No Compartimento do Expresso de Hogwarts
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Rapunzel's POV
– Flynn! — berrei quando seu corpo caiu no chão. — Flynn!
Duas das garotas me seguravam, e a terceira estava tentando me matar quando Flynn jogou-se entre nós. Lágrimas se acumularam em meus olhos ao olhar para ele.
Ao perceber meu sofrimento, a garota que tentara me matar sorriu. Então ela conjurou uma faca.
Era o tipo de faca que nós, trouxas, usávamos na cozinha. E que alguns de nós usavam em assassinatos. Isso me fez perceber o jeito com que ela me mataria.
Mas, contrariando minhas expectativas, ela abaixou-se ao lado de Flynn, e cravou a faca acima de sua cintura e abaixo de suas costelas.
Foi então que entendi o por quê da faca. Ela sorriu para mim de forma maldosa, e eu tive que desviar o olhar.
Ela o esfaqueou, mesmo já o tendo matado, para me torturar antes de me matar.
Uma das Comensais virou meu rosto, e me obrigou a olhar, mas eu mantinha meus olhos fechados.
– Crucio!
Eu sentia dor, e era somente nisso que eu conseguia pensar agora. Todos o meu corpo doía. A dor era tanta que, quando ela parou, havia uma espécie de eco dela, e continuou doendo, só que menos intensamente. Então a dor voltou, mas só no meu braço direito. Abri os olhos, e vi que a Comensal agora usava a faca para me cortar. Ela fazia movimentos circulares por todo o meu braço, desde a mão até o ombro, sendo que, no final, ela fez um 2. Foi ai que eu percebi que ela havia escrito "00000000000002" em meu braço. Olhei para Flynn novamente, e percebi que ela também fizera um corte em seu braço por cima do smoking. Em seu corte dizia: "00000000000001".
– Pronto, o número de traidores de sangue — ela apontou para Flynn — e de sangues-ruins que já matei e torturei. Agora só falta matar você. E não se preocupe, vou preencher todos esses zeros...
Ela me olhou, e foi para trás de mim.
E então começou a tirar a presilha de borboleta. Alias, começou a puxar a tal presilha, e ela puxava com tanta força, ao invés de abrir o fecho, que estava machucando meu couro-cabeludo. Quando por fim conseguiu tirar, ela sussurrou ao meu ouvido:
– Sabe, a atitude desse daí foi muito nobre. Mas eu vou contar-lhe um segredo que eu acho que ele não sabia: atitudes nobres geralmente são atitudes estúpidas. Ele não evitou sua morte, apenas atrasou-a.
Então, com a faca, ela cortou meu cabelo, deixando-o curto na altura da nuca. Ela limpou o sangue da faca em meu cabelo, e jogou-o em cima de Flynn. Ela posicionou-se novamente onde estava antes de Flynn morrer, e sorriu para mim de forma maliciosa.
Então eu tive um acesso de raiva. Aquela... pessoa... matara Flynn! Tirou-o de mim, e mais tarde meus amigos descobririam que ele fora tirado deles também. Ela não precisava me cortar para me fazer sentir dor. A dor já estava presente em mim, cada vez mais forte, quando eu olhava-o, frio e sem vida, no chão.
Usei toda a força que tinha e me joguei contra a garota que me segurava na esquerda, e soltei meu pulso, depois fiz o mesmo com a da direita. Peguei minha varinha, apontei para a garota que me mataria e gritei:
– Expelliarmus!
Virei-me para as outras e gritei:
– Estupefaça! Estupefaça!
Então me virei para a outra, que havia recuperado sua varinha.
O que eu tinha a perder naquele momento? Eu poderia matá-la se quisesse. Dava tempo ainda.
– Sectumsempra!
– Aaaahhhh! — ela gritou quando uma lâmina invisível cortou-lhe o peito.
Enquanto ela se contorcia e choramingava de dor, eu olhei para Flynn.
Tudo ao meu redor sumiu — eu já não ouvia a Comensal, não via a batalha ao meu redor e nem mesmo a Flynn. Eu só consegui pensar na dor de perde-lo.
Lembrei-me dessa noite, mais cedo, quando dançamos It Will Rain. Na hora, pareceu só mais uma música romântica para se dançar, mas agora a letra tinha um outro significado.
Eu não conseguia mais me lembrar de dias bons, dias felizes e ensolarados. Tentei pensar em quando eu e meus amigos nos divertíamos, mas só me vinham a mente dias nublados, dias em que houveram dor, em que houveram tristeza e em que eu, por algum motivo, chorei. Era como se toda a alegria tivesse se esvaído de meu passado, e do de qualquer um que eu conhecesse. E também não havia no meu presente, e não parecia que ia haver no futuro.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas nenhuma escorreu.
Voltei ao presente. Olhei Flynn novamente, e abaixei-me ao seu lado.
Coloquei meu cabelo ensanguentado por cima do corte que ele tinha na lateral do corpo, cobrindo-o, o meu sangue e o dele se tocando. Cobri também o corte em seu braço esquerdo.
Olhei para meu braço direito, para o corte. Não parecia tão ruim e, mesmo que estivesse, eu não me importava.
Minha atenção voltou novamente para o garoto na grama.
Beijei-lhe a testa e depois a bochecha.
– Me desculpe, Flynn — sussurrei, soluçando um pouco.
Uma lágrima minha caiu em seu rosto, e mais nenhuma saiu de meus olhos, apesar dos mesmo ainda estarem marejados.
Levantei-me e peguei aquela faca. O vestido longo me atrapalharia se eu lutasse. Pensando nisso, cortei-o com a faca ensanguentada, deixando minhas pernas a mostra — não gostava disso, mas era o melhor para que eu corresse.
Toquei meu cabelo, e percebi que ele estava na altura dos ombros agora.
"Mas ela não tinha cortado mais curto?!", pensei. Ignorei isso. Tinha outras prioridades agora.
Eu joguei a faca longe, e esta fincou-se no solo, perto da Comensal ensanguentada. Tirei os sapatos de salto-alto, para correr melhor, e peguei minha varinha novamente, a mão fechada bem firme em torno dela.
Eu suspirei. Talvez eu estivesse fazendo tudo errado, mas não importava mais. Flynn me fora tirado. E isso não passaria em branco.
As lágrimas ficaram ainda mais contidas em meus olhos — se é que isso era possível-, mas não saiam de lá, nem escorrendo nem voltando para dentro de mim. Elas pouco a pouco deixavam de serem lágrimas de tristeza e desespero, e passavam a ser lágrimas de raiva.
Ergui meus ombros, e caminhei para a luta, deixando para trás as duas Comensais adormecidas, a outra que agonizava, e o corpo sem vida de Flynn.
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