No Brilho Dos Seus Olhos
3 03. Resiliência
Notas iniciais
INT. APARTAMENTO DA PENNY – SALA DE ESTAR E COZINHA – DIA
Sheldon está sentado no sofá da sala, enquanto Penny está deitada e repousando a cabeça em seu colo. Na televisão, eles estão reassistindo ao filme “Wall-e” da Pixar Animation Studios. O filme ainda está no começo, após a chegada de EVA. Eles assistem ao filme atenciosamente, mas Penny parece estar segurando uma enorme vontade de chorar.
PENNY: — Eu não acredito que até esse robozinho consegue encontrar alguém e eu não.
SHELDON: — O que é uma constatação incorreta, já que sendo um robô e, portanto, uma máquina, o Wall-e não deveria ter sentimentos nem uma personalidade, sendo guiado unicamente por sua diretriz de limpeza da Terra.
PENNY: — Tipo você e sua física chata?
Ligeiramente irritado, Sheldon dá um leve tapinha na cabeça dela, arrancando uma risada tímida de Penny, que apenas se divertia provocando ele.
PENNY: — Eu só estava brincando.
SHELDON: — Pelo visto, então, você gosta é de afastar as pessoas de você.
PENNY: — Qual’é, Sheldon? Foi só uma brincadeira, mas pelo menos, se você se irritou, quer dizer então que você tem emoções e, portanto, não é um robô.
Sheldon olha para ela com desdém.
SHELDON: — Por que todo mundo acha que eu sou um robô? Eu como, respiro e defeco como qualquer ser humano normal.
PENNY: — Sheldon, não é que as pessoas achem você um robô, mas uma parte essencial de ser um ser humano é a capacidade de seguir tanto a razão quanto a emoção, isso se um dos lados não estiver desiquilibrado, o que é o seu caso. Você é muito racional e pouco empático, o que faz você irritar, chatear e magoar as emoções das outras pessoas sem perceber.
Sheldon olha para ela com uma expressão apreensiva. Penny se levanta e o encara de pé.
PENNY: — Veja que até o Wall-e, mesmo sendo uma máquina, demonstra empatia e compaixão por outros indivíduos e de forma espontânea. Você deveria ser assim.
SHELDON: — Mas eu sou empático e demonstro compaixão pelos outros.
PENNY: — Jura? — comenta ela em desdém.
SHELDON: — Claro.
PENNY: — Então, tá. Sabia que o Howard é um brilhante engenheiro e a engenharia é uma das áreas mais interessantes da ciência para mim.
Sheldon gargalha do seu jeito abafado, com Penny apenas o olhando em reprovação.
SHELDON: — Engenharia, que idiota, haha!
PENNY: — Tá vendo, é disso que eu estou falando. Desde que nos conhecemos, você sempre menosprezou o Howard e a profissão dele, sendo que a engenharia é tão importante quanto a física. Tá certo que o Howard não é lá um exemplo de ser humano com suas taradices, mas toda vez que você debocha dele e da profissão dele, você só faz se parecer como alguém maldoso e desprezível para as outras pessoas. Tem gente que acha que você é uma pessoa perversa, sem coração e que menospreza as outras pessoas porque suas pesquisas são fracassadas e nunca vão te levar a lugar nenhum.
Sheldon se levanta de sobressalto, completamente perplexo com o que acabara de ouvir, ficando de frente para ela enquanto se encaram.
SHELDON: — Como assim minhas pesquisas são fracassadas e não levam a lugar nenhum?
PENNY: — Tá vendo, quando se trata do Howard, você não pensa duas vezes antes de falar mal do trabalho dele, mas é só alguém falar do seu trabalho que você já se agita. Além de hipocrisia, você deixa bem claro para todo mundo o quanto você é egocêntrico.
SHELDON: — Mas minha pesquisa é muito importante. A teoria das cordas pode nos ajudar a desvendar os grandes mistérios do universo.
PENNY: — E você já desvendou a teoria das cordas?
Sheldon fica pasmo com a maneira como Penny estava o confrontando, encarando-o com uma leve expressão debochada.
SHELDON: — Bem, eu... Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas quando eu chegar...
PENNY: — Quando chegar e se chegar!
SHELDON: — Mas o que é que você está querendo dizer com tudo isso, afinal?
PENNY: — O que eu estou querendo dizer é que se até você tem dificuldades no seu trabalho, isso não o torno nem melhor e nem pior do que todo mundo. Você é um ser humano que pensa e sente como todos os outros, mas como você não consegue enxergar isso, você precisa viver nesse seu mundinho dentro dessa sua cabeça onde você acha que você é perfeito e os outros não, quando na verdade você não é. E é por causa disso, de você se achar melhor do que os outros, que você não consegue ser empático e nem ter compaixão, o que faz você magoar os sentimentos das outras pessoas e ser visto como mal.
SHELDON: — Belo discurso vindo de quem não conseguiu conquistar nada na vida.
PENNY: — Tá vendo, é disso que eu tô falando. Esse seu ego é tão grande que você não suporta que outras pessoas te apontem e a única forma que você encontra de lidar com isso é fazer as outras pessoas se sentirem mal até você se sentir melhor. Isso é o completo oposto de empatia.
SHELDON: — Então você acha que eu tenho problemas para mostrar empatia pelos outros?
PENNY: — Eu não acho nada, Sheldon. Você é que dá a razão para essa ideia.
SHELDON: — Então, se eu sou uma pessoa tão ruim assim e sem escrúpulos como alguns dizem que eu sou, por que é que você fica perto de mim se eu firo os seus sentimentos?
PENNY: — Porque eu gosto de você, Sheldon. É por isso.
Sheldon se sente tocado pelas palavras que Penny havia dito, abrandando uma sensação de raiva que estava crescendo dentro dele com a discussão.
SHELDON: — Como assim, você gosta de mim?
PENNY: — Puxa, Sheldon, quando eu te conheci você era um completo estranho para mim, mas olha só agora. Você é o meu melhor amigo! Você me faz rir e chorar, e às vezes você me irrita tanto que eu tenho vontade de te bater, mas aí quando eu vejo, nós já estamos bem de novo e nos divertindo juntos. Eu já não sei mais como a minha vida poderia ser sem você. Olha só o que você fez por mim hoje quando eu mais precisei de alguém. Eu acho que nem você seria capaz disso se fosse o Sheldon que eu conheci quatro anos atrás.
SHELDON: — É, você tem razão. Eu nunca largaria meu trabalho por nenhum motivo, mas hoje eu senti que você precisava de mim, então eu fiquei. Eu não faria isso por ninguém, mas eu já me acostumei tanto com você na minha vida que ajudar você me fez bem. Eu até me diverti arrumando sua casa com você hoje.
PENNY: — Você está ouvindo o que você está dizendo? Porque é exatamente aonde eu queria chegar. Hoje você mostrou que pode se colocar no lugar do outro e ajudar alguém em necessidade, mas esse seu lado é tão raro de ser visto que é por isso que muita gente prefere se afastar do que ficar perto de você. Por que você não é assim o tempo todo?
SHELDON: — Emoções são uma perda de tempo e induzem as pessoas a tomar decisões ilógicas.
PENNY: — As emoções são tão importantes quanto a lógica e a razão, Sheldon.
SHELDON: — É, mas as emoções são responsáveis pelas pessoas brigarem com as outras, fazer mal a alguém quando sentem inveja e agirem de forma idiota quando não pensam direito. Enquanto isso, a razão e a lógica levaram a humanidade a prosperar através do avanço e desenvolvimento da ciência.
PENNY: — Sim, a razão ajudou na ciência, porém, sem a emoção como apoio, um monte de gente inventou a hierarquia social, bomba atômica, concentração de riqueza nas mãos de poucos, além de desigualdade e fome mundo a fora. Quantas guerras e sofrimento a razão sem emoção causou pelo mundo?
SHELDON: — E quanto sofrimento você acha que as emoções sem razão trouxeram?
PENNY: — Essa discussão não está levando a lugar nenhum.
SHELDON: — Nisso, eu concordo.
INT. PRÉDIO – ENTRADA E TÉRREO DO PRÉDIO – DIA
Leonard e Pryia entram no prédio do apartamento dele e começam a subir as escadas rumo ao apartamento de Leonard e Sheldon no quarto andar. Leonard está no telefone tentando ligar para alguém, mas sua cara de preocupação evidencia que ele não está tendo sucesso.
LEONARD: — Ele não atende ao telefone.
PRYIA: — Vai ver ele ficou ou voltou para casa e decidiu se isolar. Você sabe como o Sheldon é.
LEONARD: — Eu sei, mas ele nunca faltou ao trabalho a não ser quando ele adoece, o que é muito difícil de acontecer com as manias de higiene que ele tem.
PRYIA: — Calma, Leonard. O Sheldon deve estar bem!
INT. APARTAMENTO DA PENNY – SALA DE ESTAR E COZINHA – DIA
Voltamos para a sala do apartamento de Penny, onde ela e Sheldon ainda estão em pé se encarando enquanto discutem.
[Trilha Sonora: “Another Love” de Tom Odell]
PENNY: — Sheldon, por acaso você tem medo dos seus sentimentos?
SHELDON: — Claro que eu não tenho.
PENNY: — Então me diga uma coisa, por que é você não busca se relacionar com alguém?
SHELDON: — Eu já disse, eu não vejo relevância nessas relações.
PENNY: — Mas não foi o que você disse em seguida, que sente pavor de sofrer tomando o exemplo da sua mãe e do seu pai.
SHELDON: — Eu disse isso sim, mas foi num momento de intimidade e conforto emocional com você.
PENNY: — Tá vendo? Você tá fugindo das suas emoções de novo. Você tem medo é de sofrer por causa delas.
SHELDON: — Não, eu não.
PENNY: — Sério? Agindo dessa forma birrenta?
SHELDON: — Mas o que é que você quer de mim?
PENNY: — Eu quero que você fale a verdade para si mesmo, Sheldon.
SHELDON: — Que verdade?
PENNY: — Do seu medo.
SHELDON: — Eu não tenho medo.
PENNY: — Você tem sim. Só não quer admitir.
SHELDON: — Tá, é isso que você quer ouvir, pois então eu digo. — Explodiu ele aos gritos, enquanto começava a chorar. — Eu tenho medo sim de gostar de alguém. Eu tenho medo de gostar muito de alguém e essa pessoa me deixar como meu pai deixou a minha mãe.
INT. PRÉDIO – ESCADARIA DO 3º ANDAR – DIA
Leonard e Prya finalmente chegam ao terceiro andar, quando se assustam com o grito emocionado de Sheldon.
SHELDON (Fora de Tela): — Eu não quero chorar e passar anos da minha vida me sentindo preso dentro de mim como minha mãe ficou depois que meu pai morreu. Era isso que você queria ouvir?
PRYIA: — Mas o que será que está acontecendo?
LEONARD: — Vamos lá ver!
INT. APARTAMENTO DA PENNY – SALA DE ESTAR E COZINHA – DIA
Penny e Sheldon continuam de pé um de frente para o outro enquanto discutem, mas Sheldon agora parece estar abalado e chorando em demasia.
PENNY: — Sim, Sheldon, era o que eu queria ouvir. Era o que você precisava ouvir e vindo de você mesmo.
SHELDON: — Por que está fazendo isso comigo, Penny?
PENNY: — Porque eu te quero bem, Sheldon, é só por isso. E você precisa abraçar seu lado emocional se quiser ser feliz.
SHELDON: — E como eu posso ser feliz?
PENNY: — Compartilhando sua vida, seus sonhos e, principalmente, seus sentimentos com as outras pessoas. Só assim você pode ser feliz.
SHELDON: — Para, isso está me fazendo chorar!
PENNY: — Você está chorando porque guardou suas emoções por tanto tempo que agora não consegue controlá-las mais.
SHELDON: — Chega, eu não quero mais ouvir! Eu não devia ter ficado aqui com você.
PENNY: — Então por que você ficou comigo hoje, Sheldon?
SHELDON: — Porque eu gosto de você, Penny. Eu gosto mesmo de você.
Penny se espanta com essa revelação, ficando boquiaberta, mas tampando a boca com as mãos. A reação de choro de Sheldon começa a cessar conforme ele encara Penny envergonhado, percebendo o que acabara de dizer.
É então que finalmente reagindo a tudo isso, Penny se lança sobre Sheldon, passando as mãos em torno de seu pescoço que, sem resistência, a envolve na região da cintura com suas mãos enquanto a boca de ambos se cola em um longo e ardente beijo terno e apaixonante. Contudo, é nesse exato momento que a porta do apartamento se abre, com Leonard e Pryia que entraram ali rapidamente após ouvirem todo o alvoroço da discussão deles e se espantando com a cena que estavam presenciando. Pryia fica completamente perplexa ao ver Sheldon e Penny aos beijos, mas Leonard encarava os dois com uma expressão de fúria e ira incalculável.
LEONARD: — Mas o que vocês estão fazendo?
Sheldon e Penny se assustam e separam-se rapidamente, ficando lado a lado enquanto encaram Leonard e Pryia parados na porta do apartamento dela.
SHELDON: — Leonard?
LEONARD: — Posso saber o que está acontecendo aqui?
PENNY: — Olha só, Leonard, não é nada demais!
LEONARD: — Nada demais? Você estava aos beijos com o Sheldon. COM O SHELDON!
PRYIA: — Hey, um momento, Leonard! O que você tem a ver com isso?
LEONARD: — Fica quieta, Pryia! — bravejou ele ao falar, assustando-a de modo que ela resolveu permanecer quieta.
PENNY: — Escuta aqui, Leonard, em primeiro lugar, nós não somos mais namorados, então não vem com essa de dizer quem eu posso beijar. E segundo lugar, o que tem demais em eu beijar o Sheldon?
SHELDON: — Você ainda gosta dela, Leonard?
LEONARD: — Será que você não percebe que ela está te usando?
SHELDON: — Me usando?
LEONARD: — Mas é claro. Ela não está feliz com a nossa separação e ainda sente inveja que eu arrumei alguém melhor que ela como a Pryia, e está usando você que é o meu amigo para me atingir. Será que não percebe isso?
Sheldon se vira para Penny, encarando-a com dúvida em sua face.
PENNY: — Não é verdade, Sheldon! Você sabe disso.
LEONARD: — Não é verdade? Me diga uma coisa, onde você passou o dia todo?
SHELDON: — Eu fiquei aqui tomando conta da Penny, porque ela não estava se sentindo bem.
LEONARD: — Pois é, pois eu e os meninos percebemos sua falta e ficamos preocupados com você, te caçando por todos os lugares enquanto ela te mantinha aqui preso.
PENNY: — Preso não. Ele ficou comigo porque ele quis!
LEONARD: — Sério? O Sheldon escolheu ficar com você?
SHELDON: — É verdade, Leonard. Eu quis tomar conta dela hoje. Como eu disse, ela não estava se sentindo bem.
LEONARD: — E por que ela não estava se sentindo bem?
Sheldon encara Penny que também o observa olho a olho, mas de repente, uma expressão de desapontamento toma o semblante de Sheldon, fazendo Penny perceber que aquele olhar de decepção era para ela.
SHELDON: — Porque ela estava triste porque você seguiu em frente com a Pryia enquanto ela está se sentindo só.
LEONARD: — Está vendo? Ela te usou. Ela estava se sentindo solitária e usou você para suprir a solidão dela. Ela nem mesmo gosta de você. Quase ninguém gosta de você. Você é muito insuportável às vezes, mas eu te tolero porque é meu amigo e colega de quarto. Só que eu não vou permitir que ela use você para me atingir.
PENNY: — Te atingir?
LEONARD: — É, me atingir. Você está arrependida de ter me largado agora que sabe que estou com a Pryia e achou que usar o Sheldon iria me irritar de alguma forma. Mas o seu plano não deu muito certo, não é?
PENNY: — Leonard, você é um idiota! Eu nunca iria usar o Sheldon para fazer provocações em você. Eu gosto do Sheldon como ele é.
LEONARD: — Gosta mesmo? E aquelas vezes em que você dizia que tinha vontade de matá-lo?
PENNY: — Como se eu fosse a única que sentiu isso antes? Mas eu sempre me entendi com o Sheldon e comecei a gostar dele de verdade. Hoje ele é o meu grande amigo e gosto muito de ter ele por perto.
LEONARD: — Se ele é seu grande amigo, por que você o estava beijando como se fosse seu namorado?
PENNY: — Eu... Bem, eu... — Ela coça a cabeça, sentindo-se embaraçada.
LEONARD: — Tá vendo, sem resposta.
PENNY: — Não é isso, é que eu fiquei surpresa quando ele disse que gostava de mim e eu percebi que ele não estava falando como amigo.
LEONARD: — O Sheldon gostar de você como uma mulher? Ele nem sabe o que é gostar de alguém além dele mesmo.
PENNY: — Sheldon, fala alguma coisa! Vai ficar aí parado só ouvindo?
LEONARD: — É, Sheldon, fala alguma coisa e prove que eu estou errado.
Mas Sheldon apenas encarava a todos com uma expressão confusa e atordoada. Ele começou a recuar alguns passos, sentindo-se meio tonto e abalado, quase caindo ao tropeçar no carpete. Penny notou e tentou se aproximar para ajudá-lo a se equilibrar, mas ele a afastou.
PENNY: — Sheldon, você está bem?
SHELDON: — Me deixem em paz, todos vocês!
E após gritar, Sheldon saiu correndo para a porta, empurrando Pryia e Leonard para os lados enquanto corria para a porta do seu apartamento.
PENNY: — Tá vendo só, você o deixou nervoso. Eu vou falar com ele!
LEONARD: — Não, você fica aqui! A culpa disso tudo é sua! Você não deveria ter beijado ele para início de conversa.
E bravejando, Leonard empurrou Pryia para fora do apartamento de Penny, fechando a porta em seguida com bastante violência, criando um som rompante pela sala. Abalada, Penny se sentou no sofá e começou a desabar em choro, enquanto massageava a boca com uma das mãos, ainda sentindo a sensação da boca de Sheldon na sua.
PENNY: — Não, não é verdade. Aquele beijo... Eu senti. Eu posso jurar que senti. — E continuou a chorar em demasia.
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