Nirvana
20 Jude e Dilan - Nirvana nas flores
Notas iniciais
Quatro dias depois:
Quando a noite do dia anterior parece um borrão você deve começar a se preocupar:
A primeira coisa que você checa é onde você está. Estou no hotel, não em um beco. Já é um começo.
A segunda coisa que você checa é se você está com as calças no lugar. Calças checadas, elas estão perfeitamente onde eu as deixei.
A terceira coisa que você checa é se você tem alguma tatuagem em um lugar estranho. Certo, não vou falar os detalhes mas está tudo certo.
A quarta coisa é ver se você está com alguma coisa no rosto. Me levantei da cama e caminhei até o espelho do banheiro.
Um hematoma do tamanho de uma bolacha estava na minha bochecha esquerda. As imagens da noite passada passavam como um flash de uma câmera: Sparks e Dilan conversando, Alexy e eu bebendo, uma briga e a volta para o hotel, onde o Kurt que dirigiu a caminhonete.
Pera ai, alguém dirigiu minha Bessie?! Eu nunca mais vou beber na minha vida.
Voltei para a minha cama, onde deitei e encarei o teto. Minha cabeça latejava e eu não lembrava de nem metade do que tinha feito ontem à noite.
Houve duas batidas na porta mas eu estava com preguiça de ir até ali e abrir então só gritei que estava aberta. Sparks apareceu na porta, ela carregava uma bandeja com várias coisas nela, conseguia apenas distinguir um saco de gelo, um pano e uma pomada. Meu corpo inteiro foi lançado para o espaço e deu para escutar meu coração que de repente, inventou de sapatear.
–Bom dia – Ela sorria e se sentou no pé da cama, apoiando a bandeja do seu lado – Está melhor?
–Uhum, é tudo um borrão. Mas não sinto muita dor – Eu menti. Minha cabeça inteira parecia que ia explodir. Mas ela não precisava saber disso.
–Certo. No acampamento eu aprendi como cuidar de hematomas. Posso?
Assenti e ela começou os primeiros socorros. Seus dedos sapateavam pelo meu rosto como pequenas borboletinhas batendo asas. Primeiro ela colocou uma compressa quente na minha bochecha, não tinha reparado mas o hematoma ia da bochecha até o começo do olho.
–Aliás, Louise... Como isso aconteceu? – Apontei rindo para o hematoma.
–Você entrou numa briga com Dilan ontem à noite – Ela abriu um saquinho onde havia pequenos cubinhos dourados. Ela me estendeu um – Aqui, coma.
Peguei um dos cubinhos e mordi, o gosto das tortas de maça que minha mãe fazia para mim quando pequeno invadiu toda minha boca. Isso era muito bom. Instantaneamente, senti a dor de cabeça diminuir e o latejamento parar aos poucos.
–O que é isso? É muito bom. Me dá mais? – Disse com o doce ainda na boca, Sparks riu.
–Só um pouco. E isso é Ambrosia.
–Certo... – Fiquei um pouco chateado, fazia tempo que não comia as tortas que minha mãe fazia.
Sparks continuou me contando dos detalhes de ontem à noite. Mas ela sempre evacuava quando comentávamos sobre a briga.
–Ei Louise... Quem ganhou? – Disse com um sorriso brincalhão estampado no rosto.
–Nenhum de vocês. Você estava bêbado e Alexy jogou o charme no Dilan para ele parar.
–Qual é! Você sabe que um ganhou – comecei a fazer cócegas nela, que respondeu em um ataque de risos – Quem ganhou Louise? Hem? Hem? Hem?
Louise limpou as lagrimas que teve de tanto rir e se rendeu.
–Certo! Certo! Você ganhou! – Parei de fazer cócegas nela e observei-a deitar-se com a cabeça no pé da cama e os cabelos castanhos espalhados pelo lençol branco.
–Ganhei o que? – Me deitei ao seu lado e encarei-a.
–Muitas coisas – Ela me encarava de volta;
Ficamos assim por um tempo até tomar coragem de fazer o que sempre quis desde que era pequeno: virei para seu lado e coloquei a minha mão em seu rosto, segurando como se fosse a coisa mais preciosa do mundo e então a beijei.
Foi um beijo muito breve, apenas encostei nossos lábios e sai. Estava esperando a reação dela. Ela me olhava surpresa, como se nunca tivesse esperado que faria isso, como se nunca tivesse esperado que tivesse esses sentimentos por ela.
Ela fechou a cara e fez algo que eu nunca imaginei que ela fizesse: ela me beijou.
Meu coração deu um looping e o hematoma no rosto nem o borrão da noite passada parecia importar mais. Ficamos assim por um tempo, como se só tivesse eu e ela no mundo. Quando acabou, ela sorria para mim.
–Esse vai ser nosso segredo, tudo bem Jude?
–Sim. Mas você tem que me prometer uma coisa.
–O que? – Ela levantou uma sobrancelha.
–Chega mais perto que eu te conto. – Ela fez e quando estava perto o suficiente, a beijei novamente. Ela riu e retribuiu. Louise Sparks era perfeita e eu tinha toda a sorte do mundo por ter ela comigo.
(...)
Depois de um bom tempo no quarto, Louise e eu saímos para encontrar o resto das pessoas. Minha ressaca tinha melhorado, mas mesmo assim ainda estava de óculos escuros.
Dilan e Tony estavam no sofá e Dilan me encarava diabolicamente. Podia apostar 10 dólares que ele estava pensando em maneiras estranhas de me torturar e matar. Tobogã de lixa que caia em uma piscina de álcool? Ai. Devia arder.
–Está olhando o que? – Dilan disse irritado,
–O roxo no seu olho, pelo visto acertei você em cheio – Provoquei ele. Tony teve que segura-lo para ele não avançar em mim e eu sai rindo. Louise vinha atrás de mim.
Quando estávamos no corredor, Louise comentou.
–Você não devia irritar ele, vai que ele te machuca mais?
–Você está preocupada? – brinquei com ela, colocando meu braço ao seu redor.
–Vai sonhando, se continuar provocando eu que te machuco – Dito isso ela deu uma piscada. Não ia duvidar. Ela machuca mesmo. Quando tinha oito anos, eu queria uma mordida da casquinha do sorvete dela e ela jogou o sorvete na minha cara.
Bem típico de Louise.
–Ei, porque você não me chama de Sparks como todo mundo?
–Simples: eu não sou todo mundo. – Ela riu e eu dei-lhe um selinho.
[P.O.V Dilan Fevers]
Eu não tinha apanhado feio ontem. Jude também tinha um hematoma. A questão é: o que Sparks fazia com ele todo esse tempo naquele quarto?
–Ei bro, relaxa – Tony me disse, jogando uma barra de chocolate para mim – Nós já vamos sair para procurar a Lottie. O resto do pessoal está esperando no saguão.
–Certo – Concordei e peguei minhas coisas, caminhando até o saguão.
Chegando lá, Zoey e Alexy conversavam muito animadas, Kurt tinha acabado de dar uma flor do jardim para Alison e Sparks ria de uma piada que Jude tinha dito.
–Bem, vamos começar? – Alexy perguntou e todos ficaram em silêncio – Já que ontem à noite na balada não tivemos sucesso... Vamos tentar procurar alguma pista de Lottie por aqui, no Brookling.
–Na verdade... – Tony disse, levando a atenção para ele – Eu vi uma loira ontem. E ela era bem parecida com a Lottie.
–Você também a viu? Eu achei que era só uma ilusão... – Alexy disse baixinho, quase como um sussurro.
–Vocês falaram com ela? – Alison perguntou para os dois.
–Não – Ambos responderam em uníssono.
–Então acho que vamos ter que começar a procurar na raça mesmo... – Zoey suspirou.
–Vai dar trabalho. Eu sei. Mas precisamos ter estratégias. Zoey, você chegou a comentar um dia que cães infernais são ótimos farejadores...
–Eles são, mas a maioria deles é malvada. Só conheci um que era bom, mas não sei como o recorrer.
–Certo... Então vai ter que ser na raça mesmo – Alexy suspirou. Ela abriu um mapa do Brooklin que tinha em mãos e com uma caneta vermelha, desenhou quatro áreas – Devido às brigas de ontem, vamos ter que organizar as duplas diferentes hoje: Dilan, você vai com o Tony na parte leste, eu e Zoey vamos à parte norte, Kurt, você irá com o Jude na parte sul e Ali, você vai com a Sparks na parte oeste. Tudo bem para vocês?
Todos assentiram. As duplas não eram ruins. Tipo, não teria chances de briga nenhuma.
–Se acharem algo, comuniquem-se com o resto do grupo usando mensagens de Íris. – Zoey pareceu confiante.
–Okay. Vamos nos separar e procurar pistas – Tony disse animado e todos nós viramos para ele, com olhares de reprovação – O que foi? Já é um momento Scooby-Doo mesmo.
(...)
Eu e Tony tínhamos deixado o saguão do hotel fazia meia hora. A caminhonete vibrava à medida que passávamos pelos quarteirões, sentia que a gasolina ia acabar uma hora ou outra. E também não sabíamos o que procurar. Um cartaz escrito Nirvana? Um pôster? Uma pichação? Era como procurar uma agulha em um palheiro.
–Ei Dilan, para aqui – Tony pediu. Ele estava com os olhos vidrados do lado de fora. Fiz o que ele pediu e encostei em uma vaga. Ele desceu da caminhonete e correu em direção a uma loja.
–Ei bro! O que diabos foi isso? Você precisa mijar? – Desci da caminhonete e segui ele.
Tony havia parado em uma loja: The Allen’s – Vintage Stuffs and other things. A lojinha era de tijolos pintados de azul claro. A fachada era de madeira e o nome estava entalhado lá. Parecia o tipo de lugar onde Lottie podia ter ficado. Era como se ela estivesse lá.
–Acha coincidência? – Perguntei
–Vale a pena tentar – Tony deu ombros e abriu a porta da loja. Ela cheirava a cookies e livros velhos. Um homem de meia-idade estava no balcão, organizando fichas.
Nos aproximamos dele devagar, analisando o lugar. Tinha uma sessão para cada coisa: câmeras fotográficas, coisas da Coca-Cola, brinquedos antigos e outras coisas que não saberia dizer o que era. Peguei uma boneca antiga e procurei uma etiqueta ou algo assim. No pé dela estava escrito L. Allen. Sorri. Estava no lugar certo.
O homem levantou os olhos dos papeis quando nos notou e esboçou um grande sorriso.
–Fregueses! Querida, temos fregueses! – Ele gritou para o fundo da loja e logo uma mulher aparentemente da mesma idade que ele apareceu na sala. Ela vestia um vestido azul escuro e tinha o cabelo loiro preso por um coque.
–Ah! – A mulher colocou a mão no coração – Que emoção! Fregueses Josh!
–O que vocês vão querer? Temos de tudo e um pouco mais – Josh abriu os braços e sorriu orgulhoso da loja.
–Na verdade... Viemos procurar nossa amiga, o nome dela é Lottie. Vocês conhecem ela? – Perguntei e Tony mostrou uma foto de Lottie na praia do acampamento. Ela usava uma coroa de flores e fazia careta para a câmera.
–Nossa menininha... Amélia! Nossa menininha está viva! – Josh abraçou a mulher que estava chorando.
–Vocês são os pais dela? – Tony perguntou. Não havia como saber. A mãe de Lottie podia ter casado com outro homem depois de engravidar de Poseidon, nunca iriamos saber.
–Não, não meu jovem – Amélia limpou as lagrimas e esboçou um sorriso – Somos os tios dela. Cuidamos de Lottie desde que ela era criança. A minha irmã morreu logo depois do parto.
–Ah... Meus pêsames – Disse.
–Achamos que ela tinha morrido... – Josh proferiu – Ela sumiu quando tinha aproximadamente onze anos. Ela nunca mais escreveu nem foi vista pelo Brooklin.
–Então vocês não viram ela – Tony disse chateado.
–Não meu jovem... Mas ela sempre foi uma menina esperta. Se encontrare-la, diga que seus tios lhe mandaram um oi – Josh pareceu sentido mas estava sorrindo.
–Certo – Sorri de volta – Aliás, essa boneca era dela? – Apontei para a boneca que tinha pego faz pouco tempo.
Os tios ficaram quietos e o sorriso de Amélia desapareceu de seu rosto. Ela enrugou sua testa... parecia brava?
–Não. Essa boneca não era de Lottie – Amélia disse rigidamente.
–Ela tinha alguma prima ou irmã? – Tony perguntou e ambos enrijecerem.
–Não – A resposta vinda de Amélia tinha sido tão fria quanto a anterior.
–Certo... Desculpe por incomodar vocês – Disse e eles suavizaram o rosto – Só me diga mais uma coisa?
Josh assentiu.
–Onde a mãe de Lottie foi enterrada? – Disse e Tony me bateu.
–Não tem problema meu filho – Amélia respondeu para Tony – Ela está enterrada no Green-Wood Cemetery, é um grande cemitério. Não é difícil de acha-lo. E a lápide de Sasha fica logo embaixo de uma árvore, no alto de uma colina.
–Obrigada senhora – Sorri e logo coloquei minha mão no bolso, tirando um broche de borboleta que Lottie costumava usar. Tinha pegado logo depois dela desaparecer, pensei que podíamos ter usado para farejar. Mas agora parecia inútil – Tome, fique com ele. Era de Lottie.
Amélia parecia chorar de novo.
–Eu sei... Eu que dei para ela no seu aniversário de cinco anos. Ela nunca tirava.
–Nunca mesmo – Sorri para a senhora e apertei as mãos de John – Obrigada por tudo, ambos vocês. Vamos encontrá-la.
O casal se abraçou e sorriram para gente. Tony saímos da loja e, no caminho, não pude parar de pensar de quem era aquela boneca e quem era L. Allen. Era a segunda vez que esse nome nos aparecia.
(...)
Tínhamos enviado a mensagem de Íris para o resto do grupo falando que encontramos mais pistas sobre Lottie, contamos sobre a conversa com Amélia e Josh e todos os detalhes e combinamos de nos encontrar na entrada do cemitério.
Depois de algumas horas chegamos lá. Alexy e Zoey já estavam lá pois era a zona delas. O resto do grupo veio logo a seguir e começamos a caminhar naquele lugar, procurando o túmulo da família de Lottie. Seguimos as indicações que Amélia Allen tinha nos fornecido e subimos a única colina com uma árvore naquele cemitério.
Caminhamos entre os túmulos daquele cemitério em silêncio. Conseguia ouvir a respiração de Alexy atrás de mim. Ela está nervosa. Provavelmente, devido ao fato de não termos achado Lottie. Fazia quatro dias que ela tinha fugido e nossa única pista continuava sendo a palavra Nirvana.
Corri o olhar pelo nome dos túmulos. A maioria dos túmulos tinha uma aparência triste. Triste por não terem flores, triste por estar vazio e por terem crescido ervas-doninhas onde o morto deveria estar.
Caminhamos mais um pouco, até chegarmos a uma árvore que tinha os galhos caídos, tal como suas folhas. Embaixo da árvore jazia um túmulo de mármore, a inscrição dele era Sasha Allen, mãe, esposa e amiga querida.
Havíamos chegado ao lugar certo.
Às vezes, eu reflito sobre essas inscrições. Como se Sasha Allen ou qualquer outra pessoa enterrada ali só tivesse sido três coisas na vida. Em minha opinião isso era uma coisa bem errada de se afirmar. Você podia ser mais de três coisas. Se quisesse, poderia ser infinito.
–Gente olhe isso – Sparks se aproximou do túmulo, e apontou para a rosa branca que estava lá.
–Ela é recente – Me aproximei e peguei a flor. Não devia estar lá em menos de dois dias.
Virei a flor, analisando-a em todos os seus ângulos quando algo me chamou a atenção. Tirei uma das pétalas da flor e consegui ler o que estava escrito por uma canela holográfica preta nela.
–Nirvana – Disse lendo o que estava escrito na flor. Todos olharam para mim, surpresos.
–O que? – Alexy parecia perdida.
–Lottie escreveu em cada pétala Nirvana, olhe – Estendi a flor para Alexy que arregalou os olhos quando notou que eu estava falando a verdade.
–Meus deuses... – Kurt exclamou – Isso só significa uma coisa.
–Estamos no caminho certo – Proferi, deixando o cemitério mais calmo do que já estava antes.
Alexy colocou a flor e a pétala arrancada no túmulo de Sasha e saímos do cemitério em silêncio. Ninguém se atrevia a falar, a emoção de estar perto de Lottie novamente vibrava no corpo de todos. Eu podia sentir isso.
Na saída do cemitério, Alison proferiu.
–Acho que já sei onde ela pode estar.
–Onde? – O grupo fez um coro.
–Vocês não entenderam? Lottie está tentando chegar ao seu Nirvana, ela está tentando ter o peito esvaziado e ter todos os seus problemas acabados. Ela vai encara-los de frente e tentar resolver eles onde eles começaram... A mãe morreu quando ela ainda era um bebê e ela veio para sua cidade natal. Ela está visitando os lugares onde ficava então...
–Lottie voltou para casa – Tony disse.
–Literalmente – Alexy completou.
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