Notas iniciais
Gente! Esse é primeiro capitulo da História, espero que gostem e comentem no final do capitulo! obrigada!

Barulho. Será que essa era a única palavra que eu conhecia? Com certeza sim. Pelo menos hoje, dia 2 de dezembro, domingo. Um dia decisivo para o Bahia, que segundo o facebook e o meu pai, pode cair pra segunda divisão se perder para o Atlético/go. Eu sabia assim que acordei que hoje era 2 de dezembro, um dia importante pra minha família, por que eu não acordei como uma pessoa normal. Eu acordei como uma pessoa que tem um pai e um irmão mais novo viciados no Bahia. Eu acordei com o Hino do Bahia tocando nas alturas no meu ouvido. Não me entenda mal, eu sou uma torcedora do Bahia, torço loucamente e tal. Mas ás vezes meu pai beira a loucura.

Não que eu já não tenha falado isso pra ele, pode ter certeza que sim, mas você acha que adiantou? São exatamente 8 horas da manha e eu acordei praticamente morta, por que eu juro que quase tive um ataque cardíaco. Eu sabia que minha mãe provavelmente me defendia lá embaixo, mas obviamente meu pai iria dizer que é um dia importante e que eu tinha que acordar e ficar feliz por ouvir o hino do Bahia estourando os meus ouvidos.

Você provavelmente acha que eu estou exagerando. Mas não estou. Meu irmão Kevin é praticamente feito de Bahia. Quero dizer, TUDO é do Bahia. O colchão, os lençóis, a toalha, os materiais escolares (exatamente tudo), o despertador dele, a luminária, os copos, o prato os talheres, o tapete, a cueca, praticamente todas as roupas. Eu acho que se eu não fosse ser deserdada por mudar de time, provavelmente o faria. É muito enjoativo.

E o pior é que até meu quarto é infectado. Digo, não que eu compre tudo do Bahia, mas eu ganho. De todo mundo da minha família. Parece que eles acham que o meu sonho de consumo é ter meu quarto estilo “Sou Bahia e nada mais”. E por educação e por ameaça eu uso tudo que me dão. Para a alegria do meu pai.

---Vocês podem fazer o favor de baixar um pouco? ---gritei ainda deitada na minha cama. E para o meu contentamento, eles abaixaram. Ouvi a voz do meu pai gritando:

---Hora de acordar, querida! Hoje é um dia muito importante!

---Deixa de preguiça, Sofia! ---Gritou meu querido irmão mais novo. Dito isso, eles aumentaram ainda mais o som, fazendo meus tímpanos pedirem arrego. Resolvi que nada que eu fizesse iria fazê-los abaixar. E que só me restava uma opção: Levantar e ouvir mais de perto o hino do time do meu coração.

---Até que enfim, achei que nunca mais iria acordar. ---falou meu pai quando eu apareci e sentei na mesa.

---Fala sério, são oito horas da manhã, não três da tarde. ---reclamei pegando minhas torradas e passando manteiga.

---Mas hoje não é um dia comum. –falou meu pai. Revirei os olhos. ---Afinal, hoje ás 4 da tarde será a decisão que pode nos fazer sofrer ou fica feliz.

---Hum-hum. ---murmurei comendo.

---Papai, é verdade que o vitória subiu? ---falou Kevin com desgosto.

---O vitória subiu?! ---quase gritei colocando minha comida toda pra fora. Meu pai, nem meu irmão pareceram ligar pra isso, mas minha mãe sim.

---Sofia! Não fale de boca cheia!

---Sim, infelizmente, aquele time de merda subiu! ---disse meu pai revoltado. ---Vocês estão muito desinformados! O jogo foi ontem. Ele subiria se empatasse ou ganhasse.

---Eu não acredito! ---falei deprimida, bebendo um copo de leite.

---É por isso que João Pedro me deu uma queimada ontem quando eu fui comprar pão. Ele não perde uma. ---falou Kevin estressado.

---Mas, falando a verdade, o time jogou horrivelmente. Quer dizer, ganhou por empate! Uma vergonha. ---falou meu pai.

---Aposto que eles devem estar fazendo alguma macumba para o Bahia cair hoje. Ia ser o final perfeito pra eles. ---disse Kevin.

---Macumba? ---estranhei. Por que ele não parecia estar brincando.

---Fica aí pensando que eles não devem estar fazendo alguma urucubaca pro Bahia.

---Eles quem? ---perguntei.

---Os silva vitorianos. ---falou meu pai com desgosto. ---Aquela família de urubu faz de tudo pela miséria do nosso time.

Ah! Os silva vitorianos. Uma família enorme composta por mais de vinte torcedores do Vitoria. A nossa família e a família deles são consideradas as maiores torcidas dos nossos respectivos times. A do meu pai, tem praticamente um exercito, a deles também. Geralmente quando se encontram rola tiro. Estou brincando, mas parece que se odeiam verdadeiramente. Eu já vi algumas brigas, mas geralmente são verbais. São até meio engraçadas. Fazem piadas o tempo todo. Eu acho engraçado, por que quando eles se juntam parecem aqueles duelos de gangue.

---Eles fazem macumbas?

---Coloco minha mão no fogo se eles não fazem. ---disse meu pai. ---Teve uma vez que eu vi uma torcedora do vitória levando uma galinha morta para o estagio, tenho certeza que não era pra cozinhar e comer lá.

Eu comecei a rir desesperadamente depois disso.

Kevin que estava mais chocado do qualquer outra coisa, olhou pro meu pai descrente.

---Ela era uma vitoriana?

---Acho que não, mas vem tudo da mesma merda. ---respondeu meu pai colocando quase um pão inteiro na boca.

---Como vocês conseguem identificar um vitoriano do resto dos torcedores? ---perguntei curiosa.

---Todos eles usam uma camisa personalizada, escrito atrás: Vitoriano. ---disse. ---Eles copiaram da gente.

Nossa camisa também é personalizada, só que atrás vem escrito: Bahiano.

---Quem teve essa ideia? ---perguntou Kevin.

---Eu, é claro. ---falou meu pai se achando o maioral. ---Detesto aquele povo. Ficam inventando um bocado de merda só pra tentar revidar ás ofensas do Bahia. Como se eles tivessem alguma ofensa valida.

Eu ri. Deus me livre se, alguma dia eu ficasse amiga de alguma vitoriana, meu pai me trucidava ou pior, me deserdava. Nunca tive nenhum, mas Kevin um dia (sem saber, para a defesa dele) virou amigo de um menino na escola que era vitoriano, que acabou sendo expulso do colégio, graças a meu pai. O pai do menino tentou entrar na justiça, mas quando soube que o filho era amigo de um Bahiano só faltou bater palmas de tão aliviado. Essa situação é meio precária, mas eu não me meto.

---Pai, eu sei que eu já perguntei isso antes, mas eu acho que me esqueci.

---pergunte, então.

---A quanto tempo existe essa rivalidade entre os Bahianos e vitorianos? ---perguntou Kevin.

---Acho que há uns 70 anos. ---falou normalmente. ---Veio da família do meu pai.

---Daquele velho que disse: “Paz a cima de tudo”, numa conferencia um ano atrás?

---Respeito aos mortos, Sofia! Ele é seu avô. ---repreendeu minha mãe.

---Desculpa, mas é que isso é muita hipocrisia, não é? ---falei.

---Sofia!

---Querida, eu não disse que veio do meu pai, eu disse que veio da família dele. Bem, acredito que foi o meu tio. ---disse ele.

---Tio Alfredo?! ---Kevin quase gritou.

---Sim, ele sempre gostou de uma guerra. –disse. ---Certo dia ele decidiu criar torcidas organizadas. Propôs essa ideia a outra família bastante grande torcedora do vitória, e eles aceitaram. E assim foi passado de geração pra geração.

---Da geração passada pra essa, você quer dizer. ---falei rindo. Que povo mais barraqueiro. Já tínhamos acabados de tomar café e só estávamos sentados na mesa conversando.

---Já acabaram de conversar? Eu preciso tirar a mesa! ---falou minha mãe estressada.

---E se o Bahia perder? Ele vai descer, não é?---perguntou Kevin deprimido. Eu o repreendi com o olhar, por que sabia que meu pai não ia gostar nada dessa pergunta.

---NEM PENSE EM FALAR UM NEGOCIO DESSE! O BAHIA VAI CONTINUAR ONDE ESTÁ! ---berrou ele aos pulmões. Eu e o Kevin já estávamos encolhidos no banco como cachorros com frio.

---Arthur, pare com essa gritaria! ---Falou minha mãe nervosa, também meio encolhida.

Meu pai ignorou minha mãe e olhou pra Kevin nos olhos.

---Olhe bem, garoto, o Bahia vai ganhar. Eu sei disso, por que eles têm que ganhar se quiserem continuar na série A, e eu sei que eles querem! ---falou ameaçadoramente, como se só a palavra “perder” fosse rebaixar o Bahia.

---Tenha calma, pai. Eu sei disso. Eu só queria ter certeza...

---Tenha certeza, filho. Se o Bahia ganhar eu vou subir a escada da Igreja de Nazaré de joelhos. É uma promessa. ---falou obstinadamente. Eu esperava que Kevin não falasse mais nenhuma frase que envolvesse Bahia e perder de novo. Mas quando ia dizer alguma coisa, minha mãe interrompe e diz estressada:

---Vocês querem parar de falar de futebol?

Eu sorri aliviada. Meu pai não ia ter um ataque antes da hora.