Noite Feliz
1 Noite Feliz
O natal no Reino de Órion chegou frio, mas sem neve e chuva. As casas, os edifícios e as praças foram enfeitadas, onde não havia uma árvore natalina, havia um longo cordão com luzes pisca-pisca ou um grande boneco de neve. O reino se recuperara há pouco de uma explosão que o devastou quase que por inteiro, portanto o temperamento de seus moradores não estava inclinado para festas barulhentas. O ânimo geral pedia paz e calma.
Aqueles que ficaram conhecidos como os principais heróis de Órion na explosão que o ameaçou ainda estavam no hospital. Arashi, o primeiro-ministro, mundialmente conhecido como "guerreiro glacial", tratava os ferimentos que ganhou por salvar sua pátria. Com ele estava Kin, sentada logo ao lado de sua cama. Loira, cabelos encaracolados, pele cândida e olhos castanhos profundamente escuros, aos vinte anos de idade dividia com Arashi o timão de Órion. O rapaz, que tinha a pele bem bronzeada, os olhos azuis claros como o céu numa manhã ensolarada e cabelos pretos como a noite, era três anos mais novo que a parceira.
Os dois conversavam e riam animadamente. O sol estava se pondo, deixando no céu atrás de si um rastro cuja cor se assemelhava à das abóboras maduras, e a roupagem clara do dia ia sendo substituída por um manto violeta que ganhava paulatinamente a obscuridade das sombras. Kin voltara do escritório há pouco menos de duas horas e, como fazia todos os dias, foi ao hospital ver seu companheiro. Nenhum dos médicos sabia dizer quem melhorava mais com aquelas visitas: ele ou ela. A vinda dela, concordavam, fora mais eficaz no processo de cura dele do que os melhores remédios e terapias.
Batidas à porta interromperam o papo dos dois. Pensando que era Yue, Kin não hesitou em permitir:
— Entra!
Quando descobriu que quem bateu foi Sora Raikyuu, Kin fechou a cara. Poucas semanas atrás esteve a ponto de dar voz de prisão ao Raikyuu, pois acreditava no envolvimento dele na recente tentativa de assassinato da princesa. Falador e debochado, ele a tirou do sério. Só não o mandou para atrás das grades por causa de seu irmão Haru e da Yue.
— Ah, é você. — Cruzou os braços e virou os olhos. — O que é que você quer, hein?
Sora deu uma risada.
— Também é muito bom te ver, Kin. E de nada pela minha ajuda quando seu reino foi destruído.
A loira olhou para um lado e para o outro e replicou:
— Mas você não ajudou em nada!
— Aí, isso é uma questão de ponto de vista! — Se defendeu. Pronto para mudar de assunto, voltou-se para Arashi: — Enfim, eu vim aqui porque queria falar pra vocês da ameaça idiota que eu recebi de uns palhaços daqui...
O casal trocou olhares. Estranharam. Não conheciam Sora há muito tempo, mas sabiam que ele não fazia o tipo que reclamava dos problemas para as autoridades. Que ameaça seria grave o suficiente para levá-lo ali?
— Uma ameaça? De quem? — Inquiriu-o o guerreiro glacial, mais curioso do que jamais esteve no último ano.
— Não lembro as palavras exatas, alguma coisa sobre quererem se vingar de mim… sendo franco parei de prestar atenção neles quando passaram de um minuto falando... — Confessou, coçando a cabeça, tentando lembrar-se do que ouviu. Quando finalmente algo lhe veio à mente, estalou os dedos e falou: — Ah, a parte patética: disseram que se eu não fizesse o que eles mandarem, iam revelar pra todo o Reino de Órion que o papai Noel não existe!
A atmosfera emocional do quarto mudou. Tal qual um bulcão cinzento sinaliza a vinda de um temporal, a expressão facial de Kin indiciava o trato sério que aquela questão estava para receber. Sora ria até então, mas parou imediatamente. Arashi movia o rosto num leve aceno de meneio. Já mais confuso do que constrangido, Sora encarava um e outro em busca da resposta para aquela mudança súbita de humor.
Kin desviou os olhos para ele.
— O que foi que você disse, Sora? O Papai Noel não existe? — Exigiu explicações. Qualquer um enxergaria seu interesse na resposta e o choque em seu olhar. Qualquer um, até quem menos a conhecia, em vez da invencível governadora de uma nação, veria uma criança nela agora.
Sora ficou mudo e estático. Sentia-se como um adulto para quem uma criança havia feito uma pergunta delicada.
— Kin, me dá um minuto a sós com o Sora? — Arashi, em tom de súplica, solicitou. Ela deu um beijo na bochecha dele e saiu como uma menininha que acabava de ouvir algo inapropriado.
Sora olhou-a ir estupefato. Quando a porta atrás de si bateu, indagou:
— O que é que foi isso?
— Kin não sabe que o Papai Noel não é real.
O garoto tentou conter as gargalhadas. Foi sua conquista mais difícil naquela semana.
— Espera, a primeira-ministra do Reino de Órion acredita em Papai Noel? É sério?
Arashi não perdeu a seriedade. Os cerúleos olhos límpidos voltados para os próprios pés, explicou-se:
— Nós dois crescemos juntos. Kin foi mãe e pai do Haru desde os dez anos, eu ajudava no que podia e queria que ela fosse criança pelo menos em um assunto. Daí escondi isso dela todos esses anos.
O ouvinte não sabia o que dizer.
— Quer dizer... Uau! Acho que nada mais me surpreende! — Exclamou, apenas. Agora um pouco comovido.
— Por isso, Sora, não importa o que aconteça... — Advertia, retirando os lençóis de cima de si. Com os pés descalços no piso frio de madeira, terminou: — Você não pode permitir que cumpram essa ameaça!
Sora esbugalhou os olhos e, em rendição, ergueu as mãos. Nem em seus sonhos mais esquisitos imaginou que as duas pessoas mais importantes do reino mais poderoso da terra levariam aquele tópico tão a sério. Mas, como alguém que cresceu lutando para sobreviver, viu-se em Kin. Também nunca teve a chance de ser criança. Nunca pensou que tinham tanto em comum. Diferente dele, contudo, a loira teve alguém ao lado para ajudá-la e preservá-la de determinadas cruezas da vida. O Raikyuu não foi poupado de nada, testemunhou tudo e fez tudo para sobreviver.
Ainda atônito com sua recente descoberta, Sora deixou o hospital procurando alguém, nas palavras dele, "normal". Então deu-se conta de que não tinha amigos. O problema era que estava ansioso para falar daquilo. Só lhe restou, afinal, falar com gente tão boba quanto a que acabou de encontrar. E correr o risco de fazer a mesma descoberta sobre eles. Ao pensar nisso, riu consigo mesmo. Era ridículo. Qual a chance de alguém conhecer duas pessoas tão estupidamente ingênuas? Apostaria com qualquer um que até Yue, Haru e Naomi ririam daquilo.
Uma aposta que perderia, inacreditavelmente. Esbarrou com os três a algumas ruas de distância do hospital e contou tudo. Com cabelos lisos, longos e da cor da noite, Naomi aparentemente nada tinha de incomum. Os olhos castanhos, os traços gentis, a compleição magra e a pele tão nívea que faria a neve parecer escura — tudo isso representava sua personalidade: calma como um dia típico de primavera. Já Haru, ruivo e baixinho, era tão avoado que nunca fora visto tomado pela fúria.
— Naomi, Haru, me dão um minuto a sós com o Sora, por favor? — À sua maneira, Yue repetiu o pedido de Arashi. Com uma fidelidade que deixou Sora arrepiado. Cabelos curtos, levemente ondulados e da cor do vinho, Yue logo de cara induziria aquele que a fitava a imaginá-la vaidosa. E quem assim fizesse acertaria. De gestos suaves, magra como Naomi e pouco mais alta do que ela, tais características nela camuflavam o pavio curto de sua personalidade. Explodia com uma rapidez hilariante, e isso a tornou o alvo preferido das brincadeiras de Sora. Ao ouvir a história dele sobre a tal "ameaça", tomou para si a responsabilidade de lhe dar o mesmo sermão que Arashi deu. Depois de cinco minutos falando, finalizou: — Você não pode permitir que cumpram essa ameaça!
— Falou, falou! Nossa! — Deu-se por vencido. Estabeleceu uma condição: — Mas você virá comigo saber o que vão pedir! Seja o que for, eu quero alguém por perto pra zoar...
— E eu vou porque se eu tiver sorte te dão uma surra. — Admitiu sua maior motivação para segui-lo. Caminhando junto ao Raikyuu rumo a um endereço que só ele possuía, perguntou: — Onde escreveram que querem te encontrar?
— Praça da Memória. — Falou, com a carta erguida numa das mãos e a outra no bolso. — E fique sabendo que há um limite de castigos que eu suportaria pra não revelarem que o Papai Noel não existe. Cara! Nunca pensei que eu diria isso.
— Se não apanhar deles, você apanha de mim. E do Arashi. Nós dois te damos uma surra, se revelarem esse segredo pro mundo!
Ao ouvir a última frase, Sora deu um salto.
— Isso não é um segredo! Qualquer pessoa normal de mais de cinco anos sabe disso! — Recordou, já irritado. — É sério, eu tô sonhando? Isso só pode ser um sonho muito estranho...
Yue ia o caminho todo rindo e brincando com "a ameaça", fingindo que a levava mais a sério do que de fato levava. Divertia-se com a confusão em que isso punha o Raikyuu. Também notou algo. O Sora que conheceu anos atrás jamais daria alguma importância a algo assim, não gastaria um segundo se importando com as crenças da líder do reino. Ele teria batido em quem o acordou para tentar intimidá-lo e depois teria passado o dia brigando nos túneis abandonados da cidade. Ficava feliz por vê-lo diferente. Continuava andando sem camisa para cima e para baixo, ainda falava alto, não parou de ser um brigão, mas algo nele mudou. Para a melhor.
Lá na Praça da Memória, reencontrou a dupla de babacas que o ameaçou. Tratava-se de Sato e Sota. Dois irmãos gêmeos enormes que se ressentiam — não por terem sido vencidos, mas desprezados. Gordos, vestidos de verde-limão dos pés ao pescoço, parecidos com sapos, Sora não quis enfrentá-los.
— Isso foi muito pior do que a derrota! — Gritava Sota, apontando para a cabine do banheiro na qual Sora entrara. Contava a história para Yue.
A garota, pasmada, prestava atenção. Olhava-os sem piscar os olhos, quase boquiaberta. São mesmo uns idiotas, concluiu.
— Paciência, irmão Sota! Agora teremos nossa vingança! — Bradou Sato, triunfante. A praça estava lotada de gente. Os dois braços para o alto, exclamou para todos ouvirem: — Ele saberá como é ser humilhado!
Todo mundo em volta comentava sobre os dois, fazia troça dos irmãos. "Depois não sabem por que foram desprezados", Yue pensou, de cabeça baixa. "Eu também não lutaria com esses dois". De jaqueta preta com detalhes dourados e vestido de renda violáceo, descruzou os braços e bateu de novo na cabine azul-marinho em que Sora estava.
— Vai logo com isso, Sora! Não quero passar minha noite de natal aqui, temos uma ceia com a Naomi e os outros! — Reclamava.
Um suspiro de resmungo e cinco minutos depois, ainda dentro do banheiro, Sora devolveu:
— Por que mesmo eu tô fazendo isso?
— Pelo Haru e pela Kin. — Disse. — Os seus amigos, Raikyuu.
Cedeu, enfim. Se soubesse que gostar das pessoas era tão difícil assim, teria continuado a brigar com elas e dormir nos túneis. Quando saiu da cabine, tomou o lugar de Sato e Sota na boca do povo, pois estava vestido exatamente como eles. Virou objeto de risadas e comentários. Inclusive de Yue, que não o poupou das fotos. No fim, os gêmeos só queriam Sora vestido como eles para poderem ouvi-lo pedir-lhes um duelo e desdenhar dele também. Publicamente. Conseguindo isso, passaram entre a multidão e foram embora.
Yue, vendo-os ir, surpreendeu-se e, em pensamentos, disse: "Eles acham que essa gente toda tá rindo da "humilhação", não sabem que as pessoas estão rindo da roupa do Sora". Deu de ombros e sorriu para Sora. Dessa vez, não por causa dos trajes ridículos, mas por tê-lo visto sacrificar o orgulho pelos amigos. O garoto, corado, abaixara a cabeça e fechara os olhos. Nada dizia.
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