No more mistakes

1 Capítulo 1-Seeing nothing, nothing, but myself


Notas iniciais
Era pra ter postado na madrugada de ontem, mas rolaram alguns imprevisto com a internet e meio que não deu
E como não teria amanhecido ainda, seria sim postado em janeiro.

Espero que gostem da leitura.

Se seu game over havia chegado, por que ele ainda estava ali? Não tinha mais fichas para dar seu tão querido continue, e as moedas ganhas com cada inimigo derrotado já haviam sido gastas há muito tempo. Boa parte com o videogame que Neil havia lhe dado por duzentos dólares.

A essa hora deveria simplesmente já ter voltado para o menu inicial, onde o monitor de um velho fliperama refletiria seu rosto derrotado. Mas continua em sua eterna tela de game over, sem ter opção de escolha alguma.

Era isso, Scott Pilgrim gastou todos os esforços de uma vida com Ramona Flowers.

Resmungou alto, se remexendo no sofá em que estava deitado. Desistiu de tentar dormir novamente, poderia ter outro pesadelo de ser atacado por algumas de suas tantas ex-namoradas e jogou o velho cobertor que usava para longe de si, deixando-o boa parte no chão da sala. Queria esfriar a cabeça, poder pensar em qualquer outra coisa se não fosse a garota das entregas que apareceu em sua vida literalmente em forma de um sonho, um sonho que não queria que tivesse acabado.

Apressadamente vestiu a parca por cima da camiseta, calçando algum tênis velho e surrado, junto com uma touca para protege-lo do frio intenso das ruas noturnas da cidade. Pegou as chaves enquanto atravessava o corredor, e trancou a porta assim que saiu. Não sabia para onde queria ir –sabia sim, para qualquer lugar que o ajudasse a superar e a esquecer de Ramona- mas não se importou com isso. Pegou o primeiro bondinho que viu e desceu ao se aproximar de Cameron House. Agora que se lembrava, Stephen Stills havia dito que tocariam lá na segunda. Poderia ir vê-los no dia, não faria tão mal sair para pelo menos tentar se divertir de novo.

Chegou ao balcão do estabelecimento, olhando rapidamente para as prateleiras e não vendo nenhuma bebida que não tivesse um mínimo de teor alcóolico. Era um bar, afinal de contas. Suspirou conformado, estava ruim, mas não era o suficiente para fazê-lo se tornar um bêbado. Pediu desanimadamente um copo de água para o barman, que o fitou- na sua cabeça- em deboche. Um perdedor que não tinha coragem nem para dar um trago ou tomar uma cerveja sequer para se recompor. Não demorou para o barman trazer sua água e ir atender a clientes que procuravam uma bebida de verdade.

Só depois de alguns minutos percebeu duas jovens no balcão próximas a ele. Reconheceu como a garota fofoqueira Monique e sua amiga Sandra. Pareciam estar conversando sobre a abertura de um novo club. Iria se aproximar para tentar puxar alguma conversa amigável, se distrair da melhor forma que pudesse, mas ouvir o nome de Gideon na conversa o impediu de imediato. Sentia a revolta em seu corpo novamente. O último ex-namorada de Ramona que estava em seu caminho, e aquele que a tirou de si, da vida nem tão perfeita que tinha juntos, mas era um vida boa.

Saiu de seus devaneios quando ouviu a voz familiar do amigo e ex-colega de banda, Stephen Stills. Ele, junto com mais duas pessoas que reconheceu depois, estavam carregando alguns instrumentos.

—Então vão tocar hoje? Quer dizer que hoje é segunda? –Sussurrou sozinho, dando um último gole em sua água. –Cara, eu tô muito perdido esses dias.

Joseph, que estava com ele e carregando os tambores da bateria resmungava alguma coisa para Stephen Stills, o que não lhe era nenhuma novidade. Por último viu Cole, que mais uma vez, por um instante, pensou que se travava de Gideon.

Os cumprimentou brevemente ouvindo uma animado ´´Hey, você veio! `` de Stephen Stills antes de se sentar em uma mesa, esperando pela apresentação da banda. Não era o sua definição de diversão, mas ao menos o ambiente havia ajudado a melhorar seu astral.

—Esse lugar está vazio? –Ouviu uma garota perguntar. A voz animada e mais madura do se lembrava ainda era facilmente reconhecível para ele.

—Kn-Knives! Quando você fez dezoito anos? –Questionou surpreso, e até um pouco assustado, quando viu que próxima da oriental um pequeno texto informava sua idade.

O rosto pequeno continuava inocente, com os puxados olhos de um negro gentil debaixo das sobrancelhas finas. Se pegou admirando sua beleza por um momento. Como a camisa ciano deixava os ombros de pele macia a mostra, com a jaqueta bege pendurada em seu braço. A calça preta que usava era justa, e deixava suas pernas torneavas muito chamativas, assim como os quadris finos da adolescente, digo, ex-adolescente.

Knives Chau estava, como nunca havia de fato reparado, linda.

Se sentiu sujo, mesmo que não carregasse nenhum desejo malicioso consigo, apenas admirou sua beleza que encontrava estilo próprio. Não imitando mais o estilo de Kim, mas usando algo só seu. Sendo mais ela mesma.

Scott gostou da última observação.

A chinesa ficou constrangida, havia percebido que o jovem a admirava sem reação, até mesmo com a boca aberta. Parecia que babaria a qual insante. Mas, ao mesmo tempo que se sentia constrangida, também se sentiu lisonjeada com o gesto. Não tinha mais uma compulsão obsessiva com Scott, mas era inevitável de se sentir contente sabendo que ele ainda a via como uma bela mulher, e não como uma mera e indesejável ex. E além do mais, não conseguia ver uma malicia luxuosa nos olhos do rapaz como muitos outros já fizeram ao verem a moça asiática, Scott ainda tinha um mínimo de decência para isso.

—Semana passada! –Respondeu animada. –Então, esse lugar está vazio? –Voltou a perguntar, apontando com o indicador para o mesmo o banco em que o rapaz estava sentado.

—Ah, n-não, q-quer dizer está sim! Pode se sentar! –Respondia nervoso se levantando para ir para o lado, dando espaço para a garota.

Tentou se acalmar por um momento, vendo que o nervosismo repentino estava o fazendo parecer (ainda mais) com um idiota. Admitia que sentia falta de Knives, já fazia um tempo em que não a via. Fazia um tempo em que não via ninguém, sinceramente. Mas isso não era motivo para incomoda-lo antes, então por que seria agora?

—E então, como se sente? Já pode até beber em público agora. –Não tinha assunto para puxar, mas não poderia aguentar o silêncio desconfortável que se formaria caso não tentasse.

—Acho que tanto faz, não é tão diferente de outros aniversários. Exceto que agora todo parente vai dizer que eu já posso ser presa. –Caçoou se lembrando das várias piadas vindas de parentes que ouvira na última semana. – Faz parecer que ser adulto é só uma piada e que nada vai mudar de verdade.

Riu alto ao final da frase, chamando a atenção do moreno em pequenos detalhes que nunca havia percebido. Knives sempre se inclinava para frente quando ria, e, não importando o quão engraçado tivesse sido o momento, os olhos estreitos se fechavam com a risada. Uma risada alta, as vezes até mesmo escandalosa. O cabelo era sempre era puxado para atrás da orelha. O último ato fez seu corpo gelar a medida que o rosto esquentava. Por que nunca prestava atenção a esses detalhes quando namoravam?

Porque a maior parte do tempo em que estava juntos Scott preferia pensar em Ramona a aproveitar da companhia da namorada que o adorava.

Assim que os olhos se abriram, as esferas negras fitaram o moreno com calmaria, a serenidade que sempre tinha com ele. O coração do mais velho se acalmou com isso, o ritmo descompassado parecia agora querer seguir com uma calma melancolia. Era completamente diferente de quando estava com Ramona. Seu coração parecia pular em frenesi de um tremendo show de rock quando estava com ela, não conseguia nem ao menos pensar direito quando estava com ela. Mas com Knives era diferente, era tranquilo, sereno. Estar com Knives parecia mais natural.

—Mas sabe... –Novamente foi tirado de seus devaneios. – Eu vou me mudar em breve! Me inscrevi na McGill e UBC e eu vou me graduar em três meses!!! –A feição rapidamente mudou para um rosto choroso, com olhos marejados e ambas as mãos fechadas e próximas do rosto.

Porém, mesmo com a notícia “triste” e a reação deprimida da mais nova, Scott precisou conter a vontade repentina que teve de rir. A reação dela após dar a notícia se assemelhava a de uma criança, inocente e boca. Era fofa.

A chinesa ficou confusa, tombando a cabeça para o lado. Ele estava feliz em saber que ela se afastaria? O pouco contato que ainda tinha seria reduzido para basicamente nada.

—V-você ficou feliz com isso? –Perguntou fitando o outro apreensiva.

—Não, não é isso. É que... ah eu não sei. –Admitiu de uma vez, não se contendo mais eu deixar escapar uma breve risada. A “resposta” completamente aleatória tirara um sorriso de Chau. – É bom ver que você tem objetivos pra sua vida, bem diferente de mim. É uma mudança muito grande e, sendo sincero, também deve ser muito difícil.

—É, uma grande mudança. –Concordou seguindo com um suspiro. –Eu vou ficar longe dos meus amigos, mas eu acho que essa é a hora de eu ter essa grande mudança na minha vida, sabe? De fazer algo diferente, e até de ser uma pessoa diferente.

Scott então começou a pensar sobre isso, e depois começou a pensar sobre estar pensando nisso. Enfim chegou a uma conclusão: Era completamente uma criança comparado a Knives que via agora.

—Você é mesmo uma sonhadora, não é? –Foi a única coisa que conseguiu dizer. A única que fazia sentido pelo menos.

—Como é? Tá dizendo que isso é só um sonho meu e que eu deveria desistir? Que maldoso de sua parte, Scott Pilgrim. –Disse fingindo estar irritada, vendo ele estender os braços em sinal de rendição, rindo logo em seguida dá acusação.

—É só que, quando namorávamos, você dizia que era como um sonho e que aquilo era o mais alto da vida que você poderia querer. –Se sentiu aliviado quando mencionar o antigo relacionamento não havia gerado desconforto em nenhum deles. – E agora você tá indo atrás de objetivos importantes, objetivos que vão te levar pra um lugar alto de verdade na vida.

—Bom, naquela época estar com você era mesmo o objetivo mais alto da minha vida. –Comentou embaraçada, mas não desviou o olhar por um momento sequer. – E pra mim foi mesmo um sonho estar namorando com você. Não fique se desvalorizando dizendo que um sonho pequeno.

Não sabia exatamente como responder aquilo, e torcia mentalmente para que qualquer banda começasse a tocar logo para que pudesse desviar um pouco o tópico que ficou um tanto quanto constrangedor para o ex-casal graças ao último comentário.

—Mas chega de ficar falando do meu passado e dos meus objetivos! Como tem passado!?

Era realmente fácil vê-la se animar rapidamente dessa forma, e Scott se questionava se ainda se tratava do dogma que Knives tinha que faria de tudo apenas para vê-lo feliz. No fundo torcia para que não fosse o caso, torcia que a alegria que via não era uma farsa na tentativa de esconder qualquer insegurança para poder vê-lo feliz, torcia para que Knives parecesse feliz, simplesmente por estar...feliz.

Sabia que a essa altura era bem provável que a garota já tivesse sido informado do seu termino repentino com Ramona, e sabia também que a pergunta não havia sido feito com a intenção de jogar sal na ferida que tardava a se curar. Ela simplesmente queria saber se ele conseguiu se manter forte durante todos esses meses.

—Tem sido um pouco difícil, sabe? Ainda mais do jeito que tudo aconteceu. Quem termina um relacionamento assim do nada, com tudo indo bem entre eles? –Perguntou irritado, mas não com Knive, e sim consigo mesmo, praguejando algumas vezes com raiva, gesticulando os braços um pouco.

Foi quando a ficha caiu e percebeu o que havia acabado de falar para ele. De todas as pessoas, ele havia perguntado isso para sua ex-namorada. Os olhos se arregalaram subitamente com isso, virando seu corpo para a garota com o anseio enorme de desculpar-se.

—Tá tudo bem. –Disse vendo as intenções de Pilgrim. Estava nitidamente triste com isso, e até um pouco magoada, mas não queria deixar qualquer sentimento negativo transparecer. Como sempre. –É difícil mesmo, dói muito, ainda mais no começo. Não estou dizendo que depois a dor vai embora, mas com o tempo você passa a se a acostumar com ela. Vai chegar uma hora que vai parecer tudo tão natural que te faz perguntar se não foi sempre assim.

—Knives... –Chamou a tirando do monólogo. Apreensivo e cauteloso com as próprias palavras. –Não precisava responder se não quisesse, sério. Eu não reclamaria nem se você tivesse me esmurrado ao invés de responder.

—Acho que não sou a melhor pessoa pra conversar com você sobre isso, porque nem eu posso dizer que já superei, mas esse é o conselho que eu te dou. –Não parecia se importar em ver Scott mal consigo mesmo, era comum que ele falasse algo sem pensar e se arrependesse logo em seguida. –O tempo passa, e, se você tiver muita sorte, quem sabe a dor não vai com ele?

Depois de ver a breve apresentação da nova banda de Stephen Stills, e se animar quando descobriu que o amigo seguiu seu conselho e a nomeou como Shatter Band, não havia muito o que fazer no bar. Tocaram três músicas e foram aplaudidos pela plateia logo em seguida, e Knives foi como sempre não se conteve em mostrar toda sua empolgação.

—Isso foi incrível, mas é estranho o Stepehn tocando num palco sem você do lado. –Knives comentou depois de aplaudir. –Os Sex Bom-omb fazem falta.

—É, eles fazem sim. – Concordou. O tempo em que fazia banda com Kim e Stephen Stills era muito mais simples, ainda no começo de seu relacionamento com a mais nova. Mas não era só da banda que ele sentia falta. Nessa época tudo parecia ser melhor, uma simplicidade muito mais convidativa para o transtorno interno que carregava consigo.

—Foi bom poder conversar com você de novo, Scott. Já estava pensando que eu me mudaria antes de te ver. –Comentou se levantando e vestindo seu casaco. – Valeu pela conversa, a gente se vê outro dia. –Se despediu acenando para ele, indo em direção a saída.

—Espera! –Disse institivamente, se levantando abruptamente e segurando a garota pelo antebraço. O choque foi tão grande para ela quanto para ele. Não esperava de si mesmo insistir pela companhia da outra. Já veio ao show de Stephen Stills e alcançou sua cota de interação social do dia, por que ainda queria estar perto dela?

—O que foi? –Perguntou assustada, não, surpresa melhor dizendo, pelo gesto repentino. Se desvencilhava do braço de Pilgrim, e voltava para fita-lo de frente.

—Eu... bem, você... –Hesitou a falar, enquanto recuava dois passos. Não sabia como explicar, então inventou uma desculpa que julgou convincente. –Já é tarde, não tem mais ônibus circulando a essa hora, e sua casa é bem longe... Pode ser perigoso andar sozinha a noite, ainda mais sendo mulher. – Os olhos verdes vacilavam, não conseguiam se manter fixos em ponto algum. Mas em nenhum momento conseguiram olhar em direção da chinesa. Praguejou mentalmente, estava demorando demais, e o nervosismo insistia em ser um tremendo inconveniente para ele.

A garota o fitou desconfiada, ambas as mãos escondidas nos bolsos. Sabia onde ele queria chegar, mas queria ouvir isso vindo de sua boca.

—Não quer que eu te acompanhe até sua casa? –Queria simplesmente mantê-la próxima de si, mas não poderia dizer isso. Seria estranho demais, não é? Aquilo foi o melhor que conseguiu dizer para poder estar perto de Knives, mesmo que só por mais alguns minutos.

—Por favor. – Se censurou pela resposta. Um simples “Não, obrigado” ou “Se você quiser” seriam mais do que o suficiente. Mas não, é claro que não. Foi ela quem insistiu pela companhia do outro, ela também não queria se afastar dele, ela não queria mais estar sozinha. Queria sua companhia tanto quanto ele queria a dela.

Pouco mais de um hora caminhando lado a lado, pouco mais de uma hora em completo silêncio, pouco mais de uma hora simplesmente feliz por estar perto dela.

Não reclamou do silêncio duradouro, ajudava-o a pensar no rumo que sua vida tinha o levado até então. Uma vida com muitos erros que eram disfarçados de acertos, mas isso nem mesmo ele sabia.

Via a casa da família Chau cada vez mais próxima, e sentiu um desgosto que não esperava. Na sua cabeça seria um infortúnio mísero, algo que nem ao menos sentiria, mas não foi. Estava incomodado por chegar o momento de despedida.

—Chegamos. –Ela anunciou assim que estavam próximos da cerca em frente ao jardim. A grama verde ainda umedecida pela garoa de horas atrás. –Valeu pela “carona”. –Agradeceu fazendo aspas com o dedo, rindo em seguida.

—De nada. –Respondeu sem jeito, coçando a própria nuca, mas dessa vez conseguiu manter o contato visual. Progresso, pouco, mas ainda era um progresso. Espera? Progresso de que? Aonde estava querendo chegar?

Em meio ao seu monólogo interno o silêncio reinava entre os dois no mundo real. A jovem ainda não queria entrar e dizer adeus, mas não poderia convida-lo a entrar. Seus pais estavam em casa, e poderia acorda-los com o barulho.

Um segundo ai... Que barulho? E por que ela o chamaria para entrar? Já era de madrugada e convite para entrar só poderia significar uma coisa para um homem. Na verdade, qualquer um, homem ou mulher, só conseguiria pensar em um coisa com um convite desses.

—Scott? –Ela chamou, não aguentaria esperar com os pensamentos... estranhos que não conseguia controlar. Seu monólogo interno era tão confuso para ela quanto o do Scott era para ele. – Você sabe que foi um namorado terrível, não sabe?

—S-sim, eu sei. –Respondeu saindo do transe. Mesmo que estivesse magoado não se via no direito de reclamar com ela. Não se via no direito nem mesmo de se sentir magoado.

—Mas você sabe por que eu não consigo culpar você por isso? –Não havia entendido a pergunta, e seu rosto deixava isso nítido. Porém, ficou em silêncio. Era melhor ficar quieto do que correr o riso de dizer alguma besteira. De novo. – Você sabe por que eu te amei com todo o meu coração, mesmo depois do que você fez comigo? Sinceramente, eu ainda não consigo dizer que não te amo mais.

—Knives, eu...

—E eu posso dizer com toda certeza que isso é estupidez. –O interrompeu. Queria sim poder ouvir sua resposta, mas ainda não havia terminado. Tinha muita coisa que gostaria de dizer para Scott, e sabia que muitas dessas coisas ela jamais teria coragem de dizer. – Você pode me dizer por que eu não posso simplesmente dizer que não te amo mais? Por que eu não posso finalmente dizer que eu consegui seguir em frente e que estou pronta pra encontrar outro namorado? Um namorado que não seja um canalha e que não me trai nem que me faria sofrer por causa de outra garota.

Não queria chorar na frente dele, não queria chorar por causa dele, não de novo. Não suportaria passar por tudo aquilo de novo. Mas os olhos negros já se umedeciam sem que ela pudesse controlar, e a visão do rosto de Knives chorando novamente por sua causa era como uma facada no coração de Scott.

—Você pode me dizer o porquê eu amaria ser beijada por você agora?

Estava sem reação. O cérebro lento não conseguia processar todas as palavras que acabara de ouvir. Não sabia como responde-la e nem da onde teria vindo tantas perguntas repentinas. Ela poderia estar mentindo, ela poderia estar tentando engana-lo para fazê-lo se sentir pior quanto a tudo isso, ela poderia...

Não, ela não poderia fazer nada disso, jamais seria capaz, não Knives Chau, não a complacente garota que namorou. As lágrimas que via agora, que a garota lutava para não derramar, eram tão reais quanto os sorrisos após seu termino eram falsos.

A garota que teve seu coração quebrado por um namorado infiel, e que, por mais que tentasse, não conseguia se esquecer dele. No fundo ela não queria esquecer, mas sentia a necessidade disso. Era a única saída possível que conseguia encontrar para levar a dor embora, já que aparentemente nem o tempo queria fazer isso por ela.

Ela ainda estava em silêncio, esperando por qualquer reação dele, que continuava a se manter em um impasse. Era tudo muito confuso para ele, e não ajudava sua mente ter se esvaziada completamente com o baque que o peso da confissão trazia junto com as palavras. Não sabia o que dizer, então faria o que sempre fez: Agiria sem pensar.

A destra do mais velho se levantou, passado pelos cabelos escuros e lisos e segurando o rosto jovem. Não conseguia tirar seus olhos dos dela, e o palpitar do seu coração estava agitado como nunca pensou que estaria. Deu um passo à frente, se aproximando. Ela não recuou, e não esboçou nenhuma outra reação. As mãos ainda estavam paradas ao lado do corpo, tinha vontade de abraça-lo, de dizer que estaria sempre com ele. Queria, mas não podia. Não conseguiria ser a única no relacionamento que estava feliz, não queria ama-lo sabendo que seu coração ainda pertencia a outra, mas isso ela também não conseguia fazer.

As pálpebras dela se deixaram pesar e enfim fecharam, sentia sua proximidade com a respiração que chegava em seu rosto. O hálito quente que ela ainda sentia falta em seus momentos mais íntimos. As lágrimas finalmente caíram quando ela sentiu os lábios que tanto desejava em contato com sua pele, e seus olhos se abriram em surpresa com o gesto.

Ele a beijara na testa.

Um beijo tão delicado e longo quanto podia.

Scott afastou seu rosto do dela, mas mantinham a mesma proximidade de antes. Nenhum dos dois queria se afastar, nenhum deles conseguiria fazer isso.

—E-eu sabia. –Afirmou passando a mão sobre o rosto, limpando as lágrimas com a barra da jaqueta. –Você ainda ama ela, e, diferente do quem fez comigo, você, não consegue trai-la.

—Knives. –Agora era ele que chamava seu nome. A voz carregava uma firmeza que era novidade para ambos. –Por favor não diga mais isso. O que Ramonas e eu tivemos foi bom, mas acabou. Acabou de forma errado, assim como eu fiz com nos dois, mas acabou. E tudo o que eu consigo pensar quando eu ouço o nome dela é no passado. E, Knives, eu não quero viver no passado, eu só quero poder fazer as escolhas certas no presente pra poder viver um futuro que me agrade e ter um passado da qual eu não me arrependa. E eu não consigo ver isso ao lado de mais ninguém se não for ao seu.

—E-então por que? –Questionou ainda com uma voz fraca, seu maxilar ainda tremia com a imensa vontade de chorar que carregava. Era difícil de acreditar nele depois de tudo o que passou. –Por que você não me beija?

—Eu não posso estragar as coisas, não outra vez. –Respondeu a abraçando. A cabeça da asiática se escorava em seu peito e ela podia ouvir seu coração. Estava calmo, diferente do dela. Agitado como as músicas que ouvia o antigo namorado tocar só para ela em alguns shows particulares. –Eu quero poder ficar com você, dizer pra todo mundo que você é minha namorada sem ter medo das consequências, mas eu ainda tenho medo de fazer você sofrer de novo. Não vou conseguir viver comigo mesmo se eu continuar fazendo isso.

O vento que levava folhas de árvores e balança os cabelos de ambos foi o único som por um segundo, o tempo exato que a garota teve para absorver as palavras.

—Eu não quero apressar nada, acho que é melhor assim.

—Por que? –Ela voltou a perguntar.

—A gente começou a namorar antes mesmo de você ter coragem pra andar de mãos dadas. –Comentou zombeteiro, mas era verdade. Não queria apressar nada. Tinha a vontade, o desejo e o anseio de estar com ela novamente, mas também tinha medo. Se se apressasse poderia correr o risco de estragar tudo mais uma vez, então dessa vez faria tudo com calma e não agiria sem pensar. Do jeito que deveria ter feito desde o começo.

—E o que você quer fazer? –Perguntou se afastando, mas ainda mantendo o abraço, para poder olhar em seus olhos novamente. Precisava fazer isso, precisava saber se ele estava sendo sincero e ter plena certeza de que estava disposto a tentar novamente.

E se ela estava mesmo disposta a dar outra chance a ele.

—Começar do começo e não estragar tudo dessa vez, não quero mais ver você sofrendo, principalmente por minha causa.

—Parece até que trocamos de lugar agora. –Ela comentou rindo, e encostando novamente a cabeça em seu peito. Era ele quem estava tentando de tudo para poder vê-la sorrir, assim como ela fez com ele meses atrás.

—Então um encontro? –Perguntou, vendo a cabeça acenar em positivo logo em seguida. –Que tal um fliperama? Mas você pode pagar dessa vez, acabaram todas as minhas moedas.

—Eu adoraria. –Respondeu com voz baixa, mas estava feliz. Alegre com um enorme sentimento de leveza. Sentia novamente as borboletas no estômago que sentia no início de seu namoro.

Permaneceram assim pelo tempo que acharam necessário. Exatos dois minutos, 27 segundos e 17 milésimos nos braços um do outro, ignorando o frio da noite e usando o calor deles mesmo para se aquecerem.

Se desvencilharam enfim, com a oriental limpando novamente algumas lágrimas que escorriam pelas suas bochechas e sentindo a mão quente de Scott acariciando seu rosto o mais esmeradamente possível. Deu outro beijo em sua testa antes de se despedirem e desejarem boa noite um para o outro.

Com um enorme peso tirado de seus ombro, Scott conseguiu olhar para o céu e ver novamente a beleza que o mundo poderia trazer. Não havia um mísera estrela visível, mas elas não era necessárias.

Aquela já era a noite mais bonita de sua vida.

Não queria mais ter que lutar por Ramona Flowers. Que se dane Gideon e sua Liga de Ex-namorados vilões. Estava farto de tudo isso, não tinha mais forças para lutar por isso.

Knives Chau era quem lhe daria coragem para poder lutar por si mesmo, para melhorar por ela mesmo, e encontrar felicidade com uma mulher que ainda julgava como boa demais para ele.

—Que estranho. –Knives disse depois de seus olhos não poderem mais alcançar Scott, finalmente passando pela cerca e andando até sua própria casa. Olhou para o céu escuro mais uma vez e não se incomodou com isso. Nada daquilo poderia estragar aquela noite para ela, não permitiria isso. Esfregou as lágrimas uma última vez antes de entrar na sua casa. –A dor foi embora.

Notas finais
Espero que tenho gostado.
Depois que eu li essa hq quis muito escrever algo sobre ela, e fiquei bem decepcionado quando vi que tinha tão poucas fics sobre ela.
As próximas duas one shots vão ser outras que seguirão a ideia de "e se" sobre Scott Pilgrim, mas não vão ter ligação com essa aqui.
Essa ceninha no final pode ter sido um pouco forçada, mas na minha cabeça esse shipp é mais canon do que Scott e Ramona.
E desculpa se decepcionei alguém com a cena do "beijo", mas como o Scott já na hora ainda é muito cedo pra isso. Então eles meio que reataram, mas vão se conhecer de novo.

Até a próxima parte da trilogia que vou concluir em breve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!