No Amor E No Futebol Vale Tudo!
15 Capítulo 15
Notas iniciais
---Só depende de você. ---revidei sorrindo. Ele suspendeu uma sobrancelha.
---Isso é uma reunião? Vamos logo com isso! Eu quero minha cerveja! ---gritou um cara malhado. Christian olhou pra ele com nojo e eu disse:
---Você sabe como funciona, não é? ---provoquei.
---Eu aprendo rápido. ---falou e pegou uma bandeja indo em direção ao malhadão.
---Ele tá amarradão. ---comentou Jorge. Eu olhei pra ele confusa.
---Em quem? ---perguntei.
---Vai, finge que não sabe! ---falou ele e pegou uma bandeja. Victor riu, provavelmente da minha cara, e saiu também.
Comecei servindo os mais velhos que só pediam cerveja, tinha vezes que eu nem perguntava já vinha com a cerveja na mão e os caras ainda me olhavam admirados. Eu via de relance Christian atendendo ás pessoas e fiquei impressionada em como ele conseguia deixar todos calmos.
---Você pode pegar dois 51 para aquele grupo de abestalhado? ---perguntou Jorge pra mim apontando para o bando de jovens que pareciam morar aqui.
---Eles não são aqueles de ontem?
---São, por isso acho que é melhor você atende-los. ---falou e saiu. Ninguém merece. Fui até o frigobar gigante e não encontrei nenhum 51, detestava quando isso acontecia, tinha que ir até o porão e pegar na dispensa.
---Aonde vai? ---perguntou Christian.
---Vou até o porão. Tenho que pegar uns dois 51. ---falei.
---Eu vou com você.
---Não. ---falei rápido.
---Tudo bem, teimosa. Mas cuidado, em bar, geralmente... ---falou, mas não terminou o que foi uma passagem de saída. Eu mesma que não ia entrar num porão com ele.
Abri a porta do porão e senti um cheiro enorme de alguma coisa muito ruim e nojenta. Não era cigarro, era algo macilento e asfixiador. Tampei meu nariz e andei o mais depressa possível até a dispensa.
---Iai, gata... ---falou um cara na escuridão. Olhei pra trás assustada e dei de cara com dois caras fumando alguma coisa. Não conseguia distinguir o que era. Ai Deus. ---Veio se juntar á nós?
---Na verdade, vim pegar umas coisas, mas já vou sair. ---falei rápido abrindo a dispensa e pegando os 51.
---Quê isso, gata! Vem fumar com a gente! A maconha já está sendo legalizada! ---falou um deles vindo até mim.
---É isso aí, esse preconceito é discriminador, todo mundo tem que experimentar. Vem, você não ta sentindo a liberdade no ar? É o efeito.
Eu nem vou comentar o que eu estou sentindo. Acho que vontade de vomitar. Não esperei pra ver o que eu iria sentir por mais tempo, saí correndo numa velocidade supersônica e depois de passar pela porta, esbarrei em alguém que estava, coincidentemente, na frente dela, de frente pra mim. Meu coração batia a mil com a adrenalina do que aconteceu lá dentro, mas depois de ver em quem me bati, meu coração instantaneamente se acalmou e eu, emocionada, abracei Christian com toda a força. Ele retribuiu parecendo hesitante.
---Estão fumando... ---foi só o que eu consegui dizer com muito esforço.
---Fumando? No porão? ---perguntou ainda com suas mãos na minha cintura. Por mais assustada que estivesse não podia deixar de notar o jeito como ele me segurava. E os arrepios que seu toque estava começando a exercer na minha pele. ---Eu... ---ele parecia não saber o que fazer. ---Eles machucaram você?
---Não. Mas acho que iriam se eu continuasse lá. ---falei normalmente agora, tentando me recompor.
---Eu vou chamar os caras. ---falou ele relutante em me soltar, mas raivoso demais pra deixar os maconheiros incólumes. ---Vem comigo. ---isso não foi um pedido. Eu não queria soltar a mão dele, mesmo.
---De novo?! ---perguntou Cleandro abismado quando eu contei á ele o que aconteceu no porão. ---Eu já mandei trancar aquele porão! ---olhou para os garotos.
---É, chefe, só que o povo arromba. ---se defendeu Victor.
---Foi mal, Cleandro, mas ás vezes não temos como impedir. ---disse Carlos.
---Por que ninguém avisou a Sofia que não era pra entrar lá? ---perguntou Cleandro possuído.
---Foi minha culpa, senhor, eu fui o ultimo a falar com ela antes de ela descer. Eu devia ter ido com ela. ---falou Christian realmente culpado.
---Não foi sua culpa! ---argumentei incapaz de vê-lo se culpar por algo que ele não fez. ---Ele queria me acompanhar, mas eu não quis.
De repente todos os olhares da sala de Cleandro se voltaram para ás nossas mãos entrelaçadas. Eu nem tinha notado, por que pra mim era tão bom ter a mão dele na minha que nem me importei com o que os outros iriam pensar.
---Parece que agora você quer, não é? ---perguntou Victor sorrindo maliciosamente.
---Não! ---exclamei chocada. Soltei a mão dele, percebendo seu olhar triste, mas tive que fazer pelo meu bem. E o dele também, é claro. ---Vocês não vão chamar a policia? Eles ainda estão fumando lá dentro!
---Ah sim, é claro. ---falou Cleandro depois de acordar de um transe. ---E vou mandar dar um jeito naquela porta pra ninguém arrombar. ---e então saiu apressado.
---Você trouxe a garrafa de 51? ---perguntou chocado Jorge olhando pra minha mão esquerda que segurava, bem forte, uma garrafa de 51. Nem tinha percebido que segurava até aquele momento. A outra garrafa devia ter caído no caminho. ---Você se preocupou em pegar ás garrafas antes de sair correndo?
---O que você esperava que eu fizesse? Eu fui até lá pra isso, certo? ---perguntei confusa.
---Você não existe. ---comentou ele sorrindo.
---Mas, depois eu saí correndo. Eles estavam querendo que eu fumasse com eles! ---falei indignada. ---No começo eu nem sabia que era maconha, mas depois que um deles comentou que á maconha estava sendo legalizada...
De repente, todos começaram a rir de mim, como malucos. Até Christian! Só que o dele não foi bem uma gargalhada, foi mais um risinho discreto. Mas, isso não importa. O que importa é que ele acha graça de mim, e deve me achar uma debimental por não saber o cheiro da maconha como todo mundo. Não que eu me importe com isso. Eu ia falar isso quando Cleandro chega.
---Falei com á policia e eles já estão vindo. ---falou com uma aparência cansada, depois olhou pra mim. ---Você não fumou com eles, fumou Sofia?
Eu fiquei tão indignada com essa pergunta, que não consegui falar de imediato, até que os meninos caíram na gargalhada de novo. Menos Christian, que ficou tão chocado quanto eu.
---Estou brincando, Bobinha! ---disse e começou a rir também. Eu já estava começando a achar que era eles que estavam fumando maconha.
Quando a policia chegou todos entraram em pânico, principalmente os jovens que vêm preparados pra dar uma cheirada aqui dentro. Os velhos bêbados ficaram chocados, mas continuaram bebendo seu 51 normalmente. E os policias não chegaram pra brincadeira, revistaram todo mundo, inclusive os velhos (todo mundo é suspeito, certo?) e partiram com a arma na mão para o porão onde trancamos os maconheiros, por via das duvidas.
De fora, não ouvimos nenhum tiro, o que foi um alivio, mas quando os policias e os maconheiros saíram, ele pareciam mais inconscientes do que sãos e fiquei me perguntando se eles ao menos protestaram contra a prisão.
Christian e os garotos ficaram na minha frente insistindo que os maconheiros não vissem minha cara para caso de eles quererem se vingar quando saírem da prisão. Deixei, por que na verdade estava gostando do Christian ficar tão perto de mim.
---Podem ir embora. ---mandou Cleandro, cansado, depois que todo mundo foi embora e só estava a gente e ele no salão.
---Mas e a bagunça? O senhor não está planejando limpar tudo isso sozinho, não é? ---perguntou Christian prestativo e atencioso. Admito, fiquei babando.
---Não estou Christian, e não me chame de senhor de novo, por que gosto de você e não quero te demitir. ---disse sorrindo um pouquinho.
---Claro, Cleandro. ---respondeu Christian sorrindo, aquele sorriso perfeito que parece brilhar.
---Nem vocês, nem eu, iremos limpar está bagunça, quem vai limpar é o primeiro turno. ---falou normalmente. Eu fiquei chocada. ---Afinal, nenhum deles teve que enfrentar maconheiros e policias em seu estabelecimento hoje.
---Isso é injusto! ---exclamei.
---Sofia! ---reclamou Victor. ---Fala sério que você quer limpar essa bagunça hoje?
---Não quero, mas também não quero que meus amigos sofram o prejuízo do que aconteceu no nosso turno! ---reclamei achando tudo isso uma injustiça enorme. É claro que eu não queria limpar, mas isso é egoísmo.
---E você acha que nós temos culpa pelo que acontece no nosso turno? ---perguntou Jorge irritado.
---É claro que não, mas...
---Não discuta comigo hoje, Sofia! Eu podia te demitir por trazer tanta coisa ruim pra meu restaurante. ---falou Cleandro. Eu paralisei. Ai Deus. Eu não queria ser demitida.
---Cleandro, eu...
---Estou brincando, Sofia! ---disse e riu. ---você acredita em tudo.
---Sério? ---falei estressada. ---Eu vou embora! Com licença!
E saí apressada com raiva. Fiquei sentada no banco da porta da frente tomando um ar antes de ir. Na verdade estava me convencendo disso, por que eu sabia que estava esperando ele sair.
Depois de uns minutos esperando, ele apareceu e me olhou surpreso, acho que essa surpresa demorou menos que um segundo, por que logo ele sorriu.
---Você ficou me esperando? ---perguntou me provocando.
---Claro que não! ---me defendi levantando do banquinho. ---Eu... Estava tomando um ar antes de ir.
---E acredito que agora que eu saí você vai embora também? ---disse olhando tão carinhosamente pra mim que fiquei sem fala por um momento.
---Na verdade, vou ficar aqui mais um pouquinho. ---falei de má vontade e voltei a sentar no banquinho apoiando meu rosto no braço.
---Sofia... Não me tente... ---disse sorrindo. ---você não pode ficar aqui sozinha á essa hora da noite. Venha comigo.
---Ir com você pra onde? ---perguntei.
---Pra sua casa! ---falou, eu o encarei. ---Estou brincando.
---Estou começando a ficar estressada com isso! ---exclamei chateada. ---Acham que eu sou alguma debimental que não sabe o cheiro das coisas...?
---O que? ---me olhou confuso. De repente percebi que o que eu pensei em dizer não foi exatamente o que eu disse.
---Esqueça, eu vou embora. ---falei levantando antes que eu falasse mais alguma besteira.
---Não, espera, você acha que eu considero você uma debimental? ---perguntou abismado. Acenei meio envergonhada.
---Ás pessoas de hoje sabem. Quero dizer, o cheiro da...
---O fato de você não saber é o que me deixa admirado. Você é ingênua no melhor sentido da palavra. ---disse delicadamente. ---E eu amo isso em você.
---A palavra amar é muito forte. ---comentei nervosa.
---Mas é exatamente o que eu sinto. ---disse sorrindo daquele jeito...
---Está fazendo de novo! ---exclamei dando um pulo pra trás. Ele pareceu genuinamente surpreso.
---O que?
---Me seduzindo! ---disse de má vontade.
---Desculpe, é incontrolável. ---falou sorrindo. Eu estava começando a achar que era totalmente normal pra ele falar daquele jeito com quem ele queria e que isso não tinha nada haver com minha sedução.
---Sério? Eu estou começando a acreditar que é mesmo. Você deve estar tão acostumado a jogar esse seu charme para as mulheres que nem nota quando o faz. ---joguei sentindo uma vontade enorme de bater nele.
---Eu não jogo charme pra ninguém, Sofia... ---começou surpreso, mas depois abriu um sorriso de príncipe encantado. ---Está com ciúmes!
---Eu? Com ciúmes de você? ---falei nervosa começando a andar, ele veio me seguindo todo feliz.
---Está. E você não imagina o quanto isso me deixa feliz. ---disse. ---Mas, Sofia? ---me chamou com uma voz tão meiga que eu parei de andar na mesma hora e o encarei. ---Quando eu disse que era incontrolável á minha sedução, eu não quis dizer em geral. É só com você que eu fico assim.
Meu coração parou. Juro! Fiquei com muita dificuldade de respirar.
---Está fazendo de novo. ---murmurei, ele não pareceu ouvir por que continuou chegando mais perto, então eu, por impulso, o empurrei e falei alto: ---Já disse pra parar com isso! ---e saí correndo, não antes de ouvir ele gritar:
---É incontrolável! ---sorrindo pra mim como se me perturbar emocionalmente fosse a maior felicidade dele.
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