No Pain, no Gain
3 Braços Dormentes
Notas iniciais
Alfred não pode deixar de notar que aquele inglês era impressionante. À luz amarelada da vela, ele parecia bastante assustador, de fato. O americano perguntou-se o que Matthew faria em seu lugar. Provavelmente pediria desculpas. Mas Alfred não era gentil e sincero como o irmão. Alfred era forte, era um herói e de forma alguma ia fraquejar em frente a um maldito inglês. Endireitou a coluna o máximo que podia com os braços amarrados às costas. Embora estivesse convencido a permanecer firme, tinha que reconhecer que, considerando seu nível normal de encrencas, tinha se superado e a prova disso era que não conseguia pensar em uma situação pior do que a que se encontrava.
O americano manteve a expressão pragmática mesmo quando o capitão do navio agachou-se frente a frente com ele. A boca do inglês era uma linha reta austera combinando com o nariz empinado e cheio de presunção. Antes que Alfred pudesse prestar atenção aos olhos do homem à sua frente — que por acaso tinha lhe chutado o estomago e posto uma espada em sua garganta minutos atrás — algo lhe chamou a atenção: O inglês estava sem chapéu, deixando visíveis os cabelos loiros que apontavam em todas as direções e também...
- Você tem sobrancelhas grandes. — falou.
Arthur franziu a testa. Alfred encarava com insistencia suas sobrancelhas, como se não tivesse consciência da própria situação. Pessoas amarradas em navios piratas normalmente preocupam-se com um meio de fugir ou de sobreviver, mas não Alfred Jones. Ele estava preocupado com as sobrancelhas do capitão. Ou aquele americano era muito corajoso e estava zombando ou era muito idiota. Provavelmente os dois.
- Sobrancelhas não podem ser grandes, elas são grossas. — Arthur se ouviu respondendo.
- Bem, elas são engraçadas.
Silêncio. Não era como se houvesse um manual de boas maneiras que dissesse uma resposta socialmente aceitável para quando alguém fala da espessura das suas sobrancelhas. Então Arthur lembrou-se de que não estava ali para falar de sobrancelhas e muito menos para ter conversas sociais. Ele estava ali para arrancar a verdade daquele americano maldito que lhe havia causado tantos problemas. Aaah, ele havia. Arthur adoraria fazê-lo pagar por cada viagem inútil que fizera em busca daquela maldita garota.
- Onde está lady Sesel? — disparou.
- Quem?
- Não se faça de idiota.
- Não estou me fazendo de idiota.
- Então você é idiota de nascimento?
E aqui está a conversa mais estúpida já presenciada por aquele navio, e isso incluía os monólogos realmente longos entre Gilbert e seu Gilbird. Aquilo não era nem de longe interrogar, tampouco extrair verdades, e isso deixou Arthur irritado. Não era um americano que mais parecia uma criança que ia conduzir aquela conversa. O inglês resistiu ao impulso de puxar o punhal que mantinha sempre dentro da bota. Desnecessário recorrer a esse tipo de subterfúgio. Por enquanto.
- Você é americano. Se encaixa na descrição do homem que eu estou procurando. Não diga que confundimos você com outro Alfred Jones. Você ajudou uma jovem a fugir e causou muitos probemas para mim e minha tripulação. E também ao meu país.
— Ah! — Alfred pareceu chegar a uma conclusão brilhante — Ela? Eu não sabia que o nome dela era Sesel.
Arthur trincou os dentes e pensou que talvez os deuses estavam testando sua paciência. Pelo menos teve certeza de que aquele americano era culpado de alguma coisa, então ninguém podia culpá-lo por querer matá-lo. Não depois da fuga daquela garota ter causado tantos problemas a ele. Contudo, Arthur não perdeu as estribeiras. Encontrar a garota era mais importante do que vingar-se.
- Você ajudou uma mulher a fugir... E sequer sabia o nome dela?
- Não. Sabe como é, uma garota apareceu na minha porta pedindo ajuda e chorando. Eu não ia me preocupar com os detalhes. Ela estava em perigo, eu ajudei. É isso que os heróis fazem.
Alfred não costumava ser bom em ler expressões ou climas, mas naquele momento teve algum tipo de intuição de que não ia acabar bem. Havia algo de satisfeito na expressão do inglês, como se a conversa estivesse tomando o rumo que ele queria. Então notou que se desse ao inglês o que ele queria, Alfred não seria mais útil... E então seria descartado. Ele tinha a impressão que "descartar" ali não significaria ir em paz para casa. Uma série de palavrões passou em alta velocidade pela mente do rapaz.
- Pra onde você mandou a garota?
- Por que você quer saber? — Alfred viu, com prazer, a confiança no rosto do inglês diminuir.
- Talvez você não tenha entendido a situação. — Arthur estreitou os olhos. — Eu preciso saber onde ela está. E você não está em condições de fazer exigências.
- Bem... Você vai ter que arrancar de mim.
Arthur forçou um sorriso. Era um sorriso tão sádico que Alfred sentiu um arrepio pela coluna. Aquele não era um pirata simples. Pela primeira vez, os dois se olharam nos olhos como se estivessem se avaliando. As mãos do inglês começaram a procurar por algo preso ao cinto. Alfred, nervoso, percebeu que chegara a hora de um pouco de dor para lhe fazer falar. Encarou o inglês com a melhor expressão corajosa que tinha. À luz baça da vela, não podia dizer a cor dos olhos do capitão, mas podia afirmar que eles eram como um espelho: Ele podia ver o próprio reflexo ali, mas não tinha a menor ideia do que se passava por trás deles. Os dois sustentaram o olhar um do outro por um tempo até que Arthur pareceu notar algo. Ele levantou-se.
- Não acho que a sua determinação vá durar muito tempo, Jones. — falou em um tom tão quente quanto o ártico.
- Vai me torturar ou coisa assim? — A voz de Alfred não tremeu. Havia uma aceitação resignada nela.
- Torturar. — ecoou Arthur soltando uma risadinha ainda mais sádica. — Não do jeito tradicional. Vou deixar que você fique aí refrescando a memória. Você com certeza vai dizer onde lady Sesel está.
Ele soprou a vela e saiu do porão, batendo a porta atrás de si. Uma bolha de pânico ameaçava estourar no estômago de Alfred. O que aquilo significava? Ele ia ficar preso naquele porão escuro sem poder se mover ou comer até dizer para onde mandara aquela garota? Este era o grande problema: Mesmo que quisesse, Alfred não poderia contar aonde a enviara, por que não tinha a menor ideia. Ele simplesmente levou a garota a uma rota de fuga, mas não chegou a perguntar para onde ela ia ou se tinha algum destino certo. Certas coisas era melhor não saber... E veja onde havia ido parar com isso! Frustrado, encostou o corpo na parede tentando encontrar uma posição confortável para passar o tempo.
Quando Arthur saiu do porão, a primeira coisa que viu foi o tronco de Francis desnudo examinando a amarrotada camisa que usara ao lutar com o americano. O inglês massageou as têmporas e trincou os dentes. Se existia um Deus lá em cima, definitivamente o estava testando. Não era possível ter sua paciência perturbada tantas vezes no mesmo dia. Aproximou-se do francês resistindo ao impulso de chutar o traseiro do maldito.
- Francis... Você tem uma cabine disponível. Por que insiste em se despir em público?
- Então. O americano falou? — Francis perguntou, ignorado a reprimenda do capitão.
- Claro que não. Ele não é do tipo que fala sob tortura, também. Eu notei isso.
- Então vai manter ele no escuro até que ele fique insano e comece a falar? — Francis coçou o queixo.
- Mande Kiku levar comida pra ele amanhã. Peça que ele seja gentil, mas de um jeito que eu não descubra que ele foi bondoso. E não mande hoje, ou ele vai acabar alimentando-o agora mesmo.
- Conquistar a confiança e fazer falar. Você é tão sorrateiro... E manipulando o inocente Kiku, então? Eu devia contar ao "Heracles-san" — comentou Francis numa imitação muito mal feita do tom suave de Kiku.
- Faça o que eu mandei, seu francês de merda!
Francis suspirou. Arthur era o cão favorito da rainha por um motivo: Ele era bom no que fazia. Era um bom estrategista e sabia disso. Algo a ser dito sobre Arthur era que ele nunca se precipitava... Era como um paciente jogador de xadrez movendo as peças sem qualquer preocupação com um movimento errado, pois era um especialista capaz de contornar qualquer situação. E acima de tudo, era um manipulador de primeira categoria. Ao invés de partir para a força e extrair as informações a qualquer custo como qualquer outro faria, ele pretendia obter alguma coisa através do inocente Kiku. Mesmo sem que Kiku soubesse disso.
- Não é meio cruel deixá-lo sozinho amarrado no escuro? — perguntou Francis.- É verdade que ele provavelmente vai se afeiçoar mais ao Kiku se estiver realmente maltratado, mas...
- Não me peça para ser gentil com o homem que nos causou todos aqueles incovenientes.
- Ah, não, capitão gelo. Eu não lhe pediria gentileza ou piedade. Não mesmo.
Se você nunca teve seus braços imobilizados e amarrados nesta posição... Bom, considere-se uma pessoa de sorte. Não é nada confortável. Depois de algum tempo, o sangue encontra muitas dificuldades para circular nos braços, você perde a sensibilidade dos dedos e tem aquela incômoda sensação de que formigas estão andando pelos seus membros gelados. Era assim que Alfred se sentia sentado no escuro. Suas nádegas também não estavam num estado muito bom depois de tanto tempo sentado na mesma posição, mas não era nada fácil encontrar uma posição confortável enquanto imobilizado. Alfred suspirou cheio de frustração.
Seus olhos estavam relativamente acostumados com a escuridão do porão, então já conseguia discernir algumas caixas de onde estava. Logo acima de Alfred, a madeira do teto não era completamente unida, o que deixava alguns raios de luar entrarem, o que o fez pensar que não era exatamente um porão onde se encontrava, mas um tipo de depósito. Embora aquilo tivesse lhe alegrado a princípio, perguntou-se o que faria se começasse a chover. Provavelmente, a água escorreria em sua cabeça, pegaria um resfriado e morreria lentamente de uma infecção na garganta até que aquele inglês lembrasse que o havia trancafiado ali embaixo e quando voltasse, encontraria apenas um corpo de garganta inflamada. Era muito estranho ver a si mesmo de um jeito tão negativo, mas não é muito fácil ser positivo em tal situação.
Alfred tentou não morrer de tédio enquando o resfriado não chegasse. Encostou-se a parede na posição menos dolorosa que conseguiu e quando estava quase conseguindo relaxar, seus óculos, que já estavam pendurados muito tortos, finalmente caíram. Resmungou um palavrão. Mesmo no escuro, não era bom ficar sem os óculos. Sentia que faltava algo em seu rosto, como se de repente alguém tivesse desencaixado do lugar o seu nariz ou as orelhas. Estava tentando pensar em como diabos os colocaria de volta sem usar as mãos — isso supondo que encontrasse os óculos naquele breu impenetrável — quando ouviu vozes.
Desde que o inglês que devia ser o capitão do navio havia se retirado, Alfred não ouvira nada a não ser o barulho da água salgada batendo no casco do navio. Havia suposto que a maioria dos homens havia se recolhido para dormir ou que aquele porão era isolado demais do resto da embarcação para que ouvisse alguma conversa. Mas de repente estava ouvindo duas pessoas conversando num inglês ruim e cheio de sotaque estranho, como se não fosse sua língua natural.
- ... capitão Arthur Kirkland de verdade? — dizia uma das vozes. — Ele contrata idiotas como você?
- Ei... Não seja tão malvado. — a segunda voz reclamou. O sotaque desta era mais fácil de definir: Espanhol. — E o capitão foi o único que me chamou para fazer parte da tripulação.
- Hm. Ele é famoso, você sabe. Esse tal de Kirkland. Dizem que ele não é um pirata de verdade...
- Bom, isso é... Um pouco segredo. — O espanhol hesitou por um instante. — Mas agora você faz parte da tripulação, então não tem problema saber, eu acho. O capitão Kirkland é, sim, um pirata de verdade. Mas ele serve também à coroa inglesa.
- Isso não faz sentido.
- Não mesmo... Hahahaha... Como puedo explicar? Hmm... Ah, é isso mesmo.
- Fale logo, bastardo! Cazzo.
- Ei, calma, Lovi. Eu já vou te dizer.
Alfred fez uma careta com o jeito carinhoso/meloso com que o espanhol do lado de fora falou "Lovi". Que tipo de nome era Lovi, afinal? Ouviu-se uma rápida briga em que foram ditos alguns palavrões em italiano — ou pelo menos, Alfred achava que eram — vários pedidos de desculpas em espanhol e uma pancada forte. Pelo visto, Lovi também não gostava que lhe lembrassem seu nome bizarro.
- Então. Como eu ia dizendo antes de você me bater, o capitão Kirkland tem amigos influentes, digamos assim. Ele entrou para a pirataria há muito tempo, quando tinha uns vinte anos, eu não o conhecia naquela época. De fato, acho que o único que conhece o capitão há tanto tempo é o Francis. Ah, é aquele homem loiro, francês. Então eu só sei o que me contaram, veja bem. O capitão é bem reservado não costuma falar muito do passado. Mas sei com certeza que ele fazia parte da nobreza inglesa antes de se jogar no mar.
- Por que diabos um nobre ia querer uma vida miserável como capitão de um navio pirata? — Lovi perguntou entediado. — Está zombando de mim, Antonio?
- Não, é verdade! Eu não entendo os motivos, mas é verdade! — Antonio garantiu — O capitão era da nobreza, dá pra notar pelo jeito que ele se comporta e como ele luta. Parece que foi educado nas melhores academias inglesas. Por algum motivo, ele resolveu tornar-se... Ahn... Alguém à margem da lei. Mas o rei dele não reclamou e nem nada, muito pelo contrário.
- Não?
- Bom... É bom para o governo ter alguém tão fiel na surdina, entende? O capitão seria a ultima pessoa a trair o governo do próprio país. Então, sempre que o rei da Inglaterra precisa de algum serviço em alto mar... Quando ele quer que um navio seja protegido de outros piratas... Ou mesmo quando quer que um navio seja atacado por piratas... Sem que a Inglaterra seja metida em problemas diplomáticos... É o Capitão Kirkland que faz o serviço. Em troca, a marinha não nos persegue e... Bom, a marinha inglesa é a melhor do mundo. Se ela não nos persegue, não temos com o que nos preocupar.
- Oh. — Fez Lovi. — Pelo visto... Hm. Parece bem lógico agora que você falou, mas eu não teria pensado nisso.
- É. Por que você é realmente inocente... Oh, eu sinto que estou falhando como chefe corrompendo você desta maneira... Mas você precisa conhecer a realidade dura, Lovii!
- Ei! Por que você está chorando? Pare com isso! Você não é homem? Ei! Me solte, Antonio! Maldição!
Mais pancadas, alguns palavrões e soluços histéricos gritando algo incompreensível em espanhol. As vozes de Lovi e Antonio se afastaram-se como se os donos dela tivessem terminando de fazer o que haviam ido resolver ali. Novamente, Alfred ficou sozinho.
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