Nirvana
22 Alison e Kurt - O ataque
Notas iniciais
Quatro dias depois:
–Literalmente – Alexy completou.
–Então... Temos que descobrir onde ela morava – Disse e todos olharam para mim. Kurt segurou minha mão.
–Acho que temos problemas maiores – Kurt disse, apontando para uma horda de mulheres enrugadas que cruzavam o céu.
Elas tinham uma aparência enrugada, demoníaca e assustadoras. Suas asas eram de morcego brotando das costas, esporões de metal e olhos vermelhos reluzentes. Elas carregavam uma tira em suas mãos. Quando se aproximaram, consegui notar que eram chicotes.
–O que diabos são esses demônios? – Dilan perguntou, tirando sua espada. O grupo inteiro deixou suas armas em punhos e se pôs preparado para a batalha.
–São arais. Minhas meias-irmãs. Acho que continuam fiéis a mamãe – Dei um passo à frente, soltando a mão de Kurt e senti o poder de Nyx correr pelas minhas veias. Ele era forte e denso, como se tivessem injetado chumbo em minhas veias.
–E... O que elas querem com a gente? – Zoey estava com o arco em mãos e já tinha uma das bruxas de Nyx em mira.
–Minha cabeça – Dei ombros, como se falar que estava sendo perseguida por bruxas do mal que foram invocadas pela minha mãe fosse uma coisa cotidiana para mim – Mas elas não vão conseguir.
As Arais pousaram em terra a alguns metros de nós. A mais alta, provavelmente a mais velha, deu um passo à frente e pronunciou:
–Entregue-se a Deusa da Noite Alison Beat – Sua voz era rouca e velha, como se fosse feita de sussurros que nunca foram ditos.
–E se não me entregar? – Senti o poder fazer meu coração bater mais forte e meu sangue bombear mais. Mas, no fundo, temia a resposta delas.
–Então, terão civis mortos – A primeira arai urrou e fez um movimento, ordenando as suas irmãs atacarem o grupo.
–Eles não têm nada haver com isso! – Gritei furiosa.
–Então se renda – A primeira arai sibilou. Encarei-a com raiva. – Como eu imaginei irmãzinha – O chicote que ela estava em mãos estalou sob o chão e ela sorriu como uma serial killer.
–Você mexeu com a irmã errada, querida – Ergui minhas palmas, fazendo pequenas esferas roxas saírem dela e atacarem a arai. Ela desviou, fazendo a chama queimar uma das arvores.
Continuei invocando as chamas e tentando mirar na arai que, por sua vez, sempre desviava. Ela era rápida demais e o uso dos poderes me deixava cansada. Uma dor imensa subiu minha cabeça e meu corpo se desestabilizou, me fazendo tropeçar e cair no chão.
A arai, percebendo meu cansaço, voou em minha direção com o chicote em punhos e seu olhar sedento por morte. Talvez aquele seja mesmo meu fim. Talvez, no fundo, minha mãe sempre esteve certa. Eu era uma semideusa com poderes de Deusa, isso nunca daria certo.
Continuei encarando a arai, se fosse para morrer, pelo menos iria morrer enfrentando ela. Não de olhos fechados. Respirei fundo e me desconcentrei da cena em que estava para focar na luta que ocorria ao meu lado.
Zoey mirava suas flechas nas asas de uma arai. Jude parecia se divertir lutando com uma das arais e tinha um corte na bochecha, logo abaixo do hematoma que tinha tido devido à briga com Dilan, mas ele pareceu não se importar. Sparks dava golpes de luta em uma das arais e quando esta já estava fraca, Dilan apunhalava-a com sua espada de bronze celestial, fazendo a arai se desintegrar e voltar para o Tártaro. Alexy fazia algo incomum: ela lançava rajadas de neve e gelo nas asas de uma das arais, fazendo-a despencar para o chão. Como diabos ela fazia aquilo?
–Deixe eu te contar algo, irmãzinha – A arai que lutava contra mim me fez voltar ao atual e sorriu cinicamente quando esticou o seu chicote de aço. – Isso vai doer.
E então, todo o momento pareceu se passar em câmera lenta: o chicote indo para o alto e descendo em direção meu corpo, uma figura familiar se metendo em minha frente e o uivo de dor de Kurt que havia sido atingido pelo golpe.
–Kurt! – Gritei, acudindo Kurt que tinha se deitado perto de mim devido à força do golpe. O chicote tinha feito um corte em sua camisa que sangrava devido ao corte
–Ups – a arai riu – Você também quer entrar na brincadeira? – Dito isso, ela esticou o chicote novamente, dessa vez, mirando-o no rosto de Kurt. Ele gemeu de dor e quando vi, um corte passava do nariz até a bochecha.
Procurei o resto de força que ainda estava em mim e me levantei. Minha bochecha fervia de raiva e pude sentir meus olhos voltarem a ficar negros.
–Ninguém brinca com meu namorado – Rosnei as palavras e olhei para o horizonte, onde o sol se punha e a noite ganhava espaço no céu. Sorri significativamente ao sentir uma aura negra envolver meu corpo. O poder da noite tomava conta de mim, em cada veia, em cada batimento cardíaco, curando meu cansaço e me fortalecendo. A arai se afastou. –Quem quer brincar agora?
Ergui os braços e senti a palma da mão arder. Uma chama duas vezes maior do que as que eu tinha produzido anteriormente voaram em direção a arai que, ao ser atingida ela uivou de dor e foi desintegrada, voltando ao Tártaro.
Senti a aura saindo de meu corpo aos poucos e tudo ficou escuro.
[P.O.V Kurt Willians]
Meu rosto ardia. Meu tronco parecia estar em chamas mas nada disso parecia importar.
Alison tinha me chamado de namorado.
E meu coração que queimava dessa vez.
Continuei deitado no chão por um tempo, meu corpo doía muito, mas a maioria das arais que não foram levadas de volta para o Tártaro já tinham ido embora. Alison tinha dado um jeito nelas.
–Kurt! – Alexy corria em minha direção.
–Hey...
–Meus deuses – Ela passou a mão pelos meus machucados. Sua mão era gelada demais
–É... Sabe como é... às vezes eu banco o herói – Sorri e ela riu da brincadeira. Olhei para a paisagem atrás de Alexy e consegui ver mais uma arai que Alexy tinha congelado as asas. Ela bateu as asas com raiva, se livrando do resto de gelo que ainda estava ali e correu em nossa direção com as garras expostas. Ela olhava Alexy com raiva – Alexy! Atrás de você!
Gritei mas era tarde de mais, a arai já estava muito próxima de se conseguir fazer qualquer coisa. Alexy gritou e a arai foi transformada em uma estátua de gelo que logo foi quebrada em pedacinhos.
Ambos nos entreolhamos e nos viramos na direção de onde o golpe surgiu. Encostado numa árvore, um jovem de blusa preta encarava o grupo. Ele brincava com uma maça e quando nos viu observando-o, deu uma mordida na maça.
–Você pode me agradecer depois, docinho – Ele disse a Alexy.
–Quem diabos é você?– Alexy se levantou e caminhou até o desconhecido.
–Nathaniel Fontaine, Quione – Ele pisou para ela – Mas pode me chamar de Nate.
–Não me relaciono com filhos de Quione. Nem sou amiga deles – Ela disse entredentes.
–Um obrigado já serve. Qual é, eu salvei sua vida, não posso nem saber seu nome?– Ele se aproximou do grupo.
Alexy bufou e por fim cedeu.
–Alexandra Daelyng. Afrodite. Pergunte para sua mãe, ela vai adorar contar como estragou minha vida. – Ela saiu irritada e caminhou até o grupo, que cuidava de Alison.
–O que deu nela?– Nate perguntou para mim e eu apenas dei ombros. Eu não fazia a mínima ideia do porque ela ter agido dessa maneira.
–Foram as arais que fizeram isso em você? – Ele apontou para os meus machucados.
Assenti com a cabeça.
–As próprias – Eu disse – E o que você está fazendo aqui? Fugiu também?
–Ahn? – Ele parecia não saber sobre Lottie e sua fuga – Não. O Sr. D me mandou em uma missão especial para encontrar uma filha de Nyx que veio escondida para essa missão. Acho que acabei de encontrar ela.
–Vai leva-la para o acampamento? – Ele não ia levar a Alison ainda! Não mesmo!
–Eu ia. Mas encontrei uma razão para ficar – Ele levantou a cabeça, olhando para Alexy e abriu um sorriso.
Ela se virou e quando notou que Nate a encarava, desviou, mas logo abriu um sorriso para o chão.
[P.O.V ALISON BEAT]
Depois de algumas horas, tinha acordado no hotel. Minha cabeça doía um pouco, como se tivesse acabado de ter uma ressaca. Estava dentro das cobertas e estava perfeitamente aquecida.
Virei para o lado para ver as horas e o ponteiro indicada dez horas da noite. Levantei-me da cama, vencendo a preguiça e sai do quarto do hotel, indo para a nossa minicozinha. Tinha umas micro-ondas, uma bancada, muitas (muitas mesmo) sacolas para viagem do Mcdonalds e uma delas tinha um bilhete com meu nome.
Abri-a e me deparei com um lanche, uma Coca-Cola e um bilhete, ele era de Kurt:
Alison, eu preciso falar com você. Se conseguir ir para o meu quarto, ele é o segundo do corredor.
Ah, espero que goste do lanche que trouxemos para você, pensei que ia acordar com fome.
Com amor, Kurt.
Guardei o bilhete no bolso e deixei o lanche na bancada, qualquer coisa eu podia comer depois. Ver o Kurt era mil vezes mais importante.
Quando cheguei ao quarto dos meninos o meu coração estava na garganta e batendo mil vezes mais que o normal. Sobre o que Kurt iria conversar comigo? Eu sei que tinha o chamado de namorado para aquela arai idiota, mas eu estava me precipitando.
Certo que eu gostava dele. Gostava mesmo. Mas ele não podia ficar comigo, eu podia deixar ele em perigo.
Alison Beat fique calma garota. Você está parecendo uma filha de Afrodite.
Antes de entrar no quarto de Kurt, me olhei no espelho. Eu não estava um monstro, estava até decente. Arrumei meu cabelo, respirei fundo e entrei no quarto.
Kurt estava deitado em sua cama, ele parecia dormindo e eu não queria acorda-lo. Suspirei e voltei em direção à porta.
–Ei Ali... – Ele disse, se sentando na cama e me encarando com seus profundos olhos verdes.
–Ei Kurt – Fechei a porta e quase apaguei a luz.
–Deixa a luz apagada Ali, por favor – Ele pediu e eu fiz, fechando a porta e nos deixando no escuro.
–Então... – Caminhei até sua cama. Filhos de Nyx conseguiam ter um bom senso de direção no escuro. Sentei em sua frente – O machucado está muito ruim?
–Veja você mesma – Ele pegou minha mão e colocou-a em seu rosto. Pude sentir onde o chicote tinha passado. Do nariz a bochecha. Kurt soltou minha mãe e tirou a blusa do pijama, colocando a minha mãe em seu tórax, onde outro corte rasgava sua pele.
–Desculpas... – Algumas lagrimas caíram do meu olho mas eu logo as limpei – Nunca devia ter nos tirado do acampamento... E agora você está machucado...
–Ei Ali – Ele sussurrou, colocando ambas as mãos em meu rosto – Está tudo bem. Essa missão está sendo incrível. Eu estou com você. Eu amo estar com você.
Dito isso Kurt Willians se aproximou de mim, tocando nossos lábios e me envolvendo em um beijo calmo. Era o primeiro beijo dele e ele estava indo muito bem. Kurt passava a mão em meus cabelos, fazendo carinhos na nuca.
Ficamos assim por um tempo até eu nos separar. Levei minhas mãos até a blusa, onde comecei a desabotoar ela.
–Ali... Você não precisa fazer nada que você não queira.
–Eu quero Kurt. Quero fazer isso, quero fazer isso com você e quero estar com você. Eu te amo – Tirei o resto da blusa e soltei a alça do sutiã. Voltamo-nos a se beijar e Kurt me deitou na cama e ficou em cima de mim.
(...)
Estava deitada na cama de Kurt. Ele dormia do meu lado como uma criança. Meu coração estava quebrado em mil pedaços.
Não que Kurt tenha feito algo. Ele era incrível e ele foi incrível. Depois do sexo ele fez carinhos em meu rosto e adormeceu do meu lado, como uma criança.
Se eu fosse uma adolescente legal, teria medo dele não estar mais do meu lado do dia seguinte. Ele era um adolescente legal, mas nunca teve esse pensamento em sua cabeça.
E amanha, quando ele acordasse, teria o coração partido pela garota que ama.
Mas era preciso. Eu deixava ele em perigo. E os dois cortes em seu corpo provavam isso. Não podia mais ficar com ele. E nem com o grupo.
A voz de Nyx e a imagem de Kurt sendo chicoteado passaram pela minha cabeça diversas vezes aquela noite.
“–Você está tão perto de mim... Mas não queremos civis mortos nessa guerra, não é?” A voz de Nyx ecoava pela minha cabeça.
Levantei-me da cama com cuidado e em silêncio, para não ter chances de Kurt acordar. Peguei um papel e uma caneta e apoiei-os na escrivaninha que tinha logo abaixo da janela onde a luz da cidade rasgava o escuro do quarto em uma faixa e escrevi uma carta para Kurt, deixando-a em meu travesseiro e sai do quarto.
Já sabia onde deveria ir.
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