No Caminho à Princesa
1 Capítulo 1 – A Primogênita
Essa, de certa forma, é mais uma história de reis e príncipes. A diferença, é que a história não está na bravura de um príncipe, mas na doçura e simplicidade de uma princesa. Porém, para que eu possa relatar seu nobre gesto, primeiro terei que narrar seu trágico passado.
Em um pequeno castelo no alto de um monte rochoso, morava uma princesa sorridente e cheia de sonhos. A doce criança crescia alegremente com a presença de seus dois irmãos mais novos, cujos nomes eram Cecília e Gabriel.
No castelo, um reinado promissor se iniciava. O líder de um pequeno vilarejo há pouco havia sido proclamado rei. Os habitantes clamavam por uma figura que desse segurança ao povo. Então, as obras para erguer a casa da família real foram construídas às pressas e finalizadas em tempo notável.
O povoado, entusiasmado com o novo reinado, comemorava os frutos de seu esforço. Não diferente era o rei, que, ao lado de sua rainha Lúcia, mãe de seus três filhos e fiel parceira, se animava com o futuro da sua pequena nação e de sua família.
Alguns dias após a conclusão das obras, Varlon, o rei, levou sua filha mais velha para um passeio ao redor do castelo. No percurso, súditos o paravam a todo instante para saudá-lo. A princesa, admirada com o respeito das pessoas com o seu pai, sorria de orgulho. Apesar dos contratempos, a caminhada era curta e Varlon logo chegou a sua última parada: uma das quatro torres do castelo.
Para que ficasse a sós com a filha, ele dispensou todos os guardas que ali estavam. Ao adentrar na torre de vigilância, rapidamente correu para o parapeito, presenciando a bela vista do local.
A primogênita, temerosa e em passos lentos, se juntou ao pai, que de imediato a levantou no colo para que pudesse ver o cenário.
O vilarejo se prostrava ao pé do monte, em um terreno plano, sendo possível enxergar alguns corpos e cabeças se movimentando entre ruas de terra batida, além das humildes construções feitas de madeira e palha.
O sol do meio-dia deixava tudo iluminado e belo, colírio para os olhos do rei, que, nessas condições, apresentou à sua princesa sua herança:
— Elara? Está vendo esta casa aqui perto do reino? – ela balança a cabeça, dizendo que sim.
— Está vendo aquela última casa do vilarejo? – a filha se estica para ver.
— Aquela última da esquerda – ele reitera.
— Aquela, papai? – ela indica a casa com seu pequeno indicador.
— Isso! Aquela mesma! – ele sorri em seguida.
— Dessa casa aqui – ele aponta com o dedo – até aquela outra – ele aponta novamente – é tudo seu, seu e de seus irmãos. É o legado que seu pai, o seu rei, tem para você. A maior riqueza de um rei é seu povo, e você, junto dos seus irmãos, terá que cuidar dessa riqueza.
Ele faz uma breve pausa para apreciar a vista e volta a dizer:
— Você é a mais velha, minha filha, e terá que cuidar para que nenhuma pessoa de fora, nem mesmo seus irmãos, tirem isso de vocês.
A expressão séria da princesa indica um entendimento do recado. Por isso, Varlon não sente mais a necessidade de aconselhamentos. O rei prefere agora aproveitar o momento a sós com sua filha para contemplar o reino.
Metade de um ano se passa, e a vida no vilarejo não é mais a mesma. Apesar da almejada paz por parte de outros reinos ser conquistada, uma outra ameaça se vê presente. As histórias de fortes relatos de uma criatura no alto das montanhas se espalhavam. Por vezes, rugidos eram ouvidos por todo o reino, causando temor até nos mais corajosos cavaleiros. A presença de um monstro naquelas terras era evidente. Por esse motivo, o rei, temeroso de um enfrentamento com a fera, queria adiar a todo custo esse embate.
Entretanto, não se podia mais demorar. O perigo morava ao lado, e o povo, revoltado com a negligência da monarquia, encaminhava uma revolta: "É a criatura ou o rei!"
Com isso, providências foram tomadas. A realeza publicou um decreto onde os melhores combatentes do vilarejo foram convocados a irem nessa encruzilhada.
No dia da caçada, sobre o piso novo e polido do saguão de entrada, onde poucos criados acompanhavam a despedida, o rei, ainda em seu castelo, reuniu sua família. Seu ritual de adeus começa pelos filhos mais novos, com abraços e beijos, até chegar em Elara, que, de frente para ela, observa a filha triste e se ajoelha.
Os olhos de Elara se enchem de água. Não é novidade seu pai ir para uma batalha, mas, em todas as despedidas, um sentimento aflitivo invade seu coração. A possibilidade de ele nunca mais voltar é sua maior angústia. Pequenas gotas caem apressadamente por sua bochecha. Varlon faz questão de limpar suas lágrimas com carinho:
Fale com o autor