Noite na Galáxia
1 Noite na Galáxia
Notas iniciais
A noite caía em uma longínqua galáxia. O Lord Sombrio teria uma missão importantíssima e especial. Caminhou em passos longos e profundos que causavam uma pequena perturbação no solo, uma respiração ofegante ecoou pela nave. Todos sabiam que era Vader que estava passando. Todos o temiam.
Aguentava o fardo de sua armadura, que o incomodava tanto como sua rotina monótona. Muitos julgam a vida de Vader bem elétrica, mas não ele. Não importava a tamanha guerra que acontecia diante de seus olhos, Vader sempre fora infeliz. Não sentia o prazer em assassinar pessoas e pregar o mal como os outros Sith, para ele era apenas uma obrigação.
Em sua prática habitual apenas a noite o satisfazia. Adentrou uma cabine no fundo daquela nave. Olhos brilhantes o miraram. Duas pequenas criaturinhas, uma em uma cama à direita e outra à esquerda, pularam e correram em direção à figura assustadora.
— Papai! ― O loiro o abraçou, enquanto a morena o puxava para sentar na beirada de sua cama.
— Conte uma história para nós!
Vader notou algo no filho. Algo que não conseguia desvendar. Viu uma semelhança terrível com alguém que não se recordava mais. Aqueles olhos azuis como o céu, claramente observando via-se a inocência de um garotinho de Tatooine. Porém Vader não sabia, não conhecia mais a feição desse tal garoto.
A garota morena sacudiu o pai o tirando do transe.
― Papai! Hein? Vai contar?
— Não sou bom em histórias — ele responde timidamente.
— Claro que é. Outro dia, você contou uma história de ação para o Luke. Agora é minha vez, quero uma história bem romântica.
Iniciou uma pequena discussão entre os gêmeos. Luke chamou a irmã de fresca e ela retrucou furiosamente retratando a insensibilidade que os homens possuem.
Desta vez Vader concentrou-se apenas na filha. Ela também lembrava alguém. Sentiu uma lágrima escorrer por trás de sua máscara. A partir daquele momento Anakin ocupou toda a frieza do Sith. Eram todas as noites assim, tornava-se um homem diferente quando estava diante de seus filhos. O tempo passava, mas ela não, ela sempre estava ali, o atormentando com a culpa. Leia era a cópia de sua mãe, determinada e forte, rosto angelical e cabelo castanho como os olhos. Padmé fazia tanta falta. Anakin pode ter errado muito na vida, mas havia uma coisa que nunca se perdoaria.
― Tudo bem, eu conto — o homem cessou a discussão dos filhos.
Leia comemora. Pode-se ouvir um bufar vindo de Luke.
― Você irá gostar filho — bagunça as madeixas do garoto. ― Vou contar a história de um garotinho escravo e do anjo que ele conheceu.
— Anjo? Como assim? ― o menino fez careta mostrando sua dúvida.
— É um modo de falar, Luke. Anjo no caso deve ser uma criatura tão linda quanto ― a menina explica ao irmão.
— Exato Leia. Bem, em mais um dia ensolarado como de costume naquele planeta, o garoto que era escravo de Watto, estava sentado na bancada de uma sucata.
O pequeno estava cabisbaixo, ouviu passos vindos em sua direção. Olhou para o horizonte percebendo a tamanha beleza daquela garota.
― Você é um anjo?
A garota o olhou sem entender.
— O quê?
― A história inicia-se ― ele continua ― Eles se apaixonaram um pelo outro desde a primeira troca de olhares. O garoto fez um pequeno objeto e deu a ela, para que sempre se lembrasse dele, afinal ficaram separados por dez anos.
― Eles se reencontraram?
Os olhinhos de Leia brilhavam, enquanto Luke se entretinha com seu brinquedo.
— Sim. Ele tornou-se Padawan e ela Senadora. Como ela estava sofrendo ameaças de morte, ele foi convocado para protegê-la.
― Então ele era um Jedi? — Luke pareceu se interessar. Seu pai confirmou.
― E nesse tempo que passaram juntos, o amor se fortaleceu e pareceu ter aumentado. Eles se aproximavam cada vez mais. Entretanto, segundo o código, Jedi não podem ter qualquer tipo de relação ou ligação com alguém.
― Complicou! E agora? ― Leia repousou sua cabeça na maciez de seu travesseiro.
― Tentaram evitar, em vão. O amor falou mais alto e se casaram em um lindo dia que acontecia no planeta natal dela.
Anakin deu uma pausa. Sua voz começou a falhar. As lembranças invadiam sua mente o machucando.
― Está tudo bem papai? ― Luke aproximou-se.
― Está sim filho ― ele mente. ― Podemos fazer uma pausa?
Leia assente.
Anakin levantou-se da cama da filha, caminhou em direção a uma janela. Observou o espaço escuro e vazio. Pôde sentir seu perfume pairar sobre o ar que dificilmente respirava.
Foi um delírio? Uma imaginação? Não se sabe. Anakin fitou o vidro que refletia seu anjo. Estudou seu semblante, estava com um olhar preocupado e visivelmente abatido pela tristeza. Quando o reflexo de Padmé desapareceu, o de outra pessoa pôde ser visto. Era um garoto loiro com lindas orbes azuis que mirava a figura a sua frente. Ele parecia estar com medo. A figura de Vader assustava o próprio Anakin. O que ele havia se tornado. Por que fizera isso com sua vida? Apesar do arrependimento, do sofrimento, ele se deu conta de que era tarde demais.
Não queria que Leia e Luke seguissem seus passos. Por mais duro que fosse, iria ter que afasta-los.
― Estão prontos para que eu continue?
Eles consentiram.
― Então, passaram-se três anos. Quando ele voltou de seus afazeres Jedi, ela lhe presenteou com uma grande notícia.
Atrás das colunas gigantes, ela o observava. Assim que percebeu sua presença, ele encerrou sua conversa com o Organa, indo em direção a ela. Ela jogou-se em seus abraços, compartilhando um beijo cheio de saudade.
— Graças a Deus, você está de volta ― ela acaricia seu cabelo.
— Parece que fiquei uma vida inteira, separado de você ― ele se aproxima para beija-la. Ela dá um passo para trás.
— Aqui não.
― Aqui sim. Não me importo se descobrirem que nos casamos.
— Não fale isso ― eles se abraçam novamente.
― O que aconteceu? Está tremendo.
— Aconteceu uma coisa maravilhosa ― eles se olham profundamente. — Ani, eu estou grávida.
Um sorriso misturado com felicidade e medo se forma no rosto do Jedi.
― Nossa, a história é melhor do que eu pensava — Leia roeu as unhas.
― E agora pai?
— As coisas começam a se agravar. Ele começa a ter pesadelos em que perde ela no parto.
Leia e Luke se entreolham, com os olhinhos arregalados.
— E.. ― ele sussurra. ― Vou tentar explicar. Ele a partir desse momento vai tentar fazer de tudo para que o seu pesadelo não se torne realidade. Qualquer coisa. — Anakin enfatiza as duas últimas palavras.
― E como é que acaba? O final? — Leia pergunta sonolenta.
A carinha dela estava tão linda. Anakin sabia que um dia eles iriam conhecer a realidade, o universo como ele é, cruel. Mas não agora. Crianças devem sonhar, imaginar contos de fadas com finais felizes. Não se preocupar com coisas ruins como guerras.
― Já está tarde. É melhor irem dormir.
— Eu quero saber! ― ela insiste.
― Quando conheci essa história, nunca soube o final. Isso fica a critério do leitor.
— Que pena ― ela lamenta. — No meu final eles viveram felizes para sempre. Com o bebê deles, é claro.
Anakin sorri. Nem imaginavam quanto essa história fazia parte da vida deles.
― E você Luke? — não obtém resposta. Anakin olha o filho que caiu no sono. Puxa a coberta o cobrindo até o ombro. Delicadamente, carícia o cabelo do filho. ― Boa noite Leia. Durma com os anjos.
— Irei dormir. Com o anjo da história ― ela vira de lado fechando os olhos. Anakin cobre a filha da mesma forma.
De fato, Leia. Ela estaria olhando por vocês sempre.
Anakin caminha até a porta do quarto e desliga a luz. Sai da cabine e recobra sua postura, todos voltam a temê-lo. Amanhã voltaria a ser como antes. E continuadamente. Sente sua máscara encharcada.
É, eram só lembranças. Dolorosas e lindas. Recordações de Anakin Skywalker, da única mulher que sempre amou.
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