Noite de Verão
1 Sonhos de uma Noite de Verão
Notas iniciais
Primeira parte por Doce Amarga, a partir do segundo ponto em negrito eu comecei o/ Boa leitura!
Träume Einer Sommernacht — Sonhos de uma Noite de Verão
Olhos arroxeados representados num reflexo imperfeito na água cristalina.
- Problemas, Rod? — Ouvir minha voz soar baixa, escorrendo e pingando pelas folhas das árvores do bosque. Vi a imagem no lago – ou como sempre chamo, o farsante — crispar os lábios, os olhos estreitaram. Ele estava frustrado. O reflexo, uma sombra sem alma e coração, virou-se para mim. Passou as mãos em seus cabelos, jogando as madeixas achocolatadas — e falsas, já que era apenas uma reprodução do verdadeiro — para trás. Vi, ainda olhando o cruel impostor, abrir a boca e a fechar por várias vezes. Suspirei.
- Os de sempre, Gil — Sua voz não entoou com a mesma melodia que a minha, não ecoou pelo bosque. Sorri.
- Entendo — Apenas murmurei, estava ocupado demais em analisar os defeitos daquele ser que se apesentava como meu melhor amigo na água. Um farsante cheio de falhas. Ele era pálido demais, magro demais. Tenho certeza que que Roderich – o real, o que estava de pé próximo ao rio — era menos pálido e seus olhos não eram inexpressivos! Como disse: Um péssimo farsante. Em contra partida, o meu impostor refletido era incrivelmente parecido com minha magnífica pessoa. Orelhas pontudas, madeixas brancas, lábios finos, olhos vermelhos. A perfeita cópia de uma pessoa perfeita: eu, Gilbert Beilschmidt, elfo das Terras do Leste e protetor do segredos que lá existiam. O vento soprou pelos galhos das arvores, trazendo uma leve melodia. Gilbird cantava suavemente em algum lugar.
- Ei, Gil — Roderich chamou-me a atenção, me fazendo fitar a pessoa real, não a cópia mal feita daquelas águas.
Desta vez, porém, ele era quem encarava a água.
- Sim, jovem mestre? — O apelido de infância escapou, fácil, por meus lábios. Ele riu.
- Sabe que não gosto quando me chama por este apelido — Revolveu, os lábios não mais crispados.
- Mas o que eu, uma criatura tão incrível, poderia dizer? Está em seu sangue, não me culpe — Lancei lhe o melhor dos sorrisos.
Ele apenas me encarou, os olhos expressando o orgulho de sua linhagem. Roderich Edelstein tinha em seu sangue a mais pura essência da magia. Havia, correndo em suas veias, o sangue da mais bela e poderosa fada e feiticeira: Morgana Le Fay. E ele ia pelo mesmo caminho que ela: Ia se tornar tão ou mais magnifico. Não mais que eu, claro, mas ainda sim um ótimo feiticeiro. Treinava para isso desde criança. Gilbird já havia parado de cantarolar, deixando nós e o ambiente em silêncio.
Não era constrangedor, tampouco incomodo. Era apenas eu e Roderich admirando o nada, perdidos em nossos próprios pensamentos. Mas eu sabia que ele queria me contar algo, o conhecia bem e sabia que, quando chegasse a hora, ele me falaria. Ele sempre falava.
Minhas orelhas captaram o som de folhas secas sendo pisadas, ouvi a flecha sendo puxada da aljava e sendo colocada no arco.
- Olá, Eliza — cumprimentei, seco, a amiga de Rod. Ela assentiu com a cabeça, numa saudação muda. O arco e flecha postos em mãos, preparados para acertar qualquer coisa que a ameaçasse. Elizabeta era extremamente desconfiada, principalmente pelo fato de não ser deste mundo. Não, ela não era de fora do planeta, muito menos de fora desta dimensão. Pelo contrário, ela também era um ser mágico. Mas quando me refiro à “este mundo” gostaria de dizer “superfície”.
Elizabeta era uma filha das águas, e sentia-se extremamente desconfortável em estar fora de sua casa. Ela sempre ia nos visitar, era uma ótima companhia e uma grande faladeira. Mas naquele dia em especial, ela parecia mais quieta, embora um brilho especial em seus olhos indicasse algo a mais.
- Certo – falei, convicto de que estavam a me esconder algo importante – A importância que a minha pessoa exerce sobre as forças da natureza impedem que vocês consigam manter algum segredo. Ordeno que me contem – finalizei a frase cruzando os braços e olhando de um ao outro.
- Ainda não contou a ele, senhor Roderich? – Eliza pronunciou-se, a voz de tal forma suave que me surpreender. Nunca a ouvira falar deste jeito. Algo estava errado. Roderich permaneceu em silêncio. A quietude do jovem mestre e o brilho nos olhos da filha das águas me fez engolir em seco, mesmo sem saber o porquê. O feiticeiro continuava a olhar para o reflexo, indicador de falsidade. Eu não confiava na água, este era um dos motivos de ser, de certa forma, rival de Elizabeta.
- Roderich... – eu disse, com um leve tom de irritação na voz, saindo pela ponta da língua como um sopro. O jovem mestre não era de falar muito, isso eu sempre soube. Mas seu rosto estava impassível e imutável perante a tal animação, mesmo que “escondida”, de Elizabeta. Aquela diabinha não me enganava, sempre estive a par de seus planos, principalmente quando treinávamos juntos. Ela sempre armou treinamentos entre nós dois em que Roderich pudesse, milagrosamente, aparecer. Aquele poder de senhora dos mares me irritava. Ela só era deveras interessante quando não apelava com suas magias de atração. Rod fungou e quando eu abri minha boca para perguntar novamente o motivo daquele estranho comportamento de ambos, ele respondeu rápida e claramente algo que agiu como se forçasse minha cabeça entre as pedras.
— Elizabeta e eu iremos nos casar.
Minha primeira reação foi interna, e meu belo rosto agradece por isso. Senti meus órgãos se revirando com a notícia e minha secou de tanto que arregalei os olhos. Pisquei rapidamente e engoli em seco antes que a boca aberta me fizesse passar vergonha. O coração estranhamente abateu-se, como se os átrios e ventrículos tivessem entrado em pane, e eu conseguia ouvir meus batimentos em meus ouvidos. Já por fora, forcei um sorriso falso e gigante – estou habituado à eles, já se tornaram praticamente naturais – e dei uma risadinha característica.
— Sério, Eliza? – falei em tom debochado – O que vocês viram um no outro, inferioridades? A Eliza é praticamente um garoto que de “filha dos mares” só tem os poderes, e você Rod, está mais para garota do que a senhorita aqui ao lado! – ela me olhou feio, embora os olhos ainda me irritassem com aquele brilho todo. E Rod… Bem, Rod olhava para todos os lados, menos para mim.
- Bem, o que importa e que nos casaremos daqui a três luas, Gilbert — Ela disse com um orgulho quase palpável e eu senti minha boca se abri em um ‘O’ perfeito. Como assim três luas? Podia sentir as engrenagens do meu cérebro trabalhando avidamente, tentando entender aquilo.
- ... Temos tantas coisas para arrumar! — Continuava a falar, alegre, sobre seu casamento — E queríamos que você, Gilbert, fosse nosso padrinho — Terminou olhando esperançosa para mim. Roderich também me encarava, a aflição estampada em seu rosto. Eu senti, mais uma vez, meu estomago embrulhar. Uma vertigem me atingiu. Meu amigo iria se casar! E eu seria o padrinho!
- Mas é claro que minha incrível pessoa lhes dará a honra de ter a mim, protetor dos segredos do Leste e uma ótima pessoa, como padrinho! — Respondi a pergunta muda dos olhos de Roderich. Um suspiro de alivio escapou por seus lábios enquanto Elizabeta soltava um gritinho de felicidade e retirava a flecha do arco, a colocando em sua aljava.
À duas luas, apenas...
- Então, conseguiu falar com Antonio? — Roderich perguntou-me, a voz arrastada. Ele estava cansado, Eliza não o tinha deixado em paz desde que me deram a notícia de seu casamento.
- Não, ainda não. O maldito viajou para o Sul, algo como ter que comprar especiarias para a noite da Colheita. Sabe como aquele duende é — respondi vagamente, os olhos fixos no manto negro e coberto por estrelas que era o céu naquela noite.
- Ah… entendi — Murmurou. Estávamos naqueles pequenos diálogos há três dias, que foi quando Eliza apareceu no bosque. Eu sabia que ele queria me falar algo, seus olhos diziam o que a boca se negava a fazer. Mas era Roderich ali, o mesmo Roderich que se negou a me contar algo importante para ele. E não, não estava magoado. Só frustrado, afinal minha incrível pessoa deveria saber daquilo por ele, não pela “filha das águas”! Ele estalou a língua, sinal claro de que ele estava incomodado. Sorri com isso. Ainda continuava mirando as estrelas quando resolvi quebrar o maldito silêncio.
- Então, como andas os preparativos para o Grande Dia? — Zombei, sarcasmo escorrendo pela minha fala.
- Tsc, vão muito bem, se quer saber — Eu quase podia ver o pequeno sorriso despontar no canto direito de seu lábio. Eu ainda sentia aquele desconforto no estomago toda vez que eu me lembrava de que meu melhor amigo iria se casar. Era totalmente compreensível, uma vez que ele deixaria de ter minha ilustre companhia. Tenho pena dele.
Estávamos na Colina, um pouco acima do vilarejo. Ali os ventos eram sempre mais gélidos, porém a vista era a mais bela. E foi nesses ventos gélidos e que traziam o cheiro de grama recém cortada que ouvi uma pergunta que não saberia como responder:
- O que acha do meu casamento com Elizabeta, Gilbert? — Pronto, estava aí o que ele queria me dizer desde o início da noite. E o que eu não saberia se gostaria ou não de responder.
A princípio admiti a ideia de ignorar a pergunta e me fazer de desentendido, assim mudando o rumo da conversa para algo mais atraente, como eu. Mas aquela pergunta parecia ter certa importância para Roderich. Não que eu me importasse muito com aquele casamento... Quero dizer, eu me importava! Mas o incrível eu não deve se deixar levar pelos meros sentimentos do corpo. Minha vaidade e credibilidade por diversas razões me impedia de descer meu orgulho à níveis tão baixos quanto o palavreado de Elizabeta. Resolvi me fazer de desentendido.
— Desculpe, não ouvi — ele me olhou, olhos roxos profundos, cintilantes e significativos refletindo nos meus.
— Acho que ouviu sim, Gilbert — ponto para ele.
Coloquei a mão nos cabelos e os baguncei enquanto pensava. Aquilo, a verdade, nunca iria sair de meus lábios, principalmente porque nem mesmo minha perfeita cabeça – a melhor de todas, devo acrescentar – havia formulado uma solução para toda esta confusão. Resolvi deixar os lábios falarem por mim...
— Não gosto da Eliza – ele me olhou com uma sobrancelha arqueada – Não! Não é isso! Eu gosto dela! – ele franziu a testa – Argh! Está me confundindo, aristocrata! – irritei-me e aproximei meu rosto ferozmente do dele.
— Confundindo-o? Você é que está criando antíteses em suas próprias palavras.
— Não... Eu quis dizer que gosto da Eliza como companhia. Ela é uma ótima pessoa para aventuras, mas não é uma boa mulher, e nunca será uma boa esposa, não importa a ânsia que tenha para casar com você, jovem mestre – tudo bem, até que as palavras saíram interessantes. Eu sabia que era incrível – Além do mais, ela é uma sereia. Sereias não são confiáveis para casamentos, mesmo as mais masculinas. Ele pareceu refletir por um momento.
— Estaria com ciúmes, Gilbert? – pfff. O aristocrata sabe ser metido quando quer, hein?
— Claro que não! Minha incrível pessoa não sente ciúmes, principalmente de você, jovem mestre. Apenas não acho adequado que case-se com uma delas – Claro que não permitiria. Aquelas malditas já havia lançado seus poderes em diversos elfos de meu exército.
— Irá sentir minha falta? – ele indagou repentinamente, antes que eu conclui-se meus pensamentos. Engoli em seco.
— Claro que não – senti meu rosto corar – Você é apenas um feiticeiro que converso, talvez amigo... – gaguejando, prossegui – É... talvez, apenas talvez, uma pessoa importante... Mas quem se importa? Isso não me fará sentir sua falta! – bati o pé e cruzei os braços. Ouvi-o murmurar algo que me pareceu um “ótimo” e logo senti algo em meus lábios.
Os dele.
Finos, quentes e com um sabor de hortaliças colhidas no entardecer. Os lábios de Roderich eram, por deveras, saborosos. No entanto, eram ansiosos e afoitos, continham um quê de forçados.
Meu sangue era bombeado com força, a adrenalina correndo por minha veias.
Havia algo naquele beijo que não pude identificar. Aquilo não era natural dele, não que beijar minha magnânima pessoa não fosse natural. Pelo menos não pra ele…
E tão rápido quando os lábios deles selaram os meus, mais rápidos eles se foram. E ele não me olhou, enquanto eu o fitava, os olhos perdidos e procurando respostas. Vi suas bochechas corarem de forma graciosa e ele abrir e fechar a boca diversas vezes.
- Jovem Mestre… — Comecei apenas para vê-lo se distanciar. Correndo Colina abaixo, me deixando ali, sozinho e com as estrelas como testemunhas do ocorrido
Os pensamentos zuniam em minha mente, batucando e ecoando pelos recônditos de minha alma. Não eram ritmados, tampouco organizados, afinal, eu tinha feito o quê? Beijado meu amigo?
Não…
Foi ele quem beijou meus incríveis lábios… Fora a boca dele na minha.
Mas foram os meus olhos que caçaram os deles, não o contrário.
Arg! Aristocrata maldito!
O vento piou baixo, trazendo um cheiro de ocre, queimado. Resolvi que era hora de voltar ao vilarejo e deixar os pensamentos confusos ali, junto as estrelas. Perto do imenso nada e tudo que era o céu.
Assoviei, chamando Gilbird que veio piando alegre. E, com ele pousado em meus ombros, desci a Colina sentido a grama fazer cócegas em meus pés descalços.
Eu já estava perto do Vilarejo quando mudei de ideia. Iria pelo bosque, as arvores me trariam um pouco de sossego, uma paz no meu interior conturbado. E foi isso que elas fizeram: Trouxeram paz. E cada vez que eu ia entrando no breu do bosque, ouvindo a sinfonia do farfalhar de folhas e sons agudos de animais noturnos meu interior ia, gradativamente, se acalmando. O bosque era o único que tinha esse poder sobre minha magnifica pessoa.
Já via as luzes provindas de velas. Estava perto, havia sons de flauta e violino, uma melodia agitada. Então vi o motivo do cheiro de queimado.
Alguém havia feito uma fogueira e, pulando ela, no ritmo da música, estava a personificação do mal em corpo de anjo: Francis Bonnefoy, o Demônio.
O loiro bailava gracioso, cortejava as ninfas e tinha no rosto um sorriso doce que contrastava de maneira exorbitante com o olhar vil.
Os acordes do violino ficaram fortes quando ele me viu. O sorriso doce substituído por um de pura malícia.
— Ora, ora, se não é o incrível senhor Gilbert! Posso, huh... ajudá-lo? – pontou a frase com um quê de duplo sentido.
— Pare de bobagens, Francis, te conheço a séculos. Não fale como um desconhecido.
— Claro, claro, amado Gil... – Francis me olhou de uma forma que teria me seduzido se eu fosse qualquer um menos incrível enquanto puxava uma das ninfas pela cintura – Mas devo lhe dizer algo pessoalmente... Antes que o maldito Arthur aparece por aqui para tentar atrapalhar minha festa. De novo.
— Kesesese – foi o máximo de risada que consegui forçar, e até que saiu de certo convincente, e Gilbird se remexeu em meu ombro – Arthur anda mexendo com você novamente?
— O tempo todo, e o mago maldito aparece nos momentos mais inoportunos! – ele fechou os olhos, indignado e, largando a ninfa, prosseguiu pelo caminho obscuro da floresta que dava para seu covil – como Antonio e eu gostávamos de chamar sua casa.
Prosseguimos em silêncio pela floresta, Francis andando graciosamente, mesmo para um demônio, à minha frente. Chegamos em sua morada em um piscar de olhos, tanto que eu só percebi quando estava sentado em sua poltrona de pele de urso – que por sinal me causava repulsa apenas por ser um animal. Ignorei momentaneamente as minhas frescuras e o demônio na certa percebera que algo me abalava.
— Olha Gil, eu sei no que você está pensando – continuei em silêncio, porém olhei no fundo dos orbes do louro, enquanto ele abria um imenso sorriso cheio de segundas intenções – Está pensando no corpo do Roderich, non? Naquele corpo esguio porém deveras sensual que aquele feiticeiro sustenta. Deve admitir que ele tem uma silhueta excepcional até mesmo para um homem – ele deu uma risadinha – Uma silhueta muito excepcional... Excepcional ao extremo... – senti eu rosto fervendo.
— C-chega, Francis! – olhei para o chão, nervoso. Gilbird piou calmo ao meu lado.
— Desculpe, mon chér...Acho que aumentei um pouco as coisas... Ou talvez não, você é quem tem que me dizer... Eu aumentei as coisas?
Certo. Normalmente estaríamos junto com Antonio e numa hora dessas os três estariam rindo das palhaçadas de Francis, porém hoje não era o meu dia. Eu estava nervoso, confuso, e já estava me esforçando para que tudo o que eu dissesse saísse em tom convincente. Francis percebeu que meu humor não estava dos melhores.
— Mal humor, huh? Bom, então irei direto ao ponto – ele se sentou à minha frente com um cálice entupido de alguma coisa que tinha um odor incomodo para minhas narinas sensíveis – Sangue de virgem, quer? – ele ofereceu, ainda sorrindo. Neguei e ele prosseguiu – Pois bem, nosso belo Antonio está planejando um ritual para unir você e seu amor, e livrar aquele pobre jovem de alma inocente, e corpo virgem que aparenta ter um sangue muito bom, devo acrescentar, das garras da filha das águas. Ela não é má, claramente, mas nem eu e muito menos Antonio gostamos dela. Então, resolvemos te ajudar... O ritual é hoje à noite, na casa do senhor duende. Não se atrase para a diversão... – ele deu uma piscadela. Por que tudo o que ele falava tinha duplo sentido no final?
- Desculpe, mas como? Antonio não viajou para o Sul a procura de ingredientes para Colheita? — Minha voz pontuava surpresa. Sabia que toda vez que Antonio resolvia fazer alguns de seus truques de mágica alguém saía ferido ou algo explodia. Não que ele não fosse bom, ele era, o problema é que ele se empolgava demais e isso sempre gerava um certo pânico no Vilarejo. O duende era imprevisível.
- Isso o que você ouviu, anjo — A malicia denotava gravemente em sua voz — E, caso não lembre, há quantas luas, exatamente, acontecerá A Colheita?
- Ora, acontecerá daqui a duas luas… — Algo estralou com força em algum canto da minha mente. O demônio sorriu.
- Exatamente — Falou de forma lenta, pautada.
Não! Aquilo era impossível! Não tem como eu, O Incrível Elfo das Terras do Leste e protetor de seus segredos, ter esquecido disso! A Colheita era o dia mais importante de nosso mundo! Nela, nos reuníamos e colhíamos os frutos da Árvore Sagrada, nossa protetora. E fazíamos nossas oferendas ao colocar vinho num cântaro e colocá-lo numa cesta cheia de frutas, deixando no mar e devolvendo o que nos fora dado como uma graça. Era o dia em que as Musas nos agraciavam com suas músicas. Era um dia de festejos!
- Ela escolheu um dia sagrado… — Sussurrei.
- Um dia sagrado para o dia em que marcará a vida dela, logo, um momento sagrado também — Francis terminou num sibilar.
- Mas o que minha incrível pessoa tem a ver com isso?! — Tentei manter minha voz segura e forcei um desdém que me arranhou a garganta — Quem vai casar com a filha das águas é Roderich, não eu! — O anjo, com olhos do Submundo, riu. Gargalhou com gosto. Gilbird ficou inquieto no meu ombro. Mau sinal.
Vi algo sobre a cabeça de Francis tremular. Suas asas. Belas e negras. Se elas dessem o ar de sua graça a sala então encolheria e não haveria espaço nem para um rápido puxão de ar. Isso já havia ocorrido diversas vezes, mas foi no tempo em que éramos crianças e não tínhamos pleno poder sobre nosso próprio corpo. Vivíamos nos machucando, seja com as asas pontiagudas de Francis ou com as poções e rituais malucos de Antonio. Até mesmo minha pessoa causava estragos quando tentava aprender magias diferentes.
- Oh, Gilbert… Tem tanto a aprender — A voz calma e doce. Ele estava irritado — Até daqui a pouco, lhe vejo na hora da verdadeira diversão. E dizendo isso saiu, levando nas mãos o cálice com sangue de virgem, e me largando em sua sala, onde não fiquei por muito tempo, afinal tinha explicações a tirar com um duende e um demônio. E, correndo, saí da casa de Francis e me embrenhei na floresta escura e iluminada por nuances pálidas da luz da lua que escapava pelos galhos retorcidos. Desta vez não fiquei entre as arvores para me acalmar. Só parei de correr quando avistei o grande chalé de Antonio. Pisei nas flores do jardim pouco me importando para o que o duende falaria, era o maldito que deveria me ouvir, não o contrário.
Abri a porta com força.
- Olá, Gilbert. Que bom ventos o trazem? — A voz de Antonio ressoou na escuridão.
— Pelo que Francis disse, estou precisando de sua ajuda.
Ele me olhou com a sobrancelha erguida assim que acendeu uma parca luz de velas, e comecei a narrar a história. Antonio remexia em potes cheios de coisas estranhas e ouvia a cada detalhe atentamente.
Por fim, ao terminar de contar, Antonio sorriu para mim.
— Tenho exatamente o que você precisa, Gil!
---xXx---
Sim, já havia se passado as duas luas que de tanto ouviam falar naquela floresta. O casamento de Elizabeta e Roderich tinha chegado.
Ele seria em frente ao mar, no topo da colina, simbolizando a união de um feiticeiro e de uma sereia. Tudo estava magnífico, claro que eu brilhava mais do que qualquer um presente, mas isso já é tão fato que não há necessidade de dizer. Pois bem, todos estavam preparados, bem vestidos e até mesmo o Rod já estava esperando a Eliza no altar ao lado da fada que realizaria a cerimônia. Senti a garganta apertando... Não tinha ideia se a magia de Antonio funcionaria. Ele estava do outro lado, encostado numa árvore, conversando com Francis. Eu preferi ficar longe deles.
“Está tudo preparado” ele disse “Ela não vai notar que foi uma magia e você terá o estrago que deseja”.
Não queria ser um estraga-casamentos, mas eu simplesmente não conseguia ficar impassível perante uma situação daquelas. E por mais que eu tentasse negar, por mais que chacoalhasse minha cabeça, apertasse meus cabelos entre os dedos ou mandasse tudo para o inferno, eu não conseguia me livrar do tal aperto no peito.
As ninfas e sátiros se animaram momentaneamente e logo os sons de flauta e harpa foram ouvidos. Não olhei para a direção que todos se viraram. Mas claro, quando ela passou ao meu lado eu não pude evitar olhar.
Seu vestido era uma mistura dos dois povos: a parte de cima era ornamentada com conchas e estrelas do mar, pérolas e madrepérolas. Já a saia e a calda da vestimenta eram feitas de flores. Bela flores, devo acrescentar. Seu sorriso era radiante, e ela olhava para frente como se visse apenas Roderich.
Sendo sincero, ao menos olhei em sua direção. Não queria ver os olhos do jovem mestre brilhando ao ver Elizabeta e não queria ver o sorriso dela ao vê-lo. Apertei os dedos até os nós ficarem brancos e meu braços doerem. Engoli seco.
Quando as ninfas e os sátiros pararam de falar, eu sabia que Eliza havia pisado no altar. E que Roderich havia recebido sua mão com m beijo, e com um olhar perfeito. E que ao final daquela cerimônia ele iria beijá-la... Beijá-la de forma apaixonada, não do jeito que havia me beijado na colina. Daquele jeito estranho, rápido e de aparente piedade. Será que ele sabia de meus senti- Não! Não, não, não! Não há sentimento algum, não há! Droga, isso é que dá passar algum tempo ao lado de Francis.
Silêncio mortal. O leve ressonar de respirações era o único som ouvido. Gilbird estava quieto em meu colo. O vento não assoviava, pássaros não cantavam. Era como se desgostassem dessa união tanto quanto eu.
Era para ser um dia alegre, cheio de sons, afinal, daqui algumas horas iriamos deixar nossas oferendas e pularíamos, alegres, por mais um ano de fartura.
E então Alfred, que realizaria a cerimônia, começou a falar.
Nota mental do Incrível Eu: Alfred era alguém de entidade duvidosa e de um incrível mal gosto. Loiro dos olhos claros e de porte altivo, trajado em roupas de guerra. Ninguém sabia ao certo o que ele era ou de onde vinha. Ele simplesmente apareceu no vilarejo no meio de uma tempestade e por ali ficou. Tinha uma aptidão enorme para fazer diversos tipos de receitas e sempre se vangloriava com isso. Humpf! Exibido. O mais estranho é que ele sempre tinha um garoto à tira colo com ele. Não lembro do nome, afinal tenho coisas mais importantes para me preocupar, mas sabia que o garoto era moreno e baixinho.
Mas retornando, eu os olhava — Rod, Eliza e Alfred — e percebia em como aquilo tudo me afetava de maneira estranha. Era estranho querer que fosse eu ali. Que fosse a minha incrível pessoa naquele lugar, não Eliza. Não que eu gostasse do Jovem Mestre, longe disso. Eu só queria saber como é sentir-se com aquele frio na barriga que muitas pessoa dizem ter quando se está ao lado da pessoa amada. Queria sentir as mãos suando frio. Queria tanta coisa…
-... Então cá estamos nós para celebrar a união de duas pessoas tão distintas quanto seus povos — Alfred continuava a tagarelar.
A hora estava chegando.
Senti a aura irrequieta de Francis tremular.
-... E você, Roderich Edelstein, aceita Elizabeta Héderváry como sua esposa? — A pergunta crucial foi feita e meus olhos fixaram-se com força na figura de Roderich.
Ele abriu a boca, quase podia ouvir as palavras escaparem por ali, felizes com sua liberdade. Fechei os olhos, como se aquilo fosse impedir as palavras de saírem.
E então o grito veio: alto, aterrorizador e pude ver o sorriso diabólico de Francis.
O grito de Elizabeta ressoou, preenchendo, com agressão, os tímpanos de todos.
Todos os olhos vidrados nela. Abismados, horrorizados, surpresos… Todos, sem exceção, a encaravam com medo. Até Roderich tinha a boca em um O perfeito.
O riso de Tonio ecoou em minha mente enquanto eu visualizava Elizabeta repuxando a saia do vestido para cima e suas pernas se transformarem, pouco a pouco, em cauda. Verde e cheias de escamas. Ela tombou, já sem equilíbrio, para frente. Roderich parecia paralisado demais, tanto que nem a segurou. Ele estava lívido de susto, assim como todos os outros.
A sereia gritava, mas não era de raiva. Agora que eu parara para prestar atenção na confusão, os gritos dela eram de pura dor. Eu nunca havia sequer pensado que a transformação pudesse ser algo tão doloroso e horrível, diferente da beleza que elas ostentavam quando nadavam. Parecia ser, literalmente, como se suas pernas estivessem sendo costuradas – e dá mesma forma ela deveria se sentir ao se tornar humana: a dor de ter seus membros inferiores sendo partidos ao meio.
Senti um misto de confusão enquanto Antonio e Francis eram os únicos a dar gargalhadas – as quais não eram ouvidas graças a distração do público. Eu não sabia de nada, não entendia nada. Por que Roderich estava lívido daquele jeito, e por que colocara as mãos na cabeça? Elizabeta estava gemendo aos seus pés, com sua calda já formada. Ela suspirava e seu rosto estava inteiramente vermelho.
A pena me consumiu.
Corri em sua direção, na de Elizabeta, não de Roderich – é claro, e não adianta falar que estou mentindo, mesmo que após me aproximar eu tenha me mantido de pé em frente a ela, e olhado Roderich de cima a baixo.
O jovem mestre parecia ter se recuperado do que havia o feito sentir dor. Ele olhou para mim, os olhos cintilando confusão.
- Gilbert, eu-
- Roderich! – a sereia capturou sua atenção e ele ajoelhou, ainda assim me olhando. Ajoelhei à frente dela também, olhando em seus olhos por um momento.
- Elizabeta – ele começou – Você me enganou...
- O que? – ela disse, completamente constrangida enquanto os convidados mantinham um burburinho deveras alto – Não entendo, do que está falando? Como assim eu o enganei?
- A senhorita usou uma de suas magias, não foi? – ele sussurrou, para que apenas nós três ouvíssemos.
- M-magia? – sua voz ainda estava arranhada de dor, e ela acariciava as escamas.
Roderich assentiu e eu continuei sem compreender. Ao que parecia, Roderich estava chateado com ela. Minha incrível mente deu um nó que eu tentei desatar, e Gilbird piou ansioso em meu ombro. Por um instante Eliza pareceu compreender o que Rod havia querido dizer.
- Não! – ela se desesperou – Nunca, nunca Roderich! Eu nunca faria nada disso com você! Quais seriam minhas razões para...? – ela esbugalhou os olhos e o lábio inferior tremeu – A não ser que...
Eles se olharam por um instante, e meu foco mudou dela para ele, dele para ela várias vezes. O nó ainda estava em minha cabeça, me impedindo de raciocinar por um instante sequer. Nada lógico saía de minha cabeça.
- Então é isso senhor Roderich? – ela pronunciou com a voz fraca – Quais serão suas últimas palavras? – a dor e agonia que sua voz tinha não aparentava mais ser física.
Ele olhou no fundo de meus olhos e senti como se minha alma tivesse sido inteiramente lida com aquilo. Elizabeta se retorceu abaixo de nós, parecia esperar uma resposta da parte do jovem mestre. Ele, ainda sem olhar para ela, apenas disse:
- Eu peço seu eterno perdão, Elizabeta.
Não consegui desprender-me de seu olhar forte que estava me segurando como se ele estivesse usando todas as suas forças, até que repentinamente desviei o olhar como uma garotinha tímida. Ele a olhou assim que ela pronunciou:
- Sabe que seu perdão não será aceito, não é?
Ele assentiu levemente.
- Muito bem – ela pronunciou, nervosa – Então ao menos me ajudem a ir para casa.
-xXx-
O final que o casamento tivera com certeza estava nos planos de Antonio, embora eu ainda não havia entendido como ele conseguira transformá-la em sereia sem o uso da água. O babaca era um mistério, mas eu devia agradecimentos a ele.
A despedida de Eliza foi curta e grossa. Sem abraços ou beijos, sem choro. Ela apenas dissera algo que ficaria cravado em minha mente pela eternidade.
- Cuide dele, Gilbert.
E se fora com as ondas, simples assim.
Ficamos parados na areia, encarando o horizonte do mar sem nada para dizer um ao outro.
- Deve estar confuso – ele finalmente disse, após um longo e devastador momento de silêncio.
- Confuso? Eu? – exclamei, o mais claramente que pude – Por que estaria confuso, aristocrata?
- Ironia. Bem de seu feitio, Gilbert.
Virei o rosto para o outro lado, impedindo que ele visse o rubro que domou minhas bochechas.
- Por um momento eu achei que ela havia feito de propósito, sabe, me enfeitiçado. Aqueles encantos de sereias para fazer os outros se apaixonarem. Mas depois que vi a confusão e sinceridade expressas em seus olhos, percebi que havia sido um engano. Ela usara sim sua magia, porém sem intenção – ele disse, em nenhum momento demonstrando irritação... O que não era típico dele, que se estressava com certa facilidade –Fizera eu me sentir atraído por ela, provavelmente porque era deste jeito que ela sentia-se quando estava ao meu lado. Achava que ambos estávamos flertando, e isso na certa a fez esquecer-se de controlar seus instintos.
Por aquele momento compreendi a cena anterior. Fiz que sim com a cabeça e olhei em sua direção, agora com as faces já pálidas como o usual.
Roderich olhou em minha direção também, e em meus olhos. Novamente, senti minha alma sendo tragada por aquele olhar profundo.
E ele sorriu.
Seus lábios, repuxados para cima em um sorriso lindo. Um sorriso que iluminara seus olhos... Não. Não apenas os olhos. Iluminara a face inteira, a pessoa inteira. Um sorriso que iluminou por completo o Roderich que eu conhecia. Ele se aproximou de mim e eu senti meu coração acelerando por completo, meu estômago se revirou e a cada centímetro que ele se aproximava eu desejava que Gilbird não estivesse ali, em meu ombro. Fechei os olhos lentamente, aguardando pelo suave toque que eu já sentira uma vez.
Ouvi apenas uma risada e senti seu abraço frágil. Aspirei toda a essência exalante de seu pescoço e abaixei a cabeça, enterrando ali, na curva do ombro. Seu tamanho, levemente mais baixo que o meu, permitiu o encaixe perfeitamente. De relance tive a impressão de ver Antonio e Francis nos observando, mas quando olhei para onde eles estavam, não encontravam-se mais lá.
E naquele momento percebi que não havia necessidade daquele desejo inumano de sentir as borboletas, os batimentos, estar no lugar de Eliza. Por que? Eu já tinha tudo aquilo. Já tinha o coração acelerado, o estômago nervoso e já estava – e até então ainda não havia notado – que sempre estivera no lugar de Eliza, por mais que eu não fizesse questão, obviamente. Bobeira.
Quando Roderich e eu nos separamos graças a um pio nervoso de Gilbird que estava sendo espremido eu me senti corando novamente. Senti a vontade de abaixar a cabeça, mas o incrível Gilbert nunca abaixa a cabeça. Então falei a primeira coisa que saiu de minha boca. Claro, aquilo fez ele se irritar um pouco comigo e sair andando, mas foi necessário.
- Roderich – eu havia dito – você está fedendo à peixe.
Fim
Notas finais
- Morgana Le Fay sim, ela realmente é uma fada, ou seja, a descendência do Roderich é de certa interessante ;3
- O ritual do Antonio... Sim, os duendes, famosos por suas azarações. Aqui o Antonio não é um daqueles duendes sinistros e feios, obviamente. Ele ostenta sua divina beleza em todo lugar que vai >-
Mas tiaaaa.... Por que Sonho de Uma Noite de Verão?
Simples, jovem gafanhoto. Não é nenhuma alusão à peça de Shakespeare, eu apenas quis retratar como se certos momentos da fic ocorressem no verão. Isso é mais de seu imaginário, caro(a) leitor(a)! O momento que deu nome à fic foi o beijo, como se a sensação do Gil ao beijar Rod fosse a de estar em uma noite de verão, para ele aquilo foi um sonho, compreendem? Não é necessário que entendam o raciocínio sem noção que me levou ao título, apenas por questões de curiosidade, essa seria a razão.
Quanto a transformação da Eliza, quis deixar o mais sofrível possível, não por não gostar da Eliza, e sim porque senti que a fic precisava disso. Sempre vi transformações de sereias como algo lindo, mas acho que tudo o que é belo tem seu lado doloroso e sofrido... Para mim o das sereias é esse... nem queiram saber o das fadas... hehehe~ sou má uú
Talvez tenham percebido que o Gilbert está um pouco deprimido nessa fic (aahh não tia! Imagina!)... Sim jovens ficreaders, isso foi necessário, e não, não fiz isso pra criar um OOC. Simplesmente, o Gilbert quase nunca é retratado triste. Acho que ele só esteve triste na música Einsamkeit, heh? Provavelmente já viram a tradução... Então, essa fic é vista do POV dele e ele está triste. Se fosse POV do Rod, por exemplo, na certa ele não aparentaria essa tristeza, não acham? A decadência da personalidade do Gilbert deu-se graças a seu conflito interno com o casamento de seu amado melhor amigo mais-que-amigo. Espero que possam compreender.
Devo acrescentar que agradeço a oportunidade de ter participado do concurso. Obrigada de verdade à Mayumi Sato por ter criado o desafio e à Doce Amarga, por ter aceitado ser dupla de uma chata como eu ;3
Notas Finais (Doce Amarga): Apenas agradeço a todos e peço desculpas por ser uma escritora noob ;-; (Maricchi: mentira dela ¬¬')
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