No som da escuridão
4 Quase morte
De todas as coisas estranhas e perigosas que já haviam acontecido comigo, aquela era a pior. Ser sequestradas e estar amarrada ao lado de homens sinistros em um veículo em movimento. Como eu era sortuda... E ainda achava que ter me jogado do tronco de uma arvore quando tinha três anos de idade fora a coisa mais perigosa que eu fizera. Não chegava nem perto de estar ao lado de cara apontando uma faca para seu rosto e sorrindo. De verdade, se eu conseguisse sair daquela situação, nunca mais sairia do quarto. Nem mesmo para comer... Bom, aí seria muito radicalismo da minha parte. Eu morreria por comida. Até em momentos críticos meu lado esfomeado se manifesta. Ótimo!
Engoli a provocação do homem e continuei tentando me controlar para não começar a chorar como um bebê. Eu realmente queria que minha mãe estivesse ali, mas ninguém precisava saber disso. Respirei fundo e tentei falar alguma coisa, mas fiquei em silêncio assim que minha garganta ardeu.
— É melhor que fique calada. – O homem gesticulou com a faca de forma descontraída. – Não vou querer sujar a vã de sangue.
Gemi. Se não fosse pelo meu orgulho e pela raiva que eu estava sentindo daquele homem, sem dúvidas, eu estaria molhada de xixi. Sentia medo, mas não podia deixar transparecer.
— Vamos começar a brincadeira logo. – O homem que estava ao lado do meu irmão interrompeu o clima sinistro criado pelo homem ao meu lado. Ele parecia inquieto. – Explique as regras a ela logo, Victor!
— Calado! – O homem loiro gritou para o outro.
Victor... Então o nome dele é Victor.
O ruivo ficou com uma expressão completamente sombria, mas não disse mais nada. Victor voltou a olhar para mim com seu sorriso psicótico.
— É o seguinte, querida, vamos fazer uma brincadeirinha inofensiva, está bem? – Ele aproximou a faca do meu rosto novamente e eu comecei a chorar silenciosamente. – Não precisa ficar nervosa. – Sua risada me assustou ainda mais. – A brincadeira é: eu pergunto e você responde e, caso você erre ou não queira responder, meu amigo irá fazer carinho no seu irmão.
Eu tinha certeza de que o carinho não era algo bom e a “brincadeira” não seria nem um pouco inofensiva.
— Se esforce para responder, não importa a dor que sinta. – Ele falou em tom sério e depois voltou a sorrir. – Primeira perguntinha: você sabe o que ocasionou o fogo no beco?
Meu coração disparou. Eu não sabia o que responder. Talvez aqueles homens fossem capangas contratados por Luiza. Não tinha com eles saberem que o fogo havia saído de mim, não mesmo.
Balancei a cabeça negativamente, o que criou uma reação imediata do homem no outro lado da vã. Ele socou o rosto de Rick tão forte que eu pude sentir a dor. Gritei, minha garganta em chamas e meu rosto molhado por lágrimas. Rick não se moveu, ainda estava desacordado.
— Opa! Resposta errada. – Victor soltou uma gargalhada alta e voltou a perguntar. – Você sabe o que ocasionou o fogo no beco?
Assenti, chorando.
— Boa menina! – A faca deslizava em seus dedos como se flutuasse no ar. – Próxima pergunta: O que ou quem foi o responsável?
Eu não sabia o que deveria responder. Estava em desesperada. Aquele homem sabia o que havia acontecido? Isso não era possível, mas ele parecia saber de tudo e mais um pouco. Seus olhos passeavam pelo meu rosto com o aparente intuito de me intimidar. Tentei pensar rápido o suficiente para não dar motivos para eles machucarem meu irmão, mas demorei demais. O homem ruivo acertou mais um golpe poderoso em Rick, só que na altura de seu estômago. Meu corpo inteiro tremeu e meu coração apertou. Aqueles homens não estavam brincando, se continuassem naquele ritmo, matariam meu irmão.
— Esqueci de avisar, você tem apenas sete segundos para responder as perguntas . – Victor olhou para o homem ao lado de Rick e sorriu. O ruivo apenas olhou para o relógio enquanto brincava com a faca em sua mão esquerda.
— P-por favor. – Sussurrei. – Pare. – Implorei ao homem, mas ele apenas se aproximou do meu rosto e voltou a sorrir.
— Responda. – Sua voz grave saiu tão baixa que eu quase não pude ouvi-la.
— Fui eu. – Falei entre os soluços de choro.
Ambos os sequestradores gargalharam ruidosamente.
— Terceira pergunta: quem é o seu deus?
— O-oque? – Não havia entendido a pergunta. Meu deus?
— Pode bater. – Victor ficou completamente sério e então o homem ruivo golpeou meu irmão mais uma vez.
— Por favor! – Implorei. – Pare com isso. Eu não sei do que você está falando. – Meu desespero era maior que a dor.
— Mais uma vez!
Desta vez me pareceu mais forte. O homem socou o rosto de Rick, que já estava inchado e sangrando. Eu gritei e tentei desamarrar minhas mãos, mas de nada serviu meu esforço. Os homens gargalhavam enquanto eu chorava e gritava.
— Diga! – O homem ruivo gritou e apontou a faca para a garganta de Rick. – Sua última chance.
— Não vai querer ver seu irmão morrer aqui, não é? – Victor acariciou meu rosto com suas mãos nojentas e seu jeito arrogante. Eu queria despedaça-los.
— Pare! – Gritei. Me joguei na direção do homem ao meu lado e tentei lhe bater, mas ele apenas ria.
Quando eu consegui acertar seu rosto, mesmo com as mãos atadas, fui lançada no chão da vã com força. Minha cabeça bateu no chão do veículo e então tudo começou a girar a minha volta. Me encolhi chorando. Meu braço... eu caí sobre ele. Não tentei levantar, pois não conseguia. Minha mente estava confusa e apenas borrões de cores passavam na minha frente. Ouvi um dos homens gritar comigo e então fui puxada pelo braço. Como aquilo doeu...
A porta da vã foi aberta e eu fui lançada para fora com um saco de lixo. Desta vez eu arranhei meu braço e os joelhos. Sem nem mesmo ter tempo para me recuperar, fui puxada novamente e arrastada em direção a algo grande. Aos poucos minha visão foi voltando e eu pude ver o grande terreno que se estendia envolta. Estávamos em uma espécie de pista de pouso cercada por mato. Havia um jatinho branco pousado e homens levando coisas para dentro dele. Victor passou pelos homens enquanto me arrastava para dentro do jatinho. Fui jogada sobre uma das poltronas de couro e amarrada a uma barra de ferro que ficava na mesa, em frente à poltrona. Rick foi depositado na poltrona do outro lado da mesa, ainda desacordado.
Eu estava desesperado. Não sabia se meu irmão ainda estava vivo. Tentei me concentrar ao máximo para vê-lo respirar e só depois que vi seu peito descendo e subindo em um ritmo cansado que pude ficar mais aliviada.
Alguns minutos vendo homens descendo e subindo do jatinho enquanto carregavam caixas de madeira e então finalmente alguém falou comigo. Uma mulher. Ela era incrivelmente bonita, tinhas cabelos pretos, longos e lisos. Eu poderia facilmente compará-la a Pocahontas, princesa índia da Disney. Acho que a única diferença era que seus olhos eram amarelos, e não cor de chocolate.
A mulher se sentou na poltrona ao meu lado e colocou um copo de água sobre a mesa. Depois de observar meu irmão por alguns segundos ela se virou para mim e disse:
— Beba. – Seu tom arrogante me fez ignorar sua ordem e continuar olhando para frente. Ela não me pareceu gostar muito da minha reação, pois agarrou meu braço e começou a cravar suas unhas nele. – Eu mandei você beber.
Gritei ao ver suas garras rasgando minha pele e me contorci quando o sangue começou a esvair. A mulher apenas riu e então desenterrou suas garras de felino da minha pele. Garras de felino!
— Você está feliz por me fazer sujar minhas unhas? – Ele aproximou seu rosto do meu.
Me encolhi. Aquilo fazia cada vê menos sentido. Eu não sabia o porquê de estar ali, mas só queria poder sair viva daquela situação assustadora. Envolvi meu braço ferido com a mão, tentando estancar o sangue e parar a dor. A mulher olhou para o meu braço e sorriu.
— Quer que eu a ajude com isso? – Falou enquanto erguia a mão para mostrar as garras prateadas.
— Freya, ela não é seu brinquedinho. – Victor se aproximou sorrindo. Aquelas pessoas pareciam estar sempre felizes ao ver alguém sendo torturado. – Deixe-a comigo.
Freya... O nome dessa vadia é Freya. Pensei.
— Ah, sério? Logo agora que estava começando a me divertir de verdade? – Ela fez beicinho, como se estivesse triste por ter que sair de perto do “brinquedinho”.
— Levante logo. – Ordenou o homem. Freya levantou, mas antes se aproximou do meu ouvido e sussurrou um “até logo”.
Meu coração estava na boca, meu braço doía, minha cabeça doía, meu corpo inteiro doía. Estava começando a desejar que me matassem logo.
— Não fique com essa carinha de triste. – Victor jogou um lencinho branco sobre mim. – Limpe sua sujeira.
Peguei o pano e o coloquei sobre o sangramento. Minha expressão estava congelada. Eu queria, mais que tudo, destroçar aquele homem.
— Beba logo, antes que eu a puna desta vez. – Ele pegou o copo e o colocou entre minhas mãos atadas.
Não sabia se era veneno ou água, mas bebi. Estava morrendo de sede e o líquido pareceu diminuir o incêndio na minha garganta. O homem ao meu lado me pareceu satisfeito por eu tê-lo obedecido.
— Ótimo! – Ele se espreguiçou. – Vamos decolar! – Gritou.
Alguns homens gritaram em resposta e todos começaram a sair do jatinho. Apenas sete pessoas ficaram e tomaram seus lugares. Observei cada um deles com atenção, principalmente Freya, que sorria para mim toda vês que deslizava suas garras pela mesa a sua frente.
Nas poltronas ao lado das que eu e Rick estávamos se sentaram Victor e o homem ruivo que eu ainda não sabia o nome. Eles se acomodaram preguiçosamente. Nenhum deles olhou para mim, nem para meu braço que empoçava sangue no chão do avião, apenas começaram a conversar tranquilamente.
— Não podemos sair da rota por causa da garota. – Comentou o ruivo. – Vamos continuar no caminho ou seremos decapitados.
— Sossega... – Victor jogou as pernas sobre a mesa e sorriu. – Precisamos dela, e talvez do garoto também.
— Ele não é um hacler. – O ruivo sussurrou, como se percebesse que eu prestava atenção.
Hacler? O que é isso?
— Não, mas ele pode ser útil. É irmão dela e ela faria de tudo por ele. – O homem virou o rosto para mim com seu sorriso sombrio estampado nele. – Não é mesmo?
Não respondi virei o rosto para a janela do jatinho e ouvi sua gargalhada atrás de mim. Minutos depois ouvi um grito avisando que decolaríamos em um minuto e a voz de Freya cantarolando.
Aquelas pessoas não se importavam se eu estava machucada, sangrando ou morrendo. Eles estavam calmos e tranquilos, tomando conta de seus próprios assuntos enquanto sorriam e gargalhavam da minha tortura. Imaginei como meus pais estariam naquele momento, se eles ainda imaginavam que eu e Rick estávamos seguros em casa ou se já sabia que havíamos sido sequestrados por psicopatas sádicos e sanguinários. Pensar naquilo não me ajudava a sentir menos dor ou a ficar mais calma.
Segundos depois o piloto ordenou que todos colocassem o cinto e permanecessem sentados em seus lugares, pois estávamos decolando. Um dos homens levantou, veio até mim e apertou meu cinto, sem nem mesmo olhar para a minha cara. Ele deu a volta e fez o mesmo com Rick e então voltou para seu lugar no fundo do jatinho.
Momentos depois já estávamos no ar e tudo o que eu conseguia fazer era chorar em silêncio. Eu só queria poder me jogar daquele jatinho, mesmo sabendo que iria morrer no final.
As pessoas começaram a circular dentro da aeronave alguns minutos depois do aviso do piloto. Havia um bar cheio de bebidas diferentes um pouco antes do final da aeronave onde os homens pareciam se divertir sem preocupações. Me encolhi na poltrona, esperando não morrer por causa do sangue que havia perdido.
Uma voz feminina ecoou pelos rádios do jatinho dizendo:
— Senhores passageiros, informo que logo estarão chegando a seu destino. O inferno.
— O que é isso? – O homem ruivo levantou da poltrona já com a faca na mão e marchou pesadamente até a porta da cabine de comando. – Que merda é essa?! – Ele bateu na porta com força para que abrissem, mas nada aconteceu. – Abre logo!
Victor levantou, sério. Ele caminhou de vagar na direção do ruivo, mas parou na metade do caminho. Ele ficou olhando para o nada antes de dar meia volta e se jogar no chão. De repente ouvi um estrondo, som de explosão e me joguei debaixo da mesa. O jatinho havia explodido? Eu não sabia. Estava surda graças ao som alto da explosão e não tinha coragem de abrir os olhos.
Outra explosão, desta vez eu ouvi o som bem baixo e abri os olhos. Tudo estava em chamas, a parte traseira da aeronave não existia mais. O avião estava caindo rapidamente e a terra parecia estar dando cambalhotas. Não sabia se estava gritando, só tentava me segurar na mesa em que eu estava amarrada enquanto uma força incrivelmente forte me puxava em direção ao buraco no jatinho.
De repente um sujeito apareceu na minha frente. Ele parecia firme onde estava, como se a gravidade não estivesse o puxando para baixo. O homem me agarrou pela cintura, queimou as cordas que me prendiam e disse algo, que eu não ouvi. Sem conseguir respirar ou responder, fui lançada em queda livre junto ao homem.
Gritei, me agarrei nele, fechei os olhos, gritei mais ainda, abri os olhos e depois os fechei novamente. O vento me açoitava com força enquanto nossos corpos desabavam de encontro a uma queda mortal. Não conseguia pensar em nada. Sabia que aquele seria meu último momento de vida. Eu deveria apenas aceitar minha morte.
Aos poucos o vento foi ficando mais fraco e nós parecíamos estar reduzindo a velocidade. Imaginei que faltava pouco para o impacto mortal e me agarrei com força ao pescoço do homem. Minhas pernas haviam se envolvido em sua cintura sem nem mesmo eu ter percebido. Definitivamente... Era o fim.
Momentos depois e o vento havia parado completamente. Eu ainda não tinha coragem de abrir os olhos e ver como era o paraíso, ou o inferno. Senti um cutucão no meu ombro e então consegui ouvir uma voz falando:
— Você poderia me soltar, por favor?
Abri os olhos lentamente e me assustei quando vi as arvores a minha volta. Eu não havia morrido, pelo menos eu achava que não. Ainda estava agarrada ao homem quando ele se jogou no chão, de cotas. O soltei e sentei ao seu lado, observando tudo a minha volta para ter certeza de que ainda estava viva. Só conseguia ver mato e arvores.
— De nada. – Falou o homem. Ele estava ofegante e tentava recuperar o fôlego enquanto se apoiava nos cotovelos para me encarar.
— Estamos vivos? – Foram as únicas coisas que consegui dizer.
— É claro que estamos! Sabe o quanto da minha energia eu usei para te salvar enquanto você gritava no meu ouvido? – Sua franja caiu sobre os olhos castanhos e ele a jogou para trás. Seu rosto estava completamente suado, ele estava completamente suado.
— Meu irmão! – Gritei. – Rick! Ele morreu?!
Uma sensação de desespero tomou conta de mim, mas foi dissolvida em segundos quando o homem disse:
— Ele está bem. Vamos nos encontrar com ele logo.
— Ah... – Suspirei, aliviada com a notícia. – Muito obrigada por nos salvar da explosão... Na verdade eu não sei bem o que foi. – Comecei a chorar enquanto agradecia. Eu estava emocionalmente instável e a adrenalina ainda fazia efeito no meu corpo.
— Tudo bem. O que importa é que deu tudo certo. – Ele limpou a testa com a camisa rasgada. – Bom meu nome é Tyler. – Tyler sentou e esticou a mão suja para mim.
Fiquei um pouco reciosa em apertar, mas ele havia me salvado. Ser amigável era o mínimo de gratidão que eu podia dar. Apertei a mão dele sem me importar com a sujeira. Meu corpo também estava sujo. Até aquele momento eu não havia notado, mas eu estava meio mole. Minhas pernas estavam dormentes, mesmo atando esticadas sobre a terra.
— É um prazer conhe... – Respirei fundo. – conhecê-lo. Me chamo... Áquila... – Mal consegui dizer meu nome antes de cair sobre o homem. Meu corpo estava mole. Eu me sentia exaurida.
— Ei! O que foi? – Ele me segurou pelos ombros enquanto minha cabeça ficava jogada para frente, pois eu não a conseguia sustentar.
— Meu corpo... – Sussurrei.
— Eles deram alguma coisa para você comer ou beber? – Ele ergueu meu queixo e fixou os olhos preocupados nos meus cansados.
— Sim.
— Quanto tempo tem que você ingeriu?
— Eu acho que... vou dormir. – Sem conseguir mais aguentar, eu apaguei em um sono profundo.
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