No meio de tudo
4 Capítulo 3
Helena
— Olha, que linda, nem ta doendo mais né? — A criança no meu colo respirava fundo, cansada, depois do choro constante. Ela tinha caído na rua e além de fraturar a perna, tinha batido cabeça.
Ocorrência com criança é sempre mais difícil, todos acabam se comovendo com a situação, apesar de grave, conseguir reverter a situação. Estava deitada na maca com a criança no meu colo, gritei:
— Mãezinha, ela está bem tá? Está acordada e parou de chorar. — A mãe, que estava no banco da frente da ambulância suspirou aliviada, tentando controlar o choro. Eu sempre gosto dessa parte, quando a família consegue relaxar depois do susto.
Chegamos ao hospital e eu entreguei ela aos médicos, o hospital em que Nathália trabalha estava superlotado e ela não iria receber mais pacientes. Apesar da gravidade do acidente, o médicos disseram que a criança iria ficar bem.
— Meu Deus, como alguém deixa a filha cair assim? — Bárbara indagou enquanto voltávamos para a ambulância. Bufei.– Criança é criança, você pisca e ela já tá no telhado. — Bárbara gargalhou do meu comentário e quando chegamos na ambulância, Ronaldo já estava com endereço da próxima ocorrência.
Meu celular vibrou.
Adivinha quem acordou?
Era Nathália, estava me informando sobre Bernardo. Ele tinha feito cirurgia e acabou ficando em coma induzido por 5 dias.
Ele está bem?
Ela respondeu.
A, está ótimo. Sem nenhuma sequela, e perguntado para todos os funcionários sobre a médica da ambulância.
Fiquei rígida. Droga.
Ele parece irritado quando pergunta?
Ela não demorou nem um segundo.
Sim.
Fiquei olhando para tela por pelo menos cinco minutos, ele é policial, ele sabe dos direitos que tem e vai me processar, não pode ser outra coisa. Respondi Nathália dizendo que passaria no hospital depois do plantão.
Enfrentei paradas cardiorrespiratórias, atropelamentos, mais crianças feridas. Mas nada, nada tirou a ansiedade que eu estava sentindo para esse encontro.
—----
— Eu to nervosa por você. — Nathália me recebeu na portaria do hospital de braços abertos. – Oi pra você também. — Falei nervosa, nos abraçamos. Para aqueles que não sabiam que fizemos a mesma faculdade, poderiam achar que nós éramos irmãs. Nathália tinha o olhos castanhos e o cabelo — naturalmente liso — era da mesma cor dos olhos, eu era pouquíssimos centímetros mais alta que ela.– Ele ta no quarto andar. — Respirei fundo, Nathália já tinha ajudado ao máximo que podia. Nos abraçamos mais uma vez, ela me desejou boa sorte e eu subi.
No elevador, revisei mentalmente todos os meus argumentos que mostravam o porquê eu tinha que ter feito o que fiz, percebi que estava nervosa quando minha respiração estava ofegante. Respirei fundo, as porta do elevador abriu e eu fiz questão de sair primeiro com o pé direito para dar sorte.
Parei na frente da porta do quarto dele, estava fardada, arrumei o cabelo em um novo rabo de cavalo. Droga, deveria ter retocado a maquiagem, passado pelo menos um batom... mas por que eu estou tão preocupada assim com a minha aparência? Helena, para, você veio resolver um problema. Comecei a me questionar o real motivo do meu nervosismo, balancei os braços tentando relaxar e finalmente bati na porta, dois toques.
— Entra. — Ele disse.
Abri a porta lentamente, a primeira imagem que veio aos meus olhos foi um homem sentado em uma poltrona. Ele era negro, com braços enormes e o seu toráx maior ainda, aliás, não conseguir achar uma parte de corpo dele que não fosse grande e tivesse músculo.
— Oi. — Acenei envergonhada, honestamente,com medo. Depender do humor do Bernardo, vai que esse homem enorme me segura? – Oi. — Ele falou empolgado, abriu um sorriso mostrando todos os dentes. Deu um pulo da poltrona e veio em minha direção. – Meu nome é Lúcio, sou parceiro do Bernardo. Com certeza dá pra ver quem é mais bonito. — Ri envergonhada, ele estava flertando comigo? Apertei a mão dele, olhei de relance para Bernardo e ele estava sorrindo, analisando a minha reação diante do amigo. – Helena. — Falei baixo, tímida. – Ela é a médica que me salvou cara. — Bernardo falou calmo, senti gratidão na voz dele. Tive coragem de olhar direito para ele e acabei sorrindo, ele retribuiu, meu coração acelerou com a visão do rosto dele.
Era por isso que eu estava nervosa?
— É VOCÊ? — Lúcio gritou e me abraçou, não, ele me agarrou e me levantou. Senti meus pés saírem do chão, eu retribuiria o abraço com o maior carinho, se os meus braços não tivessem preso. Bernardo começou a gargalhar. O som de sua gargalhada me fez tremer, senti certa felicidade por estar causando felicidade nele. Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? – Deixa ela Lúcio, preciso conversar a sós com ela. — Bernardo falou ainda rindo. Lúcio logo me colocou no chão, consegui retribuir seu abraço ao sentir meus pés estabilizados no chão e percebi que ele estava emocionado. – Depois podemos conversar? — Ele falou baixinho, ainda no meu abraço. — Claro. — Respondi.
Lúcio acenou para Bernardo que estava saindo, esperei a porta fechar totalmente.
— Olha, me desculpa por ter te anestesiado sem sua permissão, mas você poderia morrer. Você estava sangrando por dentro é... — Comecei a falar feito uma vitrola ambulante, ele riu com charme e levantou a mão para que eu parasse de falar.– Ei, ei, eu sei. A médica veio me explicar. Confesso que acordei irritado com a situação, mas eu tava perguntando sobre você para agradecer. — Ele falou tímido, de cabeça baixa. – A é? — Perguntei não acreditando. Cheguei mais perto da maca, desde que Lúcio tinha saído eu sentia uma energia dentro do quarto que me puxava para ele, fazendo eu querer ficar mais perto, ele pareceu não sentir essa energia ou se importar com a minha aproximação . Somente assentiu. – Eu também queria saber o que aconteceu, não lembro de muita coisa. — Ele riu. Olhei para seus olhos verdes misteriosos e sua barba por fazer, sorri.– O que você lembra? — Perguntei com a voz doce, ele respirou fundo. – Lembro de estar sangrando no chão, lembro de você chegando, depois só lembro querendo brigar com você por causa da anestesia. — Ele falou sorrindo, um sorriso que mostrava todos os dentes. Ele parecia feliz, mas cansado.– Você estava com uma hemorragia interna, a bala causou mais estrago dentro do que fora. — Falei calmamente passando a mão no cabelo. – Agora eu tenho a lembrança dessa bala a minha vida inteira. — Ele moveu a camisola do hospital mostrando parte de seu peito, seu músculos definidos aparecendo, a bala estava lá, entre um músculo e outro, a marca era muito pequena em relação ao estrago interno. Acabei descendo o olhar para até onde a camisola ainda cobria, condenei a parte de mim que queria ver mais, “Foco Helena, para de olhar pros músculos dele”.
Bernardo encontrou meu olhar no seu corpo, nossos olhares se encontraram e eu desviei antes que ele pudesse deduzir qualquer coisa, podia sentir o sangue subindo rapidamente para as minhas bochechas. Ele sorriu tímido.
— Na verdade eu queria conversar sobre isso com você fora daqui. — Sua voz tinha malícia, era lenta e chegava a ser sensual.– Quer dar uma volta? — Falei me aproximando mais, eu entendi o que ele quis dizer. Mas eu era uma médica e ele o paciente, eu não podia fazer isso, mesmo com essa corrente elétrica me dizendo para fazer o contrário.– Não, não. — Ele riu, eu não me afastei. — Quer sair comigo?
Nossos olhos se encontraram novamente, os olhos dele eram de um verde cor do mar, e eu estava me perdendo dentro dele, me afogando para ser sincera. Eu via esperança em seu olhar, e doçura, meu corpo toda estava tomado pela corrente elétrica. Minha vontade era de passar a mão no rosto dele, sentir sua barba, os pêlos no seu pescoço, os músculos de seu peito. Contrai todo meu corpo tentando me controlar. Abri a boca para tentar falar e ele me interrompeu.
— Eu sei que uma médica não pode sair com um paciente, mas eu vou estar fora do hospital. Vai ser só o Bernardo, com a Helena.
Abaixei a cabeça pensativa, olhando para a minha mão encostada na maca. A mão dele estava logo ali, a menos de 5 centímetros, eu podia sentir que ele queria pegar na minha mão, mesmo sentindo que ele queria pegar, eu não conseguia tirar. Ele continuou.
— Só vai ser um jantar onde você vai me contar o que aconteceu. — Eu ri debochada, que bela desculpa.
Continuei com a cabeça baixa. Brigando com meu subconsciente.
Bernardo era um paciente, 1 contra. Nunca senti essa corrente elétrica na vida, 1 pró. Ele é seu paciente e se seu chefe ficar cabendo? GRANDE CONTRA. Ele era absolutamente lindo e esses olhos verdes que poderiam ver minha alma. 2 pró. Mas ele é seu pac…….
— Tudo bem. — Interrompi meu subconsciente que estava gritando comigo todo tipo de problema que eu poderia ter fazendo isso. — Só um jantar. – Só um jantar. — Ele repetiu sorrindo satisfeito, eu podia ver o flerte nele.
Ele iria me ligar quando saísse do hospital, fiz ele prometer que só sairiamos quando ele estivesse completamente recuperado. Conversamos sobre nossos trabalhos, nossa rotinas e eu não sai do lado da maca, acabei sentando nela, do lado dos pés dele, torcendo para que ele pegasse na minha mão.
POV Desconhecido
— Alguém chama o acerola. — Falei para os três homens na minha frente, todos armados com fuzis, inclusive eu.
Sentei na cadeira de meu escritório improvisado, em uma casa alugada no nome de minha eterna mãe, nem a minha própria família sabia que eu estava aqui. Logo escutei passos apressados vindo em minha direção.
— Chamou Senhor? — Acerola era um menor de idade, veio para o meu mundo ao passar 2 anos procurando emprego e precisava de dinheiro para sustentar a filha. Esse era seu apelido, dado por mim, no dia em que veio me pedir trabalho, lembrei que ele vinha aqui no terreno comer acerola quando era criança.– Chamei. — Falei com a voz marrenta. – Eu não sei como você vai fazer isso, tô de dando o direito de usar todas as ferramentas que temos em nossas mãos, mas você tem três semanas para descobrir os policiais que participaram do último tiroteio na “quebrada”. – Sim senhor. — Ele não questionou, eu gosto de muleque assim. Se ele se sair bem no trabalho eu posso até promovê-lo
Acerola logo saiu do meu escritório, encostei meu fuzil perto de mim, coloquei os pés na mesa e acendi um cigarro.
— Senhores, peço paciência, mas nós vamos conseguir dominar essa cidade.
Os capangas na minha frente riram, bando de maria vai com as outras, se eu falasse que iriamos usar o mato de banheiro por um mês eles concordariam. Mas, para o meu plano dar certo eu tinha que começar pelos policiais, trazendo para o meu lado.
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