Noite Dos Ciganos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Não era a primeira vez que aquela menininha corria entre tantos arbustos sujando seu vestido tão belo e delicado. Também não era surpresa ela fazê-lo com um sorriso tão grande no rosto, afinal ela estava indo — como todas as tardes — ver aquele garoto de cabelos castanhos e olhos verdes que sempre brincava com ela. Todas as crianças de sua casa não a olhavam nos olhos, somente ele o fazia, tanto que este menino foi o primeiro a dizer um elogio sobre seus olhos A garota nunca tinha ficado vermelha na vida, mas foi só o jovem lhe fazer um elogio tão fugaz para aquela coloração estranha adornar sua pele branca.
Quando chegou ao ponto mais escuro da floresta, interrompeu bruscamente seus passos fazendo as botas brancas se sujarem ainda mais. Olhou para cima tentando ver as copas das árvores de onde ele geralmente saltava. Naquela densidão, mal sabia se o Sol ainda estava lá, adorava esta sensação única que apenas aquela floresta lhe oferecia. Por algum tempo não viu nada que denunciasse a presença do amigo, chegou a imaginar que ele não viria naquela tarde, o que a deixou triste, mas foi algo que não durou por muito tempo, pois logo um menino magro e aparentemente com dez anos de idade surgiu por trás da pequena assanhando seus cabelos morenos, estragando a última coisa que ainda estava impecável na jovem.
– Anne! Você continua não prestando atenção, desse modo qualquer um poderá lhe surpreender! – Disse o menino vitorioso, pelo jeito aquilo já tinha virado uma competição para ele.
– Não me importo de ser surpreendida, mas não gosto que assanhem meu cabelo! – Anneliese realmente detestava quando bagunçavam o cabelo que ela demorava horas para deixar belo. Mas apenas falou aquilo para não se dar por vencida.
Daniel apenas riu da declaração da menina, sabia que ela não tinha um gênio bom, mas tinha consciência de que a mesma gostava de sua companhia, do contrário não se aventuraria todos os dias na floresta para vê-lo. Ele também não podia dizer que a detestava, pois fazia sacrifícios semelhantes para passar as tardes ao lado dela. Só que ele não tinha que driblar empregadas, guardas e um muro que impedia a visão até do céu, pois não morava em um castelo, muito menos era a princesa deste. Ele sabia deste fato porque seus pais lhe mostraram pinturas da família real, e reconheceu a princesa Anneliese quando a viu. Mas ela nunca lhe contou, nem mesmo fez menção de que pretendia revelar-se, então deixou isto para lá, afinal seria bem melhor não precisar tratá-la por “vossa alteza”, algo pomposo demais para uma menina tão pequena.
Passaram mais um dia brincando até terem certeza absoluta de que já era tarde, novamente teriam que dar desculpas esfarrapadas para seus pais enquanto imaginavam qual seria a reação deles no dia seguinte, quando as mesmas mentiras fossem usadas. Tinham plena consciência de que não deveriam se ver, mas era tão bom ter a sensação de perigo correndo nas veias, cada segundo em que se falavam sentiam a adrenalina subir-lhes a cabeça. Se bem que eles tinham razões diferentes para isso, Anne só queria um amigo que a tratasse de igual para igual. Daniel era filho de nômades, amantes da aventura e do perigo. A menina representava para ele um crescimento pessoal enorme, porém nunca soube como aconteceu, mas essa razão começou a não corresponder aos fatos. Ele não mentiria todos os dias para os pais apenas pela aventura.
Quando eles se deram conta, tinham esta rotina há seis meses. Mas nenhum sabia nada sobre o outro, as conversas eram muito dispersas, nunca havia informações concretas, mas isso não importava, quando fugiam para a floresta, não existia princesa e cigano, apenas crianças brincando. Mas o tempo passava rápido, tão rápido que eles cresceram, ambos com onze anos já estavam se distanciando cada vez mais da infância em que podiam brincar sem ressentimentos. Anneliese já não gostava de manchar seus vestidos nem de ficar até o entardecer com o amigo, tinha medo de estar muito escuro ao voltar para casa. Daniel estava mais ativo e via que ela nunca conseguia acompanhá-lo nas brincadeiras que se tornavam mais pesadas, afinal, eles cresceram e as crianças deram espaço a uma garota e um garoto. As suas realidades estavam cada vez mais evidentes, a ponto de gerar estranhamento entre eles. Mas a amizade continuava, apenas um pouco reprimida pelo tempo.
– Anne, se não quer sujar seus vestidos, por que vem com os mais belos? – Perguntou o garoto.
– Porque... Eu simplesmente me recuso a aparecer de uma forma menos digna. Isso me envergonharia até o dia de minha morte. – Daniel deu um suspiro em deboche, enquanto ela tava tapas no tecido de sua roupa.
Afinal, ela é mesmo uma princesa.
Decepcionado foi caminhando para o lado oposto dela, não queria ficar mais com sua amiga naquela forma, como se um monstro aristocrata tivesse assumido o controle dos seus atos. A menina não entendeu porque ele estava indo embora, pelo menos ele deveria ter dito “tchau” ao fazê-lo, uma dama não pode ser tratada assim.
– Daniel! Aonde vai? – Disse o seguindo devagar.
– Vou para casa, você está muito fresca pro meu gosto, preferia quando você gostava de brincar.
– Mas eu gosto de brincar! Só que sempre são as suas brincadeiras, por que não me pergunta do que eu gosto?
– Está bem, vamos brincar do seu jeito. – Daniel tinha amadurecido antes dela, ao contrário do que é esperado de um menino e uma menina. Sentia que estava lidando com uma criança pequena e mimada e não com uma pessoa da mesma idade.
– Certo, eu vou ser a princesa e você o príncipe. Está vendo aquela árvore? – Apontou para o alto, indicando uma árvore tão velha quanto o tempo. – É meu castelo, aquela outra é um dragão, você tem que me salvar.
Então ela saiu correndo para subir no castelo improvisado. Daniel ficou estático. Aquilo realmente era considerado uma brincadeira? Parou de pensar quando um galho atingiu sua cabeça, olhou para cima e viu Anne fazendo movimentos de esgrima, entendeu que aquele galho seria sua espada, então a única solução seria lutar contra dragões imaginários. Nunca pensou que aquilo poderia ser tão divertido, matou vários dragões e subiu até a torre mais alta para pegar “sua” princesa. Quando estavam frente a frente ficaram se encarando. O que fazer agora?
– Então, o que acontece? – Daniel finalmente falou quebrando o silêncio.
– Bom... Acho que essa é a parte do “felizes para sempre”.
– E quando tempo dura?
– Bom... Eu não sei, acho que nunca fui feliz para sempre.
– Eu também acho que não, mas não tenho tempo para isso, pelo jeito já anoiteceu e meus pais ficarão furiosos se eu me atrasar mais. – Dizendo isto desceu tão rápido quanto subiu, deixando a garota sozinha na copa da árvore, atônita, pois não acreditava que ele a deixaria naquela situação.
– Ei! Esqueceu-se de algo aqui! Como pode deixar sua princesa no castelo?
– Não te preocupas, matei todos os dragões. Agora preciso ir, não brinco quando digo que serei escapelado.
Novamente saiu correndo, indo a uma parte da floresta que a dama nunca tinha se aventurado. Ela estranhou, afinal nenhuma cidade ficava para aquele lado, só se ele morava na floresta, o que seria ser... Um cigano? Não poderia ser. Seu pai tinha mandado exterminá-los quando tinha dois anos, um deles estar vivo seria muita sorte e ainda mais ela conhecê-lo. Ela se recusava a acreditar naquela possibilidade, mas para desencargo de consciência desceu da árvore e tomou o mesmo caminho que ele, adentrando na floresta que ficava aterrorizante a noite. Nunca imaginou que pudesse ficar mais escuro do que já era, com certeza não acreditaria se não visse aquele breu com os próprios olhos. Naquela noite ela perdeu todos os traços da sua infância, ao ver uma fogueira com várias pessoas dançando em um ritual totalmente diferente para ela. Elas gritavam coisas que não estavam na língua de seu país, se vestiam de modo peculiar, mas de certa forma parecido com o do seu amigo. Talvez, ele fizesse parte desse mundo.
Só que percebeu onde estava... Eles eram maioria absoluta, o que poderiam fazer com a filha do homem que exilou todos para aquele lugar imundo? Nem em seus piores pesadelos se imaginou naquela situação, o que fazer? Uma princesa não aprende a se defender, tinha milhares de empregados para protegê-la, mas tudo isso tinha ficado na fortaleza que ela fazia questão de escapar todos os dias. Foi ai que percebeu que aquele muro estava lá por um motivo, ela estava tão segura, mas abandonou tudo isso para ficar com um maldito cigano!
– Princesas não são bem-vindas. – Disse uma voz sedutora, mas familiar enquanto sua boca era coberta por uma mão. – Anne, me escutas e me obedece. Agora deves correr com toda a força do teu ser para o caminho que tu és acostumada e nunca mais pise nessa terra sagrada, tua vida depende disto. Entendeu? – Soltou a mão da boca dela para obter uma resposta imediata.
– Quem é você, Daniel? – Contrariando a vontade dele, ela não saiu correndo, aliás, contrariando até ela própria, pois estava com tanto medo que sentia vontade de gritar até alguém vir buscá-la.
– Daniel Héderváry, príncipe dos ciganos. Agora não quero lhe responder, só tem que correr, vai logo, princesa.
Ela não protestou mais, saiu em disparada ignorando suas botas e seu vestido que iam sujando e rasgando em contato com galhos e lama. No fundo de sua alma gritava com todas as forças: “eu odeio-te, Daniel Héderváry”. O amaldiçoou de todos os jeitos por ele ter omitido que sabia de sua origem, por ele ter a feito sair de sua casa onde estava protegida e por ele a fazer corar por tantas vezes. Ela nunca deu permissão para isso, então por que ele, apenas ele, fazia aquilo? Sua raiva era descomunal, seus olhos já tinham se enchido de lágrimas que já transbordavam refletindo sua fúria. Não tinha certeza de quase nada, mas nunca mais iria pisar naquela floresta novamente, não enquanto ainda houvesse sanidade em seus atos.
Chegou ao castelo completamente suja, ela não parecia a princesa, mas sim uma das empregadas. Felizmente seus pais estavam muito ocupados com qualquer coisa para reparar nela, então simplesmente chegou a seu quarto, tirou as roupas imundas dizendo claramente a empregada que deveriam ir ao lixo. Colocou um pijama e foi dormir. A partir daquele dia, voltaria a ser uma princesa, título que foi se perdendo na medida em que foi confiando naquele ladrão. Decidiu e prometeu a si mesma que aquelas tardes não existiram, tudo não passou de um sonho, sim... Apenas isso e nada mais.
Mesmo com tanto ódio dentro de si, em nenhum momento pensou em denunciar a existência daquele bando ao seu pai, sabia que sobraria para ela as horas de sermões desnecessários, então pode dizer que foram razões puramente egoístas, não tinha o mínimo de gratidão por ele ter a ajudado a escapar daquele bando de selvagens na floresta. Ela era uma monarca, cujo sangue não tinha uma gota de impureza, não podia ser vista com um vira-lata.
A partir daquele dia, ela parou de ir ao lugar secreto de ambos, ele continuava indo todos os dias sem falta e ficava horas parado ou matando dragões que sempre lhe lembravam dela. Provavelmente ela nunca soube disso, mas também não importava mais, voltou a ser o que era antes de conhecer Daniel, uma garota séria e solitária. Depois de algum tempo ele deixou de ir para a floresta e entendeu que sua aventura tinha acabado, ela conseguiu cumprir suas promessas e esqueceu que um dia pisou no bosque, todo o destino deles começou a se separar em proporções muito grandes, ambos eram príncipes de povos diferentes demais para conseguirem serem amigos.
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Mais um dia na rotina da princesa Anneliese, novamente ela acordou e imediatamente pôs seus óculos sem grau algum, apenas não queria que alguém visse em seus olhos violetas a tristeza que uma monarca tinha de guardar. Imediatamente chamou sua camareira, uma garota que deveria ser jovem demais para aquele trabalho, mas também nunca se deu o trabalho de perguntar quantos anos ela tinha, então nunca soube que ela era pouco mais que uma menina. Trocou suas roupas, fez o desjejum sob o olhar faminto da menina que continuava em pé ao lado de sua cama, não se incomodou e comeu tudo até a última migalha de pão. Após de tudo isto foi cumprimentar seus professores e seus pais com o mesmo tom formal para todos, e naquele dia foi anunciado a ela pela boca do próprio rei que seria a Princesa Regente enquanto ele e a rainha se ausentariam em uma guerra. Logicamente a princesa ficou sem reação, mas como todos previam aceitou sem pestanejar, afinal treinou sua vida inteira para isso.
Ninguém, exceto a mesma empregada de cabelos castanhos, soube das horas que ela passou gritando em seu quarto naquela noite, xingando seus pais, seus professores, seu povo e todos os seres multicelulares que andavam sobre a Terra. Depois de muito gritar agachou-se em um canto qualquer do quarto e pela primeira vez em muito tempo se permitiu chorar como uma criança. Jogando seus óculos para um canto do quarto onde eles sumissem, e continuou a chorar como um bebê desmamado, ciente de que isto estragaria sua reputação.
A menina que a servia ainda estava na porta do quarto esperando a ordem que a permitisse adentrar no recinto, porém esta não veio, o silêncio foi a única resposta que teve para saber que era seguro interromper a loucura da princesa. Quando o fez esta já não se desesperava em alto e bom som, apenas se recolheu em um mero canto de seu enorme quarto balbuciando coisas que ninguém entenderia, estava claro que a aristocrata beirava a insanidade. Com medo, mas persistência a menininha pegou os óculos de sua princesa e se aproximou um pouco mais dela, tendo a audácia de sentar-se ao seu lado. Anneliese ficou chocada com a aproximação da pessoa que mais tinha medo dela em todo o palácio, mas não podia dizer que não tinha ficado um tanto feliz por ela não ter saído correndo como outros fariam.
Feliciana, a empregada, segurou levemente o queixo de Anne e recolocou seus óculos, ainda muda. Naquele simples gesto, ela fez a cabeça da outra dar giros imensos, por que a sua serva estaria fazendo aquilo?
– P-princesa, eu trabalho aqui desde que me entendo por gente e sempre servi apenas a senhora. Perdoe a minha audácia, mas não consigo vê-la assim. – Suas mãos estavam fechadas em um concha, sua voz falhava pelo medo de ser castigada, mas seus olhos fitavam a garota sem piscar.
– Eu... Agradeço pelas suas palavras, Feliciana. Também agradeço os anos de dedicação em que trabalhou para mim... Obrigada. – Pela primeira vez a princesa fez uma leve reverência ao falar com a menina, tinha se surpreendido com si mesma com um gesto tão humilde.
– Princesa… Eu lhe admiro muito! S-seu piano es-esta cada vez m-melhor e pe-pela primeira vez eu vi que seus... Seus olhos lilás são lindos! – Feliciana gaguejou mais do que queria, mas a última parte conseguiu falar sem interferências, acreditou que aquilo melhoraria o humor da princesa.
Qual foi a desilusão da menina de olhos castanhos, quando a mais velha lhe deu um tapa tão forte que marcou sua face branca com os dedos da soberana. A menina jazia no chão enquanto a outra se levantava e a puxou pelo braço até a porta, a jogando de qualquer jeito para fora do recinto.
– Nunca mais enquanto você existir fale dos meus olhos de novo! Faça e morra enforcada!
Fechou à porta de um jeito tão violento, que o som ecoou por alguns segundos no castelo, a empregada continuou parada em frente ao quarto de sua princesa, ouvindo o choro que se tornou alto mais uma vez. Com um olhar triste pousou a mão no rosto, acariciando o local onde fora agredida, mas por mais que tentasse não iria conseguir ter raiva de sua princesa, ela era muito mais preciosa que sua dignidade. Assim desceu as escadas e foi fazer suas tarefas.
Anneliese foi dormir, era a única solução que encontrou em meio a tanta tristeza. E como se não bastasse a empregada elogiou seus olhos, lembrando aquele garoto de cabelos castanhos e olhos verdes, ele era o único que fez um elogio... Agora nem isto pertencia somente a ele.
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Longe do aconchego de um colchão, ou da segurança de muros, um jovem de cabelos aparentemente grandes para um homem estava tendo a maior crise de insônia de sua vida, parecia que algo repelia o sono e o mantinha acesso. Revirou por várias horas em seu pequeno quarto, até que desistiu e foi andar pela vila. Era uma vila muito pequena, o objetivo de não chamar atenção era o principal, ainda mais estando no meio da floresta. Viu dois rapazes conversando, um deles era seu irmão mais velho e líder do grupo, falavam sobre o castelo, sobre a família real e sobre a princesa. Não estranhou o assunto, afinal eles eram alvo de várias discussões, mas foi a noticia que um deles falou que o deixou realmente surpreso: “a princesa será regente durante o tempo que seus pais se ausentarem”.
Foi assim que Daniel descobriu qual seria sua missão para se tornar um “homem”, sequestrar a princesa no período de regência, como vingança pelo que o pai dela fez com seu povo. Isso seria fácil, se não levarmos em conta o fato dele se lembrar de cada palavra dita a Anneliese, não conseguiria fingir que aqueles dias não existiram, pois na sua mente, imaginava que ela também os guardava com carinho. Mas ele nada poderia fazer para impedir o destino, assim, a data para a ação foi marcada. Sobre o olhar severo da lua cheia, a princesa seria levada de seus aposentos até a floresta, pelo menos este seria o plano inicial.
A medida que a lua ia subindo no céu um bando de homens mal vestidos ia se aproximando da fortaleza que era o castelo, os guardas pareciam se embebedar em comemoração a algo que eles se arrependeriam pelo resto de sua vida. E quando todos já tinham passado pelo muro, o jovem Daniel era encarregado da parte mais difícil: entrar no recinto onde a princesa dormia, e raptá-la. Ele realmente não queria fazer isto, mas no fundo era só o medo dela gritar e pedir por socorro, seria tudo mais fácil se ela alisasse seus cabelos e falasse seu nome. Como um casal de amantes que foi separado.
Criando falsas expectativas sobre ela, invadiu o quarto pela janela, grande o suficiente para dez homens fazerem o mesmo na mesma hora. O lugar era grande, os móveis eram distribuídos em um círculo perfeito, com a cama no centro deste. Chegou mais perto do objeto que mais chamava atenção e viu uma jovem dormindo. Tão naturalmente bela que se encantou, a boca semiaberta e suspirando pausadamente no ritmo do sono. Toda aquela garota parecia uma boneca, uma escultura de marfim que chegava a doer nos olhos de tamanha beleza, talvez aquele fosse um dos únicos momentos em que a princesa se deixasse tão vulnerável. Daniel encarou isto como um presente por ter sido tão corajoso àquele ponto. Deitou-se sobre ela, ficando de quatro em cima dela e encarando seu rosto de porcelana, imaginando o qual seria seu destino. Como não enlouquecer diante da perfeição?
– Anne... Eu vim te buscar... – Sussurrou sedutoramente em seu ouvido, fazendo a mulher acordar já com olhos arregalados diante da visita inusitada.
Rapidamente, tentou sair de baixo do corpo do estranho, imaginando que ele iria violá-la. Mas a agilidade de um cigano jamais pode ser comparada a de uma princesa, assim ele prendeu seus braços com uma das mãos, a outra empunhou uma adaga, pressionando o pescoço da aristocrata. Os seus olhares se encontraram depois de tanto tempo, iluminados apenas pela luz que vinha da janela e uma vela, que insistia em não apagar. Daniel ficou claramente transtornado com o déjà vu que sentiu com aquele gesto, ela simplesmente continuou estática com a aproximação do rapaz que poderia ou não ser o menino que um dia foi amiga.
– O que queres comigo, meu caro sequestrador? – Disse calma, sabendo manter a elegância até em horas deste tipo.
– Ora, em uma cena tão romântica seria mais agradável tratar-me pelo meu nome, princesa. – Falou misturando deboche com seu desejo.
– Então suponho que irá se apresentar a mim, meu cordial raptor. Peço que o faça, para que eu possa lhe mostrar toda a minha educação mandando caçar teu nome.
– Daniel Héderváry, príncipe dos ciganos. Quanto a caça, acho que teu pai já se encarregou disto.
Anneliese ficou estática, arrepiou-se por completo ao lembrar-se do momento da fogueira quando não passava de uma menina. Fitou o rosto do rapaz, que tinha amadurecido assim como ela, tomado traços másculos, mas ainda com seu inseparável cabelo, preso constantemente em rabo de cavalo. Ele era lindo. Mas uma beleza nova que ela até então desconhecia, mas poderia classificar como algo novo: uma beleza cigana. Aquele misticismo no olhar, a fala cavalheira e conquistadora, além de mãos carinhosas, sentiu isto por ele não apertar seus braços com brutalidade, aquele homem sim, sabia respeitar uma dama.
– Nos encontramos de novo, Daniel. Mas creio que não tornaremos a brincar. – Sorriu perversa ao lembrar que agora era a princesa regente, então isto teria motivado a visita.
– Creio que sim, Anne. Se bem que adoraria lhe levar na floresta uma última vez, poderia me acompanhar de livre e espontânea vontade? – Perguntou levantando-se e a obrigando a fazer o mesmo, ainda com a faca em seu pescoço.
– Acho que não tenho como recusar um passeio noturno contigo em minha posição. E tenho o direito de saber por que será meu último passeio pela floresta? – A conversa cheia de sacarmos e deboches a deixava muito irritada, mas sabia que deveria ser parte da tortura.
– Infelizmente não, você quer estragar a surpresa, minha cara amiga? Mal lhe conheço falando desse modo e faltando com os modos.
Isso ela não respondeu, se sentiu ofendida e fechou a cara se posicionando em frente a janela, esperando que algo ou alguém viesse buscá-la, pois supunha que Daniel tinha entrado por ela. A surpresa foi maior quando foi erguida pelo rapaz de olhos verdes, dando um leve grito que foi abafado pelo pedido de silêncio que o garoto fizera. Agarrou seu pescoço quando ele saltou daquela altura incrível até o telhado mais próximo. Ficou mais branca que o normal e paralisada até que os pés do homem encontrassem o chão. Novamente fez menção de quem ia pular, mas a jovem o impediu antes disso, não aguentaria aquilo novamente.
– Daniel! Eu... Fugia desse muro todos os dias... Eu sei de todas as falhas dele, então, deixe-me ser sua guia até fora dos portões. – Pedia em desespero cerrando punhos no peito do rapaz, que se mostrou um pouco mais alto que ela.
– Como saberei que não está a me levar para uma armadilha a qual posso encontrar a morte, Anne? – Disse pegando suas mãos e beijando delicadamente dos dedos a fazendo corar apenas naquele gesto.
– Confia em mim, do mesmo jeito que confio em você. Pois aqui é um cego e eu lhe ajudarei, dou minha palavra.
Afinal ele não tinha como contestá-la, quem se atreveria a ir contra a palavra de uma princesa? Foi a única coisa que lhe passou pela cabeça quando ela o puxou pelo braço, o indicando uma pequena abertura, fechada com grades velhas e corrompidas pelo tempo, que não mostraram resistência ao chute desferido nelas, quebrando-se em pedaços e dando a “porta” que o casal usaria para fugir. Quando já estavam fora do alcance dos muros, tendo a floresta como a única paisagem, Daniel sentiu-se renovado, como estar livre depois do cárcere. Olhou para a lua e quase uivou em reverência a sua calorosa companheira que lhe dava boas-vindas ao mundo dos ciganos. A princesa percebeu a mudança da atmosfera envolta do rapaz e se sentiu amedrontada, pela primeira vez em anos temeu por sua vida, e as únicas vezes que teve essa sensação foi ao lado do moreno.
– Daniel, diga-me o que terei que fazer... Eu... – “estou com medo”. Nunca iria dizer em alta voz, mas cada poro do seu ser gritava isso e com tamanha força que até o cigano sentiu pena dela.
– Calma, Anne. Não deverias ficar com medo da noite, ela é minha e não vou deixar que te machuque. – Disse acariciando os cabelos longos e despenteados.
– Não é da noite que eu temo, é do que está escondido nela. Como você e seu bando, pronto para raptar a minha pessoa – disse com raiva, afinal aquilo era um sequestro, quase se esqueceu disto.
– Ninguém lhe fará mal, mesmo que seja um sequestro, não somos os seres asquerosos que seu pai lhe falou.
– Como pode me dizer isto com tanta calma? Você deveria ser aquele que salva as princesas e não quem as sequestra!
Num acesso de fúria acabou lembrando-se da última brincadeira deles, que no fundo nunca tinha esquecido, as lágrimas faziam menção de aparecer, mas ela as bania de seu rosto se negando a parecer ainda mais miserável na frente do rapaz. Este ficou estático com as palavras dela, logo aquela aristocrata arrogante tinha o pego em seu ponto fraco. Era no mínimo triste. Sem jeito e cabisbaixo abraçou a garota da camisola, que lutou para sair dos seus braços, mas não permitiu isso, cada soco que as frágeis mãos dela desferiam, ia afundando mais o rosto em seu ombro, em busca de consolo. Logo ela também percebeu isto e parou com a agressão, tentando ouvir as palavras que Daniel balbuciava.
– Eu nunca quis lhe tirar dos seus aposentos, minha princesa, mas essa era a ordem. A verdade é que sou um príncipe que não manda em si, então não sou diferente dos meus servos. Desculpe ser tão inútil, Anne, mas só queria agradar minha família.
Aquelas palavras poderiam ter saído da boca da princesa, mas ela preferia acreditar que não era verdade, assim, mentindo para si mesma, conseguiu consolar o rapaz, alisando seus longos cabelos presos em um rabo-de-cavalo mal feito. No fundo era nostálgico estar lá com o garoto, ainda mais naquele momento em que sua vida estava tão conturbada, fugir um pouco dos deveres de princesa seria algo maravilhoso. Abraçou o jovem mais forte, sentindo o cheiro da floresta em seu corpo, ele cheirava a folhas secas, típico do outono que estavam enfrentando. Por um instante Daniel não entendeu o gesto de carinho da aristocrata, mas se deixou levar pelo cheiro de rosas que ela tinha. Entregaram-se ao aperto entre seus corpos, que os deixavam tão próximos, mas tão distantes, com realidades tão diferentes.
O de olhos verdes afastou-se um pouco da figura que lhe oferecia timidamente conforto e segurou seu queixo, a fazendo levantar a face e apenas tocando de leve os lábios da bela, a fazendo corar de um tom normal para o vermelho em questão de segundos. Logo ambos estavam em um beijo ardente de reencontro e que ocasionaria uma separação, as mãos apressadas correndo pelo corpo do outro, tentando conter o desejo da carne, que possuía seus atos. Cada vez mais eles tentavam se livrar das roupas, mais por parte de Daniel que como homem não conseguia esconder a vontade que tinha de fazer algumas coisas erradas com a princesa. Ela o rejeitou quando uma de suas mãos foi abrigar-se em um de seus seios.
– Não seja desrespeitoso, Daniel! Lembre-se de que ainda sou uma dama! Quem lhe deu o direito de tocar-me? – A frase lhe pareceu sem sentido diante do que estava acontecendo, mas parecia ser algo que uma boa menina diria.
– Como assim? Não estas raciocinando bem, princesa? O teu plano era deixar-me seduzido e parar quando lhe fosse conveniente?
– O que estas dizendo? Saiba que me ofendeu com isto!
– Então terá que me dar uma punição...
Disse sedutor perto do ouvido da garota, fazendo a querer ser dele no mesmo momento, mas sua posição e seus modos tentavam repelir a ideia, porém o que fazer quando os hormônios falam mais alto? Então ela beijou o jovem mais uma vez, a diferença é que ele a tomou em seus braços e caminhou calmamente até a floresta, mais especificamente o lugar onde ambos costumavam se encontrar quando mais novos. A deitou suavemente na grama, vendo a face corada da menina, não deixando de se encantar com ela, o que vinha acontecendo desde o momento que a viu dormindo tão delicadamente. Uniu suas bocas novamente, saboreando o gosto que só uma dama de família tem, o gosto da pureza incontestável que apenas ele tinha provado.
Mas como em uma tragédia de alguns contos, que ainda não tinham sido escritos naquela época, o amor daquele casal parecia ter uma tendência a tragédia. Assim aconteceu novamente na noite em que a lua prometia abençoar os apaixonados, mas a sorte não dizia a mesma coisa. Logo outros habitantes da vila que Daniel morava apareceram e tiveram a infeliz visão dos beijos que princesa e cigano trocavam. O destino de Anneliese estava decidido, mas o seu companheiro não aceitou tão naturalmente assim. Brigou com o irmão, com os pais, com todos a quem chamou de amigo e foi acusado de trair a raça cigana, assim tendo a mesma sentença que sua amada, já esperava apenas uma data para sua morte na pútrida prisão improvisada pelos moradores da floresta. Naquele lugar, encontraram-se pela última vez antes de se despedirem e puderam dizer uma coisa que estavam ansiando há tempo:
Amo-te mais que tudo.
Quando viram todas as pessoas em um circulo diante deles, acharam graça, ao menos conseguiram o direito de morrer juntos. A ilusão de que os matando dessa forma os fizessem ver o quanto foram idiotas por amarem-se foi o único motivo desta sentença. Nem quando o calor do fogo percorreu o corpo deles as suas mãos se separaram, mesmo que suas cinzas tenham sido espalhadas pela floresta, suas almas ainda estavam em perfeita sincronia. Mas eles nunca odiaram o fogo. Tanto ele, quanto a noite e a Lua eram grandes aliados. A noite que os vigiou atentamente, a Lua que lhes deu sua benção e o fogo que os uniu em luto.
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