No Other
25 Capítulo 25 - Last Friday Night
Notas iniciais
Como eu já esperava, minha mãe me deixou de castigo. Não tentei fugir quando ela chegou em casa, o olhar frio que recebi me apavorando. Sentada no sofá estava, e lá fiquei.
– Acha mesmo que era isso que tinha que fazer? – Foi o início do sermão de meia hora. – Megan, eu não te criei pra ser assim.
– Mãe, eu...
– Eu estou falando. Você escuta. – Fui interrompida, enquanto ela parava na minha frente e jogava a bolsa na poltrona. – Megan, você nunca tinha feito isso.
Confesso que eu meio que já sabia o que ela ia dizer, então não prestei muita atenção. Ouvi o suficiente para conseguir responder se ela me perguntasse alguma coisa. Mas ela simplesmente gritava como estava desapontada, de como passou mal ao ouvir no telefonema da escola que eu fora suspensa por brigar e que eu tinha que aproveitar o tempo livre para pensar nos meus atos.
Acabou comigo dentro do meu quarto, proibida de usar o computador e o videogame. Ela até levou meu notebook para o quarto dela, como se duvidasse que eu fosse cumprir com o castigo.
O lado bom é que ainda podia usar meu celular e ler. Podia mandar mensagens e ouvir música, mas fora isso, nada. Suspirei, me sentando na cama.
Mandei mensagem para Ali. Ela também estava de castigo, mas só por ter batido em Jessica. A mãe dela nem levou em conta a suspensão. As duas presas dentro de casa.
Tentei falar com Shaun também, aproveitando o tempo livre, como Duran sugerira. O celular dele chamava até cair e não recebi nenhuma resposta das mensagens que mandei.
A semana se resumiu em “incrivelmente chata”, por mais que eu não estivesse esperando nada a mais que isso. Duran fazia o que podia, vindo me ver todo dia depois da aula. Minha mãe podia não me deixar sair, mas não podia proibi-lo de entrar.
O problema é que, com o novo emprego, ele não podia ficar mais que meia hora comigo. Ele chegava, a gente conversava um pouco, e ele tinha que ir embora.
Louis e Lólli até me mandavam alguma mensagem, mas não era muito constante. Estavam estudando para as provas que se aproximavam. Kyu trabalhava o dia todo, mas me mandou uma mensagem de “apoio”, por assim dizer.
Passei a terça-feira toda lendo, não tendo mais o que fazer, mas na quarta eu já estava de saco cheio. Estava simplesmente sentada no sofá, esperando o tempo repentinamente passar mais rápido. Mas pelo menos, tive uma quebra no tédio.
A campainha tocou no meio da tarde. Eu não estava esperando ninguém, então imaginei que fosse algum amigo de Elijah. Ainda assim, fui atender a porta. E para minha surpresa, eram amigas minhas.
Annie, Mel e uma menina que eu não sabia que era sorriam para mim. Pareciam cansadas de andar. Deixei que elas entrassem, dando um abraço em cada uma.
– Oi, Megs. – Annie entrou, deixando sua mochila no chão. – Eu estou sentindo saudades de você nas aulas. E de Ali.
Ainda parecia magoada com Ali, mas não comentou nada. Nem eu. Abracei Mel e a outra menina. Ela era baixinha, mas ainda mais alta que Na ou Ali, com o cabelo cacheado na altura dos ombros e os olhos da mesma cor.
– Ei, Mel. E, oi. – Acenei para a que eu não sabia o nome ainda.
– Ah, Megs, essa é a Nicolle. – Annie falou, sorrindo. – Ela se transferiu pra nossa turma essa semana.
– Ah, oi. Megan.
– É, eu sei. Você é aluna destaque da nossa sala. – Ela disse, ainda sorrindo.
– Bem, sentem-se. Fiquem à vontade.- Indiquei o sofá com o queixo, parada ao lado da poltrona. Mel pegou um caderno na mochila, me entregando.
– É a matéria das últimas aulas. Pode devolver na sexta. – Peguei o caderno, folheando-o.
– Valeu. Tem certeza que não vai precisar?
– Tenho. – Ela falou. – A gente ainda vai na Ali, Annie?
– Sim, tenho que passar a matéria pra ela. – Ela deu de ombros. – Aliás, a gente só passou pra te ver rapidinho, Megs, já vamos.
– Ah, vocês não vão embora assim não. – Falei, cruzando os braços. – Que coisa mais sem graça, vocês não ficarem nem dois minutos. Vamos tomar café, anda.
Levei as três pra cozinha, colocando um bolo de chocolate que eu fiz em cima da bancada. Sim, o tédio foi tanto que até bolo eu fiz. Peguei também suco pra todas.
Ficamos ali na cozinha uma meia hora, conversando e comendo do bolo, rindo. Tive que narrar a briga do corredor para Mel. Ela riu.
– Sabe, a gente bem que podia fazer uma festa do pijama, né? – Mel falou, tendo o apoio quase imediato de Nicolle e Annie.
– Hum, a gente só tem que combinar direitinho. Vocês podem falar com a Ali hoje e ver se rola. – Comentei. – Eu até posso oferecer a casa, se meu irmão não planejar nada. Mas ai pode ser na Ali, se for o caso.
– Seu irmão está em casa? – Annie olhou pela porta, vendo um pedaço da escada. Ela só tinha visto Elijah uma vez, até agora, mas já o adorava.
– Dormindo, An. – Falei, terminando meu suco.
– A gente olha com ela, sim. – Mel ignorou a reação de Annie de tristeza por não ver meu irmão e continuou. – Agora a gente tem que ir mesmo viu. Tchau.
Levei as três até a porta, me despedindo. Depois que elas se foram, coloquei meus fones de ouvido e fui arrumar a cozinha, já entediada de novo.
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– Megs. Zinha. – Acordei, lutando para abrir os olhos. Que horas eram? Elijah soltou meu ombro, sorrindo. – Bom dia.
– Bom dia. – Minha voz estava um pouco rouca. – Que foi?
– Hoje é sexta, garota. Sua grande volta às aulas. – Ele sorriu, enquanto eu bocejava.
– Você está de pé cedo. – Comentei, me sentando na cama.
– É um prazer te acordar. – Ele disse e saiu do quarto, assobiando. Bocejei de novo e fiquei de pé, indo pro banheiro.
Tomei um banho bem rápido, lavando o rosto pra acordar. Não pareceu funcionar muito. Vesti uma calça jeans e uma camiseta qualquer. Calcei os coturnos e desci para a cozinha, já levando a mochila arrumada.
– Bom dia, encrenqueira. — Minha mãe tinha passado a semana me chamando daquele jeito. Dei um sorriso, beijando sua bochecha.
– Bom dia, mãe. – Ela alisou o terninho da empresa, sorrindo.
– Quer uma carona? – Ela perguntou, tomando seu café.
– Hum, claro. – Peguei um iogurte, tomei de uma só vez e a segui. Ela abriu o Pajero, esperando eu entrar enquanto passava rímel. Em dois minutos ela me deixou na escola. Dei um beijo nela e atravessei o estacionamento.
Louis estava no seu armário, pregando alguma coisa na portinha. Acenei, sorrindo pra ele. Acho que ele estava colocando uma foto dele com a irmã, junto com uma do Ian Somerhalder.
– Bom dia, Lou. – Olhei o meu armário, vendo minha foto com Ali e Annie e uma minha com Duran. Fechei o armário, indo pro seu lado.
– Bom dia, Megs. – Ele beijou minha bochecha, segurando um rolo de fita adesiva.
– Quer ajuda? – Coloquei meus livros na mochila.
– Segura a foto. – Fiz o que ele disse, enquanto ele continuava o assunto. – Tudo bem?
– Sim. Quero dizer, agora que sai do castigo.
– Ah, é. Você nem me falou disso. – Ele fez bico, acabando de pregar a foto.
– Você sabe que eu te amo, bobo. – Falei, dando um abraço nele. – E prefiro mesmo esquecer a presença daquele ser na minha vida.
– É, mas você podia lembrar mais de mim, né? Seu primeiro amigo. – Sorri, concordando.
– Desculpa se não te dei a devida atenção, Lou. Prometo prestar mais atenção.
– Muito bem. – Ele disse, satisfeito. – Agora me deixa ir que eu tenho que copiar dever. Beijos, amor.
– Te vejo no almoço. – Soltei-o, vendo-o sair quase correndo pelo corredor. Fui pra minha própria sala, os fones com tocando The Illest, do Far East Movement.
Por pegar carona com minha mãe, tinha chegado muito cedo. Não tinha ninguém que eu conversasse na sala, e ainda faltava meia hora para o primeiro horário. Deixei a mochila na carteira e fui dar uma volta.
Como na parte da frente só tinha o estacionamento, fui para os fundos dos prédios. Depois de atravessar o campo de futebol, parei perto da piscina. Já tinha muito tempo que eu não via Shaun, e ali estava ele.
Nem parecia o cara que me deu carona no primeiro dia. Ele usava uma camiseta preta e uma bermuda jeans. Os tênis all star pretos estavam ao seu lado. Uma de suas pernas estava dobrada, enquanto a outra estava dentro da água.
Podia ver também uma linha tênue de fumaça ao seu lado, mas não entendi direito de onde vinha. Me aproximei, vendo seu olhar distante. Talvez nem tivesse me percebido ali.
– Louis desistiu de me procurar? – Ele falou, ainda sem olhar pra mim. Me sentei ao seu lado, de pernas cruzadas. Entendi a fumaça quando ele deu um trago no cigarro aceso.
– O que está fazendo? – A intenção era dar oi, mas a pergunta saiu antes que eu conseguisse me controlar.
– Eu poderia te oferecer um, mas tenho certeza de que você não fuma. – Ele deu de ombros, soltando a fumaça.
– E nem você devia. – Falei, deixando a questão de lado. – Você sumiu.
– Eu sei. – Foi a única coisa que ele disse, olhando a água na piscina. Ficamos no silêncio, enquanto eu estudava seu rosto.
O que Duran me dissera não parecia fazer sentido. Nada em seu rosto poderia passar a imagem de delicadeza. Talvez, a única coisa leve em sua feição extremamente masculina eram os olhos violeta.
Não sabia se devia mesmo considerá-lo...o que? Bissexual?
– Tenho tido trabalho fugindo dele. Louis, quero dizer. – Ele falou, dando mais um trago no cigarro. – Falei com Lólli, mas não parece ter funcionado.
– Sabe que ele se importa muito com você. – Comentei, fitando a água. – Muito mesmo.
Shaun me encarou, sério. Fiquei um pouco intimidada, na verdade. Desde a primeira vez que falei com Shaun, a imagem que tive dele era de uma bomba que explode sem aviso prévio.
– Eu sei. – Ainda me olhando, ele suspirou. – Foi por isso que eu sumi.
– Como assim? – O olhar que recebi me fez me sentir a pessoa mais burra do planeta.
– Louis é afim de mim, não consigo retribuir. – Ele tinha os olhos semicerrados, provavelmente pelo sol refletido na água. – Eu não quero mais fazer isso, Megs. Magoá-lo.
– Acho que o “fazer isso” não é só magoar, certo? – Comentei, pondo as mãos atrás de mim.
– E isso você entende de primeira? – Ele suspirou, concordando. – Diferente do que muita gente acha, não foi só um cara. Confesso que sinto um pouco de nojo disso.
– Nojo?
– Não em ser gay. Nunca tive nada contra Louis, nem ninguém. – Ele deu de ombros. – Mas eu sei que só fiz isso por...carência, atenção. Não sei bem. Não era atração por nenhum deles.
– Bem, de volta ao Louis. – Brincava com a corrente do Anel no pescoço, pensativa. – Deveria parar de fugir dele e conversar. Quero dizer, ele vai ficar chateado por um tempo. Mas conheço Louis bem o suficiente pra saber que ele vai superar.
– Seria uma boa. – Ele falou, apagando o cigarro no chão. – E quanto ao “Mais de um”...
– Não vou contar pra ninguém. – Dei de ombros. – Não é da minha conta o porquê de você ter feito isso.
– Eu já me ferrei tanto com mulheres. – Ele suspirou. –Ok, confesso que parte de tudo foi culpa minha.
– Isso inclui Ali? – Perguntei sem pensar, mordendo minha língua enquanto esperava. Tinha adquirido essa mania quando estava nervosa ou ansiosa, nem sei de onde.
– Para com isso. – Shaun me encarou, esperando eu parar de mastigar minha língua. – O que ela te disse de mim?
– Na verdade, ela nada. – Dei de ombros. – Foi Duran quem comentou que vocês tiveram um...caso.
– Certo. – Ele riu, seco. – Só pra informação a mais, foi um “caso” de quase um ano.
– Por que terminaram?
– Ela terminou. – Ele deu de ombros. – Acho que acabaria fazendo a mesma coisa depois de um tempo.
– O que você fez?
– Antes de tudo, estar com Ali era legal, mas... Não sei, ela simplesmente era neurótica demais, parada demais. Ciumenta. – Sorri, mas ele continuou. – Mas eu ainda gostava dela. Foi ela quem entendeu errado quando eu sugeri que...
– Que? – Forcei um pouco, mesmo imaginando o que era.
– Que a gente fosse adiante. – Ele me olhou sem me dar tempo para falar nada e fez questão de se explicar, como se eu fosse retardada. – Transar.
– Eu entendi, obrigada. – Sorri, sarcástica. – Ela não quis?
– Não. E pra piorar, ela achou que eu gastei um ano da minha vida atrás dela pra simplesmente fo... – Não sei se ele teve alguma consideração pela minha ingenuidade (ao menos a que ele me imaginava tendo) e se interrompeu. – Você entendeu.
– Pode falar na próxima vez. – Ri dele, ao que ele reagiu revirando os olhos.
– Claro que posso. – Ele ficou de pé, ainda sério, e me estendeu a mão. Aceitei a ajuda pra ficar de pé. Ele me puxou pra cima e me segurou, bem perto dele. Perto demais.
– E você ia largá-la depois disso? – Comentei, tentando me soltar discretamente. – Porque foi você mesmo que comentou que ia acabar com ela logo.
– Megs, essa realidade me veio depois que ela quase me bateu. – Ele disse. – Eu era que nem você e Duran, sabe? Aquela frescura toda.
Olhei pra ele com cara de tédio. Ele riu, ainda me segurando.
– De qualquer maneira, você acha que ele faria isso com você? – Não respondi. Não porque tinha qualquer dúvida com Duran, mas simplesmente porque não interessava. – Acha mesmo que eu preciso passar um ano atrás de uma menina se fosse só pra isso?
– É verdade que você poderia conseguir qualquer pessoa, mas sabe o que dizem, que homens gostam de desafios.
– Não os que precisam de um ano. – Ele falou, sorrindo. Talvez por perceber o quanto eu me esforçava pra me soltar. – Fiquei esperando um por favor.
– O que? – Um segundo de cofusão e ele riu. – Ah, você poderia, por favor, me soltar?
Ele me soltou no mesmo instante, sorrindo.
– Não se atrase. – E me deixou na piscina, indo em direção aos prédios.
Fui logo atrás dele, pensando que já tinha feito o favor que Duran pedira.
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Assim que me sentei, junto com o sinal dando início às aulas tocando, recebi uma mensagem de Ali. Abri, escondendo o celular debaixo da mesa.
“E ai? Como vai sua volta?”
“Normal. Você não deveria estar de castigo?”
“Estou. Mas é videogame e internet.”
“As meninas te falaram, a ideia da Mel?”
“Da festa, já. Pode ser aqui.”
“Acho melhor do que com Elijah pra nos atazanar.”
“alslkslakslklk. Ok, marca ai então.”
Aquela coisa sem sentido era como ela ria. Enviei um ok correndo, antes de guardar o celular quando o professor se virou. Por pouco ele não viu o aparelho, mas Annie percebeu. Sorriu, me olhando. Dei de ombros, sorrindo.
Depois disso, passei a anotar a matéria, um pouco perdida por não ter prestado atenção no inicio da explicação. E pra piorar, a aula era incrivelmente entediante.
Falei com Annie e Lólli da festa na casa de Ali. Lólli ficou empolgada com a ideia, enquanto Annie concordou. Encontramos Louis no corredor, mexendo no celular.
– Vai esperar Duran? – Annie perguntou. – A Nicolle ainda está lá também.
Ficamos escoradas na parede, ao lado da porta, esperando. Duran e a morena saíram rindo, ela jogando os cabelos para trás. Ele me viu e sorriu.
– Bom dia. – Ele sorriu, pegando minha mão. – Você sumiu mais cedo. Fui te procurar.
– Fui dar uma volta por ai. – Fiquei na ponta dos pés, sussurrando em seu ouvido. – Achei Shaun.
– Sério? – Os outros estavam curiosos, mas quando mandei eles continuarem andando eles riram e foram pro refeitório. – O que falaram?
– Sobre ele ser...- Ele entendeu e me disse para continuar. – E sobre Ali.
– O que ele disse?
– De Ali sendo exagerada e entendê-lo mal. – Duran concordou, colocando o braço ao redor dos meus ombros. Era mais confortável. – Sabe, ele queria dormir com ela.
– Posso imaginar a reação de Ali. – Ele comentou, voltando a sorrir.
– Oh, e ele comentou que a gente é cheio de frescuras, que nem ele era. – Ri. – Não imagino. Ele é tão bruto.
– Bruto, ótima palavra. – Ele respirou fundo. – Ele disse mais alguma coisa?
– Ahn, não. – Ele percebeu minha hesitação. – Acho que ele tentou me deixar em dúvida com você. Se você só, sabe, queria me usar.
– E o que você acha?
– Bom, eu acho que já tem bastante tempo que a gente está namorando e você nunca forçou a barra nem nada. – Sorri. – Eu confio em você, não precisa ficar assim.
– Estou feliz agora. – Ele abriu a porta do refeitório, me guiando para a mesa de costume. Até parar no meio do caminho. – Funcionou a conversa.
– Eu realmente não esperava isso. – Apontei para Shaun, sentado na ponta da mesa. Os outros, que chegaram apenas alguns segundo antes, também pareciam abalados.
– Oi, gente. – Shaun falou, esperando todo mundo se sentar.
– Bem, vou comprar almoço. – Duran me soltou, pegando a carteira. Nicolle foi atrás dele, segurando o braço dele. Me sentei, vendo Annie correr atrás de Nicolle e Lólli arrastar Louis para a fila com ela.
– Duran é adorável, ein? – Ele deu um sorriso dissimulado.
– Nicolle é legal. – Falei, normalmente. Ok que eu percebi a “intimidade” com a morena.
– Claro. – Peguei o sanduíche que ele tinha levado, dando uma mordida.
– Você voltou rápido. – Limpei o canto da boca com a língua, percebendo que Shaun não parava de olhar. – Ainda ficou sujo?
– Não. E bem, é, foi você quem me disse para parar de me esconder. – Ele deu de ombros.
– Bem vindo de volta. – Duran se sentou ao meu lado, deixando a bandeja entre nós dois. – Foi muito, ai trouxe mais um garfo.
– Valeu. – Peguei os talheres, enquanto ele abria a lata de refrigerante.
– Achei que estavam sentindo minha falta. – Convencido. – Perdi muito enquanto estive longe?
– Bem, saímos algumas vezes...
– Megs foi baleada. Passou um tempo com amnésia.
– Eu ouvi disso. – Ele comentou, mordendo o sanduíche onde eu tinha deixado uma marca. – Não sabia que era você. Como melhorou?
– Terapia. – Sorri fraco. – Só voltou uma semana depois.
Claro que não comentei do “quase-suicídio”. Nem Duran sabia daquilo, só Ali e Kyu.
Os outros voltaram, sentando-se em silêncio. Annie sorriu, abrindo o refrigerante.
– Ei, An. – Ela me olhou. – Posso levar uma amiga pra casa da Ali sábado?
– Que isso, festa? – Os três garotos nos olhavam.
– Nem começa de choradeira, só mulheres. – Ela falou séria, mas começou a rir logo em seguida. – E claro, Megs.
– Valeu. – Olhei a hora no celular, ficando de pé. Duran me olhou, parando de comer. – Vou passar no banheiro antes. Te vejo mais tarde?
– Te encontro no seu armário. – Ganhei um selinho antes de pegar a mochila e deixar o refeitório.
O banheiro estava vazio. Deixei a mochila em cima da pia e liguei para Lara, encarando meu reflexo enquanto esperava. Ela atendeu com a vozinha feliz.
– Oi, Nhoim. – Então ela já até tinha salvado meu número. Sorri. – Tudo bom?
– Sim, ótimo. – Comentei, sorrindo. – Aqui, as meninas e eu tivemos a ideia de fazer uma festa do pijama, e eu pedi pra te levar.
– Elas não ligam?
– Nem um pouco. Vai ser sábado de noite. Você trabalha?
– Só até as 6. – Ela disse, pensativa. – Ok, me passa o endereço dela.
Falei o endereço de Ali, me lembrando da primeira vez que fui lá e da última, o dia em que sai correndo para a praia.
– Te vejo lá. – Ela falou. – Beijos.
Despedi e desliguei o celular, jogando-o na mochila de volta. O sinal logo ia bater. Prendi meu cabelo num rabo de cavalo alto. A porta se abriu de uma só vez.
Mesmo com os restos da nossa briga no rosto, Jessica entrou no banheiro fazendo pose. Tentei não dar ideia, mas só então percebi Kim parada atrás dela.
– Espere aqui. – Jessica me lançou o olhar cortante enquanto ia até uma das cabines. Kim parou ao meu lado, arrumando o cabelo.
– Ei, Kim. – Falei, um sorriso fraco. Não imaginava que Kim tinha se afastado para andar com Jessica.
– Ei, Megs. – Ela sorriu. – Ouvi que você melhorou, da amnésia.
– É, valeu. – Fiquei sem graça, afinal, eu bati na amiga dela por isso. – Você sumiu.
– Ah, tenho passado muito tempo com a Jessica. E ainda trabalho, então...
– Legal. – Pensei em chamá-la para ir na festa sábado. Mas então me lembrei que não seria legal comentar de Jessica com ela lá. – Já vou, Kim. Tchau, tchau.
Ela acenou, sorrindo. Deixei o banheiro, indo para a aula.
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Chegou o sábado. Arrumei minha mochila com um pijama, escova de dentes, pente e uma roupa para o dia seguinte. Provavelmente só voltaria no fim da tarde de domingo.
Elijah me deixou na porta da casa de Ali com a Pajero da minha mãe, sorrindo. Ele beijou minha testa e falou:
– Descobre o que acham de mim. – Simplesmente revirei os olhos e desci do carro, tocando a campainha. Ele arrancou com o carro,me deixando esperando. Cheguei cedo, ainda eram 8 horas. Tínhamos combinado pras 9.
– Eii. – Annie abriu a porta, indo destrancar o portão. Já estava de pijama, um conjunto de cetim vermelho, camiseta e short.
– Ei, An. Como vai? – Dei um abraço nela, fechando o portão.
– Ei, Megs. – Ali veio correndo dos fundos da casa e me deu um abraço. O pijama da blusa branca com short lilás que eu já tinha visto antes.– Eu estou fazendo pipoca.
– Já tem mais alguém?
– A Mel disse que está vindo, a Lólli vai chegar meio tarde. – An respondeu.
– Hum, e quem você chamar. – Ali completou.
– Chamei a Lara.
– Quem? – Olhares confusos das duas.
– Minha terapeuta. E a Nicolle?
– Ah, ela disse que vai vir. – Annie disse, sorrindo. Fomos para dentro da casa. Percebi que Ali tinha posto os pais e irmão para fora. – Se você já quiser trocar de roupa.
Só por hábito, fechei a porta e tirei a blusa. Me abaixei para pegar o pijama na mochila, percebendo as outras duas me olhando.
– Me lembra de nunca trocar de roupa na sua frente. – Ali se sentou na cama, abraçando o travesseiro.
– Por que?
– É humilhação. – Ela cruzou os braços. – Eu sem peito e você com isso tudo.
A primeiro coisa que fiz foi olhar para baixo. E a segunda foi vestir a blusa cinza do pijama e apontar para Annie.
– Eu aposto que ela usa o mesmo número de sutiã que eu!
– Ei. – Ela falou, parecendo indignada. – Espera, você usa 46?
– É. – Não era pra ela levar a sério, mas concordei.
– Então é o mesmo sim. – Ela riu.
– Então não troco de roupa na frente de vocês duas. – Ela disse, dando de ombros.
Terminei de me vestir, deixando o assunto de lado. O short listrado de arco íris e a camiseta cinza. Annie sorriu.
– Que fofo. – A campainha tocou. – Vamos atender.
Mel e Nicolle conversavam alegremente com Lara, atrás delas. O piercing no nariz dela tinha mudado e a tatuagem no ombro estava a mostra.
– Sua terapeuta é linda. – Annie falou, abrindo o portão.
– Ei, Nhoim. – Acenei para ela, recebendo um sorriso de volta. – Oi, gente.
– Ois. – Mel segurou o portão pras outras duas, pra vir nos abraçar logo em seguida.
– Entra ai gente.
Fomos pra sala, esperando as meninas se trocarem. Mel vestiu uma calça verde claro com uma camiseta branca com um gatinho. Lara usava uma camisola com uma bonequinha e Nicolle com uma camisola preta, daquelas meio transparentes.
E Lólli chegou e vestiu um conjunto de calça e blusa azul claro. Nos espelhamos pela sala, com almofadas no chão.
– E ai? O que a gente faz? – Ali disse, se deitando ao meu lado.
– Olha, eu tenho uma ideia. – Lara levantou a mão. – A gente jogava tipo um jogo da garrafa na república, na faculdade.
– Tipo? – Nicolle falou, se sentando.
– É assim. A pessoa que a garrafa cai faz uma pergunta, e todo mundo tem que responder.
– Ok? – Ali ficou de pé. – Vou buscar a garrafa.
Não precisamos fazer uma roda certinha. A garrafa caiu primeiro em Ali, que começou a pergunta pela Mel.
– Deixa eu ver, qual foi seu sonho mais estranho?
– Eu sonhei que era professora, mas ninguém na sala me ouvia. E por alguma causa eu morri.
– Legal. – Comentei. – Nhoim.
– Eu sonhei que matei meu namorado e escondi o corpo no jardim. Mas ai eu acordei e vi que era o caso de uma cliente. – Ela deu de ombros. – Lólli.
– Ahn, tinha um bicho comendo minha cara, onde tem as cicatrizes.
– Credo. – Annie comentou, tomando a liberdade de responder em seguida. – Sonhei que um dos meninos da sala tinha virado mendigo. Era o Josh?
– Falando em mendigo, eu sonhei que tinha um tentando me matar e o Kyu me salvou. – Ali sorriu.
– Gay. Nicolle.
– Eu era uma bêbada possuída. Enfim...
– Bem, eu tenho muito sonho estranho, mas acho que o pior deles foi um em que eu estava grávida. Do menino mais chato da sala. Sabe o Phil, An?
– Que horror. – No entanto, ela não parava de rir.
Giramos de novo. Dessa vez Annie perguntaria.
– Você já fez amor com seu namorado? – Silêncio. Não sei alguém levou a sério, mas comecei a rir.
– Não, Annie! – Lara ria também, aquele gritinho dela. – Que coisa tonta.
– Eu quero saber,desculpa. Ali, Megs, e vocês...
– Não, Annie. Eu já teria contado pra vocês. – Falei, conseguindo parar de rir. – Lara.
– Hum, pra você Nhoim. Qual foi o maior tempo que você ficou afim de alguém?
– Hum, eu estou com Duran já tem quanto tempo? – Perguntei.
– Sei lá, uns cinco meses? – Ali falou, dando de ombros. – Mas você era afim dele antes.
– Uns seis meses então? Não sei. – Falei, dando de ombros.
– Faculdade de psicologia, primeira lição. Paixão por mais de quatro meses pode ser amor.
– Quanta gayzisse. – Me virei pra Ali. – E vocês?
– Acho que o último deve ter uns... – Annie pensou. – Te conheço tem quanto tempo?
– Eu? – Falei, assustada. – Uns dois ou três meses, não sei.
– Então o último foi por ai. Mas o maior tempo foi um ano. – Ela deu de ombros. – Nicolle, Mel.
– Eu nunca contei assim. – As duas concordaram.
– Lólli?
– O maior deles? Um ano e meio. Por ai.
– Com quem?
– Já faz tempo isso. Lara.
– Já tem quase três anos que namoro o Chris.
Não girei a garrafa. Perguntei só para Lólli, o que meio que chocou as outras.
– Por que você e seu irmão tem cicatrizes?
– Ah. A gente conseguiu com uns 6 ou 7 anos. Não lembro direito. A casa em que a gente morava pegou fogo. Na época a gente dividia um quarto, então ficamos os dois presos lá dentro. Os bombeiros fizeram a gente pular a janela, mas além dos cacos de vidro, caiu uma viga em cima da gente. – Ela passou o dedo por uma das cicatrizes. – O médico disse que só os cortes mais fundos iam ficar com cicatrizes. O resto sarou depois de um tempo.
– Meu Deus. – Mel deu um suspiro. – Bem, vamos subir o astral. Qual a banda favorita de vocês? Ou cantor? O meu é One Direction.
– Elvis Presley. – Nem pensei.
– Big Bang. – Ali cruzou os braços, se sentando.
– Justin Bieber. – Annie sorriu.
– Eu gosto de pop em geral. – Lólli falou, depois de pensar bem.
– Ah, eu gosto de Pearl Jam. – Concordei com Lara de que era uma boa banda. – Nicolle?
– Não tenho nada favorito assim. – Ela deu de ombros.
– Então, a gente acabou com a pipoca, o que comemos agora? – Falei, ficando de pé.
– Tem pizza. – Ali comentou, rindo.
Fomos para a cozinha, conversando sobre meninos. Percebi que Nicolle ficou bem...interessada...quando falei de Duran, mas ignorei. Podia ser neura minha. Ficamos ali até três da manhã, antes de irmos dormir, espalhadas pela sala.
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