Nodame Cantabile - Affettuoso ma non troppo
7 Lição VII - Déjà Vu
Notas iniciais
Era de manhã, Chiaki abria os olhos e se aproximava onde Nodame estava, melhor… deveria estar. Ainda um pouco confuso, procura pela jovem que deveria estar em seu lado. Ele, então, levanta da cama e desce as escadas chamando-a, ele também estranha o silêncio da casa, será que os outros foram embora? Ele havia dito que não havia problema deles ficarem. Deu um leve suspiro e continuou se encaminhando para cozinha e todos estavam lá, colocando a mesa e organizando o café da manhã.
—- Chiaki-senpai! — disse Nodame ao vê-lo com um sorriso sincero no rosto. -- Junta-se a nós! Estou preparando o café da manhã.
—- Você o que? — arregala os olhos, lembrando da inabilidade de Nodame na cozinha.
—- Ela teve nossa ajuda. — Cochichou rapidamente Kuroki, deixando Chiaki aliviado com a informação.
O café da manhã era bem farto e não havia nada mirabolante ou queimado como era esperado quando se trata da pianista.
—- Por que… você preparou isso Nodame? — Perguntou o maestro.
—- Porque senpai sempre prepara comida gostosa para Nodame e Nodame quis agradecer por isso! E também porque você chegou tarde e cansado, não queria dar trabalho.
—- Mas…
Antes que Chiaki pudesse abrir a boca para dizer algo, Nodame trouxe a comida dele e deu um beijo na testa na mesma forma que ele costuma dar quando quer chamar sua atenção. E deu certo, pego com a guarda baixa, parou de falar imediatamente e ficou levemente vermelho.
—- Sem mas, coma! E me diga o que achou?! Tive uma pequena ajuda do pessoal. Sei que não cozinho bem… Gaboo... — falou fazendo aquele biquinho que lhe é peculiar com seu trejeito infantil.
Chiaki engoliu seco, apesar da comida estar com boa aparência… Ainda era comida preparada por Nodame. Ela poderia ter confundido sal com açúcar, ter abusado no tempero, usado ingredientes estragados… Era tarde demais, por mais que ele lutasse contra os pensamentos negativos em relação a comida, a mente paranoica do maestro estava à mil. E todos olhavam com expectativa para ele, o que piorava mais a situação, parecia que tinham posto meia tonelada de pimenta na comida e esperam que ele cuspa tudo no mesmo instante em que pôs na boca e procure por leite, sim, pois leite corta o efeito da pimenta, enquanto a água não.
Segundos pareciam uma eternidade e a expectativa aumentava enquanto ele movimentava o talher para pegar a comida e levá-lo até a boca. Todos estavam tensos, suando frio. Principalmente Chiaki que naquela altura já se imaginava passando o dia inteiro preso no banheiro tendo uma baita dor de barriga.
No lado de fora estava o jovem Paparazzo, fazendo seus registros e observando aquela cena de pornografia alimentícia e dantesca no lado de fora da casa, numa posição estratégica, onde ele poderia ver o que se passava naquela parte da casa, sem ser visto. Sem contar a vantagem de todos estarem focados em Chiaki. Ele também estava na expectativa, pois ele sabia da fama que a Nodame tinha de ser péssima em cozinha, desde que foi convidada para cozinhar em um programa culinário, tipo o “Mais Você” da Ana Maria Braga.
Agora faltava pouco, Chiaki abria a boca para introduzir a comida e todos acompanhavam mais atônitos com a cena. Na cabeça de Chiaki tocava o clímax da peça Nessun Dorma interpretada por Pavarotti, apesar da música não fazer o menor sentido para aquela ocasião, a expectativa do clímax desta música era a mesma que todos estavam e ele também.
Finalmente foi posto na boca a comida, e estava… gostoso, era a coisa mais deliciosa que ele havia comido, se ele não soubesse que a Nodame era um desastre na cozinha, teria com certeza sido pego pelo estômago pela jovem pianista! Ele degustava e logo depois de engolir. Fez silêncio, uma expressão séria e disse:
—- Está… uma maravilha. Está ótimo… Não tenho palavras para descrever, sei que teve ajuda, mas ainda posso sentir sua essência, seu… ahn… carinho. — disse sem graça, ao perceber que estava na presença de outras pessoas. No entanto, foi o suficiente para a Nodame se sentir alegre.
Todos tentaram parecer que não estavam presentes para deixar os dois confortáveis, mas Chiaki era ainda demasiadamente travado para se permitir levar, principalmente com público. Nodame se aproximou e ficou olhando Chiaki com aquele olhar apaixonado de sempre.
—- Senpaaaaaai… Poderia dar um beijo em Nodame? Nodame merece! — começa a fazer biquinho.
—- Baka! — dá um leve peteleco na testa dela. -- O café da manhã estava maravilhoso, agora se me permitem terei que fazer algumas ligações e ler alguns emails sobre a próxima temporada antes que a Elisa me mate. — Disse Chiaki enquanto se afastava caminhando para seu pequeno escritório. Ao fechar a porta respirou aliviado, porém com um ligeiro sentimento de culpa, lá estava ele agindo como um pêndulo, ora próximo, ora distante, ora decidido, ora hesitante. Nodame não merecia isso.
Enquanto isso, Nodame tentava disfarçar o incômodo que sentiu com aquela situação, Kuroki como sempre percebeu e suspirou ao observar que a história de alguma forma estava se encaminhando para uma repetição e quem sabe sem possibilidade de retorno, Chiaki se persistisse caminhar por esse caminho ele era cada vez mais sem volta e definitivo para perder Nodame.
Talvez você pergunte sobre o que se passava na cabeça dos outros presentes, eles estavam concentrados demais comendo o restante do café da manhã e conversando sobre seus futuros trabalhos. Naquela altura todos estavam com a vida garantida com a música, poderiam não ser ricos, mas conseguiam sobreviver e o mais importante amavam o que faziam. Nosso Samurai que sempre teve uma percepção apurada, mas esqueceu que talvez estivesse despertando os ciúmes de Tanya que o pego umas três vezes olhando fixamente para Nodame, olha o mal estar em cadeia que Chiaki causou? É praticamente um efeito borboleta! Porém Tanya ao olhar Nodame, percebeu que ela estava diferente e somou os acontecimentos, se sentiu envergonhada por sua insegurança, mas… Ele precisava ficar olhando tanto pra ela? Pensou, enquanto finalmente decidiu quebrar o silêncio da pensativa Nodame.
—- Hey Nodame, e você? Sei que está se recuperando, mas há algum plano pra quando melhorar? — Perguntou, apesar de na verdade querer saber o que se passava na cabeça dela, como ela estava com essa reação do Chiaki, será que iria se repetir aquela situação de Paris? Só o futuro poderia responder suas indagações.
Nodame voltou lentamente para o planeta Terra, sempre foi de viajar no mundo da maionese com facilidade… Ela não chegou a ouvir toda frase da Russa, mas ouviu o suficiente para poder responder logo depois. -- Huh… Pensei em reduzir a quantidade de apresentações para poder me aprimorar minhas habilidades e pensei em dar aulas de piano para crianças. — Disse um pouco distraída, sem levar muito à sério o que estava dizendo.
Todos ficaram bastantes surpresos com aquela declaração, questionaram com o olhar a razão daquilo. Então ela continuou… -- Bem, eu queria ser professora do Jardim, então pensei por que não juntar as duas coisas? Normalmente professores de piano e teoria musical são muito rígidos… -faz uma pequena pausa ao se lembrar de seu professor de piano que lhe bateu quando mais nova- … E nada como ver o amor pela música crescer em novas almas! E...e….e…. é isso. — Finalizou um pouco perdida em seus pensamentos e meio chateada ainda com Chiaki. Houve um breve silêncio no local, a surpresa era geral, não porque a idéia era absurda, pelo contrário, era algo inesperado de se ouvir vindo da Nodame, não era algo exagerado, era bastante plausível, ela já era uma pianista renomada e conhecida mundialmente, passou os últimos anos em uma forte e repetitiva rotina de apresentações, por mais energia e amor pela música ela tivesse, em algum momento isso poderia se esgotar e apesar de todo amadurecimento pessoal e musical, ela era ainda a velha Nodame que se deixava levar pelas emoções de maneiras perigosas e Chiaki sempre mexeu bastante com ela de maneiras nem um pouco saudáveis… Ela tinha consciência disso, mas de alguma forma era mais forte que ela… E bem, quanto ao Chiaki… acho que não tem como defendê-lo nessa questão. Ele sabe disso tudo tão bem quanto ela, e ainda decide manter as coisas nesse ciclo vicioso? Bem, quem sabe da vida dele é ele mesmo, nós não podemos fazer nada a não ser torcer pelo casal ou o que for melhor para ambos, pois como isso estava se desenhando… Não, não é nada bom.
Depois desta pequena reflexão sobre a situação, talvez haja curiosidade de saber o que diabos Chiaki estava fazendo no escritório, nada. Ele estava apenas pegando um pouco de ar e tentando pensar em uma solução para o problema que ele acabou de criar. Era apenas um beijo, seja por timidez ou medo, não faz o menor sentido ele ter esse pudor todo pois foi criado longe da cultura oriental, então pra ele um beijo é algo… banal… se comparado a um japonês tradicional. Então qual o problema de assumir na frente de alguns amigos íntimos o relacionamento dos dois? O afeto?O amor? Haveria vergonha da pianista? Um velho hábito que não morreu? Ou ele simplesmente não sabe como reagir nessas situações por mera inexperiência? Seja qual for a resposta somente ele poderia responder e o tempo não estava no lado dele.
Enquanto isso, Mine impulsivo como sempre... Adora a idéia de Nodame e sugere deles montarem uma mini-escola de música enquanto estão de férias nessa temporada e o foco seriam pessoas, não apenas crianças, que não tem condições de aprender música, pois aprender um instrumento além de demandar tempo, precisa de dinheiro pois aulas e instrumentos são caros, principalmente se tratando de música erudita.
Nodame achou a idéia incrível, os outros ficaram um pouco hesitantes mas começaram a dar seus pitacos, era uma forma de passar mais tempo com a Nodame e juntos depois de tanto tempo se dedicando apenas a música, afinal não é apenas de música que vive o homem.
Eles passaram o restante do dia discutindo a idéia, consequentemente Chiaki acabou ouvindo quando saiu na hora do almoço para se juntar ao grupo, Nodame já havia voltado ao seu estado de espírito normal, mas Chiaki sabia que havia algo de errado e preferiu ignorar momentaneamente a questão. Ele como sempre era um tipo de estraga-prazer, começou a apontar alguns defeitos na ideia e possiveis fraudes de pessoas que não são necessitadas se aproveitando para ter aulas, justamente para evitar esses ricos eles iriam se dividir e ir nas zonas mais necessitadas a procura desse público, começando a fazer pequenas apresentações gratuitas para atrair populares e quebrar barreiras. Visto que era voto vencido e que talvez estivesse sendo apenas pessimista, acaba aceitando a participar da iniciativa, mas acrescentou que em breve teria focar no trabalho.
No começo da tarde, logo após o almoço todos saíram para começar a por em prática a iniciativa, Nodame queria ir, mas Chiaki insistiu que ela ficasse em casa de repouso e que ele iria fazer companhia.
O Paparazzo que estava no lado de fora, decidiu seguir Kyora e os outros quando a ouviu comentando sobre a idéia, pois seria mais interessante que ficar observando Chiaki e Nodame que provavelmente iriam ficar por horas fora do seu campo de visão.
O momento chegou um pouco rápido e Chiaki preferiu não tocar no assunto por não saber o que responder e Nodame não parecia estar com pressa de ter a resposta, os dois apenas preferiram jogar conversa fora e falar sobre o novo projeto de Nodame. Paralelamente, Kuroki e Tanya conversavam sobre a situação que aconteceu mais cedo.
—- Você acha que o Chiaki irá tomar a decisão certa? — Perguntou Tanya falando um pouco baixo.
—- Bem… pelo o que o conheço dos dois… Acredito que essa seja a última chance deles finalmente se entenderem, essa relação já teve altos e baixos demais por causa do mesmo tópicos. Se o Chiaki não consegue lidar com isso… Melhor ele deixar a Nodame seguir. — Disse com leve pesar.
—- Vocês estão falando do incidente do beijo? — Questiona Mine ao se intrometer na conversa. — Desculpa, eu não pude deixar de ouvir, eu não sei o que se passa na cabeça do Chiaki, ele complica demais as coisas! Temos que fazer alguma coisa!
—- Será que isso quer dizer que eu tenho ainda chance com Chiaki? — Masumi ao sonhar, questiona enquanto balança os quadris.
—- Deixa de ser bobo! E não, não devemos nos meter. — Intervem Kyora.
—- Mas por quê? — Questiona Frank que até então estava calado.
—- É bastante simples… Essa não é uma questão que devemos nos meter, o que podemos fazer pra ajudar já está sendo feito que é estar por perto da Nodame e ajudar nesse projeto e garantir que ela não suma de novo. Quanto ao Chiaki, não podemos fazer muita coisa pois é um problema dele e somente ele pode resolver, podemos até opinar sobre, mas no final a decisão ainda será dele, gostemos ou não. Nodame e Chiaki tem um relacionamento totalmente fora do comum, apesar deles amarem a música, não quer dizer que sejam bons um pro outro. Sempre vimos a Nodame mudando para alcançá-lo. Ok, que o Chiaki também mudou para deixá-la entrar em seu mundo e compreende-la como ela é… Mas ainda assim… — suspirou Kyora, enquanto fazia uma ligeira pausa para recuperar o raciocinio. -- É só lembrarmos de quando ela sumiu com o Stresseseman, Entendem?
Apesar da ausência de respostas verbais, era nítido no olhar de cada um a preocupação e a concordância do que a violinista havia dito, eles não podiam fazer nada além de esperar, como já havia sido dito, tudo está nas mãos dos dois, e o futuro desta relação estava novamente nebulosa.
Fale com o autor