O barco se movimentava com as marolas fracas produzidas pela brisa fria, soprando do continente mais próximo. Axel, que estivera remando, se levantou e passou o braço pela testa enxugando o suor.

—Estamos quase chegando — ele sorriu e retribui, sem muita vontade. Axel franziu a testa, preocupado, e voltou os olhos escuros para minha perna esticada sobre o fundo do barquinho — Está doendo?

Encolhi os ombros, olhando para o mar abaixo de nós. Vi algo se movendo rapidamente, com escamas verdes e reluzentes. Já fazia quase um mês que eu não via um peixe; um mês que saímos de Lima, navegando sem rumo. Ao longe, a silhueta de uma grande cidade se erguia; ou o que um dia já foi uma grande cidade. Mesmo de longe dava para ver que os edifícios estavam partidos, caindo aos pedaços. Uma massa disforme e escura surgia imóvel na água.

—Não falta muito, Mike — Axel voltou a remar, fazendo esforço ao empurrar a água densa cheia de sujeita. Eu queria ajuda-lo, mas não podia me forçar ao limite. Lembrei-de de quando conheci Axel, seis anos atrás, quando ele me encontrou boiando num pedaço de madeira, perdida no nada. Lembro-me de ter ficado assustada ao ver o grande e robusto homem negro me puxando para o seu barco, mas que começou a se mostrar confiável. Sempre fomos apenas nós dois contra o mundo — Aposto que há medicamentos aqui. Vai ficar tudo bem.

—Eu espero — minha voz saiu gutural, minha garganta estava seca com a falta de água. Levava muito tempo para purificar a água do mar, um tempo de que não dispúnhamos. Baixei o olhar para minha perna; novamente a atadura estava ensanguentada e suja, fazia muito tempo que não a trocávamos. Qualquer mísero movimento ela ardia em agonia, não importando o que fosse — Ou vamos ter que amputar.

—Nós vamos dar um jeito — Axel olhou por cima do ombro, a pele escura brilhando de suor — Sempre demos.

Suspirei, pendurando minha não pela amurada do barco, sem tocar na água. Eu não sabia qual era a quantidade química naquela região, então era melhor não arriscar. Não muito longe uma coisa alongada flutuava. Apertei os olhos e me estiquei, tentando ver o que era. Meu estômago revirou quando descobri ser um corpo.

—Tem zumbis aqui.

—Sempre tem — Axel não olhou para mim.

—Podemos chegar mais perto? — Não tirei os olhos do corpo, boiando com as costas nuas e imundas para o céu.

—Não — ele não pareceu assustado. Aquele tipo de pergunta vinda de mim era normal — E se não estiver morto? Dá para ver a cabeça?

—Não — cruzei os braços, deitando no banco de madeira — Afundou.

Não conversamos mais por todo o trajeto. Enquanto o barco balançava, rangendo, pensei no grande tsunami atingindo meu prédio, devastando o estado, então o país, e depois o mundo. Ninguém nos avisou antes; sabíamos que aconteceria, as calotas polares derreterem, mas não estávamos preparados. Me perdi dos meus pais durante o desastre; encontrei o corpo deles uma semana depois, uma semana inteira sem água, comida e interação social até encontrar Axel. Com a inundação, as usinas nucleares foram destruídas. Pareceria estranho na época, impossível, mas as bactéria infectadas, ao invés de morrer, ficaram necessitadas de um hospedeiro permanente. Mais especifico, um cérebro em bom estado, de preferência humano por oferecer maior resistência. Então surgiram os zumbis; as bacterias se alojaram nos corpos dos mortos, trazendo-lhes de volta à vida. Parasitas ambulantes, comandados por bactérias mutantes que se reproduzem pelos cérebros. Bem legal, eu sei, viver num mundo caótico e infectado.

Sai de meus devaneios quando o barco bateu na forma gigante que vi antes; era uma estátua, deitada e afundada até a metade. O rosto devia ter sido feminino em outro tempo, mas agora era coberto por cracas e musgo, a pedra desgastada. A volta de sua cabeça, eram visíveis quatro espetos fora d'água; um deles partido ao meio. Eu tinha uma vaga lembrança daquele monumento, mas seu nome não importava mais.

Axel conduziu o barco para dentro da cidade devastada. Passamos por entre os prédios em ruínas, desviando de destroços. Os edifícios estavam cobertos por plantas escuras e grossas, crescendo por entre rachaduras e janelas quebradas e imundas. Axel ancorou o pequeno bote de madeira em um pedaço de asfalto flutuante, preso em um edifício. Nas paredes do prédio havia desenhos grotescos que pareciam assustadoramente recentes. A tinta vermelha escura e muito familiar parecia escorrer ainda.

Me sentei e estiquei os braços para Axel, que me pegou e me colocou em seus ombros. Eu era pequena o bastante — e ele grande — para que fizéssemos isso sem problemas. Tirei meu revólver do cós da calça e o recarreguei enquanto Axel desembarcava, a machete enferrujada na mão esquerda.

—O que é isso? — perguntei apontando para a pichação — Parece novo....

—Há tribos aqui — Axel franziu a testa, desgostoso — Fique atenta, se ouvir ou ver alguma coisa, por menor que seja...

—Eu devo te avisar — revirei os olhos, cansada de ouvir aquilo mesmo que fosse necessário — Já sei, Ax.

Axel bufou como um touro e começou a caminhada, me sacudindo levemente em seus ombros. Tribos. Eu não ouvia essa palavra há tempo. As tribos eram grupos de pessoas, geralmente mais velhas, que lutavam pela sobrevivência e, na maior parte do tempo, pelo território. Se havia tribos nessa cidade, os recursos haviam se esgotado. Mas, vez ou outra, eu e Axel conseguíamos roubar algo; mesmo que a última vez tenha resultado em minha perna ferida.

—Se ver alguém — prosseguiu Axel, sussurrando — não atire. Se forem gente do bem, podemos pedir algo...

—Não existe mais gente do bem.

—... E, se não, o resto da tribo vai vir atrás de nós. Não atire. Eu posso correr.

Crispei os lábios e virei meu tronco, a arma firme em minhas mãos, quando ouvi um barulho. Axel me ensinou a perceber até o mínimo som, já que a audição dele não era mais muito boa.

—Axel, eu ouvi alguma coisa.

Axel se virou para onde eu apontada, os nós dos dedos pálidos enquanto apertava o punho da machete com muita força. Engatilhei a arma quando o som ribombou novamente pelo saguão iluminado pelo sol. Eu conhecia aquele barulho; os zumbis mortos por afogamento faziam aquele som, pois seus corpos eram cheios de água. Era como espirrar em uma piscina.

Uma sombra amorfa surgiu das sombras sob a escada destroçada. Era um homem, nu, apesar de não ser possível ver muita coisa por causa do limbo e dos crustáceos presos em sua pele. A barriga e membros eram estufados, cheios d'água. Os olhos sobressalentes eram vidrados no vazio, cobertos por uma película branca e viscosa, semelhantes a pérolas. A mandíbula estava deslocada e tinha uma espécie de planta marinha rosa meio transparente presa entre os ossos, dentes e pele. Os tentáculos da pequena planta caiam inertes, mortos.

O zumbi fez outro som gorgolejante, rastejando os pés escrustados. Axel avançou, enfiando a lâmina na cabeça inchada da criatura. Desviei o olhar quando o sangue velho, misturado à água, espirrou na camiseta de Ax. O zumbi ergueu os braços e caiu de joelhos, inerte. Axel puxou a machete e olhou em volta. O barulho feito pelo primeiro zumbi devia ter atraído mais, pois gemidos e gritos baixos vinham de todas as direções, junto com o som de coisas pesadas se arrastando pelo chão. Engoli em seco quando o primeiro, uma mulher, apareceu a uma janela tentando pular o parapeito.

—Temos companhia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.