No Other
21 Capítulo 21 - Roslyn
Notas iniciais
Fui obrigada a ir à aula no dia seguinte. Era uma sexta-feira, pra minha sorte. Eu não queria ir, mas Lara disse que talvez trouxesse alguma coisa de volta. Depois de quase uma hora discutindo com ela no telefone, me dei por vencida.
– Megs, só vai. Vai ser uma experiência ruim, eu sei, mas pode ser útil. Vai te ajudar.
– Lara, eu prometo que vou na segunda. Só hoje... – Parecia uma criança dando birra.
– Quer ou não quer se curar?
– Quero. – Falei, dando de ombros. Era a resposta evidente.
– Então vá. Em algum caso extremo, peça pra te liberarem. Na sua situação, não vão negar. – Ela falava, uma vozinha doce.
– Ok. É bom trazer resultados. – Me dei por vencida ali. Desliguei o telefone e subi pro meu quarto, indo me arrumar.
Vesti qualquer coisa que achei no armário: uma calça jeans escura e uma camisa verde limão. Calcei os coturnos, a única coisa que encontrei pelo quarto, e prendi o cabelo com presilhas, tentando esconder a falha. Falhei miseravelmente.
– MÃE! – Chamei, soltando o cabelo de novo, frustrada. Sentei na cama.Provavelmente já estava atrasada, mas não liguei. Eu nem queria ir mesmo. – Mãe.
– O que foi, meu bem? – Ela entrou no quarto, usando um terninho e colocando brincos que combinavam com a camisa.
– Pode me ajudar com meu cabelo? – Apontei pro buraco na minha cabeça.
– Ora, claro. Posso tentar ao menos. – Ela pegou as presilhas da minha mão, parando na minha frente. Depois de alguns minutos, ela se afastou. – Prontinho, meu bem.
– Obrigada. – Respondi depois de olhar meu reflexo no espelho do banheiro. Ainda dava para saber que tinha uma falha ali, mas ao menos não era tão visível.
– Já está atrasada, anda. Te dou carona. – Não era exatamente como se eu pudesse ir sozinha. Não lembrava nem qual escola era, quanto mais o caminho.
Peguei minha mochila e desci correndo as escadas. Não sabia meu horário, então anotaria em qualquer caderno as matérias. E procuraria saber o horário, claro.
Foi o trajeto mais rápido que já fiz na minha vida. Antes que eu pudesse pensar em ligar o rádio, ela me disse que tínhamos chegado. Olhei pela janela. Um conjunto de prédios com um estacionamento gigante.
– Liga pro Elijah se precisar, ok? – Me mandou um beijo. – Tenha um bom dia, meu bem.
– Pense pelo lado bom. Talvez eu me lembre de Duran e Alice. Talvez. – Falei depois que ela arrancou com o carro, me deixando sozinha no portão.
Numa tentativa de achar alguma coisa referente à qual prédio eu devia procurar, achei um papel todo amassado num dos bolsos da mochila.Uma tabela com os horários da semana e onde era cada sala. Tinha até um mapa.
– História. Legal. Prédio 4, sala...307. – Guardei os papéis de novo, colocando meus fones. Olhei o que eu tinha na minha lista, reconhecendo alguns nomes. Depois de não saber o que ouvir, parto pro aleatório.. – Remember The Time, Michael Jackson.
Entrei na sala com a garganta seca. Estava com medo de ter algum daqueles malditos flashs. Tinha chegado à conclusão de que eu definitivamente não gostava deles. Faziam minha cabeça doer e me davam enjoos. Mas eu queria me lembrar.
Uns vinte minutos se passaram até que o sinal dando início às aulas tocou. Tinha pegado o livro de história no armário antes, fazendo um reconhecimento na escola. Nada era familiar. Descobri a senha do cadeado numa folha da mochila.
Me sentei numa carteira qualquer e aumentei o volume dos fones de ouvido. Outra música de Michael Jackson, Rock With You. A quela já era mais familiar. Cada aluno que entrava na sala me olhava, ou confuso ou curioso. Seus rostos pareciam imagens distorcidas naquele dia, sem em trazer nenhum tipo de lembrança.
Estava tudo particularmente sob controle, eu observando e sendo observada. Até uma menina vir na minha direção. Reparei na calça jeans colada clara, com uma blusa rosa decotada e um salto alto preto. Tinha os ombros magros, cobertos pelos cabelos loiros escorridos. Os olhos cinzentos afiados não me davam nem uma lembrança. Nada.
– Ai, meu Deus. – A bolsa que ela carregava caiu no chão e ela se jogou em mim, me abraçando. – Eu fiquei tão preocupada com você, amiga.
– Ah, eu... – Fiquei sem reação. Todos ao redor nos olhavam, sem uma expressão que significasse alguma coisa. – Desculpa, eu...
– Tudo bem, eu entendo. – Ela se afastou, os olhos marejados. Sorriu, apertando meus ombros. – Mas eu vou te ajudar. Vai ser como antes.
– Pode me ajudar começando a me dizer quem é você.
– Jessica. – Passou a mão no rosto, limpando alguma lágrima que lhe escapou. – Sabe, desde o início sou sua melhor amiga.
Não tinha certeza , mas algo me pareceu errado. Havia grandes chances daquela garota ser a maior patricinha da escola toda. E eu não faria amizade com aquele tipo de pessoa. Minha personalidade não mudara por causa da amnésia.
Vi Alice parada no vão da porta com a maior expressão de descrença que já vi, para logo depois sair e sumir pelo corredor. O professor entrou na sala, mandando todos se sentarem. Me ajeitei na cadeira, vendo Jessica pegar a bolsa e deixando a sala.
Suspirei, confusa. O professor me deu um sorriso fraco antes de passar a explicar a matéria. Me concentrei.
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O banheiro estava completamente vazio naquele horário. Até porque era eu quem estava matando aula. Deveria estar assistindo uma aula de física, mas aquilo era mais importante.
Alice estava irritada comigo. Talvez fosse por me ver conversando com Jessica, eu não tinha certeza. Mas as duas não se davam bem, era óbvio.
Olhei o cartãozinho mais uma vez enquanto esperava a chamada completar. Uma cartão preto com uma rosa em cada quina e um gato sobre o telefone, com o número do lado. Não era exatamente profissional, mas com certeza me fazia pensar em Lara.
– Dra. Schneider, posso ajudar? – Endireitei minha coluna, como se ela fosse me ver. Ela parecia estar andando ou algo do gênero.
– É a Megan, Lara. – Suspirei, mexendo na mochila sobre a pia. – Preciso de ajuda.
– Oi, Megs. Que foi? – Ela andava, com certeza.
– Preciso mesmo colocar isso pra fora. Conversar com alguém. Tipo, agora. Ou logo.
– Se lembrou de alguma coisa? – Encarei o espelho, suspirando.
– Não, não é isso. Mas é exatamente esse o problema. Posso ir ai?
– Hum, não estou no consultório, mas chego lá em quinze minutos. Não tenho nenhum horário marcado agora de manhã. Se quiser mesmo...
– Obrigada, Lara. – Sorri, aliviada. – E que cartãozinho é esse? Que gay.
– Eu sei! – Ouvi ela dando aquele grito dela e soube que ela estava rindo. – Mas é tão fofo, nhoim.
– Nhoim nhoim. – Franzi o nariz de leve, como se imitasse um gatinho. – Já estou indo.
– Te espero. – Desliguei. Agora eu só tinha que chegar ao hospital. Não sabia como ir e nem onde ir. Peguei o celular e procurei por alguém nos contatos. Kyu.
– Alô? – Ele bocejou logo depois de responder.
– Kyu, posso te pedir um favor? – Peguei a mochila sobre a pia, colocando-a no ombro.
– O que foi, Megs? – Ele me pareceu preocupado.
– Preciso ir até o hospital. Agora. Pode me pegar aqui na escola e me deixar lá? Por favor.
– Tudo bem com você? Devia ir até a enfermaria da escola se não está se sentindo bem.
– Não é isso. Me pega nos fundos da escola? – Sai do banheiro, checando se o corredor estava vazio.
– Me dá cinco minutos. – Mesmo preocupado, ele concordou. Sorri.
– Obrigada, Kyu. – Desliguei e sai correndo pelo corredor.
Parei antes de sair do prédio. Vi Alice e Jessica no pé de uma escada, de frente uma para a outra. E com uma atmosfera de risco iminente entre as duas. Só consegui ver a expressão raivosa e com um dedo apontando para Jessica.
Fui me aproximando devagar, tentando ouvir o assunto antes de me intrometer. Pareciam a ponto de se pegarem no tapa ali mesmo, naquele instante.
– Olha aqui, eu não sei qual é a sua, Jessica, mas você devia tomar vergonha na cara e deixá-la fora disso. – A voz de Alice era quase um sussurro, cheio de raiva. – Ela não lembrava nem da própria família.
– Estou chocada, Alice. De verdade. – Ela cruzou os braços, jogando o cabelo loiro sobre o ombro. – Você tem medo de mim. Da minha influência sobre as pessoas.
– Não tenho medo de você! – A voz de Alice se elevava. – E só não quebro sua cara porque sei que é o que você quer. Ai Megs vai achar que eu sou a vadia.
– Sei... – Era provocativa sua reação, estudando as próprias unhas.
– Olha aqui, sua... – Aquilo foi um grito. Já podia vê-la pulando no pescoço da outra, garras expostas. Me coloquei entre as duas casualmente.
– O que está rolando aqui? – Apontei para as duas. A briga parou imediatamente. Jessica foi rápida.
– Amiga, essa louca estava a ponto de me bater. E eu não fiz nada de mais. – Olhei a morena, esperando sua resposta. Mas ela só me encarou dividida entre raiva e surpresa.
– Ah, qual é? – Ela gritava comigo agora. Temi que alguém nos achasse. – Acredita mesmo nela?
– Eu... – Hesitei. Depois daquele show das duas, sabia que Jessica não era o tipo de pessoa com quem me relaciono. Mas ela era a que mais me contava as coisas. De antes.
– Quer saber, Megs, acredita no que você quiser. – Pude sentir o desdém quando ela disse meu apelido. Por um lado, aquilo me fazia acreditar em Jessica. Alice mais parecia me odiar do que ser minha amiga.
– Não se preocupe, ok? – Jessica sorriu, enquanto Alice saia do prédio, pisando duro. – Ela não vale nada. Nunca valeu.
– Por quê?
– Uma vez ela ficou com raiva de mim e destruiu meu carro. Tem pouco tempo, o seguro ainda nem me reembolsou. – Aquilo foi chocante. – E ela ainda teve a ousadia de dizer que a culpa foi sua.
Aquilo não fazia sentido. Na verdade, só me confundia mais. Alice tinha se preocupado comigo antes, mas agora parecia a ponto de tacar uma bomba na minha cabeça. E Jessica tentava reforçar que eu não devia gostar dela, mas a conversa que acabara de ouvir a contradizia um pouco.
– Tenho que ir. – Kyu já devia ter chegado. Sacudi a cabeça, clareando um pouco a mente.
– Tchau, amiga. – Já tinha dado uns três passos quando ela falou. Me virei, séria.
– Ei, Jessica. Não sou sua amiga. – Já tinha certeza daquilo. – Não se impõe uma amizade assim.
Lembrei do que Duran me disse, sobre impor que era meu namorado se eu nem me lembrava dele. Jessica fizera exatamente aquilo. Quis forçar seu caminho dentro da minha memória.
Deixei o prédio antes que ela reagisse. Não foi difícil encontrar a saída dos fundos. A escola já me era familiar agora. Passei pelo buraco na cerca viva, procurando pelo Jaguar preto.
Alice estava na esquina, braços cruzados, cabeça baixa. Podia ver o fio do fone de ouvido sobre a blusa preta. Pensei em chamá-la e falar que não era Jessica que eu não entendia. Era ela.
– Megs. – O Jaguar parou bem na minha frente, os vidros abaixados. Alice ergueu a cabeça, olhando para o carro. Não entendi direito, mas de novo pude ver o olhar de descrença.
– Ei, Kyu. – Ignorei a garota dos olhos verdes e entrei no carro, sorrindo. – Obrigada por me buscar.
Ele murmurou em resposta, olhando Alice pelo retrovisor. Eles se conheciam? Não me importei com aquilo. Meu conflito era outro. Precisa de alívio, que eu esperava achar com Lara.
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– Você está mesmo bem? – Kyu perguntou, parando num sinal vermelho. Ele apoiou o cotovelo na janela, me olhando.
A verdade era que não, eu não estava bem. Minha cabeça latejava, parecia que alguém tinha me prendido dentro de uma panela de pressão sobre o fogo, prestes a explodir. Piorava o fato de que nada era uma memória concreta.
– Se eu te disser que estou é mentira. – Deixei minha cabeça pender para a frente, caindo sobre o peito. – Kyu, eu não me lembro de nada. Eu estou tentando, mas porra nenhuma volta. Eu estou morrendo. E eu quero chorar toda hora.
– Não chore. – Ele deu um tapinha no alto da minha cabeça, sorrindo. Como se risse de mim. Mas eu sabia que ele realmente queria fazer com que eu me sentisse melhor. – Eu não tenho certeza, mas acho que se você se acalmar e só esperar, elas vão voltar. Suas memórias.
– Oremos. – Ele riu baixo da minha resposta. Não era quilo que eu queria, mas acabei sorrindo com ele. – Sério, valeu. Essa situação toda é...
– Um cu? Pra todos nós. – Ele voltou a dirigir, ainda sorrindo. – A gente vai te ajudar, sabe disso. Ele disse que situações de pressão podem ser úteis. Acidentes contam?
Me agarrei na porta quando ele jogou o carro pro lado de uma vez só. O filha da mãe queria mesmo me matar? Ele começou a rir depois de arrumar o carro na pista. Relaxei, prestando atenção na música.
– Não faça isso de novo. Por favor. – Ele riu de novo. – Que música é essa? Kpop?
– Uhum. Lalala, do Big Bang.
– Eu gostava dela antes, certo?
– Uhum. Você era kpopper. A maioria das músicas que eu tenho você gostava. Se quiser ver depois. – Ele indicou o pen drive ligado no player.
– Depois. – Ele parou na porta do hospital, destrancando a porta enquanto coçava um olho. Acho que aquilo era mania dele. – Valeu, Kyu.
Escorei a cabeça no ombro dele por um segundo como agradecimento. Ele ficou um pouco sem graça, mas falou normal.
– Quer que eu te busque?
– Se puder passar aqui em uma hora. Sabe, se não for te atrapalhar. – Dei de ombros, saindo do carro. Ele murmurou que podia me buscar e arrancou com o carro.
Achei Jarry no elevador até a sala de Lara. Ele me fez um interrogatório se eu estava bem depois da cirurgia e ainda elogiou a forma como escondi o buraco no cabelo. Agradeci e expliquei que só tinha ido ali por Lara. Ele só me disse um até mais quando sai do elevador.
Lara me esperava na porta do consultório, com um copo d’àgua na mão. Sorriu quando me viu.
– Oi, Nhoim. – Passei por ela, ignorando o apelido novo e me jogando na poltrona dela.
– Isso aqui é uma crise. Não consigo nem me lembrar do nome da minha melhor amiga sozinha.
– Ok, esse é meu lugar, sai daí. – Ela realmente ficou esperando eu sair da poltrona e passar pro sofá.
– Lara, me ajuda. – Choraminguei, depois de suspirar. – Sei que a garota que é legal comigo não é minha amiga, mas a que diz ser me odeia.
– Do início. Calma, respira. Começa a contar do início. – Ela pegou a prancheta. – Você não sabe quem é sua amiga, é isso?
– Sim. Quer dizer, não. Mais ou menos. – Me deitei no sofá.
– A que veio aqui no hospital e quase bateu na enfermeira, quem é?
– Alice, a irritada comigo. – Dei de ombros. – Olha, não é se eu era amiga dela ou da outra minha dúvida. Jessica, a que foi legal comigo, é o tipo de piranha da escola. Não me envolvo com gente assim.
– Então acha que Alice era sua amiga, é isso?
– Uhum. Mas pensa comigo, por que Jessica quis se aproximar de mim? Ela chegou a dizer que Alice já me culpou por algo que ela mesma fez. Não fez sentido.
– E ao mesmo tempo não entende porque Alice está com raiva.
– É.
– Megs, isso é a coisa mais fácil do mundo. – Olhei para ela, esperando a conclusão. – Olha só o que a Alice fez por você. Claro que ela ainda gosta de você.
– Não parece. Seja lá o que Jessica queria, parece que ela conseguiu. Alice parece que me odeia só porque não consigo mais lembrar das coisas como eram.
– Nhoim, se alguém de quem você gosta muito esquecesse de você, ficaria numa boa? Por mais que entendesse, não ia ficar chateada?
– É ai que está a coisa toda. – Me sentei, encarando a outra. – Não me importo dela estar chateada. Mas eu não estaria odiando a pessoa, ia estar tentando ajudar, não piorar tudo.
– Acha que Jessica te ajudou? Te contando mentiras? A memória é sua, não dela.
– Não vai me convencer de que Alice agiu certo.
– Eu não disse isso. Realmente, ele está sendo egoísta. – Deu de ombros.
– E eu faço o que? Até agora só tive uma memória fraca do meu namorado...ex, sei lá. E da minha família.
– Você me disse que tinha se lembrado do asiático bonitinho.
– É, considerei ele em família, já que ele é tipo o motorista-quase-filho do meu padastro.
– Ok, você viu Duran. Com quem acha que ele se dava bem? – Não respondi. Ela queria que eu dissesse Alice. Aquela parte eu já sabia. – Tem que viver por conta própria, mesmo agora.
Fiquei olhando o enfeite de gatinho que ela deixava sobre a mesa. Ela ficou quieta por algum tempo, mas depois começou a fazer perguntas baixinhas. Eu as respondia quase no automático. Ao menos as que eu sabia a resposta.
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Minha cabeça estava prestes a explodir. Agora eu tinha certeza. Aquilo não podia ser só uma dor de cabeça comum. Me sentei no meio fio na frente do hospital, esperando Kyu.
Com aquelas perguntas baixinhas, Lara me fez ter três flashs, seguidos. O primeiro deles foi o do meu primeiro encontro com Duran.
Ele tinha me levado pra um bar, me convenceu a beber. Dei um show no balcão. A memória era um borrão, mas podia ser efeito do álcool, ela ficou salva desse jeito. Depois que saímos do bar, minha cabeça doeu demais para continuar com aquele flash.
O segundo aconteceu uns dois minutos depois, quando começamos a falar de cores favoritas. Assim que respondi que gostava de roxo, o flash estourou.
Era um carro conversível vermelho, dirigido por um garoto moreno. Eu chorava, com parte da blusa amarrotada e com um gorrinho na mão, enquanto ele dirigia calado. Só se virou pra mim quando parou junto ao meio fio, perto da minha casa, os olhos violeta preocupados me fitando.
Não me lembro de uma conversa, se é que houve uma. O flash acabou, me deixando com a cabeça ainda mais dolorida. E o terceiro nem deu tempo para eu me recuperar.
Eu estava sentada num sofá, entre Elijah e Jack. Só consegui me lembrar do rosto de Jack porque procurei uma foto assim que cheguei em casa do hospital. Meus pais estavam na nossa frente. Não era a casa da California ainda. Imaginei que fosse a de Minnesota.
– O que vocês querem? – Elijah arranhava uma unha na outra, me causando arrepios de gastura.
– Eli, querido. – Minha mãe suspirou. – Todos vocês na verdade. Vocês sabem que amamos muito vocês, certo?
Concordamos com a cabeça os três. Jack estava sério, olhando o chão. Elijah arranhava as unhas nervosamente, ansioso. E eu só olhava para meus pais. Sabia que minha mãe não queria parecer fraca e derrotada e que meu pai não queria sair feito o vilão. Ele não era, ainda.
– Só falem duma vez. – Elijah falou, quase cuspindo.
– Eli, pode não ser tão fácil pra ela. – Meu pai falava de mim, preocupado. Engraçado, fui eu quem o disse pra ir embora.
– O que querem falar? – Perguntei, a voz baixa.
– Você é retardada, não é? – Minha mãe o chamava, mas Elijah continuava gritando comigo. – Eles vão se separar, sua imbecil.
– Cala a boca, Elijah! – Jack falou baixo, mas com um tom cortante na sua voz que fez meu outro irmão se calar. – Fala, mãe.
– Papai e eu não podemos continuar assim, meu bem. – Ela falava com Elijah. – Não fique tão rancoroso.
– Já acabaram? – Ele ficou de pé, quase chorando. – Então, estou fora.
– Elijah! – Minha mãe o chamou, mas ele sumiu por trás da escada, quieto.
– Deixa ele, mãe. – Jack falou. – Terminem logo isso.
– Não precisam. – Falei, ficando de pé também. – Vão falar que ainda são amigos e que não foi culpa nossa. Já sei disso tudo.
– Só queremos o que é o melhor, você entende? – Meu pai falou, os ombros caídos.
– Eu sei. Fui eu quem te disse isso. – Deixei a sala, sentindo os olhos arderem mas sem derramar uma lágrima sequer.
Aquele tinha sido o último flash. Devo ter ficado uns quinze minutos sentada, segurando a cabeça nas mãos. Lara queria continuar, mas eu não respondi mais. Minha cabeça ia explodir a qualquer minuto.
Deixei o consultório depois que a dor melhorou um pouco, mas assim que entrei no elevador voltei a ficar tonta. Assim que sai do hospital, peguei o celular e me sentei no meio fio. Mandei uma mensagem pra Kyu, respirando fundo.
Ele não demorou. Só tive que ficar respirando fundo de olhos fechados por uns 10 minutos, rezando para não desmaiar ali, no meio da rua. A sensação de fraqueza, só parecia aumentar.
E para melhorar, tive um quarto flash ali na calçada. Eu estava numa sala de estar imensa, enrolada num cobertor perto de Kyu e de uma lareira. Não sei o que conversávamos, mas ele parecia sem graça.
– Ei. – Duas mãos seguraram meus ombros de leve. Abri os olhos, achando a imagem já tão familiar de Kyu. – O que houve? Você não me parece bem.
– Não estou. Me leva pra casa, por favor. – Ergui um pouco a cabeça, afastando o cabelo que caíra sobre meu rosto com uma mão.
– Ok. Você tem a chave? – Neguei com a cabeça. Minha mãe tinha dito que alguém me buscaria, então não me preocupei em procurar por uma chave. – Tudo bem, pode ficar comigo na casa do Kyle. Vem.
– Só me leva pra um lugar com uma cama. Ou um sofá grande. – Ele me ajudou a ficar de pé, me segurando pelos cotovelos. Fechei os olhos de novo.
– Uou, calma. – Ele me segurou pelos ombros de novo, depois que eu cambaleei um pouco e quase cai sobre ele. – Você tomou café hoje? Está muito fraca.
– Não comi muito. Fiquei a maior parte da manhã no celular discutindo com Lara sobre ir ou não à aula. A gente pode ir de uma vez?
– Ah, tudo bem. – Com os poucos momentos de convivência que eu estava tendo com ele, imaginei que tenha ficado sem graça de ter que me levar até o carro, quase me carregando.
Fiquei de olhos fechados durante o trajeto quase todo. No início, ficar de olhos fechados me deixou um pouco enjoada. Fiquei com medo de acabar vomitando no carro, então abri os olhos por um segundo, só para me arrepender logo em seguida. Kyu não disse nada, só me chamou quando tínhamos chegado.
Já não precisei de apoio para descer do carro. Minha cabeça estava um pouco melhor, mas a fraqueza continuava. Provavelmente de fome. Sentia meu estômago doer.
A sala da casa era igual à do último flash, com os mesmos móveis. Fiquei olhando o lustre de cristal, esperando Kyu fazer alguma coisa. Acho que esperei um convite para entrar.
– O que foi? Entra. – Fechei a porta atrás de mim depois que entrei, finalmente tirando os olhos do lustre. – Vem.
O segui pela casa, olhando para cada detalhe possível. O piso de tábua corrida, a parede azul clara, os quadros pela parede. Ele abriu uma porta num corredor e me deixou entrar.
Era um quarto, com um guarda roupa, uma cama e uma cômoda, uma televisão e um banheiro. Tirei os sapatos e me deitei, sozinha no quarto. Kyu sumiu.
Olhava o teto, pensando nos flashs que eu tive. Eu tinha dito que eu tinha falado com meu pai que ele devia ir embora. Mas por que eu diria isso?
Antes que eu chegasse a uma conclusão, Kyu voltou, carregando uma bandeja com duas tigelinhas. Me sentei, vendo a linha tênue de fumaça saindo das tigelas.
– Aqui, toma. – Peguei a tigelinha que ele me estendeu, junto com um garfo. – Espero que goste de macarrão instantâneo.
– Hum, eu adoro. – Sorri, cruzando as pernas. Soprei uma garfada, vendo Kyu comendo o macarrão quase todo de uma vez, com hashis.
– O que foi?
– Você come isso quente? E com hashis?
– Não é tão difícil. E sempre comi assim, sem soprar. – Ele deu de ombros. – Isso mata sua fome?
– Sim. – Continuei comendo, enrolando o macarrão no garfo. – É você que compra isso?
– Não, Kyle. – Ele sorriu. – É meio que a piada interna racista.
– Racista por que?
– Você é asiático, come logo. – Falava com uma voz fininha e apontando pra tigela. – Só que eu gosto mesmo.
Ri junto com ele. O resto do tempo passou num silêncio confortável. Confortável porque eu não tinha o que dizer.
– Tenho que ir para casa. – Olhei o relógio do meu celular. – Pode me levar?
– Já tem alguém lá?
– Talvez Elijah. – Dei de ombros, colocando a tigelinha de volta na bandeja. Ele ficou de pé, pegando as chaves sobre a cômoda. Joguei a mochila sobre as costas e o segui para fora do quarto.
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Achei uma chave na mochila enquanto mexia nos bolsos. Assim que consegui destrancar a porta com ela, Kyu se despediu e foi embora. Estava sozinha em casa.
Subi pro meu quarto, coçando o nariz. Minha cabeça ainda doía um pouco, mas logo passaria. Joguei a mochila num canto do quarto e sai do cômodo.
Aproveitei que estava sozinha na casa e saí olhando cada quarto, cada detalhe. Entrei no quarto de Elijah, acendendo a luz. A cortina deixava o quarto todo escuro. A cama desfeita, uma estante com um computador, alguns livros e CDs. Uma coleção de carrinhos e de latas de cerveja de diferentes países. O banheiro era quase igual ao meu, só que com uma toalha molhada no chão e uma pia com menos frascos.
Fui para o quarto no fim do corredor, empurrando a porta devagar. O quarto da minha mãe. A cama de casal estava no meio do quarto, com a cabeceira na parede. Tinha dois criados mudos, cada um com um abajur e alguns livros. Não olhei as gavetas. Tudo muito organizado. Acima da cama, havia um quadro: um desenho de toda a família.
Desci e fui até os quartos debaixo. Elijah me disse que era onde Jack e o resto da banda ficava quando iam para lá. Não entendi bem que banda, mas não comentei nada.
Aqueles dois quartos eram mais sóbrios. Duas camas em cada, um criado mudo entre elas e uma cômoda. Só isso. Mas ainda assim, era um bom quarto.
Voltei pro meu quarto, um pouco inquieta. Eu gostava daquela casa, era confortável. Principalmente meu quarto. Mas estar ali era como estar num outro lugar. Eu devia saber como era tudo ali, mas não sabia muito.
Tirei meus brincos e os guardei numa caixinha que ficava sobre meu criado mudo. Não me incomodei em trocar de roupa. Simplesmente fechei a cortina, me deitei e puxei um cobertor sobre mim.
E então dormi.
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