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1 Capítulo 1


Era fim de tarde, em um dos bairros pacatos da antiga Roma. Em uma rua, cercada de algumas construções e um movimentado centro de treinamento da cavalaria da cidade, havia um sebo. Era, na verdade, uma velha casa, da qual o dono, César, transformara um dos cômodos em um amontoado de estantes, caixas e mesas, todos recheados de livros. César era um homem com aparência comum, mas já carregava muitos anos vividos. Saiu de casa cedo, quando completou 19 anos, por causa de um grande amor. Anne, sua alma gêmea desde criança, era uma linda mulher, de cabelos pretos brilhantes e vestidos longos feitos por ela mesma. Mas, se quisesse diferencia-la do resto em uma multidão, estava lá sempre em seu cabelo, uma fita púrpura e branca. Mas isso, leitor, é um daqueles grandes amores que se acabam por culpa do tempo.

César e Anne moraram juntos naquela mesma casa, por algum tempo. Ela sonhava em ter uma enorme biblioteca quando tivessem dinheiro. Por isso, em um pote de vidro, ambos colocavam todas as moedas que pudessem conseguir pelas ruas de Roma. Porém Anne acabou se apaixonando por um nobre cavalheiro que ia ao centro de treinamento todas as tardes, e com ele, fugiu, deixando apenas uma carta para César. Mas não fugiu assim, sem nada nas mãos. Fez questão de levar, consigo, o pote de moedas, algum livros de sua preferência e os sentimentos de César.

Não é por pouco que falo isso. Depois de chegar em casa e ler a carta, não sentiu mais nada. Nem ódio, por que seu amor por ela era imenso. Nem mais amor, por que um ódio corria em seu sangue. Sentia todos os sentimentos que um humano é capaz de sentir. E todos eles se combatiam dentro do homem. Virando nada, além de solidão. César não relutou. Sabia que, se fosse atrás de Anne, de nada adiantaria, até por que não tinha ideia de onde ela fora. Permaneceu na casa, pelo resto de seus dias, vendendo vegetais, que cultivava em seu pequeno quintal, em uma banca na praça. Do pouco que lhe sobrava, passeava por Roma em busca de livros que pudesse revender em seu sebo.

César adquiriu uma barba branca que, juntamente com seus cabelos, ia caindo com o tempo. Sempre vestia as mesmas roupas velhas e desbotadas e a mesma boina bordo que Anne deu para ele no dia em que fugiram juntos. César sempre foi um homem muito inteligente. Porém havia apenas uma coisa que ele não entendia, nunca quis entender, abominava e, principalmente, recusava. A religião. Não acreditava em nada. Deus, Demônio, inferno ou paraíso. Os contos que ouvia sobre "a busca da dona morte" na praça não surtiam nem sequer uma mínima virada de olhos.

Um dia, porém, César completava exatos 70 anos. Estava em uma cadeira no balcão de seu sebo, quando entrou para tomar um copo de água. De longe, ouviu o sino da porta se abrir. Voltou, lentamente, para o banco mas, quando viu, saía de lá uma jovem de cabelos pretos e vestido longo, com um de seus livros na mão.

–"Ei. Ei minha jovem. Precisa pagar pelo livro !"

Ela nem se virou portanto, seu rosto não era visto. Mas César, que já se preparava para correr atrás da mulher, quase caiu, perplexo, por algo que viu, e não acreditava. No cabelo, brilhante, preto e sedoso da jovem ladra, havia uma fita púrpura e branca. Ela fechava a porta quando, César gritou :

–"Anne ? ANNE, É VOCÊ ?"

A mulher, que ainda não se via o rosto, parou por um segundo ou dois. Fechou a porta grosseiramente, e correu. César, chocado, foi atrás. Nem se lembrava de sua idade, suas dores no joelho ou de seu passado solitário. Acreditava que era Anne. Acreditava com todas as forças. E passava pela multidão de pessoas, só vendo um ponto púrpura e branco reluzente entre ela. A mulher andou mais um pouco. Andava apressada, passos curtos mas leves, como se voasse. Entrou por uma rua escura e abandonada, com uma curva um pouco á frente. César parou no começo dessa rua, e a mulher, na curva que levava á um muro da altura da cintura, que caia em um precipício. Ele gritava, desesperado :

–"Anne, meu amor. É você mesma? Por que você me deixou ? "

Mas estava escuro, não era possível vê-la. Ela então foi até o muro e se sentou. César correu pela escura rua e se sentou ao lado dela. Estava tão cego e iludido que não percebeu o fato de a aparência dela ser a mesma que era há anos, a de uma jovem.

–"César, a vida mudou para mim. Senti sua falta, mas já era hora de eu partir."

–"Anne ..." — César, ao ouvir a voz dela de novo, lacrimejou. — "Anne, eu te perdoo. Vai ficar tudo bem. Nós temos nossa biblioteca para construir, lembra ? Nós podemos ... "

–" Não César. Você me subestimou. Você não me teme, meu caro. Mas eu ... " — Anne engrossou a voz. Sua fisionomia mudou de doce, para demoníaca. Suas roupas se rasgaram, dando lugar à uma longa capa preta. Seu rosto se desfez e só sobrou um crânio esquelético que brilhava à luz da lua e cegava César. Surgiu, por mágica, uma foice pontiaguda de ferro reluzente em sua mão. A criatura se levantou e parou na frente de César, que estava imóvel e completou, gritando : — "Eu sou a morte !"

Quando viu, César estava em queda livre. Toda sua vida, sua história, passava pelos seus olhos, como um filme. A criatura demoníaca apenas lhe deu um empurrão para o precipício que dava às costas do homem. No dia seguinte, foi notícia na cidade toda. Todos sabiam da triste história de amor de César, por isso discutiam. Ouvia-se então, na frente de seu tumultuado sebo que agora, era abandonado, conversas entre os fofoqueiros romanos :

–"Pobre César. Se suicidou por amor." — Disse uma velha.

–"Devia sentir falta de Anne. Ainda mais agora que a mulher morreu à poucos dias e todos ficaram sabendo. " — Resmungou a outra.

–"Mas ele não sabia. Todos do bairro prometeram não contar, por pena" — Falou a primeira.

–" Mas como ela morreu ? "

–" Suicídio também, se não me engano. Disseram que ela havia ficado louca, andava pelas ruas chamando o nome de César quando, na verdade, não havia ninguém. Então pulou de um precipício. "

–" Que casal estranho. Talvez sejam perfeitos um para o outro ... "

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.