Noiei
3 Eu não preciso de você. Preciso? 1.3
Notas iniciais
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 15:32, casa dos McGuys.
Guys:
Eu estava jogado no tapete felpudo do estúdio. Estávamos dando uma pausa no ensaio e os guys tinham ido lá fora fumar. Meu maço estava no meu quarto, no andar de cima, e a preguiça me impedia de subir lá e pegá-lo, então fiquei dentro do estúdio, respirando fundo pra tentar aspirar o pouco oxigênio que ainda existia na salinha. Quem disse que tocar em uma banda não é um grande esforço? Nunca tentou em um quartinho sem janelas, forrado de espuma, com três jovens de 17 anos soando e peidando.
Enquanto fazia minha sessão de ioga fedida, tentava pensar em algo ou em alguém que pudesse me ajudar, já que depois daquele chute no estômago, Isabella estava definitivamente fora da jogada.
Foi então que meu celular vibrou.
- Alô? – disse, ao abrir o flip, mas me arrependi no mesmo instante em que ouvi a voz do outro lado.
- Lucas. – meu pai disse, frio como pedra.
- Rascunho do demônio. – eu disse, com a mesma voz entediada.
- Acho que eu não estou bancando essa bandinha de garagem pra você me tratar assim, Lucas Kobayashi. – ele comentou, indiferente. Eu odiava o jeito como ele falava o meu nome inteiro. Me fazia sentir com 90 anos e as bolas caídas. – Mas não foi para brigar que eu te liguei.
- É bom mudar os ares às vezes... – eu disse, fazendo de tudo para irritá-lo, mesmo sabendo que isso seria humanamente impossível. A última e única vez em que vira meu pai irritado fora nas férias de verão de 2001, quando um sócio seu perdeu 1 milhão e meio em ações. Ele recebeu a notícia assim que pisamos no aeroporto. Estávamos na Suíça, e eu tinha 10 anos e uma vontade imensa de esquiar. O que, claro, não foi possível, porque nós voltamos à Inglaterra no primeiro voo que conseguimos. Depois disso, nunca mais vi nenhuma emoção se manifestar em seu rosto e voz.
- Gostaria de saber se você já se inscreveu para alguma faculdade? – ele perguntou.
Não ligou pra brigar? Ha ha ha...
- Ainda não pai, estou esperando o Titanic passar por aqui ou chover hambúrguer. – respondi, entediado. – Pai, você sabe que eu não pretendo me inscr...
- Qual foi o nosso acordo Lucas? – ele me cortou. – O Ensino Médio pra essa bandinha dar certo ou faculdade de administração pra cuidar dos negócios da família. Esse é o nosso acordo.
- Eu me lembro perfeitamente, você liga para me lembrar duas vezes por dia, pai. – eu disse, pegando uma bolinha de tênis debaixo de alguns pratos quebrados da bateria, que estavam jogados no chão, jogando-a para cima e para baixo. – Mas eu não vou precisar disso, minha banda vai dar certo.
- Basta, Lucas! – ele disse, sem se alterar. – Se daqui duas semanas eu atravessar a Europa pra chegar nessa lixeira que você chama de país e não encontrar resultados dessa brincadeira estúpida, eu juro que te coloco num internato e faço você repetir todo Ensino Médio numa escola que te ensine a escrever pelo menos!
- Eu sei escrever! – exclamei, ofendido.
Então veio o 'clic' e logo em seguida o ‘tu, tu, tu, tu’.
Joguei o celular em cima do sofázinho todo rasgado e furado ao meu lado e me levantei. Abri a porta do estúdio e senti aquela lufada de ar gelado e cheiroso soprar. Subi correndo para meu quarto e peguei meu Malboro Vermelho. Depois fui até a cozinha e abri a porta que dava para os fundos da casa. Thomas, Pe e pedro estavam sentados nos bancos de madeira que ficavam em cima da grama, perto da piscina. O dia estava ensolarado, e aquelas nuvens estilo esqueleto de baleia cobriam o céu. Sentei-me ao lado de Pe , pegando seu óculos escuro e colocando-o em meu rosto. Ele não fez nenhuma objeção, só pegou o óculos de pedro, que, por sua vez, pegou o de Thomas, que ficou sem.
- E aí. – eu disse, acendendo um cigarro com as mãos trêmulas. Eu estava muito nervoso, mas não pretendia descontar nos meus amigos. – O que nós vamos fazer pro seu aniversário, pedro? É esse sábado, não é?
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