Notas iniciais
Para aqueles que tenham interesse no cast da história, as fotos dos intérpretes estão neste link: https://www.wattpad.com/1230707326-no-caminho-das-estrelas-elenco Playlist no Spotify da história: https://open.spotify.com/playlist/1CnLeDGGcPosRieA3meyp1?si=550a3fdb14d54121 E para os que preferirem, o capítulo em PDF com imagens/fotos e também trilha sonora estão no seguinte link: https://drive.google.com/drive/folders/1nqS-IL46bGLqrBWkNPsSO31DuhRxFAAG?usp=sharing Boa leitura!

A brisa marítima balançava suavemente as árvores próximas da orla da praia. Era uma madrugada clara, sem nuvens, e enquanto as estrelas reluziam no manto escuro da noite, elas também observavam o rapaz sentado na areia.

Dauá andou mais um pouco até chegar na beirada da areia e sentir seus pés serem lavados pela água gelada do mar, trazendo para ele a tranquilidade de estar em contato com a grande mãe natureza. Respirou fundo mais uma vez e se abaixou, passando sua mão na água salgada que vinha em ondinhas na sua direção até que sentiu algo e se levantou rapidamente, segurando uma pequena concha em sua mão. O homem rapidamente a guardou no bolso da bermuda e então olhou para o céu mais uma vez.

Foi quando ele viu a bola de luz reluzente que pairava sob o oceano e não ficou surpreso. No caminho das estrelas daquela cidade sempre tinha visto estranhas luzes, com diferentes formatos, que pareciam ser mais fortes que qualquer astro.

Mas era somente mais um de vários mistérios de Caminho da Anta.

A luz em um piscar de olhos se movimentou com rapidez, cortando o firmamento com seu brilho e luminescência, passando por cima de Dauá e da praia deserta, antes de sumir no meio das serras cheias de névoa que se erguiam do lado oposto do mar, guardando a cidade de males externos.

E naquele momento, o caiçara se arrepiou e segurou o colar que usava com uma pedra esverdeada e áspera.

Ele sabia que não estava sozinho naquela praia.

X-X-X

Era dezembro de 2022.

Sobre a cidade de São Paulo, o sol brilhava com intensidade, emanando seu calor para aqueles transeuntes que corriam com sua rotina diária, presos em uma selva de cimento e asfalto.

Era horário de almoço, e enquanto dirigia sua bicicleta pela ciclofaixa, ouvindo uma música nos fones de ouvido, os olhos pretos como jabuticabas de Paulo observavam o cotidiano de outros habitantes da cidade, que cruzaram com o seu. Passou por uma escola, onde observou pais que iam buscar seus filhos após as aulas da manhã. Um pouco mais a frente, notou que alguns homens vestidos com roupas sociais saíam pelo grande hall de um edifício comercial. Virou à esquerda em um cruzamento e por mais que a música que emanava do aparelho estivesse alta, não era o bastante para evitar as buzinas que ecoavam no trânsito caótico da capital.

O vermelho do sinal à sua frente o fez parar, e Paulo sentiu a mochila preta em suas costas pesar. Contudo sabia que estava perto da casa de sua amiga, portanto era apenas questão de tempo até que pudesse esticar as costas um pouco depois do caminho que fizera.

O rapaz de pele preta olhou ao redor mais uma vez e notou que à sua direita existia uma loja de presentes, decorada para as festividades de fim de ano. O chão da loja estava coberto de flocos brancos que simbolizavam a neve, remetendo ao feriado que estava para chegar e na entrada, árvores de Natal de diferentes tamanhos recepcionavam os clientes, assim como um homem vestido de papai-noel entregando folhetos para aqueles que passavam na calçada.

Paulo riu baixo.

Coitado, deve estar morrendo de calor com toda essa fantasia. — Pensou.

No fundo, o rapaz achava engraçado como elementos natalinos associados ao inverno rigoroso do Norte tinham sido incorporados ao Brasil, que passava justamente pela estação oposta. Não tinha neve caindo do céu, só chuva mesmo depois de um dia quente e abafado. E se o papai noel realmente viesse no dia 25, ele deveria estar de chinelos e pronto para ir a praia.

Os pensamentos atravessaram a mente de Paulo, fazendo com que ele se distraísse, não percebendo que o semáforo havia aberto. Entretanto, assim que notou que podia seguir viagem, logo o fez, deixando seus devaneios para trás. Sobre sua cabeça, os postes de luz vermelhos com as lâmpadas suzuranto, típicas do Japão, mostravam para Paulo o caminho a seguir através do bairro da Liberdade.

As luzes...

Paulo balançou a cabeça, novamente focando no seu trajeto, pois só aqueles pensamentos já o deixaram exausto, antes mesmo do assunto vir à tona. Embora ele soubesse que não podia escapar ou fugir, pelo menos aquela lembrança não precisava o atormentar diariamente. Ele já tinha problemas demais para se preocupar.

Paulo Roberto Costa dos Santos era seu nome. Um jovem como qualquer outro, no início de sua vida adulta, aprendendo a desbravar essa fase tão turbulenta, confusa e complicada. O início, o fim e o meio, todos ocorrendo simultaneamente. Mas ele sabia que isso não era exclusivo dele, todos os seus amigos passavam pelo mesmo momento, embora cada um trazia suas preocupações particulares do caminho em que seguiram.

E o de Paulo no momento era encontrar algum emprego fixo. Formado recentemente em Audiovisual, trabalhava em uma rádio da cidade até pouco tempo atrás, porém, com uma onda de demissões em massa que ocorreu na empresa, foi parar no "olho da rua". Atualmente fazia trabalhos como freelancer, mas queria mesmo encontrar um salário mais estável, principalmente porque ajudava nos gastos da família.

— Cara, você se cobra demais. — A voz de seu melhor amigo, André Cavalcante, surgiu em sua mente e Paulo sabia que de certo modo era verdade, pois até mesmo dona Fátima, sua mãe, concordava com isso e pedia para que ele ficasse mais calmo. No fundo Paulo tinha certeza que se tratava de sua mente pregando mais uma peça, mas às vezes ele caía na própria armadilha que o subconsciente criava.

Ao perceber que estava próximo de seu destino, o rapaz virou em uma rua com sua bicicleta e logo a freou, parando de uma vez o veículo de duas rodas na frente de um sobrado geminado antigo de cor bege. Apertou a campainha, localizada ao lado do portão branco e ouviu um sonoro "já vai" vindo de dentro da residência.

— Beleza! — Ele gritou de volta ao descer do veículo de duas rodas. Enquanto esperava, coçou a cabeça, passando a mão no seu cabelo castanho-escuro com fios encaracolados, sempre mantidos bem curtos por Paulo. Uma brisa de verão passou pelo rapaz em seguida, fazendo o ar ficar um pouco mais fresco e ele agradeceu mentalmente por isso, pois o calor daquela tarde estava insuportável.

Ouviu em seguida o barulho da porta da casa sendo aberta e de dentro surgiu uma moça de descendência japonesa, cujos cabelos longos e negros estavam amarrados. A moça de olhos castanhos e boca pequena vestia uma camiseta regata branca e um short jeans com barra desfiada, e carregava nas suas mãos um molho de chaves. Era ela, Dominique Takahashi.

— Você chegou bem rápido, Paulinho. — Ela falou, enquanto abria o portão.

— Sério?

— Sim, pensei que você ia demorar mais mesmo morando aqui perto. — Ela respondeu e assim que o portão se abriu, abraçou o amigo. — Como você tá, meu anjo?

— Na medida do possível, tudo bem. — Ele respondeu. — As coisas estão melhorando. Onde eu posso guardar a bike?

— Lá no fundo, igual da outra vez. — Ela falou, enquanto trancava o portão. — Pode entrar, mi casa es su casa.

— Valeu Dominique! — Ele falou, seguindo reto pela garagem até um corredor que dava para os fundos da residência.

Os dois tinham se tornado amigos após estudarem na mesma escola, embora em séries diferentes, pois ela era dois anos mais velha. Mas essa pequena diferença de idade não impediu que uma forte amizade se formasse entre os dois, tão forte que mais de dez anos depois a relação de irmandade entre eles prosseguia inabalável.

E aquele que ousasse estremecer as bases do laço fraternal criando discórdia entre eles teria que lidar posteriormente com a fúria da jovem. Amizade e confiança eram pontos essenciais para uma convivência saudável na visão da moça, e ela defendia seus amigos com unhas e dentes. Dominique também sabia que Paulo tinha esse traço de personalidade em comum, tanto que ele tinha discutido com outras pessoas apenas para defender a amiga de longa data, mesmo que alguns momentos não concordassem. Mas aí estava a beleza da amizade, pois discordar e possuir opiniões distintas de seus amigos era natural. Triste seria, para ela, que isso não ocorresse.

— O que você tá pensando aí? — Paulo falou, já tendo retornado para a garagem.

— Nada, só divagando como de costume.

— Aposto que é alguma ideia maluca pro seu podcast.

— Não é nada disso não, menino. Bom, vamos deixar de conversa e almoçar antes que minha mãe venha falar que a comida tá esfriando.

X-X-X

Dominique abriu a porta do seu quarto e o adentrou, sendo seguida por Paulo que deixou a mochila preta sobre a cama arrumada de forma impecável pela garota. Ele encarou a escrivaninha branca à sua frente e sobre ela viu um computador junto do microfone com condensador acoplado em um tripé utilizado por Dominique para as gravações do seu podcast. Na escrivaninha também estavam dispostos o headset usado por ela e alguns papéis com algo escrito, mas que Paulo não conseguiu ler. Presumiu que deveria ser alguma pauta do podcast que Dominique estava estudando.

A moça de 27 anos se dedicava primariamente ao "Quarto Fechado", como era chamado o seu projeto iniciado há alguns anos atrás. No começo, era tudo arcaico e feito na base da força de vontade da própria garota, mas com o aumento de ouvintes e popularidade que o podcast assumiu, conseguiu, através da ajuda de uma plataforma de financiamento, evoluir com o projeto. Comprou novos equipamentos, trouxe convidados, se firmou no gênero de crimes reais que vinha apresentando um crescente interesse de ouvintes brasileiros nos últimos anos.

Ela se orgulhava de ter o "Quarto Fechado" constantemente entre os podcasts do assunto mais ouvidos nas plataformas de streaming, tendo um foco primário em crimes reais brasileiros em oposição a outros projetos que lançavam luz a casos famosos e em muitas vezes, de origem estadunidense. Contudo, Dominique sabia que necessitava trazer novos episódios com outros temas para expandir seu público. Ela não encarava a chamada "podosfera" como uma competição e sim um local de amizade para trocar experiências, mas tinha que continuar crescendo, evitando permanecer presa em uma zona de conforto. Depois de explicar todos estes pontos para Paulo, finalizou sua fala:

— É por isso que te chamei aqui, meu querido editor. Você é parte disso que estamos construindo, se tiver alguma ideia...

Paulo, que estava sentado na cama da moça e com seu notebook aberto em mãos, encarava com uma face confusa a jovem sentada na poltrona giratória na sua frente.

— Você precisa de ideias novas pro podcast, é isso?

— Sim, se tiver alguma sugestão ou algo do tipo...

— Olha, eu escuto alguns podcasts e uma coisa que eles têm que você pode implementar seria uma interação maior com seus ouvintes. — Paulo falou.

— Maior? Como assim?

— Por exemplo, trazer um quadro em que você conta histórias dos ouvintes. Isso é algo que sempre dá certo.

— Eu tive uma ideia parecida, Paulinho. Dos ouvintes me enviarem relatos e coisas do tipo, mas isso esbarra em um problema pra mim: como eu vou contar relatos de crimes reais?

— Mas quem disse que precisa ser somente de crimes reais?

— Paulo, o meu podcast é sobre isso. — Falou Dominique.

— Sim, eu sei. Mas eu quero dizer que esses relatos podem ser sobre outros tópicos, dentro dessa bolha de casos insólitos.

Dominique o encarou, como se estivesse refletindo sobre a fala do rapaz.

— Você não disse que precisava ampliar seu público?

Ela balançou a cabeça.

— O problema é que isso levaria os ouvintes a enviarem relatos bizarros, mas que envolve o que chamam de sobrenatural. Eu não sei como lidar com isso, Paulo.

— Essa questão é difícil pra você, eu tô ligado. Bom, tu sabe minha opinião e por isso vou ficar quieto. — Paulo falou.

— Pois é. É que receber histórias de que um fantasma apareceu em casa foge um pouco do que eu acredito. Tudo tem uma explicação plausível, Paulo.

— Eu acho que você não deveria estar tão certa disso.

— Só que a gente precisa ter a cabeça no lugar. Já te falei! Não podemos ficar nos precipitando e acreditar em tudo o que aparece na nossa frente.

— Você parece até o Tobias falando assim. — Paulo riu, se referindo ao amigo deles em comum.

— Acho que o Tobias poderia ser um pouco mais maleável, mas eu concordo com o que ele fala na maioria dos casos. Claro que respeito a opinião de vocês, mas... Essas explicações místicas ou astrais, sei lá. It's not that deep.

Se você tivesse visto o que eu já vi, amiga... — Paulo pensou, porém respondeu a fala de Dominique de outra forma:

— Tá eu concordo. Mesmo porque essa parte do sobrenatural é baseada mais em crença do que em ciência, e tem muita coisa pra enganar trouxa nesse meio. Só que também tem muita coisa real e inexplicável nesse meio, Dominique.

— Inexplicável até agora. — Ela falou. — Mas voltando ao que interessa, eu até posso contar essas histórias mas... Eu não sei. Não me sinto confortável.

— E se você encarar o relato com uma história de ficção?

— Paulo, isso é complicado. Se o ouvinte manda um relato pessoal, e ele acredita que aquilo aconteceu de fato, não posso ler como uma história ficcional. É falta de respeito com quem confiou uma história pessoal a mim. Por exemplo, você lembra quando me contou sobre aquele pesadelo que você teve? Da figura no seu quarto?

Paulo se arrepiou da cabeça aos pés só pela menção daquela história vivenciada pelo rapaz há anos atrás.

— Tenho dúvidas se aquilo realmente foi um pesadelo. — Falou baixo. — Continua.

— Chuchu, me desculpa por fazer você lembrar disso. — Ela falou, sendo sincera. — Mas quando você me contou esse pesadelo, eu não duvidei que você passou por essa experiência. Claro que pra mim tem uma explicação, mas não encarei como algo ficcional. Então não posso ver os relatos da mesma maneira. Acho que deu pra entender agora, não?

Paulo meneou com a cabeça.

— É, teu raciocínio faz sentido. — Ele falou e depois de alguns segundos de silêncio abriu um sorriso. — Mas e se...

— E se o que, Paulinho?

— Alguém poderia fazer uma contraparte para balancear o episódio.

— Agora eu entendi tudo! Seu safado! — Dominique riu.

— Não seria a primeira vez em que eu apareceria num episódio, né? — Paulo falou. — Podia ser uma experiência interessante.

— E você conhece o podcast melhor do que ninguém. Não é uma má ideia, viu? — Ela falou, pegando o seu smartphone e abrindo o bloco de anotações. — Podemos rascunhar mais algumas coisas sobre essa ideia, não?

— Só preciso finalizar a edição do episódio antes, chuchu. — O rapaz falou. — Lembra que você disse que ia me ajudar? Por isso que eu vim.

— Meu Deus, esqueci! — A moça oriental respondeu. — Minha cabeça tá maluca menino. Ainda bem que hoje saímos de férias, até já arrumei as malas.

— Eu ainda não fiz nada... — Paulo falou, sorrindo, mas de vergonha.

— Você precisa ser um pouquinho mais organizado, Paulinho. Sempre falo isso.

— Tá tranquilo. Arrumo em dez minutos. — Ele respondeu.

— O André vai pegar você primeiro? — A moça perguntou. — Eu perguntei hoje pra ele que horas ia passar, mas não me respondeu ainda.

— Ele está trabalhando na clínica, por isso. Mas sim, depois passa pra pegar você.

— Depois precisamos falar sobre o André, viu? Ou você acha que eu não venho percebendo?

— Percebendo o que, Dominique? — Paulo perguntou.

— Não se faz de bobo, gato. Depois a gente fala, agora let's work bitch. Vamos tentar terminar tudo até às quatro da tarde, porque ainda precisamos nos arrumar.

Então Dominique encarou Paulo e somente pelo olhar o rapaz conseguiu entender o que a moça estava pensando.

— Caminho da Anta que nos aguarde, Paulinho.

X-X-X

Talissa respirou fundo e quando abriu os olhos, encarou o imenso tanque de água na sua frente e sentiu como se aquele elemento primordial estivesse chamando-a para entrar em seu território.

Com os seus longos cabelos castanhos soltos sobre o corpo, a moça então puxou todo o ar que podia enquanto ouvia vozes de crianças preencherem o espaço, ansiosas para conhecerem a sereia Pérola. Também escutou, lá longe, sua companheira de trabalho contar um pouco sobre a atração que estavam prestes a conferir, uma das mais aguardadas por aqueles que visitavam o aquário diariamente.

Quando recebeu o aviso que poderia se revelar para o público, Talissa, que estava sentada em uma pequena escadinha que levava para o tanque do aquário, mergulhou rumo à imensidão aquática.

Seus cabelos dançavam junto com a moça à medida que ela nadava com graciosidade, mas seguindo como de costume as técnicas que havia aprendido para finalmente se tornar uma verdadeira sereia profissional.

A cor perolada de sua cauda era a que dava o nome à sereia. Pérola. Uma joia fina e rara que vinha das profundezas do mar, encantando todos que entravam em contato com tal preciosidade. Um nome perfeitamente adequado para quem Talissa interpretava na atração intitulada "Encontro com as Sereias", que atraía pessoas de todas as idades.

Parou então na frente do vidro que a separava do público e começou a acenar para aqueles que a assistiam e como de costume, as meninas pareciam estar mais animadas, pulando e tirando fotos de Talissa e a moça entendia, afinal era uma figura em que elas poderiam enxergar a si mesmas, assim como ela própria quando era criança fora fascinada com o mito das sereias. Porém era perceptível que os meninos não desgrudavam o olhar da figura mágica de Pérola, perpetuando assim os mitos perpassados por séculos sobre o encantamento que as belas sereias exerciam sobre marinheiros desavisados. Os homens, de todas as idades, pareciam estar hipnotizados com o simples vislumbre de Pérola e isso a lembrava de quando suas irmãs mais velhas comentavam sobre como Talissa conseguia chamar a atenção e encantar, através da sua maneira particular, as pessoas com quem convivia no dia-a-dia.

Seja dentro de uma amizade mas também quando partia para o campo dos olhares, interesses e amores, Talissa exercia um certo fascínio nos homens e mulheres ao seu redor. Ela falava que era apenas bobagem, mas lá no fundo ela sabia que tinha um fundo de verdade. Talissa era protagonista da sua própria história, a líder de suas escolhas e de certo modo saber que podia exercer um certo controle era bom. Não podia deixar de confessar a verdade.

Ao perceber que precisava retornar à superfície para respirar, Talissa se despediu com um beijo subaquático, ao levar as duas mãos para a boca e mandá-lo para seu público. Todavia conseguiu surpreendê-los pois após retirar as mãos de seus lábios, durante o ato de enviar o beijo à distância, balançou as mãos na água criando um coração feito a partir de bolhas, provocando comemorações daqueles que a assistiam. Ela sorriu, encarando uma última vez o grupo e então se afastou do vidro, nadando de volta até alcançar a superfície enquanto sua colega de trabalho mergulhava para apresentar a outra sereia ao público.

Assim que saiu da água, a moça respirou fundo quase de forma ofegante, porém estava realizada por cumprir seu papel mais uma vez naquele dia. Já fazia algum tempo desde que Talissa passou a trabalhar como uma das sereias do aquário municipal, um serviço que embora fosse mágico, também exigia muito preparo físico da moça. Talissa precisava ter uma alimentação equilibrada e passava diariamente por uma bateria de exercícios na academia, tanto de resistência quanto de força, além de treinos de natação. Além disso, ainda precisou realizar um curso de apneia para conseguir ficar mais tempo embaixo da água, o que era extremamente cansativo porém recompensado pelo contato com o público e isso era o que fazia a moça acreditar que finalmente tinha encontrado seu trabalho dos sonhos, contudo demorou um tempo até ela seguir tal caminho.

Filha de pais naturalistas, Talissa viveu numa praia isolada até sua pré-adolescência, quando seguiu para São Paulo junto de suas irmãs mais velhas. Pouco tempo depois, seus pais também deixaram a comunidade alternativa e vieram para a capital, uma quebra de ambiente que acabou sendo sentida por todos eles, de modo que as viagens para o litoral se tornaram constantes e era em contato com a natureza e o ambiente praiano onde Talissa realmente se sentia plena e completa. Era quase como se ela fosse filha do mar, o que de certa forma se confirmou verdadeiro quando a moça passou a frequentar a Umbanda e descobriu em uma das giras que ela era uma das filhas de Iemanjá.

Foi como se tudo se encaixasse de uma vez em sua mente.

Ela posteriormente tentou seguir para uma faculdade e entrou no curso de biomedicina mas acabou por deixar a vida universitária, justamente quando o canto da sereia a chamou para trabalhar profissionalmente no aquário. Mas nem por um segundo se arrependia de ter entrado na universidade e na sua concepção de mundo, acreditava que o destino a tinha levado para aquela instituição.

Era uma predestinação já escrita que a fez conhecer em uma festa Tobias e André, que eram estudantes de física e veterinária. Eram cursos distantes do seu, mas aquelas vidas se cruzaram e a partir daí não se separaram mais. Para completar, na festa seguinte surgiram Dominique e Paulo, que já eram amigos de André desde a infância e também estavam inseridos na vida universitária e foi ali que aquelas cinco histórias nunca mais se desprenderam.

Até chegaram a chamá-los de "Clube dos Cinco", fazendo alusão ao antigo filme, mas Talissa preferia dispensar o apelido pois não gostava daquela obra cinematográfica, preferindo chamá-los simplesmente de "Família". Hoje, alguns anos depois, cada um estava em um momento diferente, mas a conexão entre eles prosseguia forte. Tão forte que eles estariam juntos mais uma vez, num local que sempre fascinou Talissa: a poderosa cidade de Caminho da Anta.

Curiosamente, seria a primeira vez de Talissa naquele município litorâneo mas conhecia bem o local devido às histórias de seus pais. Segundo eles, existiu, há décadas atrás, uma comunidade naturalista que escolheu a cidade por conta de, segundo alguns místicos, possuir um dos pontos energéticos da Terra. Estes pontos, chamados chakras, carregavam o planeta com energias telúricas e supostamente traziam vitalidade, conectando os seres humanos à mãe Terra. Como o chakra do planeta era um local com muita energia, quem iria para Caminho da Anta retornava diferente, mais alegre e mais harmonioso.

Pelo menos isso era o que contavam da misteriosa cidade. Talissa se interessava por tais assuntos que envolviam o esoterismo e misticismo, mas ainda mantinha um pé atrás ao mesmo tempo, o que ela julgava importante.

Se você não tomar cuidado, assuntos como estes podem fugir facilmente do seu controle. — Pensou. Para ela sempre existiu uma linha tênue entre tais assuntos holísticos e outras teorias que podem levar a caminhos não muito agradáveis como conspirações e seitas, então a moça sempre permanecia alerta quanto a isso. E claro, havia muitos charlatões nesse meio, algo que Talissa aprendeu a identificar com facilidade. Mas de qualquer forma, ela sentia que seria uma experiência interessante estar em uma cidade como aquela e também ansiava por conhecer um pouco mais do que havia por trás daquele conjunto sobrenatural.

Porém o mais importante de fato era estar junto de seus amigos, vivendo mais uma aventura e claro, descansar um pouco da rotina exaustiva que tinha como sereia. Ela amava a profissão mas não negava que necessitava de férias, e aproveitaria aquele momento para tentar se reconectar com ela própria e também com sua espiritualidade.

O mar estava a chamando novamente.

X-X-X

— Pronto, dona Bernadete. — O rapaz falou, olhando pra senhora na sua frente. — Seguindo essas dicas a Belinha deve melhorar bem rápido, esperamos que na consulta de retorno ela esteja bem melhor. Vai estar, né meu amor? — O rapaz disse, se abaixando e fazendo carinho na cabeça da pequena cadela de raça shih-tzu.

— Com certeza, né Belinha? Filho, muito obrigado por tudo. Qual é seu nome mesmo?

— André. — O rapaz falou, sorrindo.

— Isso, André! De novo, obrigada por cuidarem da Belinha, vocês merecem tudo de melhor. É muito bom ver um jovem como você empenhado em ajudar a vida desses pequenos.

— Que isso, dona Bernadete. — André respondeu. — Só estou fazendo meu serviço.

— Mesmo assim, meu querido, eu fico muito feliz. E claro que a Belinha também.

— Aqui, se ela tiver qualquer piora vem correndo pra cá, tudo bem? Mas tenho certeza que ela agora vai melhorar rapidinho, não é menina? — Ele falou. — Ah, pega alguns biscoitinhos pra dar a ela depois.

A senhora agradeceu mais uma vez e logo saiu da clínica veterinária, enquanto André foi ao banheiro lavar as mãos, voltando depois para o balcão, onde permanecia durante os plantões como estagiário do veterinário Cláudio. O trabalho era prazeroso apesar de também ser cansativo, entretanto André gostava dessa rotina corrida. Já estava acostumado.

Observou mais uma vez com seus olhos negros o relógio pendurado na parede, percebendo que logo o tempo de plantão se encerraria e aparentemente não haveriam mais clientes até o momento em que iria embora. Passou a mão no seu cabelo escuro e depois na sua barba recém-aparada e recostou no balcão de novo, com sua mente já no passeio que realizaria mais tarde.

A ideia de fazer uma viagem em grupo sempre rondou os amigos, mas André foi talvez o maior responsável em levar essa ideia adiante, especialmente quando decidiram que gostariam de fazer uma viagem à praia. Então André uniu o útil ao agradável e os falou que sua família tinha uma casa de praia mantida por sua tia que residia no terreno ao lado. A casa tinha sido colocada para aluguel em temporadas e inclusive estava em aplicativos como o Airbnb, pois ajudava a pagar as contas da residência praiana e por isso, quando André levantou a ideia, precisou entrar em contato com sua tia Antônia para saber como estava o calendário e por sorte a casa estava liberada.

E desse modo, há semanas atrás, foi decidido que eles passariam alguns dias na cidade de Caminho da Anta assim que todos saíssem de férias. Paulo e Dominique trabalhavam como freelancers e Tobias, que era professor e universitário, já tinha entrado de férias. Só faltava Talissa e André, e para ambos, este era o último dia de trabalho.

Curiosamente aquela tarde estava pouco movimentada no consultório veterinário em comparação com outros dias. Já fazia alguns meses que André trabalhava como estagiário junto a Cláudio na clínica e por isso teve tal percepção, pois geralmente o consultório lotava. O rapaz também estava prestes a terminar a faculdade de Medicina Veterinária e André sabia que assim como em outras áreas, as ofertas de emprego permaneciam escassas, então torcia para que fosse efetivado após o estágio, mesmo que trabalhando como ajudante de Cláudio. Ao mesmo tempo que desejava isso, André tinha profundo interesse em realizar uma residência após a faculdade e se especializar na área cirúrgica.

Assim como seus amigos, estava naquele ponto exato da vida em que está se firmando no mercado de trabalho, mas também ainda possuía o contexto de formação universitária. Era uma transição, em que oficialmente você não era mais o jovem de antes e estava abraçando a vida adulta, um momento que gerava indagações sobre o futuro e crises sobre qual era o caminho a seguir. O mundo girava cada vez mais depressa e nesse carrossel caótico planetário você deveria embarcar e tentar se segurar e seguir, mesmo com seus temores. E era isso que André tentava fazer. Um dia de cada vez, sempre em frente, embora passos para trás eram comuns.

Para ele, a vida nunca seguiu um parâmetro linear e na realidade, estávamos mais próximos do caos do que da ordem. Contudo André não se considerava uma pessoa pessimista, eram apenas divagações que tomavam conta de sua mente, um processo inevitável do dia-a-dia.

De repente, sentiu o celular vibrando no seu bolso e o retirou, vendo que sua tia havia enviado uma mensagem.

"Boa tarde sobrinho! Tudo bem? Está tudo pronto pra que você e seus amigos possam vir para a casa, viu? Peço só que me avise por volta de que horas vocês devem chegar pois ainda precisarei dar a chave a vocês. Manda também um beijo pra Lúcia."

Um arrepio de ansiedade passou pelo seu corpo ao perceber que sim, todos os seus planos para viagem em grupo estavam dando certo e André sabia que estava precisando de um descanso depois dos últimos meses em que se desdobrou entre o estágio, a faculdade e o famigerado TCC que precisaria apresentar no próximo semestre. Ele definitivamente não precisava de outros problemas em sua rotina e essa viagem seria ótima para fazer com que ele esquecesse de tudo, pelo menos por uns dias.

E seria bom também reencontrar sua tia Antônia, mais conhecida como Nini, a quem não via há algum tempo. Durante a infância sua família costumava ir até Caminho da Anta constantemente, mas com o passar dos tempos essas visitas passaram a ser mais raras muito por conta da rotina corrida que possuíam. Mas André sabia que também existia um leve atrito entre sua tia Nini e sua mãe, Lúcia Cavalcante, devido aos caminhos do destino que ela optou por seguir.

Nini era uma figura excêntrica e pelo o que André sabia, era dona de uma loja de produtos místicos bem no centro da cidade litorânea, sendo uma figura bem proeminente na região. Ele previa que Talissa se daria muito bem com sua tia, mas às vezes ficava com medo do que poderia acontecer em relação a Tobias. Não que ele não fosse respeitoso com as crenças de sua tia, longe disso, contudo previa que um assunto em específico poderia gerar um certo desconforto no grupo: a ufologia. Antônia era ufóloga assumida, assim como seu tio, e André conhecia Tobias mais do que o suficiente para saber que aquele tópico mexia com seu amigo. O medo de uma torta de climão surgir era real, todavia André confiava tanto em Tobias quanto em Nini para saber que nada aconteceria.

Quanto a ele, não sabia dizer sua sua real opinião quanto a esses assuntos, de modo que ficava muito em cima do muro. Por um lado, ele queria acreditar e sua curiosidade falava alto, porém por outro lado, a sua parte mais racional, sempre dizia que isso era uma perda de tempo e duvidava veementemente de quaisquer tópicos que envolvessem o sobrenatural ou o lado mais místico e espiritualista da vida.

Fugindo de seus pensamentos, destravou o celular e quase estava pronto para enviar uma resposta para sua tia, contudo uma outra mensagem chamou sua atenção. Era Paulo, seu melhor amigo desde a infância.

"André, que horas cê vai me buscar msm? Tô me programando aqui com a Dominique pq to terminando de ajudar ela com o pod."

"Pô, era as 8 que a gnt combinou, não?"

"Amigo não lembro, por isso tô perguntando KKKKKKKK"

"Porra Paulinho, me ajuda a te ajudar. Acho que era as 8 msm. Pq? Cê acha que não vai estar pronto?"

"hummm"

"Qualquer coisa eu pego o resto da galera primeiro. Prefere?"

"Não pode deixar, tá suave. Passa lá em casa às 8 que é sucesso."

"Tem certeza?"

"Absoluta meu lindo."

"Lindo é?" *figurinha*

"Vai se fuder, André"

Paulo não viu, mas do outro lado da tela do celular, André abriu um sorriso.

X-X-X

A música que saía dos fones de ouvido Bluetooth servia de trilha sonora ambiente enquanto o rapaz de cabelos castanhos e ondulados arrumava a pequena mala de viagem de cor azul. O objeto estava aberto sobre a cama do seu quarto pequeno, enquanto o ventilador de chão que possuía girava, enchendo o ambiente com uma brisa para enfrentar o calor que fazia na selva de pedra.

Tobias Montenegro Uchoa então se virou, encarando através da janela aberta do seu quarto, o horizonte de prédios que se erguiam diante dos seus olhos. O estudante de Física atualmente dividia um apartamento com mais quatro amigos que moravam na capital paulista, pois o aluguel não era dos mais baratos. Ao contrário de seus amigos Paulo, Dominique e André, Tobias não era natural de São Paulo e na realidade vinha do interior do estado, próximo da fronteira com Minas Gerais, o estado em que seu pai tinha nascido.

O rapaz sempre fora muito mais próximo da família paterna do que da materna, e durante sua infância havia passado muito tempo na casa do seu avô e grande herói, Antônio, um autêntico "mineiro raiz" que se tornou a grande inspiração de vida e sabedoria para Tobias. Ele se lembrava com saudade dos tempos de infância em que passava na casa do seu avô, o cheiro de café recém-passado junto com o de um bolo de fubá quentinho, que também fazia sua boca salivar. Os sons do sino da igreja, o carro do padeiro passando na rua, ele ouvindo os causos que seu avô contava. Tudo isso fazia parte de uma memória distante, mas simultaneamente acolhedora, trazendo uma nostalgia que o deixava feliz.

Enquanto relembrava o passado na pequena cidade em que seu avós moravam, Tobias encarou uma pequena foto que guardava em sua carteira, levemente desbotada pelo tempo mas que mostrava ele, por volta de sete anos, abraçado com seu Antônio na frente da antiga casa de cor azul claro. A imagem tinha ficado com sua família em um álbum de fotografias, mas desde o falecimento de seu Antônio, a alguns anos atrás, o jovem passou a carregá-la consigo, uma forma de manter a memória daquele senhor sempre viva, mesmo depois do fim inexorável da vida.

Isso aconteceu algum tempo depois que Tobias já havia se instalado em São Paulo, após passar em uma concorrida faculdade de Física na capital, levando o menino do interior a enfrentar de frente os perigos e mistérios da cidade grande. Na época chegou até a pensar em trancar a faculdade e deixar tudo de lado, mas manteve-se firme, principalmente com o apoio dos seus amigos da universidade recém-feitos e seguiu adiante. Física não era exatamente um curso fácil, muito pelo contrário, Tobias sofreu e não foi pouco, mas felizmente estava finalizando sua graduação e já estava empregado, dando aulas de Matemática numa escola local.

Nos tempos atuais, Tobias visitava seus pais com certo costume, contudo já havia se instalado de vez na capital e desejava, ao menos por enquanto, continuar vivendo na selva de pedra pois possuía planos concretos de tentar uma bolsa de mestrado assim que finalizasse a sua graduação. Ele pensava alto, mas sempre mantendo os pés no chão, pois ao seu ver, sonhar demais poderia ser perigoso.

E Tobias queria se prevenir dessa queda inevitável.

Ele sabia que suas visões de mundo às vezes provocavam debate no seu grupo de amigos, especialmente quando diziam que ele poderia ser mais maleável ou então era pessimista demais, mas o rapaz não enxergava dessa forma e sempre respondia com uma frase que levou para a vida do poeta Ariano Suassuna.

"Eu não sou otimista nem pessimista, porque os otimistas são ingênuos e os pessimistas amargos. Eu sou um realista esperançoso."

Era algo assim, não?

O que importava era que Tobias sempre foi uma pessoa mais centrada e mais realista, todavia que não deixava de ter esperança de que poderia alterar o status quo ao seu redor, especialmente quando falava do campo científico, tão atacado até mesmo por fontes oficiais governistas, que levavam desinformação para um povo desesperado por respostas. Tobias sabia que não era fácil, mas ainda mantinha um fio de confiança de que poderia vencer a batalha.

Acima de tudo, ele era um homem da ciência.

E ele precisava ser, era a única forma de enfrentar o grande trauma que consumia sua família. As risadas escondidas, os olhares de pena e deboche, aquelas visitas indesejadas que somente buscavam fama... Tobias somente queria esquecer aquele passado de traumas que consumiu os Montenegro Uchoa, fazendo aquele fatídico sobrenome se tornar famoso em todo o Brasil. Mas ele sabia que nunca conseguiria escapar dessa sina plantada pela mídia antes mesmo de nascer.

Uma vez que você era um Montenegro Uchoa, aquela história te acompanharia para todo o sempre.

The people are talking, people are talking. The people are talking, people are talking. — Ele ouviu a voz feminina em seus fones dizer. As pessoas realmente estavam falando, sempre falando... Foi assim durante sua infância, sua adolescência e quando achou que finalmente estaria livre, sendo mais uma formiga no formigueiro de milhões de pessoas da capital, ainda estavam falando dele.

— É Lorde, pois deixe que falem. — Tobias falou sozinho, ainda encarando a foto, enquanto ouvia a cantora neozelandesa dizer exatamente isso na música.

No fundo, era isso mesmo. Assim que tocaram pela primeira vez naquele assunto que envolvia sua família, deixou claro que não gostava daquela questão particular e não levaria adiante, mas era óbvio que muita gente falava pelas costas de Tobias sobre o passado midiático do seu sobrenome. Sim, ele se irritava profundamente, mas no fim, desistiu. Deixe que falem, eu sei que a verdade não foi aquela.

Meu avô nunca foi louco. — Pensou.

Guardou a imagem de volta na carteira e escapando das reflexões da sua mente, voltou a focar na mala de viagem. Em uma época normal, estaria indo para o interior do estado encontrar sua família, todavia tinha adiado seu retorno para passar um tempo com seus amigos durante as tão sonhadas férias. Não seria a primeira vez em que realizariam uma viagem em conjunto, mas essa seria a maior até então. O plano era passar cerca de dez dias no litoral e Tobias não poderia negar que estava animado, afinal fazia um bom tempo que não visitava a praia.

O seu único porém era a cidade de Caminho da Anta e as supostas lendas que atravessavam o local, envolvendo aquele famigerado tópico. Mas ele simplesmente poderia evitar tudo isso e aproveitar o que a natureza tinha concebido na região, sem se importar com histórias fantasiosas ou confusões que faziam sobre pontos científicos que poderiam ser explicados. Aquele seria um momento para relaxar a sua mente merecidamente depois do último semestre e por breves dias, parar de pensar em números, fórmulas ou cálculos. E se ele estava fugindo de tópicos da vida em que ele gostava de conversar, nunca procuraria problemas com assuntos que não tinham afinidade nenhuma com o que acreditava.

Ele só queria relaxar assim como todos os outros cinco amigos. Queriam se divertir e esquecer da vida corrida que possuíam na cidade grande, aproveitando as belezas e encantos de um lugar único nesta viagem que seguiria através de um caminho vindo diretamente das estrelas.

O que Tobias ou nenhum deles sabia era que aquelas estrelas seriam muito mais do que guias astronômicos para a sua aventura. Elas também estavam os observando, apenas esperando o momento certo para descerem em direção à Terra.

E uma vez que isso acontecesse, não haveria mais retorno.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar!