No more...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“ O dia estava lindo na cidade grande. Calado Ian observava o fluxo na ferroviária onde tantas outras vidas mesclavam-se à sua raça. Pelo entusiasmo de cada um ele podia saber quem era turista e quem morava na região já que alguns apenas se se encostavam à parede suja do terminal e esperavam sem expressão pelo trem. Enquanto isso a pequena Margo se mexia agitada em seu bebê conforto, brincando com os próprios pés. Ele sorriu ao olhar a menina. O que não fazia por seu amor. Há alguns meses, após a fuga da esposa de seu melhor amigo, Joseph, havia perdido a graça e desde então Ian cuidava da pequena dele. Ela tinha seus traços delicados; suas unhas redondas nos dedos e a cor da pele branca que contrastava com seus olhos negros; enquanto o nariz era da mãe, ele tinha certeza.
Todo mês, desde fevereiro, ele levava a menina ao pai que estava cada vez mais doido. O céu de Brisbane estava iluminado com o sol de todos os dias, que deixava as flores abertas e os shorts no corpo do viventes. O calor lhe pegava de jeito, dentro de seus jeans rasgados. O celular no bolso e a bolsa de Margo no braço ele sorria vacilante. Às vezes as pessoas olhavam-lhe estranha pela bolsa rosa cheia de coisas de bebê que, outrora, ele não sabia nem o nome.
O jardim de Josh estava morrendo os poucos com a ida de Melinda. Melinda era uma velha feiticeira se enturmando na vida adolescente, assim como o próprio Ian, mas que se apaixonava fácil por humanos. E se apaixonou por Josh afinal quem não o faria, sendo ele tão lindo que o próprio feiticeiro estava caidinho por ele. Enquanto Ian tentava esquecer o sentimento pelo roommate, que também era seu amigo com outras pessoas ocupando sua cama, Melinda ia envolvendo o humano na sua teia e quando este lhe entediou, ela se foi deixando pra trás sua cria, com seu próprio DNA mágico.
Assim que vira o outro em sua cadeira de balanço com um livro em mãos, pegando o sol quente da hora que rondava o meio dia, seu estômago virou e um sorriso brotou-lhe no rosto.
-Joseph!-Acenou para ele com a mão desocupada. Margo estava com sua respiração regular, calma de bebê que dormia. Ao longo desses quatro meses ele conseguiu entender o jeitinho da menina. Seu escritório ganhara um berço rosa, com dossel cheio de tecidos que lhe caíam até o chão, e alguns adesivos que ele mesmo escolhera na parede. Lembrou-se da poltrona em que lhe dava mamadeira e da estante, já cheia de livros, que pegava o sol do crepúsculo que entrava pela janela.
Josh olhou-o impaciente e jogou o livro no chão levantando-se de supetão.
-EU JÁ LHE DISSE! NÃO ME TRAGA MAIS ESSA PRAGA!-Disse ele para Margo, furioso gesticulando freneticamente com as mãos. –FAÇA-ME O FAVOR E VÁ EMBORA DAQUI ANTES QUE ME ARREPENDA.
O amigo meio incrédulo saiu sem dizer-lhe nenhuma palavra. Depois de já longe voltou correndo com o bebê conforto balançando rápido demais. A fúria súbita estava nele e quando o pobre maluco, não conseguiu controlar sua raiva.
-VOCÊ ACHA QUE PODE CHAMÁ-LA ASSIM? VOCÊ ACHA QUE PODE JOGÁ-LA FORA DESSE JEITO? SÓ PORQUE A MÃE DELA TE LARGOU COMO SE DESPEJA UM PAPEL DE BALA VOCÊ VAI FAZER O MESMO COM SUA FILHA?
-Ela nem é minha filha! Ou você acha que eu não sei que eu não era o único dela? Você pensa que não sei o gene que essa aberraçãozinha carrega? Genética de feiticeiro pura, daquela puta e outro dos seus. – Ian se assustou olhando sério com a menção de sua espécie na boca do outro, e ele continuou. – Depois de mais de dez anos de amizade você não achou que podia me confiar esse segredo, amigo?
-Eu fui seu amigo. Quando se vive pra sempre, dez anos não são nada.
O feiticeiro saiu andando segurando lágrimas de sua suposição, como se não lhe tivesse sido amigo o suficiente por todo o tempo, quando tudo o que fazia era amá-lo incondicionalmente? ”
Ian se encontrava ali, trocando a cor das paredes do quarto de Margo. A menina corria pela casa com um vestido branco leve enquanto esperava que seu pai terminasse o serviço. Tirando os adesivos desbotados da parede ele se lembrava da última vez em que vira seu amante. Margo, 14 anos depois não sabia muito da própria história, pois ele não conseguiu unir forças para contar-lhe a verdade, exceto por ser feiticeira, claro.
-Papai! Se o senhor ficar navegando por lembranças não vai terminar nunca!-Disse Meggie na porta do quarto. –Podia deixar-me ajudá-lo, não me importaria da sujeira. –Ela disse fazendo as latas de tinta flutuar deu uma gargalhada acompanhada do pai enquanto deixava as latas voltarem a seu lugar.
Depois de finalmente concluir a pintura do antigo escritório, eles saíram para comprar novos adesivos e para buscar a nova cama com dossel da menina, que substituiria o berço já velho e sem as grades. Depois de uma tarde inteira de procurar adesivos legais e colchas para a cama nova, eles sentaram no fast food vegano preferido de Margo para jantarem. O garçom do lugar era o melhor amigo da menina e ela desconfiava que ele sentisse algo mais por ela há algum tempo. Comeram os dois conversando animadamente com Pietro soltando uma piada entre os pedidos de uma mesa e outra. Esperaram que seu turno terminasse para levá-lo para a casa, que era o apartamento na frente do de Ian.
Quando o sino da porta tocou a última vez da noite, Ian olhou distraído e assustou-se com o que viu. Joseph estava em uma bermuda xadrez e blusa social parado na porta com o olhar animado para outro homem. Ele olhou na direção de Ian e um lampejo de tristeza passou por seus olhos. Depois sorriu fraco para o rapaz que o acompanhava e beijou-lhe os lábios indo em direção ao feiticeiro. Incrédulo com o que acabara de ver, Ian não conseguiu desviar o olhar do homem que vinha em sua direção.
-Ian?-Ele perguntou.
-Quanto tempo não?-Ele disse referindo-se a lembrança que lhe tirava o sono todas as noites.
-Sim, muito.
-E quem é... – Ele demorou em encontrar uma palavra. – Seu, hum, amigo?
-Meu amigo. E essa moça. Margo?- Falou referindo-se a menina. Ian ficou tenso em pensar na menina. Ela olhou-o sorrindo, ainda de algo que Pietro falara, e cumprimentou-o virando-se a Ian.
-Papai é seu amigo?-Ela perguntou e ele percebera que Joseph estremeceu ao ouvir a palavra “papai” na boca da menina referindo-se ao feiticeiro.
-Um velho amigo de faculdade. Moramos no mesmo quarto por um tempo. Não é mesmo Joseph?-Falou ele em tom de desafio.
-Sim, foi. Você poderia vir aqui fora comigo para conversarmos?-Ele disse tocando o braço do outro.
Ian olhou tenso para Margo que já se afundava em outro comentário bobo de Pietro, que falava da senhora das perucas da mesa ao lado.
-Eu não tenho nada pra falar com você- Ele disse baixinho para que apenas o outro escutasse.
-Tem sim. Ou quer que eu conte a ela agora que sou seu pai?- Ele falou num tom de ameaça.
Peguei seu braço e sai em silêncio.
-O que você quer?-Perguntou com raiva, largando o braço do outro.
-Faz um tempo que procuro por vocês. Você andava escondendo-se de mim?
-Não precisei você mesmo fez isso. Afastou-me de você sem mais nem menos e não precisei me esconder de ninguém.
-Eu procurei. Pra pedir desculpa. Não sei se por um feitiço ou coisa do tipo, mas acho que descobri que não amava Melinda assim. E desde então te procuro para me desculpar, desde então só tenho pensado em você.
-O que é engraçado já que da última vez que nos vimos você jogou o contrário na minha cara.
-Eu estava fora de mim, já disse. Só me dê uma chance para mostrar meu arrependimento.
-Você não precisa me mostrar nada, só preciso que não fale nada para Meggie ainda. Deixe que eu conte no meu tempo, faça um favor a si mesmo e esqueça que ela foi alguma coisa sua.
-Não quero que isso aconteça você sabe que não.
-Eu não sei de nada Joseph, eu não te conheço como julguei fazer. E se me der licença, preciso voltar à minha vida.
Ian virou as costas com uma frieza irreconhecível.
-Não, por favor. Sabe o que lembrei um dia desses nas minhas buscas?
-Não e não me importo. –Falou olhando uma última vez em direção ao humano.
-Não se lembra daquela festa? Estava bêbado demais para se lembrar daquele dia?
De repente a cabeça do feiticeiro girou e ele se inundou com lembranças.
“ -Você não faria isso. — Falou Ian ao outro.
-O que? Pular no rio? Claro que vou fazer. — Ele disse despindo-se na frente de Ian, que mordeu os lábios e enrubesceu ferozmente ao ver aquela cena. De todos que ele já tinha se apaixonado platonicamente sabia que esse era diferente; o amor irradiava-lhe a pele pálida de quem não pegava sol.
-Você também quer não?-Ele disse antes de se jogar no lago gelado. Ian riu do garoto bêbado e se despiu pulando na água fria.
-Eu aposto que você não nada mais rápido que eu-Disse Joseph em seu tom desafiador de quem adorava uma aposta.
-Não aposte coisas que você pode perder. — Falou sarcástico.
-Se eu ganhar, eu posso escolher alguém pra você pegar, e você vai ter que fazer, se eu perder você escolhe.
-Parece um tanto justo, já que vou ganhar-Disse dando de ombros na água.
-Já! -Gritou o jovem saindo em disparada.
-Ei! Não valeu! Volta aqui!
Ele não virou e nem parou e Ian pensou que poderia roubar também assim como ele havia feito, só que do seu jeito. Um rápido feitiço colocou-o na frente e quando esse chegou sorriu já sabendo que o feiticeiro ganhara.
-Você vence mesmo quando eu roubo. Qual é o seu segredo campeão?
-Prática. — E era mesmo já que este vivera tempo o suficiente para ser bom em muitas coisas diferentes. –Agora eu posso escolher quem você vai ter que beijar. — Sorriu pensando nas opções.
-Eu proponho uma revanche. — Disse ele já na praia, o queixo batendo com a brisa do mar secando seu corpo.
-Claro que não! – O feiticeiro parou de súbito em sua frente.
-Então quem você propõe que eu beije uhn?-Ele falou aproximando o rosto do outro.
-Me beija. – Falou sério sem pensar e antes que se tocasse do erro, o humano tocou sua boca com a dele, o frio de seus lábios pegando-o de surpresa. Esse recuou um pouco assustado.
-Não foi isso que me pediu?-Falou Josh sem entender.
-Sim mas..
-Mas o que?
-Te amo. Eu te amo muito a muito tempo, e te quero mais que tudo, mas não assim; não bêbado.
-Você me ama. Eu sabia desde que o vi. Mas talvez o agora seja tudo o que vá ter de mim. – Falou voltando sua boca à do outro que não pôde resistir ao desejo e ao medo de nunca mais poder beijá-lo novamente, sentir seu frio entrando por suas entranhas; seu DNA misturando-se ao do garoto mais que magicamente, seus corpos adaptando-se facilmente como se fossem feitos um pro outro. ”
-Porque me disse que não se lembrava daquela ocasião?-Falou Ian voltando à realidade.
-Por que fiquei com medo. Medo de admitir que tivesse sentido algo mais por você. Medo por ter que admitir que tivesse beijado um garoto; um amigo. E ai Melinda apareceu e eu realmente me apaixonei por ela; dois anos intensos com aquela mulher maravilhosa, me fez esquecer por um instante do meu sentimento. Depois que ela se foi fiquei desiludido pensando que ela era para o resto da vida. E você estava ali, sempre ao meu lado, com aquela criança que só me lembrava dela e cheguei a pensar até que ela não era minha. E decidi que não queria meu passado no meu futuro. Mas te olhando agora, e vendo aquela garota linda lá fora, acho que quero muito, mais que nunca, tê-lo ao meu lado, ajudar na criação da minha menina. Dias desses vi Margo na escola. Tão linda e inteligente. Bem criada como eu jamais faria.
-E o seu amigo?
-Ele é um amigo. Nada demais.
Ian respirou fundo. Pela primeira vez ele estava falando tudo que o feiticeiro quis, por muito tempo, ouvir da boca do garoto, mas já não queria aquilo há tempos.
-Dez anos atrás isso era tudo que eu queria escutar de você. Queria que batesse à minha porta e se declarasse e me ajudasse a criar sua filha, sua ex-filha, e que pudéssemos viver pelo curto período de sua vida como uma família. Queria que dissesse que me amava e que eu era tudo o que via, mas hoje, isso se tornou insignificante. Não quero mais. Se puder fazer o favor para si mesmo, se afaste de mim e de Meggie porque não sabe o poder que tenho não me conhece e não sabe do que sou capaz para defender minha filha.
O feiticeiro virou as costas deixando o outro sozinho na sarjeta. Já lá dentro sorriu para si mesmo imaginando o quão forte tinha sido por dispensar o outro facilmente. Ainda o amava muito e estaria em seu enterro, sabia que sentiria quando este morresse. Mas agora, tinha uma vida que não dependia de ninguém, de nenhuma migalha de amor de um humano qualquer.
-Estão prontas crianças?
-Estamos capitão!- Responderam Margo e Pietro animadamente. Eles foram para casa, Ian se esquecendo do fato de mais cedo como se nada tivesse acontecido.
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