Sofia diz:

Caramba!!!! Vc foi pro jogo hj? AINDA ESTAMOS NA SÉRIE A!

Kelly diz:

Eu fui e ainda sinto aquele zunindo no ouvido por causa daquelas pessoas que gritaram bem perto dele! Foi muito tenso. Sinceramente o Bahia ganhou por pura sorte. Quase que não saia o gol.

Sofia diz:

Não foi por sorte! ... Eles apenas demoraram pra jogar bem. E Rafael é realmente um bom jogador. Só não dão oportunidades á ele.

Kelly diz:

Claro, claro. Mas, enfim, vcs acabaram de chegar? Não pude encontrar vcs lá, tava a maior mulvuca e vc esqueceu o celular em casa!

Sofia diz:

E é mesmo, foi mal. Meu pai ta atacado. Colocou o hino do Bahia ás alturas aqui em casa e quer fazer uma lasanha pra comemorar. Ele nem gosta de lasanha!

Kelly diz:

O amor muda ás pessoas! ...

Sofia diz:

Você sabe de algum trabalho? To precisando de grana pra comprar meu teclado. Meu pai disse que só vai me dar a metade, e que se eu quiser vou ter que batalhar. Acho que batalhar quer dizer trabalhar!

Kelly diz:

Meu pai falou a mesma coisa quando eu quis um Notebook. Desisti por que nem a metade o cara tava disposto a pagar. Enfim, eu tenho um emprego, só que é de garçonete num bar! Serve?

Sofia diz:

Num bar?! Eu tenho cara de quê?

Kelly diz:

Não é tipo aqueles bares asquerosos que tem milhares de bêbados dando em cima de você. É mais parecido com um restaurante e eu trabalhava lá. É legal.

Sofia diz:

Do jeito que a coisa tá, vai ter que ser esse mesmo. Valeu.

Kelly diz:

O numero é 8738-4727.Tenho que vazar. Minha mãe ta virada na macaca, já que ela é vitória, né? Acho até que vai rolar divorcio. Depois te ligo! By.

Sofia diz:

Tá legal. Tchauzinho.

Num bar? Não era bem isso que eu planejava, mas também não esperava muita coisa, afinal nem acabei o ensino médio ainda. Desci e fiquei assustada com o estado da minha sala de estar. Todos estavam enlouquecidos. Dançavam! Eles dançavam o hino do Bahia. Eu estava feliz, mas também não tinha ficado maluca.

---Minha sobrinha do coração! Cadê o meu timão? TÁ NA SÉRIE A! ---berrou meu tio Ferdinando provavelmente bêbado e mais não sei quantas pessoas que estavam presentes na sala de repente. Minha casa estava lotada. Olhei pra minha mãe á procura de alguma explicação.

---Mem me fale, eu estou ficando louca com todas essas pessoas na minha casa. ---falou ela parecendo sofrer genuinamente. Eu conhecia minha mãe e sabia que ela não gostava de mulvuca na casa dela.

---Já falou com o papai? ---disse.

---Tentei, mas ele só fica ligando pra todo mundo e xingando o vitória. ---falou apontando pra ele. ---E ainda dançando... ---olhei pro papai e comecei a rir, ele estava rebolando ao som de “Somos da turma tricolor, somos a voz do campeão, somos o povo o clamor, ninguém nos vence em vibração...”

---Vou falar com ele, tá? ---sussurrei envergonhada, por mais que ninguém parecesse ligar que meu pai esteja rebolando até o chão. Andei até ele ouvindo muita gente falando comigo e gritando pra eu dançar também. ---Pai... Querido paizinho, o senhor pode ouvir o que minha mãe tem a dizer? Você já se olhou no espelho?

Ele apenas me olhou rindo. Estava bêbado.

---Quê? O que sua mãe tem a dizer? ---falou e antes que eu respondesse, ele grita: ---JÁ SEI, JÁ SEI. ELA VAI ME DIZER QUE O BAHIA ESTÁ NA SÉRIE A!

E todo mundo grita. Eu reviro os olhos, enquanto minha mãe senta na cadeira, cansada. Procuro meu irmão caçula pela sala amontoada de gente e o vejo sendo colocado de cabeça pra baixo por um dos meus tios. Deus. O que eu fiz pra merecer isso. Fui até ele.

---Hei, pessoal. Soltem meu irmão. ---falei meio envergonhada.

---To legal, Sô. É divertido.

---É divertido ser colocado de cabeça pra baixo? ---perguntei abismada.

---É. Quer tentar? ---pergunta ainda de cabeça pra baixo. Fico assustada e recuso.

E a noite foi tão longa como parece.

¨

Acordei com um zunindo no meu ouvido. Daquele tipo que parece que tem uma mosca dentro dele. Pensei em bater no meu ouvido, mas percebi que isso não ia ajudar muita coisa. Levantei e olhei pra baixo. Eu ainda estava com a mesma roupa que ontem. Eu tenho nojo de mim. Mas, pelo menos não acordei com o Hino do Bahia tocando enlouquecidamente ás oito horas da manhã. Silencio. Silencio. Graças a Deus. Desci prendendo meu cabelo num rabo de cavalo e encarei a bagunça da sala. Latas de cerveja pra tudo que é lado, roupas, peraí... ROUPAS?! De quem? Com certeza eu estava de olho arregalado. Minha mãe estava arrumando ás coisas e pelo seu olhar, ela brigou feio com meu pai. Ele estava na mesa com o Notebook no colo. Fui até ele, sem falar com minha mãe, com certeza eu não falaria Bom dia pra ela.

---Minha mãe brigou com você?

---Falou a manhã toda, em falar nisso, a senhorita sabe que horas são? ---falou com um olhar significante.

---Tarde? ---tentei, pegando o pão, estava morrendo de fome, não me lembro de ter tomado café ontem de ontem. Alias só me lembro de ficar catando coisas pela casa.

---São 12 horas da tarde. Eu queria te acordar mais cedo, só que sua mãe estava parecendo uma maluca e ameaçou me jogar da janela se tentasse.

---AH pai, modera né? Eu dormi quatro horas da manhã arrumando a bagunça que minha própria família fez. Juntamente com o senhor, devo acrescentar. ---disse estressada.

---Perdão filha. Eu devia ter mandado todo mundo embora uma hora da manhã como o planejado. ---revirei os olhos. ---Mas é que...

---... O Bahia está na série A. Eu já sei. ---falei bebendo café.

---E o seu irmão se divertiu, não é mesmo filho? ---perguntou meu pai, para uma alma precisando de ajuda deitada no sofá. Kevin parecia um zumbi.

---O que aconteceu com ele?

---Ele se divertiu! ---respondeu meu pai feliz.

---Então foi o único. ---falei. ---Meu ouvido parece uma mosca grudada na minha cabeça, graças a um hino que tocou mil vezes ontem. Nas alturas, só pra informar. ---acrescentei.

---Ah filha, não é todo dia que temos uma felicidade dessas na nossa vida. ---falou meu pai. Ás vezes eu achava que meu pai amava mais o Bahia do que a gente.

---Vocês podem parar de falar e me ajudar com a bagunça? ---falou minha mãe nervosa. Me prontifico a levantar quando meu pai dá um pulo da cadeira.

---Olha quem chegou da família dos urubus? ---disse olhando atentamente pra tela do Notebook. Kevin levantou do sofá correndo e olhou também pra tela, até minha mãe veio olhar, então eu também fui.

---Quem é? ---perguntei curiosa tentando enxergar alguma coisa interessante numa pagina do facebook que pra mim parecia normal. Então percebi uma coisa: ---Você tem o facebook do líder dos Vitorianos? ---notei, reconhecendo um rosto da pagina.

---Tenho, assim como ele tem o meu. É desse jeito que mudamos ás regras ou simplesmente esculhambamos um ao outro. ---falou dando de ombros como se fosse á coisa mais normal do mundo ter o facebook do seu arquinimigo.

---Era pra gente ver alguma coisa? ---perguntou meu irmão com a mesma duvida que eu.

---Vocês não estão vendo? Claudio tem um filho! ---falou como se isso fosse me fazer ficar acordada a noite.

---Idaí... ---falou minha mãe.

E é aí que eu vejo. O garoto Lindo do estádio abraçado de lado com um homem. Com o tal Claudio, líder dos Vitorianos.

---Quem... Quem é esse garoto do lado dele? ---gaguejei apontando.

---É o filho dele! Francamente, vocês estão cegos?! ---exclama meu pai.

---Como a gente ia saber se não tem nada escrito, Arthur? ---falou minha mãe.

---É bem obvio.

---Só se for pra você... ---falou ela, mas parou olhando pra mim. Um segundo depois todos olhavam pra mim.

---Você está bem, Sofia? ---Perguntou ela. Eu estava paralisada olhando pra tela do computador. Não conseguia acreditar que tinha conversado e até achado lindo um FILHO de um Vitoriano! Era o cumulo da traição! Mas eu não sabia, não tinha culpa... Né? Saí do transe e depois falei:

---Eu... Eu estou bem. Vou... Vou subir, tá? ---e depois saí correndo. Aposto que eles acham que eu sou maluca, mas eu não estava conseguindo raciocinar direito. Entrei no meu quarto e me tranquei.

Caí na cama e fiquei olhando pra cima totalmente confusa. Todos os Vitorianos odeiam um Bahiano, assim como todo Bahiano odeia um Vitoriano! Eu odeio um Vitoriano! Mas um certo Vitoriano não pareceu me odiar tanto assim! Na verdade nem um pouco.

Ele ficou até me paquerando! E ele estava na área do Bahia! Um Vitoriano! Na área do Bahia. Ele não pode ser normal. Por que? Quero dizer, por que ele entrou lá? Qualquer Vitoriano que se prese nem gostaria de ficar vinte metros de um Bahiano. E o mais importante... Por que ele falou comigo? Ele sabia quem eu era, ao contrario de mim. Talvez ele quisesse apenas me seduzir depois me largar e contar lá para o povo dele o que ele fez e então todo mundo riria de mim!

Que horror. É claro que não. Mas que essa é a única explicação, sim. Com certeza ele sabe que todo Vitoriano odeia um Bahiano. Afinal o pai dele é o líder! Com certeza o pai dele deve ameaça-lo de morte e já deve ter expulsados muitos amiguinhos da escola. Por que ele correria o risco de ser vaiado e humilhado em publico pra falar comigo?

Ah! É por isso que ele não pareceu chateado quando o Atlético/GO perdeu e foi rebaixado! Nem era o time dele! Ele me enganou. E parece ter algum tipo de problema mental! Ou síndrome de suicídio. Meu pai não pode sonhar que eu falei com ele. Mas eu não sabia! Talvez ele me perdoe, mas eu realmente não posso falar com ele de novo! Por que agora todo mundo sabe quem ele é! Pelo menos todo mundo que tem o Facebook do líder dos Vitorianos.

E mesmo assim, não é só pelo meu pai. É por mim. Eu vou me considerar uma traidora se falar com ele. Afinal ele é um VITORIANO! Além de que minha família vai me julgar. Ai que horror, eu me odeio.

---Sofia! Eu posso entrar?---disse meu irmão batendo na porta. Respiro fundo pra me recompor e a abro. Ele entra meio entranho como se estivesse numa conspiração e senta na minha cama.

---Iai? ---tento manter o tom normal.

---Você já viu aquele cara? ---sussurra. Eu olho pra ele ameaçadoramente.

---Não.

---Já falou com ele?

---Se eu nunca vi, como eu posso ter falado com ele? ---digo sussurrando também.

---Sofia, eu sei que já viu aquele cara. Minha mãe fez a cabeça do meu pai pra ele tirar essa ideia da cabeça, por que ele tava pirando, mas... Eu sei. ---falou conspirador. Eu fiquei assustada.

---Eu não sabia que ele era um Vitoriano! Juro! ---acrescentei quando ele não acreditou. ---Vi ele ontem no jogo, ele não usava blusa de nenhum time, como eu ia saber?

---Onde?

---Na área do Bahia. Não sei por que ele estava lá. ---sussurrei.

---Provavelmente espiando. Vendo a área do inimigo. ---falou como um mafioso.

---Por que ele faria isso?

---No facebook diz que ele acabou de voltar de uma viagem. Não diz aonde. ---acrescentou vendo que eu queria perguntar.

---Ele não é daqui? ---ele não parecia ser daqui.

---É claro que é. Mas parece que fez uma viagem de muito tempo. ---disse.

---Ainda não explica por que ele estava lá.

---Espionando eu já disse. Ou ele simplesmente quis ver como era o lado oposto do estádio por interesse. Mas nenhum Vitoriano gosta de ficar perto de um Bahiano. Só se for pra esculhambar. ---mesmo assim preferia a segunda opção. ---E obvio que não iria usar a camisa de outro time, seria espancado ou nem deixariam ele entrar. Duvido que ele vá fazer isso de novo, todo mundo sabe quem ele é agora.

Não sabia se ficava feliz ou decepcionada com essa afirmação.

Notas finais
Até o próximo capítulo! Comentem!