Noite de agonia
1 Capítulo Único
Ao final de um dia particularmente melancólico, Kelly se encontrou chorando à noite com o rosto pressionado contra o travesseiro.
Não é que tenha acontecido algo triste naquele dia, como quando suas amigas saíram e não a convidaram, fazendo-a se sentir desnecessária e até inoportuna; nem algo vergonhoso, semelhante àquela vez em que sua calça rasgou no traseiro durante a aula de educação física e ela teve vontade de morrer; nem tampouco dramático, como as brigas que tem com sua mãe, ao término das quais sente-se culpada pelo que disse, ao mesmo tempo em que se questiona se a mãe realmente a ama.
Não, nada disso aconteceu. E o que de fato aconteceu foi nada. Absolutamente nada. E não acontece nada já faz um bom, bom tempo. E é aí que reside o atual problema de Kelly. A inércia das coisas a sufoca. Ela tenta fazer algo por si mesma, mas não sabe por onde começar e a quantidade de opções a deixa paralisada, se afogando, por fim, em seus próprios pensamentos.
Pobre Kelly. Nesta noite em específico, ela tinha se deitado em sua cama e, através da janela aberta, olhado para o céu escuro lá fora, sentindo-se um peso morto para si mesma. Pensou na sua (suposta) falta de beleza, de propósito e de utilidade; comparou-se com suas amigas que eram incríveis aos seus olhos; questionou-se do por que do seu quarto ser tão sem personalidade e a partir daí caiu na agonia de uma crise existencial, sem saber de onde veio, quem era ou para onde devia ir. E enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto e molhavam o travesseiro, Kelly desejou ter a simplicidade da infância de volta.
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