Noite de verão
1 Você é idiota, irritante e insensato mas eu te amo
Notas iniciais
Era uma noite de verão, o calor e o desanimo pairavam sobre Jack, como um espirito do inverno odiava aquele clima quente e entediante que o impedia de fazer qualquer coisa, ao menos de noite era fresco o suficiente para ele não derreter enquanto pulava de telhado para telhado.
Em sua mente passou o fato que enquanto ali era verão em outro lugar era inverno. Mas tal lugar era simplesmente impossível dele ir. Gostaria muito de visitar alguns lugares da América do Sul, lugares que nunca tinha visitado antes. Mas era simplesmente fora de cogitação. Taís lugares não nevavam, seus invernos eram resumidos ao leve frio e chuva, raramente em alguns lugares algumas pedras de granizo, nada de mais.
Perguntava-se como alguém conseguida viver assim? Sem contado com a neve. Todos deveriam ter o direito de ver ao menos uma vez na vida neve!
O calor lhe incomodou mais uma vez e ele esfriou seu corpo fazendo o possível para não alterar o clima local.
Sério, como alguém consegue viver com esse calor o ano inteiro?!
Deitou ainda mais desanimado, quase num pulo no telhado que estava admirando o céu de algumas estrelas e poucas nuvens.
Uma dessas a chamou atenção em especial, lhe lembrava o Coelhão quando estava fraco. Achava aquela forma engraçada e extremamente fofa, sentiu vontade de ver de novo, só não gostava das condições que ela aparecia.
Suspirou profundamente um tanto tristonho ao lembrar que a culpa de tudo aquilo ter acontecido fora culpa dele.
"Ao menos pude ver aquela forma fofinha do canguru" Diz em uma forma de aliviar a tensão que ele mesmo criou.
Olhou mais um pouco sentindo o gelo subir em suas bochechas o deixando azul e mais gelado que o normal. Odiava quando isso acontecia.
Descobriu que aquela era a forma que ele ficava quando corado em um dia de primavera, séculos atrás, quando estava espiando escondido o Coelhão e este o percebeu, na hora não aconteceu nada. Mas, alguns dias depois a imagem daquele canguru olhando para ele levemente curioso lhe veio a mente e foi a primeira vez que sentiu seu rosto ficar mais gelado, estava passando perto de uma janela e pode ver seu próprio reflexo, o que só piorou sua situação.
O mais estranho não era ele corar azul e sim porque corava. Ou melhor por quem. Desde a primeira vez tem sido assim, o único que o conseguia fazer corar têm sido o guardião da esperança.
Fato que só piorou depois que virou também guardião. Tinha pensado que depois da nevasca de 93 iria parar de acontecer aquilo, e realmente aconteceu, mas não durou muito. Depois que começou a atazanar o pooka só para irritá-lo -e chamar a atenção dele, diga-se de passagem- e tentar negar a si mesmo a reação do seu corpo. De certa forma funcionou. Não totalmente, mas funcionou.
O pior era que agora aquilo acontecia com mais frequência, o maldito canguru sempre estava a invadir a mente do Jack e isso o irritava.
Sabia o que tudo aquilo significava, com certeza sabia, mas não queria admitir. Era ridículo!
Ele, apaixonado pelo canguru?! Impossível!
Por mais que repetisse isso, seu corpo e seus pensamentos não concordavam e deixavam claras mostras disso.
Suspirou novamente.
A areia dourada de Sandman passou a sua frente bloqueando a nuvem e chamando a atenção de Jack, a quando tempo ele estava ali?
"Oi Sandman, muitos sonhos?" Pergunta, o outro responde em sim com a cabeça várias vezes alegre.
"Que bom!" Depois do que aconteceu com Breu, a mais ou menos três anos atrás as crianças não tem tido mais pesadelos, o que deixava o guardião dos sonhos extremamente feliz apesar do trabalho praticamente dobrado que tinha.
Sandman percebeu restos de gelo no rosto do rapaz e um semblante levemente trite e desligado, sorriu travesso.
Em sua cabeça surgiu a imagem de um coelho e depois de um ovo decorado, o gelo ficou mais evidente apesar da clara tentativa de Jack de impedir isso.
"O que você está dizendo Sandman?" Pergunta um tanto apresado sabendo muito bem o que ele queria dizer.
Na sua cabeça surgiu várias imagens, imagens de sonhos de Jack, a maioria envolvendo o Coelhão, sonhos que ele sabia serem muitos.
Com o cajado desvês as imagens de areia em um pulo indo para trás do Sadman. Outra tentativa de disfarçar seu rosto azul.
Sandman se virou rindo levemente fazendo a areia se juntar de novo na forma de um coração, tal coração que Jack tentou rapidamente desfazer, mas Sandman desviava do garoto com maestria.
"Não é nada disso Sandman!" Jack tentou de novo.
O sorriso do guardião dos sonhos desapareceu tanto lugar para uma cara de desaprovação e este cruzou os braços a areia apontando para Jack que estava a sua frente, parado.
Jack entendia que aquele olhar queria dizer algo como "você sabe que é verdade, pare de tentar mentir para si mesmo", mas ele não queria admitir. Era muito estranho e os trezentos anos de vivencia não lhe davam qualquer dica de como agir.
Sempre soube o quão o amor era difícil e nunca culpou ninguém por seus atos, mas agora era a vez dele naquela situação e ele se sentia mais idiota que qualquer um que chegou a ver sendo afetado por tal sentimento.
"Sandman... O que eu faço?" Finalmente se rendeu suspirando profundamente e olhando corado e num tom um tanto quando choroso para ele.
Imagens apareceram novamente em sua cabeça, mais rápidas do que deveriam, ele estava animado e isso era óbvio por seu sorriso estampado. Apesar das várias imagens, a mensagem era simples.
"Diga para ele"
Depois disso Sandman se despediu indo para as casas, teria que se apresar, tinha muito trabalho para fazer e a noite ainda estava começando.
Jack deixou-se levar pelo vento pensativo, apesar do que o Sandman tinha dito ainda não achava que deveria contar, era muito estranho e tinha medo dele recusar e Jack voltar a estaca zero com ele.
Logo agora que tinham conseguido fazer uma espécie de amizade...
Não sabia quando tempo ficou pensando, mas quando percebeu a lua estava já descendo e ele estava na porta de uma das entradas para a toca do Coelhão.
Seria o vento que tinha o trazido até ali ou ele mesmo sem perceber?
Não sabia. E realmente não estava a fim de saber.
Seu corpo resolveu entrar apesar de sua mente gritar para ele ir para algum outro lugar. Seu corpo estava em conflito com si mesmo, entre querer aceitar tudo aquilo ou simplesmente ignorar e fingir que aquele sentimento não estava ali, que ele não existia.
Antes que percebesse já estava onde o Coelhão passava a maior parte do tempo, apesar deste não estar ali, na verdade o céu falso estava escuro imitando a noite, via no chão espalhados algumas ideias iniciais para os ovos da próxima páscoa apesar desta ter acabado a pouco tempo.
Eram simples rascunhos, mas Jack não deixava de admirar a habilidade artística deles, admirava com os detalhes dos ovos da pascoa que o canguru se esforçava tanto para fazer.
"É uma das coisas que me fez gostar dele."
Não! Ele não gostava dele, apenas queria chamar a atenção dele. Troco dele ser o primeiro a vê-lo e ainda sim ignorar totalmente.
Sim era isso!
"Você saber que não é"
Sua mente brigava com si mesmo, mas ele não queria aquilo de novo então balançou a cabeça numa tentativa de parar o conflito interno.
De certa forma funcionou já que ele acabou achando algo que parecia um ninho coberto por cipós com algumas folhas, era pequeno, provavelmente o ponto mais alto daquele lugar -o meio- daria para Jack ficar em pé.
Sorriu travesso, voou calmamente até lá afastando com cuidado os cipós e entrou voando pelo teto e sorriu com o que viu.
A forma que ele dormia era engraçada, o corpo reto com a barriga virada para cima como a cabeça, as patas dobradas no torço e as patas relaxadas viradas para cima.
Jack se aproximou do focinho dele começando a assoprar deixando o seu hálito mais frio que consegui chegando a sair pequenos floquinhos.
O focinho do maior se mexeu e a perna levantou batendo no ar fazendo que Jack tivesse que parar no susto desviando parte de seu corpo da pata do maior.
Ele se moveu e Jack apenas olhou esperando se ele ia acordar ou não, mas o que aconteceu foi que ele simplesmente caiu para o lado e se encolheu o pouco, provavelmente por causa do leve frio que tinha sentido, as patas da frente ficaram em baixo de sua cara servindo como uma espécie de travesseiro e as pernas juntas a barriga inclinada provavelmente para permanecer o calor.
Jack tentou novamente se aproximando agora tendo que ficar meio dobrado pela posição que tinha que ficar para continuar com o que estava fazendo.
Novamente assoprou no focinho dele deixando ainda mais gelado que antes, o focinho dele se mexeu novamente, ele continuou ignorando a pata que também se batia quando finalmente ele abriu os olhos intensamente verdes, e olhou em direção de onde o vento vinha.
A surpresa veio para ambos, como Jack estava muito perto e o Coelhão se aproximou um pouco os dois acabaram trocando uma espécie de beijo.
Tal beijo não durou muito mais que um segundo, os olhos do pooka começaram a piscar freneticamente, surpreso e logo se afastou se levantando em quase um pulo e batendo a cabeça no teto do próprio ninho.
Coelhão ignorou a dor e se afastou um tanto rápido de mais o que acabou resultando em um forte tombo, novamente ignorou e continuou se afastando até sair totalmente do ninho.
Jack, corado e ainda surpreso ficou um tempo no ninho, cinco segundos para ser mais exato.
Então ele finalmente conseguiu se mover, ainda surpreso pelo o que acabou de aconteceu, andava e saiu do ninho afastando os cipós, estava bastante corado, o gelo que cobria todo o seu rosto agora tinha descido do seu pescoço até seu ombro coberto pelo costumeiro casaco. Ele olhava para baixo sem coragem para olhar para o outro.
"O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTAVA FAZENDO MOLEQUE?!" Berra o maior, se ele fosse humano certamente estaria também corado, talvez não tanto quando Jack, mas estaria.
Este tentou falar, mas sua boca apenas se abria e fechava sem sair nenhum som em especifico. Ele então percebendo que não conseguiria falar nada apenas virou a cabeça para o lado fechando os olhos com força, um punho fechado e o outro segurando firme o cajado atrás de seu corpo.
Finalmente a força voltou para suas pernas que pararam de tremer, ele virou o corpo segurando firme o cajado e voou para fora da toca deixando um leve vento frio para trás.
"Idiota..." Tinha ido até o lago em que Emma tinha caído séculos atrás, não sabia ao certo o motivo de ter ido até lá, mas fazia o possível para controlar suas emoções, sabia que caso descontrolasse algo parecido com a nevasca de 94 iria se repetir.
"Idiota..." Disse um pouco mais alto "Idiota... Idiota... IDIOTA!!" Gritou por fim jogando o cajado com força para o chão, onde agora estava com uma leve camada de gelo.
"Sim você é um grande idiota!" Jack sabia de quem era aquela voz, mas se recusou virar, as sobrancelhas juntas fechava os olhos com força, sentia lágrimas geladas escorrerem por seu rosto ainda corado e fechava ambas mãos com força.
"Idiota, irritante e insensato" O coração de Jack parecia estar sendo atingindo por facadas a cada palavra proferida por quem estava atrás de si "Mas apesar disso tudo... Eu te amo"
Jack agora estava surpreso e tinha aberto seus olhos assim que a ultima palavra chegou ao seus ouvidos, ele sentiu os braços felpudos o abraçarem por trás envolvendo o ombro e pescoço incrivelmente gelados do garoto.
Jack sorriu entre lágrimas tocando nos braços do pooka e então os envolvendo com os seus gelados.
Sentiu um leve arrepio percorrer pelo corpo do maior, provavelmente por causa do contado com a pele fria quando a sua estava quente, mas ainda sim o aproximou ainda mais de seu corpo.
Com dois dedos ergueu o rosto de Jack o forçando a olhar diretamente para seus olhos.
Coelhão sorriu enxugando as lágrimas que tinham parado de cair e depois se aproximou tocando gentilmente os lábios do garoto com os seus.
Foi um beijo calmo, os dois aproveitavam a sensação desejando que ela durasse para sempre.
"Eu te amo, seu canguru maldito" Coelhão vez uma careta um tanto zangado com o apelido, mas ignorou, não queria estragar o momento.
É pelo visto os dias de verão não serão mais tão entediantes assim para Jack, nem para o Coelhão.
Notas finais
Beijos sabor milho!
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