No More Secrets

3 O segredo escondido, um sentimento reprimido.


Notas iniciais
Escrevi esse capítulo ao som da música "Start a war" da Dom La Nena, parece que ouvir musica me faz ficar mais inspirado, pois esse foi o capítulo que mais rendeu até agora. De qualquer forma, espero que curta (no singular pq so uma pessoa leu a fic até agora XD) o/

Era o aniversário de catorze anos de Dipper. Era o primeiro em que ele passara após sua decisão de ficar em Gravity Falls. Era o primeiro sem Mabel. Ele havia esperado por ela o verão inteiro. Afinal, aquele também era o aniversário dela. Ele permanecia na mesma posição enquanto escutava o som interminável da chamada da linha do telefone. Ele sentia pelas primeiras vezes o sentimento de culpa. Dipper estendeu o braço, recolocando o telefone no gancho para em seguida lentamente se acomodar na cama.

Ele chorou entre os cobertores no sótão enquanto olhava para a outra cama do outro lado do quarto que permanecia vazia. Já havia sido um bom tempo desde que Stanley havia saído. Sim, ele havia abandonado a Cabana do Mistério e deixado o legado para Dipper. Havia ido para Vegas abrir o seu novo negócio com a ajuda de Soos e sua "humilde" fortuna que tinha acumulado durante todos aqueles anos. Naquele verão Wendy já estava para preparar o que ela precisaria para a faculdade naquele ano, tinha terminado o ensino médio.

Ele não tinha ninguém.

Ninguém exceto por Ford.

Mas, Ford um dia o abandonaria? Eles juraram que ficariam juntos. Mas, não há mais mistérios em Gravity Falls.

Não havia mais motivos para eles ficarem juntos.

Dipper conteve o soluço ao pensar naquilo. Ele não aguentaria viver daquele jeito. Ele não poderia deixar Ford ir. Não poderia decepcioná-lo em qualquer maneira.
Se esforçou para levantar.

“Você consegue.”

Ele deu os primeiros passos para fora do quarto. Se assustou. Escuro. Muito escuro. Ford por algum motivo havia fechado todas as janelas da cabana cedo demais. Ele olhou para o céu crepuscular que saía pela janela triangular do telhado, que lhe trazia a vaga memória do ano anterior.

Desceu as escadas em pulos. Lá estava ele. No corredor de luzes apagadas. Dipper passou o dedo pelo interruptor. Nenhuma lâmpada sequer se ascendeu. Ele ouviu um ruído. Havia sido tão inesperado que ele saltou em susto. Um brilho incomum vinha da porta da cozinha. Dipper logo ergueu o arador da lareira em defesa. Seu corpo se enchia de emoção com nos últimos tempos.

“Um monstro! Finalmente, um monstro!” Dipper refletiu em empolgação “Imagino como Ford vai ficar quando eu o pegá-lo...” ele sentiu o ador por dentro do peito. Ele quase podia ver, se fechasse os olhos, o sorriso torto de Ford orgulhoso em direção a ele. ‘Bom trabalho’ era o que ele iria dizer. Pine sorriu e correu em direção da maçaneta, abrindo a porta de uma vez.

A luz o consumiu. Não era nada parecido com o que ele havia visto antes.

A claridade foi diminuindo gradualmente.

“Céu...” pensou ele observando um grande e familiar céu azul. Ele abaixou o olhar e viu o gramado e os penhascos com as deformações extraterrestres.

— Estou... na colina de Gravity Falls? Algo me teletransportou para cá? – disse confuso em voz alta.

— Feliz aniversário Dip...

A frase vinda de trás dele o fez corar.

— ‘Tivô’ Ford... – ele disse virando-se ao encontro dele, estava como sempre, seu jaleco, o suéter de lã e o sorriso – O que é isso?

— Seu presente de aniversário. Bolha temporal.

— Bolha temporal?

— Sim, um circuito criado por mim. Você bem sabe que o seu aniversário é no fim do verão certo?

— Exato. – ele sorriu ajeitando os braços, curioso para entender a situação.

— Eu criei essa dimensão. Ela é a colina do OVNI exatamente do jeito em que nós estivemos no último ano. Congelada para sempre no verão.

— No dia em que você me mostrou a nave...

— Não Dipper. – ele lamentou – Não se refira a isso de um jeito tão banal. Foi o dia em que você salvou a minha vida.

Dipper ficou sem ar por um momento.

— Foi o mesmo dia em que eu descobri o quanto você era valioso – Ford continuou, Dipper ouviu o som da grama, que parecia tão real, sendo amassada pelos passos fortes de Stanford que se aproximava cada vez mais dele – Você, tão jovem, tão corajoso... Você Dipper, não salvou a minha vida fisicamente quando subiu naquela nave arriscando a si próprio por mim. Você me mostrou algo incrível que ninguém nunca havia me mostrado. A vontade de me proteger. Eu pude ver o quanto você se importa comigo. Eu vi pela primeira vez, o quanto eu era precioso para alguém. Você se arriscou para me salvar. Algo que nem o meu próprio irmão gêmeo fez quando pôde, como você já sabe...

As mãos pesadas do homem tocam os ombros do sobrinho. Dipper solta a respiração que esteve guardada dentro dele durante todo aquele momento, reprimindo os seus sentimentos de escaparem como uma serpentina.

— No final das contas, isso tudo foi para dizer... – Ford se parecia se preparar para dizer algo muito importante – Obrigado. Eu nunca tive a coragem suficiente para te dizer isso desde aquele verão.

Dipper abaixou a cabeça. Ele e Ford estavam tão próximos o que o fazia mal conseguir falar. Aquilo havia ascendido uma centelha de certeza no coração do pequeno Dipper.

— E-eu... Eu... – sua voz falhava, ele se sentia na pré-adolescência novamente. Ford deu uma breve risada.

— Você o que Dip? – sorriu abaixando a cabeça mais um pouco para tentar capturar a expressão escondida do sobrinho.

Ele foi de encontro ao tio. Seus braços consumiram o torno do peito de Ford, lhe prendendo num cinto de emoções. Ford parecia levemente surpreso pelo abraço inicialmente. Mas em seguida, também cedeu seus sentimentos. Dipper sentiu os braços firmes de Stanford o cobrindo, o cheiro especial que tinha o suéter dele... O garoto respirou fundo. Decidido.

— Eu amo você, Tio avô Ford...

— Também te amo, Dipper.

O garoto viu a tonalidade da frase do tio e se soltou dos braços dele imediatamente. Ele com certeza ainda não havia entendido.

— Esse é o problema! – o grito saiu mais espontaneamente do que ele esperava.

— O que...? – Stanford ergueu uma sobrancelha em confusão.
Dipper tentava dizer. Nada lhe saía. Ford começou a olhar para ele assustado – Dipper... Porque está chorando?

“Chorando?”

Ele passou os dedos sobre a bochecha. De fato, havia uma lágrima. Ele havia soltado seus sentimentos tão diretamente que nem veio a perceber que chorava esse tempo todo. Aquilo precisava ter um fim.

— Eu não te amo dessa forma que você pensa.

Pronto.

Ford apenas o encarrava. Dipper perdeu a noção do tempo que havia passado desde a sua confissão. O silêncio havia sido estabelecido. O menino levantou o olhar uma ou duas vezes para se deparar com a expressão de Ford numa mistura de confusão e choque. Sua vida acabaria ali. Agora Dipper seria julgado para sempre. Era o fim.

— Entendo.

O batimento cardíaco de Dipper disparou.

— Entende...?

— Dip, você se sente sozinho?

Dipper corou.

— Como sabe disso?

Ford suspirou se colocando de joelhos, na altura do garoto.

— Dipper, eu passei a maior parte da minha vida preso em outra dimensão cheia de monstros. Eu nunca tive amigos ou compaixão num lugar como esse. Acredite, ninguém melhor do que eu para saber o significado da palavra “solitário”. Não me subestime. É um sentimento tão arrebatador que eu posso ver o estrago a distâncias.

— Então... O que eu faço? – Dipper sussurrou coberto de vergonha. – Eu prometo que deixarei esse assunto para lá. Não vou mais mencioná-lo, eu sei que o que eu disse foi muito, muito estúpido. Eu estou apenas passando por uma fase na adolescência. Nem sei sobre a minha sexualidade. Então, por favor, esqueça isso e me perdoe.

Dipper entrou em desespero. Ele via a gravidade da situação agora como nunca antes. Ele precisava consertar aquilo rápido. Ele não podia perder o tio também. Ford suspirou mais uma vez diante daquela cena toda.

— Não tente contornar a situação agora Dipper. Precisamos resolver isso.

— Por favor... Não conte para ninguém... A nossa família seria destruída e...

Dipper se calou. O dedo de Stanford foi posto por cima de seus lábios. Ele agora olhava para ele mais uma vez. Dipper observava toda a extensão do seu rosto. Era reconfortante, o coração dele se acalmou de imediato, absorvendo o calor do toque de Ford numa satisfação absurda como se seus sentimentos pareciam ter abstinência daquilo.

— Eu não disse nada sobre contar a alguém. – o homem concluiu.

— O que devemos fazer?

Ford segurou um riso.

— Bem, eu não sei Dipper. É o seu aniversário. O que você quer fazer?

O sorriso torto. Ele havia dado o tão reconciliador sorriso torto. Dipper sentia seu corpo derreter. Não. Ele não podia de jeito nenhum dizer a Ford o que passava em sua cabeça em fazer com ele naquele momento. Era loucura. Seu tio provavelmente apenas queria lhe ajudar naquela situação. Dipper não poderia perder o controle das coisas.

— Não posso...

— Como? – o tio perguntou tentando se certificar.

— Nada. É que... Eu não sei. Qual a sua sugestão? Você é o inteligente aqui.

— Ah é? – riu.

— Sim.

Antes que Dipper pudesse dizer mais alguma coisa, foi surpreendido mais uma vez pelo toque de Stanford. Os seus dedos passaram entre o cabelo curto de Dipper fazendo toda a extensão das suas têmporas formigarem em vermelho vívido.

Os narizes se tocam.

Em seguida os lábios.

Os sentimentos se desenrolaram para fora de Dipper. Cada detalhe do corpo de Ford parecia ter uma reação no dele. As vibrações. Os dedos. Os movimentos. Dipper sentia a barba rasa lhe pinicar próximo ao pescoço junto ao contorno do queixo de Ford.
Ford afastou a cabeça lentamente. Dipper permaneceu de olhos fechados. Se recusava a acreditar naquilo. Até que por fim, as pálpebras se soltaram apenas para verem o seu tio avô sorrindo quase que ironicamente.

— Fui inteligente o suficiente para descobrir que era isso que você queria fazer?

Foi tudo que ele havia dito. Dipper corava cada vez mais.

“Impossível”

Era essa palavra que havia acompanhado durante toda sua vida. Agora mais do que nunca.

Stanford se aproximou mais uma vez, agora começava a entregar os beijos ao garoto no pescoço. Ele se assustou. Não era parecido com nada que ele havia experimentado antes. Dipper soltou uma espécie de suspiro, era estranho para ele, um suspiro misturado com uma tentativa falhada de dizer algo. Era um gemido que lhe escapou da boca.

— ‘Tivô’...

Quando ele se deu por conta, estava caído sobre o gramado. Stanford estava logo acima dele. O cheiro da terra... O céu quase ficando crepuscular... Ford com certeza havia trabalhado duro naquilo. Era como uma memória viva. Tudo era tão real e nostálgico para ser uma dimensão que Dipper desejou que a Bolha Temporal congelasse os dois naquele momento para sempre.

A sensação que teve na virilha o fez quebrar o raciocínio. Ford passava a mão por debaixo da sua camisa. Dipper tentou falar algo, mas não conseguiu. Ford o encarou quando notou o volume na bermuda do sobrinho e nas calças dele.

— Você... Está certo disso? – Stanford insistiu num tom baixo o que evidenciava o quanto ele estava sem graça.

— Ninguém irá nos ver aqui?

— Não se preocupe com isso.

Dipper não conseguia respirar. Tomou as rédeas dos seus sentidos e respondeu firme.

— Estou com você.

— Até o fim do mundo?

— Até o fim do mundo.

Notas finais
E ai...? desculpa nunca sei o que colocar aqui no final, o que esta achando? Bill Cipher confirmado no próximo capítulo. Até lá e espero que a história não esteja te fazendo desistir.