Noites de fogo
2 Capítulo 1 - Está na hora de vencer uma guerra
Notas iniciais
O dia foi longo e devo admitir que estava muito cansado, mas era meu turno de guarda. Posicionei-me à extremidade de uma das cavernas. Vormund, Clever, Krieger e eu formávamos um grande círculo ao redor dos que dormiam. Era uma enorme extensão, alguns bosques e árvores se distendiam até as florestas; uma parte era seca e outra fonte de colheita das fadas. As fadas da terra construíram cabanas dentro das árvores para acolhê-las, mas não eram grandes o suficiente para nós dragões. Tudo pareceria tranquilo, não fosse o medo de ser atacado a qualquer momento pairado sobre nós.
O vento uivava e uma leve e gélida neblina vinda da floresta flutuava. Levantei em voo para estudar a área que cercava nosso terreno, nada de diferente, como geralmente tem sido. A floresta estava bem calma esta noite e a lua banhava o grande lago gelado formando uma paisagem bonita.
– Hm, hm. – escutei um pigarreio ao meu lado e virei para ver o que era.
– Olá, Ignis. – pensei. Era, se é que posso dizer, minha fada favorita do grupo. Ela era bem divertida na maior parte do tempo.
Sentou-se graciosamente sobre meu dorso e senti sua pequena mão acariciando-me emanando calor. Sua presença era bastante reconfortante.
– Noite bonita. – ela disse recostando-se.
– Segure-se. – alertei, e em seguida desci pousando sobre a terra.
– Gosto muito quando você faz isso. – ela sorriu animada e faíscas laranja flutuaram ao nosso redor.
Respirei cansado faiscando a grama à minha frente.
– Não está com sono? – perguntei. Ignis tivera muito trabalho hoje também, Mutige ferira-se no treinamento e muito da nossa colheita também foi destruída pelo fogo. As fadas tiveram que replantar a maior parte.
– Não. – respondeu calmamente. – Meus pensamentos me deixam inquieta.
Esperei paciente que contasse. Geralmente eu apenas a escutava confessar suas emoções.
– Tenho sentido muito a falta da Bloo ultimamente. – falou por fim.
– Sei como se sente.
– Tudo bem, nós vamos encontrá-los. – disse abraçando meu pescoço e encostando seu rosto no meu. Passei minha calda carinhosamente pelos seus cabelos para retribuir.
– Você é um bom amigo, Stark. – disse ela.
– Você também, Ig.
Pairou um silêncio confortante entre nós enquanto eu observava os arredores e admirava o reflexo da lua no lago. Sem nada suspeito, como sempre.
Ignis deitou-se ao meu lado e adormeceu rapidamente. Como todas as noites.
As horas se arrastaram e o silêncio foi interrompido por um ruído na floresta. Apurei a audição para tentar discernir o som, até ver algo saindo da pequena moita a alguns metros. Posicionei-me em ataque e Ignis acordou puxando sua adaga de batalha.
– Silêncio. – pensei para ela. – Fique atrás de mim.
– Nem pensar. – respondeu teimosa.
Então um elfo saiu das sombras das árvores. A fada de cabelos vermelhos revirou os olhos. Há algum tempo, elfos e fadas não se davam muito bem.
– O que você quer? – perguntou ela secamente estreitando os olhos cinzentos.
Farejei e concluí que ele não estava sozinho. Alertei Ignis mentalmente.
– Estão tomando a floresta! Eles estão por toda parte! – contou com desespero. – Os Feindes! Eles voltaram a atacar! – dizia puxando o cabelo para frente e para trás. Estava insano, eu nunca tinha visto um elfo em tais condições.
Outro saiu de trás do mesmo. Este aparentava estar bem mais sereno.
– Desculpem pelo meu irmão. Ele está um pouco mal, o feitiço que usaram quase o matara. – notei que Ignis estava desconfiada, nossa ligação permitia sentir algumas emoções um do outro.
– O que vocês querem? – ela repetiu ainda mais grossa.
– Abrigo. – o velho homem são respondeu.
– Quem são vocês?
– Klugh, e esse é meu irmão Wahns. Descendentes do sol e da lua, elfos da terra e da colheita, arqueiros, primeira classe. – respondeu.
Ignis hesitou por um momento.
– Deixe-nos ficar, por favor. – suplicou Wahns, o elfo aparentemente louco.
– Os Feindes voltaram a atacar? – perguntou a fada, lendo meus pensamentos.
– Sim, fada.
– Ignis. – corrigiu.
– Podem passar a noite. Amanhã avaliaremos a situação com os outros membros da legião. – disse por fim, apontando a cabana dois do outro lado.
– Obrigada, Ignis. – agradeceram com uma certa ênfase na última palavra.
– Podemos confiar neles? – perguntei.
– Ainda estou decidindo.
O sol surgia ao leste quando virei para encará-la.
– Longo dia pela frente.
– Sempre é. – disse por fim e alçou voo na direção das outras fadas que em pouco tempo despertariam.
Os raios de sol iluminaram cada pedaço de terra dissipando a neblina. Eu ainda estava cansado, entretanto ainda teria que treinar bastante. Aguardei algum tempo antes de levantar em direção a discussão provavelmente sobre dois novos elfos juntando-se à Legião. Ipsun, o líder do grupo conversava avidamente com Ignis, Duce – líder das fadas – e os outros dragões da equipe estratégica.
– Eles não podem se juntar a nós! Elfos não são confiáveis! – bradava Duce, a fada da terra e do ar.
– E o que nós vamos fazer? Entregá-los aos Feindes? Não seja tola, Duce. – argumentou Ig revirando os olhos. Chamas laranjas já flutuavam ao seu redor, denunciando sua impaciência.
Ipsun soltou fogo pelas narinas para que as fadas parassem de discutir.
– Se me permitem, os Feindes voltaram a atacar, e não levará muito tempo até que cheguem aqui. O que eu sugiro é que planejemos uma fuga. – disse Klugh.
– E quem você pensa que é pra sugerir alguma coisa? – respondeu Ig arqueando as sobrancelhas.
– Eu concordo com o elfo. – eu disse por fim e todos olharam para mim. As outras fadas e o resto dos dragões já se uniam a nós, formando um círculo ao nosso redor.
– “Klugh” por favor. – corrigiu-me o elfo.
– Starker e Klugh estão certos, nós já planejávamos sair daqui mesmo. E agora que os Feindes voltaram a atacar, está na hora de reunirmos um exército. Não é para isso que viemos treinando todo esse tempo? – falou o dragão Krieger sabiamente.
Ipsun escutava atentamente, e assentiu, assim como Duce. Não havia mais argumentos.
– Primeiro precisamos encontrar Mystica, é a fada mais poderosa que já se ouvira falar. Ela é uma peça chave para ganharmos essa guerra. – disse Lux, vindo lá de trás.
– Isso se os Feindes não a encontrarem primeiro. – caçoou Ignis.
– Vamos nos dividir em dois grupos, uma parte vai atrás dessa tal fada e o outro aos Montes Imperiais onde está a maior parte dos dragões ainda livres.
– Ignis e eu vamos com o grupo até Mystica, Bauer e Lux vão aos Montes Imperiais. – declarou Duce sobre as fadas.
– Krieger e Vormund as acompanharão. – ordenou Ipsun.
– Eu também vou. – aleguei.
– Não acho uma boa ideia... – Ipsun disse.
– Pois eu acho ótima! – discortou Ignis e Ipsun apenas balançou a grande cabeça cedendo.
– E eu. – ofereceu-se Klugh.
Wahns, seu irmão, o olhou deprimido. Era notório que não queria ser deixado.
– Você vai ficar bem, Wahns, vá com os outros aos Montes Imperiais, nos veremos em breve.
Wahns o abraçou fortemente e Klugh retribuiu.
– Quando partimos? – perguntou o elfo.
– Agora mesmo! – eu disse.
Ignis e Duce disseram que de acordo com as histórias, Mystica vivia no coração da floresta, em uma bela cabana da melhor madeira e uma grande esfera luminosa de cristal decorava a frente da casa. Perguntei-me como ainda não foi encontrada pelos Feindes, e elas apenas responderam que ela era muito esperta. Disseram também que Mystica controla todos os elementos, pode ver o futuro e ler mentes, achei exagerado, mas achei melhor não falar nada.
Fomos caminhando pelas Florestas Misteriosas, era muito arriscado ir voando e podia chamar atenção. Klugh foi muito útil, pois já que morava na floresta a conhecia muito bem. Algumas partes eram bem escuras, as longas árvores impediam a luz do sol de atravessar, dando uma atmosfera sombria. Nessas horas Lux seria muito bem vinda a nos acompanhar. Depois de muito tempo caminhando, o silêncio foi interrompido por Klugh.
– Não estamos longe do coração. – disse nos guiando entre plantas com aspectos duvidosos, suspeitei serem bem venenosas.
– Cuidado com essa aí. – disse Ignis como se lesse meu pensamento apontando para uma árvore de uns seis metros com longas raízes expostas bem ao nosso lado. Se elas não fossem tão altas já teríamos nos denunciado. Vez ou outra ficava apertado para passar e acabávamos causando algum estrago na plantação.
– É bem aqui. – disse Klugh afastando uma longa folha que atrapalhava a passagem.
Era um belo lugar. Ignis e Duce ficaram eufóricas.
– É bem mais bonito do que o que contam! – disse Duce animada.
A cabana ficava entre algumas árvores, grandes janelas de vidro bem iluminadas e realmente havia uma eminente esfera lilás na frente da casa. Uma longa escada levava até ela, e era como se as luzes dentro dela tivessem vida, mexiam-se como se quisessem passar uma mensagem.
Klugh foi até a porta da casa que estava encostada e nos convidou a acompanhá-lo. Achei melhor nós dragões esperarmos do lado de fora, não gostaríamos de destruir a casa da poderosa fada.
Mas antes que ele entrasse, uma jovem de cabelos longos azuis e vestido roxo apareceu à porta. Uma coroa de flores pousava em sua testa e um colar de safira ao seu pescoço. Orelhas pontiagudas como as dos elfos, ela era mesmo linda.
– Sejam bem vindos. – ela disse contente como se não recebesse visitas há muito tempo. Três cadeiras feitas de galhos de árvore brotaram do chão para as duas fadas e o elfo.
Duce parecia estagnada e eu poderia apostar que encontraríamos desenhos de Mystica nas paredes de sua cabana se fossemos lá. Ignis apenas acenou para ela timidamente. Então Klugh abaixou-se numa reverência e beijou sua mão sorrindo, pareciam amigos de muito tempo.
– Senti sua falta. – ela confessou e o elfo assentiu.
– Precisamos de você. – ele disse.
Seu sorriso desapareceu em desapontamentos, não era o que planejava ouvir.
– Desculpem, não posso ajudá-los. – lamentou.
Ignis voou em sua direção.
– Sim, você pode! Você é Mystica, a fada mais poderosa, você é lendária! – dizia enquanto batia as asas.
– Sinto desapontá-los. E se isso é tudo, acho melhor irem embora.
– Não, não vamos embora! Os Feindes voltaram a atacar e o irmão dele – disse apontando para Klugh – quase morreu! Mas é claro que você já sabe disso, não me decepcione, não viemos até aqui à toa. Eles vão destruir tudo, inclusive as florestas. Vão escravizar cada dragão livre e exterminar cada fada que encontrarem. Nós precisamos lutar! E não podemos vencer sem você. – as chamas alaranjadas já flutuavam ao seu redor e eu sabia que era melhor Mystica não discutir.
– Venha conosco. – invitou Klugh ainda segurando sua mão. – Está na hora, minha querida.
Mystica entrou em sua cabana e todos suspiraram tristemente. Até ela voltar. Duce girou no ar entusiasmada. Krieger cospiu fogo para os ares em comemoração.
– Está na hora de vencer uma guerra! – afirmou Mystica sorrindo bravamente com uma adaga presa à cintura e um arco nas mãos.
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