No Pain, no Gain

14 O Melhor Beijo do Oceano


Notas iniciais
Enquanto eu vejo os comentários, eu fico como uma retardada na frente do computador falando "aaah essas pessoas lindas!" para ninguém em particular. Ontem, minha mãe perguntou "Quem é lindo?" e eu respondi "As pessoas que deixam comentários na minha estória!". Ela perguntou sobre o que a história falava... E eu percebi que não tem como eu dizer para a minha mãe que fala sobre piratas gays.A propósito, a autora mudou de nome. Podem me chamar de Midori-chan.

Alfred estava cansado de carregar caixas, mas não era como se tivesse opção. Era tudo culpa daqueles estúpidos ingleses. Eles ordenaram a Arthur que afundasse um navio inimigo e o bobão havia obedecido, é claro, para completo desespero de Alfred. O resultado era um navio completamente devastado, quase tanto quanto o que tinham mandado por água abaixo. Parecia que as pessoas que não estavam feridas da luta — que não eram muitas — estavam todas organizando a bagunça.

Por outro lado, o americano estava satisfeito por ter algo com o que se ocupar, pois sempre que estava desocupado, estava pensando em... Ah, melhor não pensar nele por enquanto — pelo menos não naquele sentido — e concentrar-se em carregar as caixas de mantimentos para o porão. O estoque estava esparso, sinal de que em breve estariam aportando em algum lugar. A ultima vez que haviam desembarcado havia sido semanas atrás, ainda na Dinamarca e, considerando a quantidade de comida consumida por eles, era de se surpreender que ainda tivessem algum suprimento. Então estariam eles correndo risco de ficar sem comida?

Lovino passou por Alfred com uma expressão mal humorada e resmungando pragas em italiano. A fonte de irritação do rapaz não era muito difícil de descobrir: Francis, Antonio e Gilbert — que por acaso faziam parte do seleto grupo que não havia se machucado — estavam sentados nas caixas que deviam estar carregando, bebendo alguma coisa e conversando animadamente sobre um assunto qualquer. Alfred bufou. Não parecia justo que eles estivessem brincando enquanto todos os outros se esforçavam, então aproximou-se.

- Ei, o que estão fazendo?

- Ah, Al! — cumprimentou Antonio sorrindo — Que bom que você veio, precisamos da sua opinião.

- Opinião... ? — repetiu Alfred, já distraido de seu verdadeiro objetivo.

- Éééé. — Gilbert tomou um gole generoso do seu copo e tornou a servir-se enquanto falava — Quem você acha que deve ser o melhor beijador do oceano?

- Certo... O que?

- Francis acha que ninguém beija melhor que ele — falou Antonio — Mas ele não tem cara de quem beija bem. Quem você acha que é, Al?

- Ah... Com certeza, deve ser o Lovino.

Francis e Gilbert engasgaram-se com a bebida. Antonio congelou no ato de apanhar um tomate e virou-se lentamente para Alfred, com os olhos sombreados pelo cabelo. Ele levantou-se e foi por uma mão no ombro de Alfred.

- O que... Você sabe... Sobre a técnica de beijo... Do Lovi? — perguntou Antonio num tom muito grave e baixo.

- É que ele é da Itália — respondeu o americano, sem notar o perigo que corria. — Não dizem que os italianos são bons amantes? Para ser um bom amante, é preciso beijar direito.

- Ah, desse jeito! Ha ha ha ha... — Antonio voltou a sorrir.

- Não podemos avaliar desse jeito. — Francis bufou — Se levarmos em consideração a nacionalidade, a Espanha também é o país da paixão e a França o país de l'amour.

- Ei... A Prússia é o país de que?

- De nada, Gilbert, vá dormir.

Gilbert estava prestes a dar uma resposta malcriada quando foram novamente interrompidos, desta vez por um Lovino furioso. Alfred também havia posto a sua caixa no chão e estava sentado sobre ela, completamente a vontade. Lovino não parecia disposto a deixar passar o momento de relaxo e posicionou-se com uma mão no quadril, uma caixa debaixo do braço e uma expressão muito séria para alguém que ainda não completou sequer 17 anos e estava prestes a dar uma bronca em 4 homens adultos maiores, mais fortes e mais valentes.

- Vocês não ouviram o que o capitão falou? — perguntou o italiano — Eu teria vergonha de ser tão irresponsável.

- Ei, Lovino, estamos discutindo algo importante. — Francis franziu os lábios — Quem você acha que tem a melhor técnica em beijo neste navio?

Segue-se um longo silêncio enquanto Lovino tenta digerir o que Francis acabara de dizer e se faz algumas perguntas. Primeiro: Como diabos eles haviam chegado àquele tópico de conversa? Segundo: Como eles pretendiam chegar a uma conclusão? Terceiro: Não havia um limite para estupidez? Quarto: Como aqueles três haviam conseguido ser os principais subordinados do capitão Kirkland? Quinto: Por que Lovino não havia voltado a morar com Feliciano quando teve chance? Nenhuma resposta. Ao invés de responder a si mesmo, Lovino corou.

- Como eu vou saber, maldição? Não conversem sobre coisas estúpidas assim!

- Ah, mas diga quem você acha que é... — insistiu Francis.

- Ah... — Lovino corou mais ainda. — Bem... Eu acho que é... O capitão Kirkland.

Alfred e Antonio levantaram tão rápido que quase derrubaram as caixas em que estavam sentados. Os dois saltaram na frente de Lovino que berrou quando o americano e o espanhol agarram a frente da sua camisa ao mesmo tempo.

- Como assim o Arthur!? — exclamou Alfred.

- Por que aquele sobrancelhudo, Lovi!? Como você afirma isso com tanta certeza? — Antonio berrou.

- Larguem-me logo, seus bastardos! — Lovino gritou, irritado. — Vocês perguntaram quem eu achava que era e eu respondi por causa de... !

- POR CAUSA DE...? — Antonio e Alfred perguntaram em coro.

- Uma... Coisa que eu vi... O capitão fazendo.

Antonio largou Lovino, agarrou Alfred pelos ombros e começou a sacudí-lo enquanto fazia escândalo:

- O que mostraram ao meu Lovi fofo e inocente, Alfred?!

- Por que você está perguntando para mim!?

- Afinal, o que você viu Lovino? — perguntou Gilbert, ignorando o ataque que Antonio e Alfred estavam tendo.

- Eu... — Lovino estava fazendo força para não corar ainda mais. — Vou pedir para ele mostrar! Só um minuto.

Alfred e Antonio finalmente pararam de se estapear apenas a tempo de ver as costas de Lovino se afastando na direção do timão, onde Arthur estava distraído conversando sobre alguma coisa com Heracles. Esperaram em silêncio e vidrados enquanto o italiano chamava o capitão e oferecia a ele a caixa pequena que carregava. Arthur ouviu o que Lovino tinha a dizer com uma expressão vazia e em seguida assentiu, pegando algo de dentro da caixa. Francis, Gilbert, Antonio e Alfred teriam dado qualquer coisa para ouvir o que eles estavam falando. Lovino tornou a falar alguma coisa e apontou na direção dos outros. Arthur lançou-lhes um olhar ligeiramente mal-humorado e começou a andar na direção deles enquanto mastigava o que quer que tivesse pego dentro da caixa de Lovino.

Gilbert praguejou e levantou-se. Francis continuou a beber tranquilamente com uma expressão curiosa no rosto. Antonio e Alfred tentaram recompor-se depois de sua pequena briga antes que Arthur estivesse lá.

- Mostre a eles, capitão. — pediu Lovino.

Arthur pôs a língua para fora e tirou da boca um pequeno objeto difícil de identificar. Parecia ser um minúsculo galho com um nó mal feito.

- Viram? — Lovino sorriu de modo presunçoso — O capitão consegue dar nós em galhos de cereja com a língua.

- É isso... — Francis levantou — Estou arrependido de ter ajudado antes. Quero mon Arthur de volta.

- Onde aprendeu a fazer isso, capitão? — gritou Antonio.

- Eh? Quando eu era mais novo, um primo meu me desafiou a fazer isso, então eu fiz. — respondeu Arthur, surpreso. — Por que?

- Aquele escocês maldito... — Resmungou Francis — O que estava pretendendo desafiando mon Arthur a fazer algo assim?

- Qual é o problema com isso? — Arthur evidentemente não tinha ideia do que aquele nó representava. — De qualquer forma, o que estão fazendo? Vamos aportar em algumas horas em Sardenha.

- Sardenha? — Francis arregalou os olhos — Por que Sardenha? Não estávamos indo direto para a Italia?

- Sim, mas Sardenha é logo ali e estamos quase sem comida. — Arthur olhou para Francis, desconfiado.

- Mas Sardenha não fica na Itália? — perguntou Alfred.

- Santa ignorância...Você parece mais bonito calado, Alfred. — Francis suspirou — É um lugar, droga. Precisamos mesmo parar lá, Arthur? O suprimento deve durar até chegarmos à América do Sul.

- Algum problema com parar em Sardenha, Francis? — perguntou Alfred — Você ficou pálido quando ouviu Arthur falar este nome...

- Hm? — Francis desviou o olhar. — E você, Alfred? Desde quando chama o nosso capitão pelo primeiro nome?

Arthur e Alfred congelaram. Nenhum dos dois havia prestado atenção a este detalhe. Gilbert foi o primeiro a manifestar-se ao por a mão no ombro do inglês.

- Então quer dizer que nós também podemos te chamar de Arthur?
O capitão ergueu lentamente o rosto para encarar Gilbert — que era alguns centímetros mais alto — e então abriu um sorriso tão cortês e tão frio que fez com que Alfred desejasse ter algum modo de fazer uma pintura daquela expressão automáticamente. Ninguém viu o braço do capitão se movendo, mas ouviu-se um ruído de explosão que sobressaltou-os: Arthur havia sacado a pistola e havia surgido um buraco no tomate que Antonio estava levando à boca naquele instante. Lovino ofegou.

- Você tem cinco segundos para tirar sua mão daí se não quiser perdê-la. — sorriu Arthur.

Antonio deixou cair o tomate com a marca de bala e virou-se sem palavras para o capitão que, a propósito, havia atirado sem olhar num alvo que estava nas mãos do espanhol.

- Agora... O que diabos vocês estão fazendo aqui, verificando quem dá nós em galhos e essas coisas? — perguntou ainda em tom cortês e então berrou: — Seu bando de cães! Eu pensei ter ordenado que arrumassem o navio! Devo considerar isso uma insubordinação? Quero todos cumprindo minhas ordens agora mesmo! Antonio, Francis, Gilbert, aquelas caixas não vão se mexer sozinhas! Lovino, não se deixe influenciar por este bando de idiotas! Alfred, mexa esse traseiro gordo e siga-me, tenho trabalho para você. AGORA.

E assim terminou a discussão de a quem pertencia o melhor beijo do oceano.

Quando Alfred terminou suas tarefas, o sol vespertino já estava esfriando e ele já podia ver a ilha de Sardenha se aproximando. Encostou-se na amurada do navio e ficou observando o país aproximar-se. Estava entediado com a calmaria que se seguiu à confusão de manhã. Enquanto observava o país, pensou em como estava longe de casa. Tanto havia acontecido desde que estivera dos Estados Unidos, desde que partira para a Itália a cerca de um ano atrás... Parecia mentira que tanto tempo havia passado, tanto tempo longe do lugar onde nascera — de onde nunca havia saído até aquele fatídico dia — e de todas as pessoas com quem havia crescido.

Perguntou-se sobre Matthew. Seu estressado irmão devia ter ficado preocupado ao não receber notícias. O que ele devia ter pensado? Que Alfred estava morto? Que tinha sido pego pelos ingleses? De certo modo, a ultima opção não era falsa. Alfred sentiu-se culpado por não pensar no irmão com frequência, mas estivera tão ocupado e passando por tantas situações bizarras, que simplesmente não tivera tempo para pensar em casa. Na maioria do tempo, estava com a mente cheia de Arthur, ou preocupado com alguma missão estranha que lhe era dada, ou brigando com Francis, ou fazendo apostas estúpidas com Gilbert, ou levando broncas de Lovino ou... Certo, talvez fosse insensível de sua parte preocupar-se mais com seus novos companheiros do que com as pessoas com quem estivera a vida inteira.

Para a sua surpresa, percebeu que a única pessoa que realmente queria rever era seu irmão. As pessoas à bordo daquele navio eram seus companheiros mais do que os americanos jamais haviam sido. Podia continuar não confiando muito em ingleses, mas tinha que admitir que gostava um pouco demais de um deles... E também gostava de passar o tempo com os outros, se sentia em casa em alto mar como jamais se sentia em terra firme e, acima de tudo, aquilo era o mais próximo de ser um herói que já estivera. Antonio e Gilbert andaram treinando Alfred nas horas vagas e, francamente... Ele lutava contra piratas. Ele era MUITO legal.

- Ei Alfred! — era Gilbert, acompanhado de Antonio e Lovino — Você vai com a gente dar umas voltas? Ouvi dizer que Sardenha é um lugar realmente legal para tirar férias.

- Férias, huh? — Repetiu Alfred, sem muito interesse. Havia ficado repentinamente melancólico.

- Ééééé. — Antonio sorriu — Vamos aproveitar os três dias que ficaremos lá. Depois, vamos voltar para a Europa e sabe Deus quando teremos outro descanso.

- Estou cansado. — respondeu. — Quem sabe amanhã.

- Ah, mas que chato. — Antonio fez um biquinho de frustração — O Francis disse que vai sozinho e não explicou o porquê. E o capitão também não vai sair do navio. Desse jeito, vão ficar apenas vocês dois sozinhos aqui.

Arthur. E Alfred. Sozinhos no navio por varias horas. Alfred arregalou os olhos e congelou.

- Ei... Alfred? Você está ouvindo? — Gilbert sacudiu a mão na frente do rosto do americano.

- Al? — Antonio franziu a testa. — Ah, veja, Lovi, o Alfred ficou corado de repente. Que tipo de expressão é essa?

- Não olhe muito, vamos sair de perto. — falou Lovino puxando Antonio para longe. Gilbert seguiu-os.

Ao ser deixado sozinho, Alfred virou-se para o mar. Estava tão ocupado encarando o horizonte com o olhar perdido que mal sentiu quando o navio foi ancorado e as pessoas começaram a desembarcar. Então ficaria sozinho com Arthur, o que queria dizer... Sentiu o rosto esquentar mais ainda ao pensar nos vários momentos roubados nas ultimas semanas, enquanto estavam sozinhos. Arthur, aquele... Oh, ele com certeza procuraria Alfred, numa tarde como aquela.

- Alfred?

- Mas já!? Nós mal alcançamos Sardenha!

- O que?

Arthur ergueu uma sobrancelha para a reação do americano, cujo rosto ainda estava vermelho e obviamente estava com o pensamento muito distante. Alfred tossiu para recompor-se e fingiu estar arrumando a barra da camisa, para disfarçar seu embaraço. Ao ver que não obteria resposta, Arthur prosseguiu.

- Eu o vi falando com os rapazes. Planeja fazer um passeio com eles?

- Ah? Ah! Nah... Digo, não. Por que? Precisa de mim para alguma coisa? — Porque diabos estava fazendo perguntas diretas? Porque não calava a boca?

- Na verdade... Preciso de você para algo. — fazendo com que Alfred prenda a respiração — Pode entregar isso ao Francis?

Então... Era essa a sensação de levar um balde de água fria na cabeça.

- O Francis?

- Pois é. — Arthur entregou um pacote a Alfred — Fiquei sabendo que ele desembarcou a alguns minutos antes de todos, quando ainda não tínhamos ancorado. Parece que na pressa, ele esqueceu disto. Entregue para ele, está bem?

Ele obedeceu. Não queria mesmo fazer nada estranho, estava apenas imaginando o que Arthur faria e... A quem estava tentando enganar? Ele era um homem saudável! Claro que acabava pensando neste tipo de coisa! Queria matar Arthur e queria mais ainda fazer com que Francis engolisse a porcaria daquele pacote estúpido. Estava praguejando mentalmente tanto quanto Lovino quando pediu a Antonio e Gilbert que o esperassem.

Felizmente, como era o caso da vila na Dinamarca, a cidade onde haviam aportado ficava a menos de um minuto da praia. Não precisou andar muito para chegar ao povoado que estavam visando, mas mesmo assim estava com uma expressão mal humorada quando separou-se dos outros e começou a andar para encontrar...

O que, exatamente? Ao chegar em terra firme, Alfred deu-se conta de que não tinha a menor ideia de para onde estava indo. Arthur não havia dito onde Francis estava. Ele não esperava que Alfred procurasse na ilha inteira, esperava? Amaldiçoou inclusive a aparência feliz de todas as pessoas que estavam em Sardenha. Estava pensando se deveria simplesmente voltar ao navio — mas não queria encontrar Arthur — ou se deveria ignorar as ordens e ir dar um passeio pela cidade. Lamentou ter perdido Antonio e Gilbert de vista na pressa para encontrar Francis e acabar logo com aquela história... Talvez os encontrasse se andasse bastante pelo mercado.

Então avistou cabelos louros ondulados familiares. Francis. Ele estava andando ao lado de uma mulher para a parte mais distante do mercado. Alfred abriu um sorriso maldoso. Ora... Não seria divertido se por acaso Alfred por acaso interrompesse o namoro de Francis? Afinal, um herói também pode ser um vingador. Não é isso que chamam de pagar na mesma moeda?

- F-R-A-N-C-IIIIII-S! — berrou empolgado.

O francês virou-se, surpreso, e empalideceu ao ver Alfred ali. A garota ao lado dele também virou-se e ofegou com a visão do americano. Era uma garota baixa, morena, com longos cabelos castanhos brilhantes e rosto bonito.

- Você! — ela arfou — É aquele americano!

Alfred arregalou os olhos. A garota ao lado de Francis era ninguém menos que Sesel, o motivo pelo qual Alfred estava trabalhando num navio pirata.

Notas finais
Este é apenas mais um capítulo de transição, apenas para que a fic finalmente alcance seus objetivos. Mais uns dois capítulos, e ela entra em reta final! Obrigada a todos que vem deixando comentários e me incentivando a continuar.