Notas iniciais
"Tudo aqui é um mistério de contrários; trevas, uma luz mágica que oculta a si própria; sofrimento, uma máscara secreta do êxtase trágico; e morte, um instrumento de vida perpétua." Vashishtha Ganapati Muni

Calcutá, Bengala Ocidental — Índia (2017)

O tecido da kurta colava em sua pele salpicada de suor, causando-lhe uma sensação absurda de encarceramento dentro do próprio corpo. Os fios de cabelo negro permaneciam impecáveis na trança que fizera pela manhã, com as pontas chegando aos quadris em um balanço lento que beirava o hipnótico. Considerado um motivo para os homens lhe dirigirem um olhar cobiçoso ao passar, que não durava mais que alguns segundos. Desviavam a atenção não por respeito, mas receio. O semblante sereno, a postura refinada acompanhada de passadas tão leves que não seriam ouvidas ainda que Malik Ghat fosse um local silencioso; Anisha possuía algo em si que trabalhava, ao mesmo tempo, como ímãs que atraíam e repeliam todos ao redor. Perigosamente magnética.

Desviando com delicadeza das pessoas ao redor e tomando cuidado para não pisar nas flores expostas pelos comerciantes, que discutiam com negociantes e turistas, ela caminhou observando as interações humanas tal qual os visitantes de outros países o faziam com a flora exibida nas barracas. Havia um fascínio envolvido nessa contemplação que acalmava Anisha, embora envolta em caos. Fazia parte de seu passatempo visitar o lugar pelo menos uma vez por semana e comprar pushpamalas de jasmins.

Ao parar em uma das barracas, o vendedor uniu as mãos próximas ao peito com os dedos voltados para cima e se curvou para frente, reconhecendo-a sem dificuldade depois de anos se encontrando no mercado das flores, quase sempre no mesmo dia e horário. Considerava-a sua cliente mais assídua.

Nâmaskar. — Anisha retribuiu o cumprimento da mesma forma, ignorando os olhares dos turistas ao lado, que conversavam em francês. — Deixe-me adivinhar: guirlandas de jasmim, certo? — O sorriso quase desdentado que recebeu fê-la sorrir de volta.

Achha — respondeu, pegando as rúpias na bolsa.

Entregou dinheiro a mais como sempre fazia, sem se importar com o troco, e se afastou com o pushpamala em mãos. As fragrâncias e as cores, mesmo depois de tantos anos, ainda deslumbravam Anisha, conservando o olhar inocente ante singularidades que passavam despercebidas para a maioria. Com as mudanças que aconteceram em sua vida, temeu perder a sensibilidade em apreciar as simplicidades do dia a dia que costumavam encantá-la quando criança. O tempo, entretanto, apenas aguçou seu caráter arguto.

Próxima à ponte Howrah, sobre o rio Hooghly, Anisha combinou o preço com um dos muitos condutores de auto-rickshaw para que a levasse de volta à sua casa em Kalighat. Pôde notar a apreensão do homem ao levá-la; os punhos firmes no volante, dividindo sua atenção entre a estrada à frente e os olhares enviesados na direção da passageira. O que não melhorou quando precisaram parar na metade do caminho, próximos ao Eliot Park, pois uma vaca havia se deitado no meio da pista. Alguns minutos foram necessários para que o fluxo fosse desviado e, enquanto isso, Anisha passava de uma conta a outra de seu japamala confeccionado com 108 pérolas negras. Os mantras eram repassados em sua mente como uma forma de alcançar o nível de concentração, mantendo os olhos fechados.

Quando o auto-rickshaw passou em frente ao hospital Anandalok, a mulher havia chegado ao meru, marcando o fim das contas. Sua consciência se desprendeu do mundo ao redor, transcendendo ao ser engolfada por uma sensação letárgica de quem estava prestes a cair em um sono profundo. Túneis em sua mente se abriram a fim de retornar ao passado ou revelar o futuro.

Os sons urbanos foram silenciados e, ao abrir olhos, viu-se cercada por pilares de pedra que sustentavam o domo sobre a sua cabeça. A brisa fresca a rodeava, cheirando a jasmins e canela. Sob seus pés descalços, o ciclo da vida, da morte e o renascimento representado em baixo relevo através da Samsara. Anisha respirou fundo, ignorando o símbolo, e seguiu em frente. As paredes que formavam a estrutura aberta que a rodeava retratavam os deuses e suas histórias, desde o surgimento de Brahma, passando pela criação do mundo em diante.

Andou até a linha que delimitava o chão e olhou para baixo, vendo um sem-número de entradas escuras e escadas — algumas cobertas com musgo — que a guiariam até os confins daquela dimensão onde a luz do sol não tocava. No centro, circundado pelas paredes e degraus, o que parecia ser um poço sem fundo. Acostumada ao ambiente, adentrou um dos túneis iluminados por lamparinas em direção ao que desejava encontrar. Em certos momentos, via sombras surgirem pelo canto dos olhos e sumirem em um piscar de olhos; fantasmas de seu passado.

O perfume a acompanhou pelo trajeto como uma presença etérea, até Anisha passar pelo último arco, encontrando-se em uma sala oval de paredes e pilares altos que terminavam em um teto abobadado. Ela caminhou até o meio do cômodo, onde uma luz azulada emanava de uma fonte de mármore que jorrava água cristalina. Ao se ajoelhar, uniu as mãos ao peito, próximos ao chakra do coração, assim como fizera ao cumprimentar o comerciante de Malik Ghat.

Om Klim Kalika-yei Namaha — Jaya jaya ma jaya Kali ma.

Após entoar o mantra à deusa Kali, a mãe negra, só então mergulhou os dedos na água, que alterou seu tom azulado para o carmesim, exalando o odor de sangue. Sombras se arrastaram pelo chão como serpentes, subindo pelos pilares e paredes enquanto sons de batalhas passadas invadiram o lugar. Anisha levou os dedos úmidos até os lábios, descendo-os até o queixo e provando do gosto metálico que lhe fora ofertado.

Na superfície líquida, imagens começaram a surgir sem uma forma definida tal qual um fluxo de pensamentos não-linear. Anisha se concentrou no futuro, confiando na intuição e nos sonhos que insistiam há semanas em lhe dizer que algo estava para surgir. Aos poucos, sua casa em Kalighat surgiu, bem como a presença de um velho amigo que não via há anos.

— Karan — murmurou o nome sem ao menor se dar conta de que o fazia.

A imagem mudou mais uma vez, com a antiga partindo como se levada pela correnteza de um rio, transformando-se na figura de um homem de frente para uma carroça cigana e de costas para Anisha. Seu coração acelerou e um resfolegar escapou dos seus lábios, sem restar dúvidas quanto à identidade dele. O nome estava na ponta da língua, mas não conseguia pronunciá-lo. Ainda com a boca entreaberta, observou-o se empertigar como se soubesse que alguém o encarava.

Anisha mirou com espanto a figura do homem se transformar lentamente à medida que volvia na sua direção. Os cabelos ficaram mais claros, assim como a pele. Estava quase vendo seu rosto quando foi puxada de volta ao plano físico, da mesma maneira quando uma pessoa desperta de um sonho em que está caindo. O japamala permanecia em sua mão e, do seu lado direito, uma criança lhe pedia esmola. Apesar de entorpecida, depositou algumas moedas na mão da menininha antes que o auto-rickshaw voltasse a se movimentar, a poucos minutos de Kalighat.

Notas finais
https://www.facebook.com/Dymphna-Saints-190195838147434/ Glossário: Kurta: túnica simples. Malik Ghat: o nome do mercado das flores. Pushpamalas: guirlandas ofertadas aos deuses. Nâmaskar: uma versão formal do namastê, que significa “Eu saúdo você” ou “O deus que há em mim saúda o deus que há em você”. Achha: possui diversos significados, mas na fala da Anisha significou uma afirmação animada. Japamala: um rosário com 108 contas, mais o meru, utilizado para ajudar no foco durante as orações/os mantras. Om Klim Kalika-yei Namaha — Jaya jaya ma jaya Kali ma: "Om e Saudações. Eu atraio aquela que é negra e poderosa". Um dos principais mantras da deusa Kali.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.