No Pain, no Gain
2 Primeiras Impressões são Irrelevantes
Notas iniciais
Bloqueio Continental: Napoleão queria fechar os portos dos seus países dominados, não permitindo o comércio com a Grã-Bretanha. Claro que a Inglaterra ficou muito brava com isso
O Capitão Kirkland não cortava uma garganta há algum tempo... Mas ele sentia vontade. E como sentia. Tenho a tripulação mais idiota do mundo, repetia para si mesmo em pensamento vendo os olhos verde-grama de Antonio brilharem como os de uma criança. Ele é útil. Não vou matá-lo. Embora repetisse e repetisse mentalmente estas palavras como um mantra, os punhos de Arthur estavam fechados desejando unicamente dar um soco calculado no estômago do espanhol, tão forte que garantiria que ele não se movesse por alguns dias.
Arthur havia encontrado Antônio flutuando sozinho num pedaço de madeira anos antes. O inglês sabia que o espanhol era um lutador bravo, tendo ele mesmo lutado contra aquele homem durante a batalha... E Antonio tornou-se então um membro da tripulação de Arthur Kirkland. E como não se tornaria? Arthur reunira apenas os melhores em seu navio, os mais bravos, os melhores lutadores, os mais leais. Antonio tinha todas essas qualidades e ainda podia ficar muito assustador quando bravo. Mas na maior parte do tempo, era apenas um idiota alegre.
Uma veia saltou na testa do capitão enquanto ele buscava o auto-controle. De todas as idiotices já idiotadas na história dos idiotas... Que tipo de pirata aparecia no navio depois de saque... Com um garoto a tiracolo? Mas foi exatamente isso o que Antonio fez. Voltou à bordo com um garoto que não poderia ter mais de dezesseis anos e então, com um sorriso extremamente feliz, perguntou a Arthur:
- Posso ficar com ele?
Posso ficar com ele. Era de se esperar que o imbecil estivesse falando de um cachorro ou um periquito. Não teria um problema nesse caso, afinal Arthur deixava Gilbert cuidar daque pássaro estranho, não deixava? Mas não era um pássaro. Era um garoto. Um garoto de verdade. Arthur precisou recorrer a todo o seu autocontrole, que não estava muito forte naquela noite em particular.
- Você é idiota? — foi tudo que conseguiu dizer. — De onde saiu esse garoto?
- Ele estava perdido. — Antonio respondeu passando o braço pelos ombros do garoto. — Eu o encontrei e ele disse que quer se tornar um pirata. Pelo menos eu acho que sim, ele só fala italiano. Mas ele pareceu ficar satisfeito quando eu disse que ele podia vir e me seguiu até aqui. Ele pode ser meu primeiro pupilo e eu o seu chefe.
- Lasciami andare! — reclamou o garoto italiano. - Io non sono un bambino.
- Waaa! Ele não é fofo!? — Antonio apertou o garoto, parecendo não ter ouvido o protesto do mesmo... Ou talvez ele simplesmente não entendesse uma palavra de italiano.
- Você sequestrou esse garoto ou coisa assim? — Arhur fez uma careta de nojo. — Não quer fazer nada estranho com ele, quer?
- Algo estranho como assim? — o sorriso inocente continuava ali.
- Não brinque comigo! — berrou o garoto italiano agora em inglês para Arthur. — Como se eu fosse ser sequestrado por um estúpido como esse!
- Você fala inglês! — Antonio arregalou os olhos. — Por que andou gritando comigo em italiano o tempo todo?
- Eu pedi a ele para me trazer aqui. — continuou o garoto prontamente ignorando o espanhol. — Quero ser um pirata e, quando soube que a sua tripulação estava aqui, vim pedir para me juntar a ela.
- Seu inglês não é bom. — respondeu Arthur, de mau humor.
- Per favore! — insistiu. — Eu serei bem útil. E posso aprender inglês.
Arthur fungou. Precisava de alguém para limpar o navio e cozinhar de vez em quanto... Já não aguentava comer as comidas francesas que vinham comendo o tempo todo por Francis ser o único que era ligeiramente útil na cozinha. Olhou do garoto italiano para Antônio que projetava o lábio inferior num bizarro beicinho, parecendo magoado pelo garoto ter fingido que falava apenas italiano.
- Você não tem família? — perguntou o inglês em tom frio. — Vai abandonar sua casa desse jeito? A pirataria é um caminho sem volta, moleque. E eu sou uma pessoa pouco paciente. — Arthur fixou os olhos nas íris castanhas do garoto. — Não é uma vida certa, não é seguro e, ao menor sinal de insubordinação, corto sua garganta.
Os olhos do garoto encheram-se de lágrimas. Arthur previu que ele não duraria nem cinco minutos em batalha e já ia chutá-lo pra fora do seu navio quando Antônio simplesmente puxou o garoto para um abraço forte. O capitão ficou sem reação. Parecia que Antonio estava tendo um dos seus muito raros acessos de mau humor. Pela primeira vez em semanas não havia sombra do sorriso idiota no rosto queimado de sol, apenas os lábios curvados para baixo com insatisfação e as sobrancelhas franzidas. Antônio não era do tipo caprichoso, mas quando queria alguma coisa... Ele fazia de todo para conseguí-la.
- Francamente, não fale assim! — apertou o italianinho contra o peito. — Eu já disse que ele será o meu pupilo, eu é que vou ensinar a ele tudo o que ele precisa saber.
Ver Antônio abrançando o garoto como se quisesse protegê-lo fez com que a garganta do capitão apertasse.
- Faça como quiser. — Arthur deu de ombros. Era tão raro Antônio manifestar um desejo que ele resolveu atendê-lo, por mais absurdo que fosse. — Contudo, esteja consciente de que se este garoto me irritar, vou descontar em você.
Arthur saiu da cabine antes que perdesse o pouco de paciência que lhe restava. Recebera algumas mensagens que o deixaram de extremo mau humor, sabendo que os franceses estavam sendo realmente petulantes. E aquele tal de Napoleão certamente precisava aprender seu lugar. Ele devia estar se achando muito importante para ter se coroado imperador. Arthur tinha absoluta certeza de que dentro de alguns anos ninguém sequer lembraria o nome daquele arrogante... Imagine! Tentar proibir Portugal de comerciar com a Inglaterra! O francês maldito estava pedindo para apanhar.
Do lado de fora da cabine, encontrou os principais membros de sua tripulação, exceto Antônio. Vendo o sorriso presunçoso de Francis, Arthur sentiu vontade de descontar sua raiva de Napoleão nele mesmo... Lembrou a si mesmo, contudo, de que o únivo motivo pelo qual Francis Bonnefoy estava ali era que ele era absolutamente contra a política napoleônica. Ignorou Francis e olhou para os seus outros dois braços direitos: Gilbert Weillshdmidt e Kiku Honda que, diferente de Francis e Gilbert, não tinha um sorriso presunçoso no rosto, mas olhava para o chão, hesitante.
Foi assim que Arthur soube que eles certamente tinham feito algo de que ele não ia gostar.
- O que? Trouxeram um bicho de estimação também? — perguntou, referindo-se a absurda ideia de Antonio.
- Exatamente. — Gilbert respondeu sorrindo e deu um passo para o lado.
Atrás de Gilbert e Francis, havia um homem. Os olhos de Arthur se estreitaram ao olhá-lo. Ele era loiro e quase da mesma altura de Francis e Gilbert, mas estava com os joelhos ligeiramente flexionados como se não conseguisse aguentar o peso do próprio corpo e seus braços estavam escondidos às costas como se estivesse amarrado. As roupas estavam amarrotadas, havia um filete de sangue seco no canto da boca do homem, ele usava um par de óculos tortos e seus cabelos loiros estavam sujos como se ele tivesse sido jogado no chão algumas vezes. Arthur notou que Francis e Gilbert também não estavam muito apresentáveis. Eles andaram brigando.
- Qual é o problema de vocês?! — Arthur explodiu — Eu os mando a terra pra saquear e pegar alguns mantimentos, comida... E vocês me aparecem aqui com um garoto italiano chorão e um homem meio morto?
- Não nos compare com o esquisito do Antonio. — Gilbert fez uma careta. — Este aqui resistiu um pouco, mas trouxemos por que achamos que você fosse se interessar. Temos aqui um americano, Capitão. E sabe qual é o nome dele? Jones. Alfred Jones.
Cada músculo do corpo do inglês ficou tenso. Um americano. Aquele bando de idiotas havia trazido um americano para o seu navio. Seus pés agiram no piloto automático levando-o para a frente do americano, o ódio percorrendo suas veias.
- Então... Temos um pequeno traidor americano aqui, não é? E andou desrespeitando meus tripulantes?
- Eu sou uma pessoa livre. — Respondeu Alfred. — E sou um herói. Não podia permitir que esses bárbaros machucassem alguém na cidade.
- Livre, huh? Não é o que parece. — Arthur indicou as mãos do americano, amarradas às costas.
O americano cuspiu aos pés de Arthur. Francis e Kiku ofegaram.
- Não se aproxime, maldito ditador inglês! Você e seu governo miserável merecem morrer.
O joelho de Arthur subiu tão rápido que muitos só notaram quando ele já tinha acertado o estômago do americano. Francis suspirou, desgostoso. Kiku tornou a ofegar, preocupado. Gilbert soltou uma risadinha um tanto sádica. O americano caiu de joelhos no chão sem ar ao mesmo tempo em que o capitão do navio sacava a espada. Kiku desviou o olhar achando que estavam prestes a presenciar mais um assassinato, mas Arthur não matou o americano — pelo menos não imediatamente. Ele agarrou os cabelos loiros do topo da cabeça de Alfred obrigando-o a erguer o rosto e deixar a garganta exposta. Arthur encostou a lâmina fria ali.
- Eu teria mais respeito, traidorzinho. — Artthur falou numa voz glacialmente fria. — Sem meu governo miserável seu país ingrato não seria nem a metade do que é hoje. Provavelmente estaria sendo explorado imprudentemente, como as colônias do sul da América. E o que vocês, malditos americanos, dão em troca? Ingratidão.
- Devíamos lembrar ao capitão que nem ele e nem esse americano tinham nascido quando a América se tornou independente? — sussurrou Francis para Gilbert.
- Se você quiser que ele corte a sua garganta, vá em frente.
Felizmente para os dois, Arthur estava ocupado demais com o americano para dar atenção a qualquer um deles.
- Levem para o porão. — ordenou Arthur. — Eu vou cuidar deste aqui mais tarde.
Alfred F. Jones era um herói. Ou pelo menos, ele gostava de agir como um durante a maior parte do tempo. O fato é que ele não podia ignorar quando uma jovem chegou em sua casa pedindo refúgio, pois os ingleses estavam vindo. Ele não entendeu direito a situação, apenas sabia que não era certo um bando de homens perseguirem uma jovem daquela maneira. Sem pensar duas vezes, ajudou a jovem na sua rota de fuga. Mesmo então ele não conhecendo o paradeiro da moça que ajudara, os ingleses souberam. Não do paradeiro da moça, mas o de Alfred. De algum modo, eles haviam descoberto que aquela jovem não poderia ter escapado sem a ajuda dele.
O que, é claro, deixou o seu tranquilo meio-irmão mais velho em pânico. Matthew não conseguiu ficar tranquilo até que Alfred aceitou fugir do país e passar alguns meses na Europa. Alfred tinha certeza de que Matthew estaria em casa ainda tremendo e surtando de preocupação de vez em quando... Para alguém que criava um filhote de urso como bicho de estimação, o Matthew podia agir como um pai preocupado a qualquer hora. Com desgosto, o americano pensou no que aconteceria com os nervos do seu meio-irmão quando este não recebesse notícias suas por muito tempo.
Contudo, como podia evitar? Aquele francês loiro estava agindo de forma completamente indigna naquele bar dando em cima de todos — sem discriminação de sexo — enquanto o outro que tinha um pássaro amarelo na cabeça não parava de arrumar briga com tudo que encontrava pela frente, inclusive a cadeira frouxa que não era boa o suficiente para uma pessoa como ele. O fato é que eles passaram dos limites e Alfred realmente considerava amigos os italianos daquele bar. Não podia ficar parado! O americano sacou a espada e berrou para o bar inteiro "Não temam, Alfred F. Jones, o herói, está aqui!".
Talvez ele não tivesse feito uma entrada tão triunfal se não já tivesse uma boa quantidade de alcool no sangue. Mas seu surgimento repentino certamente atraiu a atenção dos piratas. O do pássaro estranho berrou e levantou a espada empolgado com a briga, mas a reação do francês foi diferente: Ele estreitou os olhos e repetiu "Jones?" como se reconhecesse o sobrenome de algum lugar importante. Por mais incrível que pareça, o francês não estava bêbado... Provavelmente era o estado normal dele dar em cima das pessoas desavergonhadamente.
Alfred nunca havia levado uma surra tão grande. A sua defesa, diga-se que eram dois contra um e ele nunca havia encontrado dois espadachins mais sincronizados que aqueles dois piratas. E, quando Alfred achava que era seu fim, o francês parou o outro e disse "Precisamos levar este aqui para o Arthur. E vivo."
Ele não gostou da ideia de ser levado para quem quer que fosse, mas depois de ter seu corpo transformado num grande hematoma americano pelos golpes dos piratas e suas mãos serem amarradas às costas, não teve opção se não ir. Ao ser jogado no porão do navio sem muita cerimônia, Alfred já não se sentia muito otimista. De fato, acreditava que estava muito morto e só conseguia pensar em como Matthew iria querer matá-lo por ser pego. Aquele capitão era inglês... E o homem do passarinho — é um tanto incômodo chamar alguém por um apelido tão estranho, mas Alfred não sabia de que outro nome chamá-lo. — havia dito algo sobre Alfred saber alguma coisa sobre o desaparecimento de uma mulher.
Alfred estava ali sentado ali no escuro há alguns minutos quando a porta abriu-se. Por um segundo, uma luz forte e amarelada cegou Alfred. Ele perguntou-se se já era manhã e se tinha perdido a noção do tempo, mas não. Era apenas uma vela carregada por alguém que havia machucado seus olhos acostumados com o escuro. Ele não teve tempo para ficar tranquilo, pois quem carregava a vela era o inglês.
"Estou... Muito... Morto." pensou Alfred, com frustração.
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