para os Montes Imperiais, foi uma longa viagem. Exceto Blanda desmaiada nas minhas costas, estávamos indo bem. Me machucara um pouco na luta, mas nada muito grave. Chegamos lá ao anoitecer. Foi uma surpresa e tanto, havia dragões e mais dragões de todos os tipo por todos os lados, alguns treinavam no ar, outros devoravam famintos a comida; fadas voavam para lá e para cá. Ipsun nos avistou antes de chegarmos ao chão e veio em nossa direção assim que pousamos.
– Sabia que conseguiriam! Parabéns! Estou orgulhoso de vocês. – disse, deixando Ignis enrusbecida. Ele devia mesmo estar orgulhoso, porque nunca ouvira-o dizer isso.
Krieger e eu nos curvamos em reverência e agradecimento e ele curvou-se de volta cavando o chão com a pata dianteira em sinal de repeito.
As fadas voaram ligeiras para escutar toda história de Ignis e Duce, mas especialmente para conhecer Mystica. Wahns correu assim que nos viu para saudar seu irmão num abraço. Então Ipsun apontou a cabeça para Blanda perguntando-me quem era a jovem que, a essa altura, já acordara e sentou-se.
– Uma bruxa, Mestre. – respondeu Krieger hesitando antes de continuar. – Irmã de Vípera... Blanda.
– Você sabe que não podemos confiar em...
– Bruxas, elfos, sereias... Quando os seres vão parar de julgar uns aos outros pela sua espécie? – ela o interrompeu prendendo o longo cabelo num coque alto.
– Quando provarem que são dignos de confiança. – ele respondeu impassível.
– Eu posso ajudá-los, eu a conheço melhor que todos aqui. – insistiu.
– Quanto mais do nosso lado, melhor. Independente da classe. – eu disse, observando-a pelo canto do olho.
Ipsun balançou a grande cabeça amarela e virou-se voando para o outro lado.
– Você está melhor? – perguntei à ruiva.
– Creio que sim. Apenas um pouco fraca. É complicado mexer com a energia vital. – respondeu levantando-se e aprumando as vestes.
Não entendia muito do assunto, mas assenti mesmo assim. Mystica veio e a abraçou.
– Você é muito corajosa. Gosto do que vejo na sua áurea. – disse a fada sorrindo.
Neste momento uma grande luz verde feita por Lux pairou sobre nós, indicando que Ipsun iria comunicar algo e todos calaram-se para escutar.
– Dragões, fadas e bruxas – ouvi Klugh pigarrear alto do outro lado e ele completou: — e elfos, é claro; O grande dia está chegando. O dia que nos libertaremos desta opressão, que não precisaremos mais fugir e nos esconder. Vingaremos nossas perdas e recuperaremos nossos entes. Tivemos várias batalhas até agora, algumas perdas e enfim chegara a hora da grande guerra. Preparamo-nos por vários anos e agora, nada irá nos parar! Amanhã, pela manhã, seguiremos para o Vulcão Zestor e destruiremos o castelo e essa maldição. – concluiu e pousou novamente.
Estava um barulho muito grande, porque apesar dos dragões não falarem, todos estavam agitados. Olhei para o lado e vi Mystica sentada no tronco da árvore de cabeça baixa e ombros sobre os joelhos.
– O que houve, fada? – perguntei me aproximando.
– Os sinais. – ela disse pesarosa.
– Que sinais?
– Olhe as estrelas. Mau agouro, mau agouro – ela repetia.
– Vai correr tudo bem, nós somos um grande exército e bem fortes. – confortei.
– Algo de muito ruim está para acontecer. – disse a adivinha por fim, levantando-se e deixando-me sozinho com esse ótimo incentivo.
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