No Fluxo
1 Prólogo - Uma pedra no sapato
Notas iniciais
[Narrado por: Clara]
O som de uma lata de lixo caindo, não muito distante, serviu como aviso para que eu corresse ainda mais rápido. Precisava salvar o meu pescoço o quanto antes e sair dali, já! Pois nem mesmo o nascer do sol me ajudaria num momento como aquele.
Essa porra de sol, nem pra nascer duas horas mais cedo!
— CLARA! VOLTA JÁ AQUI, SUA P-
— VOCÊ QUE SE ATREVA A ME CHAMAR DE PUTA! VOU TE CASTRAR! — retruquei, ainda na correria, desviando de uma pedra enorme que tinha potencial de sobra para abrir um túnel na cabeça de alguém. — RÁ! Errou feio!
— Se você ficasse parada, talvez eu não errasse! — olhei para trás apenas por um momento, constatando que o ser energúmeno a me perseguir ainda estava de pijama (cá entre nós: um pijama bem gay, azul bebê e cheio de patinhos amarelos). — Anda, Clara! Devolve!
— Mas eu já comi! Não tem como devolver! — ri com gosto do grito irritado dele, muito semelhante ao som das inúmeras cornetas em época de Copa, e mais uma vez fui obrigada a desviar de um rochedo gigante em prol de continuar tendo uma cabeça logo acima do pescoço.
Àquela altura do campeonato, já tinha perdido a conta de quantos minutos (ou seriam horas?) haviam se passado, desde o começo daquela perseguição desnecessária. Eu corria com tudo o que tinha e não mais estranhava as ruas escuras e sem qualquer sinal de vida por onde passava. Era hábito passar a madrugada fugindo de um tolo que não sabe o que é dividir o rango.
— CLARA! — ele gritou novamente, e eu juro que senti algo muito perto de me segurar pelos cabelos logo depois. O desespero foi tanto que me virei de uma só vez e estendi os braços em frente ao corpo, já antecedendo o impacto que viria.
E foi certeiro.
Um segundo mais tarde e eu rolava pelo asfalto, feito pneu de carro em descida de ladeira. Céus! Acho que não tinha mais lugar para arranhões no meu corpo depois dessa.
Tentei abrir meus olhos, ao menos um pouquinho. Foi difícil, mas acabei conseguindo ter acesso ao que acontecia ao meu redor, ainda que tudo parecesse turvo e estranhamente duplicado.
Era só o que me faltava...
Mal concluí meus pensamentos e senti sua mão a me puxar pelo capuz do casaco que vestia, fazendo-me sentar no asfalto a contragosto.
— Eu tô toda dolorida, será que não podia esperar?! — resmunguei, pouco me importando se acabaria levando uma surra ou coisa assim. Já estava quebrada mesmo.
— Eu disse que tu ia se arrepender, não disse? — ouvi-o resmungar de volta, entredentes. Ele ficou mesmo puto por causa de um Panetini?
— É. Disse. E sabe o que foi que eu disse? — estapeei sua mão, fazendo-o me soltar. Não demorou nem um segundo para que sentisse seus malditos olhos verdes em mim, mais atentos a qualquer possível movimento meu. Não que eu fosse me mover tão facilmente depois de tudo, mas ok.
— Lá vem merda — ele revirou os olhos, entediado.
— Pois é. Eu disse um foda-se bem fodástico pra você. E você ficou putinho, né? Tão putinho que nem quis tirar esse pijama de franga antes de vir atrás de mim. — sorri presunçosa à medida que via a expressão facial de seu rosto mudar de tédio para raiva em instantes.
— É. Cê vai morrer.
Caralho, eu ia morrer muito!
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