Notas iniciais
Boa leitura, pessoal!

Já havia se passado uma semana após o jogo. Já nem estava mais pensando no garoto lindo do estádio. Ótimo, acabei de pensar. Que ódio. O Kevin estava sendo muito legal não contando ao papai e vou dever á ele pra sempre. Hoje eu vou conhecer o meu local de trabalho e quando eu contei pro papai ele sorriu e em vez de falar o quanto está orgulho de mim, fez o favor de dizer que eu não fazia mais do que minha obrigação. Que eu saiba, eu só tenho uma obrigação. Estudar. Não é assim que meu pai pensa.

---Agora? Mas ainda é muito cedo. ---falou minha mãe.

---Você vai continuar nesse trabalho quando começar suas aulas? ---perguntou meu pai.

---Vou. Meio período, mas vou. ---falei decidida. ---Ou você acha que eu vou conseguir ter o dinheiro que eu preciso em dois meses?

---Bem... Não quero que você largue os estudos. ---falou ele encarando o jornal.

---Não vou. Sei lidar com ás duas coisas.

---E quanto tempo você vai trabalhar por dia? ---perguntou minha mãe me encarando como se eu fosse uma alienígena.

---Das dez, ás seis da noite. Meu turno. ---falei levantando os papeis.

---Isso não está certo. Era pra você aproveitar suas férias. ---disse minha mãe.

---Vou aproveitar mais quando eu ganhar meu teclado. ---falei obstinadamente olhando meu pai.

---Que obsessão! ---exclamou meu irmão. Eu ia dá um murro nele, mas não queria que ele abrisse a boca pra falar o que não devia.

---E além do mais... ---continuei o ignorando. ---é só três dias por semana, segunda, quarta e sexta. O cara me deu uma folga por que a namorada dele é minha amiga. E eu nem sabia disso. ---acrescentei sussurrando abismada.

---A Kelly? ---perguntou minha mãe. ---Ela namora um dono de um bar?

---É mais um restaurante. ---tentei sorrindo amarelo.

---Cristo. Não sabia que ela era assim.

---Fala sério! Ela é Bahia, tá? Vocês deixaram bem claro que só isso importava!

---Seu pai disse. ---se defendeu.

---Tenho que ir. Não quero me atrasar para o meu primeiro dia de trabalho! ---falei beijando todos e saindo.

¨

Assim que cheguei ao bar/restaurante onde ia trabalhar, procurei o dono, senhor Cleandro. Eu só tinha falado com ele por telefone e o nome não faz jus ao homem. Ele é alto, forte e bonito. Ele não é tão bonito quanto o garoto lindo do estádio, mas é razoavelmente bonito. Meu Deus, será que toda comparação tem que parar nele?

---Pode me chamar de Cléo ou de Cleandro. Nada de senhor! ---falou sorrindo gentilmente me levando até a cozinha.

---Fico com Cleandro. ---sorri.

---Esses são seus colegas de trabalho. Patrick, Clara e Matheus. ---disse me apontando enquanto falava. O tal Patrick era baixinho e muito magro, Clara, á única garota, era linda. Seus cabelos escuros batiam na cintura e seus olhos eram verdes. Matheus era o mais bonito, alto e relativamente forte. ---Existem duas cozinhas, vocês quatro são responsáveis por essa.

Fiquei impressionada.

---Olá. ---falaram os três olhando pra mim, me avaliando.

---Oi. ---falei tímida. Depois fui puxada para o outro lado.

---Depois você conversa com eles. ---disse sorrindo. ---Vão conviver muito um com o outro.

Não sabia se gostava muito disso.

---Vou dizer mais ou menos o que você precisa saber. ---continuou. ---Patrick e Clara são os cozinheiros e você e o Matheus vão servir. Nada de contar pra que time você torce. Isso pode acabar com qualquer possibilidade de uma boa convivência no trabalho. Ou melhorar, mas não temos como saber.

Acenei. Sabia como era isso.

---Basicamente é só isso, mas há uma coisa que eu preciso saber: Você sabe servir?

---Sei. ---disse sem hesitar.

---Digo, você sabe não berrar com o cliente caso ele faça alguma coisa errada, ou te trate de forma errada? ---falou. ---Também sabe carregar mais de uma coisa em cada mão?

Olhei assustada pra ele.

---Bem, eu... Eu não vou berrar com o cliente, não sou barraqueira, mas...

--- Não se preocupe, com o tempo você aprende a ter uma melhor coordenação motora. ---falou me levando até o caixa. ---Esse aqui é o Marcos. ---e então apontou pra um cara negro e com cabelo Black Power. ---Marcos, essa é a Sofia, a nova garçonete.

---Iai? Você não vai esmurrar um cliente também não, né? ---falou rindo. Cleandro o deu um olhar ameaçador e se virou pra mim.

---Eu espero que eles não me deem motivo pra isso. ---disse brincando.

---O problema é esse. ---falou sorrindo. Gostei desse Marcos.

---Não ligue para o Marcos, a graça dele é fazer graça. Mas no final ele não tem graça nenhuma. ---falou Cleandro sorrindo.

---Isso não tem graça. ---resmungou Marcos, mas percebi que estava brincando. Depois voltou ao seu jeito brincalhão e olhou pra mim. ---Pra qual time você torce?

Fiquei em pânico.

---Eu... Eu não posso dizer. ---falei nervosa olhando pra Cleandro que riu olhando pra mim.

---Essa, com certeza, vai ser minha fiel escudeira. ---disse sorrindo. ---Mas pode dizer para o Marcos. O único que pode saber, ouviu?

---Bahia. ---responde tímida.

---Das minhas. Eu não sou preconceituoso, fico na minha. ---falou sorrindo abertamente.

---Até com os Vitorianos? ---perguntei abismada.

---Bem... Eu não gosto deles, mas também não vou destrata-los. ---disse normalmente. Fiquei admirada e um pouco chocada, afinal eu fui criada pra detestar até a morte um Vitoriano. ---Ainda bem que você ficou com o segundo turno. O ultimo é o pior, acredite. ---continuou sorrindo sombriamente.

---O que tem o ultimo turno? ---perguntei curiosa.

---É a hora que os traídos, os que traem, traficantes, drogados, barraqueiros, novatos, e velhos vem beber. Não é nada agradável. ---falou. Tive vontade de rir, mas em vez disso perguntei:

---Novatos? Quem são?

---Os jovens que acabaram de fazer 18 anos. Eles acham que são os caras só por que chegaram na maior idade. ---falou dando de ombros. Eu fiquei aliviada por não estar nesse turno, mas também curiosa pra saber como é.

---Todo dia eles fazem a maior cena. É engraçado. ---falou Cleandro rindo. Eu sorri imaginando. Com certeza os meninos da minha escola vem aqui dá uma de adulto.

---Estou curiosa. ---falei entusiasmada.

---Um dia eu deixo você ver como é que é. Hoje você vai conhecer o seu turno. Os seus colegas de trabalho vão te ajudar nisso. ---disse Cleandro.

---Depois a gente se vê loirinha. ---Falou Marcos sorridente. Fico meio constrangida por ele me chamar de loirinha, mas sorriu de volta acenando.

Volto pra cozinha e encaro meus novos colegas de trabalho.

---Ela está na mão de vocês. Ensinem á ela tudo que ela precisa saber. ---disse Cleandro. ---Cuidem dela!

---Pode deixar chefinho. ---Disse Matheus sorrindo amplamente. O povo daqui era muito alegre. Chegava a contagiar.

---E então? O que eu preciso saber? ---perguntei sorrindo. Matheus foi pra frente, provavelmente pra falar alguma coisa, mas Clara foi mais rápida dando um cutucão nele.

---Eu falo. ---disse Clara, ele deu á ela um olhar ameaçador, depois voltou para o seu lugar. ---Você vai ter muito tempo pra falar com ela, Matheus. Enfim... Sofia... É Sofia, não é? ---pergunta em duvida, eu aceno e ela continua. ---Bom... Não há muita coisa pra se aprender a não ser o fato de que somos pouco para o tanto de gente que vem comer.

---O almoço é a pior parte. ---falou o garoto que eu acho que se chama Patrick. ---Os pedidos são grandes, e são muitas pessoas. Ás vezes você pode confundir os pedidos, pessoas... Isso é normal, o pior é quando você topa com um cliente barraqueiro. Você não pode se rebaixar ao mesmo nível que eles.

---Pelo amor de Deus, não faça como a Neusa, ela se estressou com uma cliente que ficou reclamando do nosso camarão, e jogou o camarão todo na mulher. ---disse Clara.

---Foi demitida, é claro. O que levou a você. ---disse Matheus me olhando intensamente. Corei e olhei pra outro lado.

---Você tem que se controlar e tentar acalmar a cliente. ---falou Patrick.

---Provavelmente fazendo uma negociação. ---disse Clara.

---Ok. ---acenei tentando armazenar tudo.

---O que seria bom era se você conseguisse levar o máximo de coisas possíveis, além de ganhar tempo, o cliente te dá gorjetas. ---disse Matheus sorrindo.

--Um problema. Tenho uma péssima coordenação motora. ---Falei e na mesma hora me lembrei de que o garoto lindo do estádio falou a mesma coisa. Deus, tudo leva á ele. ---Mas, talvez eu possa aprender.

---Se eu te ensinar, é claro. ---disse Matheus piscando pra mim. ---Venha, hoje eu vou te deixar expert em servir mesas.

---Por favor, não quebrem nada! ---implorou Patrick na cozinha.

Estávamos no salão onde varias mesas de madeiras ficavam espalhadas pelo local. Não parecia nada com um bar. Mas tinha percebido que uma parte separada do salão continha um balcão com uma estante de bebidas atrás. Aposto que ali fica os cachaceiros. Em cima tinha uma televisão grande pra entreter.

---É Pior em dia de jogo. O salão fica abarrotado. ---disse seguindo meu olhar. Olhei pra ele. ---Hoje você só vai observar.

---Como vai conseguir fazer tudo sozinho? ---perguntei, enquanto ele pegava duas bandejas.

---Na hora do almoço é mais difícil, mas se for igual a ontem eu consigo. Talvez gostem da comida da Clara e do Patrick. ---falou rindo. Matheus era cativante. Era muito fácil gostar dele.

---Eu posso ajudar com pequenas coisas, tipo, pegar refrigerante... ---tentei, não achava justo ele fazer tudo sozinho sendo que eu estava lá pra trabalhar.

---Não se preocupe meu bem, eu me viro. Além do mais eu já estou acostumado. ---falou, eu continuei olhando pra ele sem aceitar. ---Tudo bem, ok? Se quer tanto me ajudar, você vai pegar os refrigerantes.

Não achei bom o suficiente, mas se iria ajuda-lo...

Ele me levou á um canto afastado do salão para que não houvesse plateia, sorte que o restaurante estava vazio.

---Não quero que fique concentrada em nada mais, só em mim. ---falou me olhando com aqueles olhos azuis. ---Quero que aprenda o mais rápido possível.

---Certo.

---Primeiro vou te ensinar logo como carregar uma bandeja sem deixar nada cair. ---disse pegando ás duas bandejas, deixando uma de cada lado, com um refrigerante em cada uma delas. ---Está vendo? Se concentre no que está segurando.

Fiquei olhando atentamente pra ele, mas não achava que isso iria me ajudar, só na pratica.

---Que tal me dar? ---falei estendendo a minha mão. Ele me olhou descrente por um momento, depois ficou preocupado.

---E se você deixar cair? E se você cair? ---perguntou com ás sobrancelhas franzidas.

---Você levou bem a sério quando eu disse que tinha uma péssima coordenação motora, não foi? ---perguntei.

---Não era pra levar? ---falou sorrindo confuso.

---Só me deixe tentar. ---implorei em duvida, nem eu sabia se era confiável.

Ele me olhou analisando ás opções que tinha e depois cedeu.

---Cuidado meu bem, não quero ter que chamar a SAMU aqui. ---disse brincando me entregando uma bandeja, primeiro. ---Vamos ver como você se sai com uma só.

Eu parecia me sair nem muito bem, nem muito mal, até que ouvi sua gargalhada no fundo. Me virei devagar e o encarei.

---Fiz alguma coisa errada?

---Graças á Deus não, mas é que você está andando como um robô. ---falou me imitando. Eu não estava andando assim! Não que eu saiba. ---Mas, veja pelo lado bom, ---ele olhou pra mim. ---Você não derrubou nada.

Não sabia se ficava feliz por não ter derrubado nada ou triste por andar como um robô.

---Você me disse pra eu me concentrar no que estava segurando! ---falei o acusando. Ele sorriu e veio até mim.

---Você está se concentrando demais. Não pode se preocupar em derrubar o que está segurando. Ande tranquila, confiante. ---disse pegando a bandeja e mostrando pra mim.

---Não vou conseguir. ---disse triste vendo sua demonstração perfeita.

---Claro que vai, eu prometo. Agora... ---ele olhou pra mim, depois olhou para uma foto de hula-hula. ---Tenho uma ideia, pense em qualquer coisa que te atraia, que prenda a sua concentração.

Na mesma hora pensei no garoto lindo do estádio. Mas depois expulsei essa imagem e pensei em outra coisa, como um jogo qualquer do Bahia.

---Pensei.

---Agora ande até onde eu estou. ---falou depois sorriu. ---Só espero que não esteja pensando em mim.

Eu sorri e pensei no ultimo jogo. Comecei a andar devagar, mas meio dura. Matheus passou a mão pelo cabelo em sinal de frustração, mas depois olhou pra mim.

---No que está pensando? ---disse, eu parei. ---Não, não. Continue andando. Agora responda. Andando.

---No jogo do Bahia... ---depois me arrependi de ter falado, como eu sou idiota. Agora ele vai saber...

---Tudo bem, eu sou São Paulo. ---disse sorrindo vendo meu desespero. Eu ri e continuei andando com medo de cair.

---Sério? Esse é o meu segundo time favorito. ---disse tentando me concentrar em outra coisa além do fato de que eu poderia deixar a bandeja cair.

---O Bahia também não é muito ruim. ---disse rindo e parecendo muito feliz. Eu cheguei até ele e o olhei. ---Meu Bem, eu nunca tinha visto uma garçonete mais sexy.

Notas finais
Gostaram? Comentem, ok?